A Reforma protestante e a modernidade

protestant churchEm três anos, os protestantes do mundo todo estarão comemorando meio milênio de reforma luterana. Historicamente, a Reforma teve um papel decisivo na redefinição da mentalidade do homem moderno e ocidental. No palco da história, o protestantismo fez mais do que promover uma ruptura da cristandade: exacerbou as noções de individualismo (reafirmou a autonomia do indivíduo frente à autoridade eclesiástica e às instituições religiosas) e concedeu especial importância à alfabetização. Por outro lado, ao menos no primeiro momento, retrocedeu em relação à Igreja Católica ao depreciar a noção de livre arbítrio e colocar o ser humano na condição de um pecador abjeto incapaz de melhorar sua condição através de suas obras. Esse foi um dos pontos de divergência entre Lutero e Erasmo de Rotterdam e que simboliza bem o embate entre os princípios do humanismo renascentista e o obscurantismo religioso que recrudesceu com o luteranismo.

Mas o protestantismo nasceu num momento conturbado na Europa e dois fatores são indispensáveis para o entendimento desses eventos: o primeiro é o quê de fato a Reforma trouxe de novo no contexto do nascimento da modernidade; a médio e longo prazos, o protestantismo teve consequências muito diferentes e até mesmo divergentes das ideias dos primeiros reformadores, sobretudo através da atuação dos calvinistas (puritanos) ingleses e do caráter denominacionalista que assumiu nos Estados Unidos.  O segundo fator é a importância da personalidade e da formação teológica de Lutero na definição do novo credo; suas motivações eram fundamentalmente de natureza religiosa, não política ou econômica, como algumas abordagens já colocaram. Em geral, ao discutir essas questões, teólogos protestantes e católicos tendem a se apegar às virtudes e defeitos uns dos outros; os primeiros fazem hagiografismo dos reformadores, e os segundos, uma denegação e depreciação de seu papel. Fugindo desses polos, o texto a seguir do historiador inglês Marvin Perry faz um breve balanço das consequências da Reforma para a modernidade, enfocando o primeiro fator acima. O segundo fator será discutido em outra postagem.

A Reforma e a Idade Moderna

 À primeira vista, a Reforma parece ter renovado a ênfase medieval no outro mundo e invertido a tendência ao secularismo que se registrara na Renascença. Atraídos pela antiga doutrina católica da vontade autônoma, os humanistas da Renascença haviam rompido com a rígida visão de Agostinho do pecado original – uma natureza humana corrupta e a incapacidade do indivíduo de alcançar a salvação mediante seus próprios esforços. Lutero e Calvino, no entanto, viam os seres humanos como essencialmente depravados e corruptos e rejeitavam por completo a noção de que os indivíduos pudessem fazer algo por sua própria salvação; tal afirmação da vontade humana, sustentavam eles, revelava uma perigosa presunção nos seres humanos.

Mas a Reforma contribuiu, em muitos aspectos importantes, para a formação da modernidade. Ao dividir a cristandade em católica e protestante, destruiu a unidade religiosa da Europa, principal característica da Idade Média, e enfraqueceu a Igreja, principal instituição da sociedade medieval. Fortalecendo o poder dos monarcas às expensas dos órgãos religiosos, a Reforma estimulou o crescimento do Estado moderno, secular e centralizado. Os governantes protestantes repudiaram totalmente a pretensão do papa à autoridade temporal e estenderam seu poder sobre os protestantes recém-estabelecidos em seus países. Nas terras católicas, a Igreja, enfraquecida, relutava em desafiar os monarcas, cujo apoio ela agora necessitava mais do que nunca. Essa subordinação da autoridade clerical ao trono permitiu que os reis construíssem Estados centralizados fortes, um atributo da vida política do Ocidente moderno.

Embora a monarquia absoluta tenha sido o beneficiário imediato da Reforma, o protestantismo contribuiu indiretamente para o crescimento da liberdade política – outra característica do Ocidente moderno. Com certeza, nem Lutero nem Calvino defendiam a liberdade política. Para Lutero, um bom cristão era um súdito obediente. Assim, segundo ele, os súditos deviam obedecer às ordens de seus governantes: “Sob hipótese nenhuma era apropriado, a qualquer um que fosse cristão, erguer-se contra seu governo, fosse ele justo ou injusto”. E de novo: “Aqueles que ocupam o cargo de magistrado sentam-se no lugar de Deus, e seu julgamento é como se Deus julgasse dos céus (…) se o imperador me convoca, Deus me convoca”. Os calvinistas criaram em Genebra uma teocracia que regulava de perto a vida privada dos cidadãos, e Calvino condenava veementemente a resistência à autoridade política como iníqua. Sustentava que os governantes eram escolhidos por Deus e que a punição dos maus governantes cabia somente a Deus e não aos súditos.

Não obstante, a Reforma propiciou também uma base para desafiar o poder dos monarcas. Alguns teóricos protestantes, sobretudo calvinistas, apoiavam a resistência às autoridades políticas cujos editos, na opinião deles, violassem a lei de Deus tal como expressa na Bíblia. A justificativa religiosa para a rebelião contra os governos tirânicos  estimulou nos calvinistas ingleses, ou puritanos, a resistência à monarquia no século XVII.

A Reforma promoveu ainda a ideia da igualdade, que tem raízes na crença judaico-cristã de que as pessoas são todas criaturas de um único Deus. Em dois aspectos importantes, contudo, a sociedade medieval infringia o princípio da igualdade. Em primeiro lugar, o feudalismo reforçava as distinções hereditárias entre nobres e plebeus. A sociedade era hierárquica, constituída segundo uma ordem ascendente de classes legais, ou estados: o povo, a nobreza e o clero. Em segundo, a Igreja medieval ensinava que somente os clérigos podiam ministrar os sacramentos, que era o meio pelo qual as pessoas podiam alcançar a salvação; e por essa razão, eram superiores aos leigos. Lutero, por sua vez, afirmava que não havia distinção espiritual entre os leigos e o clero. Todos os crentes eram iguais em espírito: todos igualmente cristãos; todos igualmente sacerdotes.

A Reforma contribuiu também para a criação da ética individualista que caracteriza o mundo moderno. Uma vez que os protestantes, aos contrário dos católicos, não tinham nenhum intérprete oficial das Escrituras, ficava a cargo do indivíduo a terrível responsabilidade de interpretar a Bíblia de acordo com os ditames de sua consciência. Os protestantes enfrentavam sozinhos a possibilidade de salvação ou danação. Nenhuma igreja lhes fornecia segurança ou certeza, e nenhum clero interferia em sua relação com Deus. A devoção não era determinada pela igreja, mas pelo indivíduo autônomo, cuja consciência, iluminada por Deus, era a fonte de todo julgamento e autoridade.

Para o protestante, a fé era pessoal e intrínseca. Essa nova ordem demandava uma relação pessoal entre cada indivíduo e Deus e chamava a atenção para as inerentes capacidades religiosas do indivíduo. Certos de que Deus os escolhera para a salvação, muitos protestantes desenvolveram a autoconfiança e segurança que distinguem o indivíduo moderno. Assim, a ênfase protestante no julgamento privado em questões religiosas e na convicção pessoal interna acentuou a importância do indivíduo e ajudou a moldar o novo homem europeu do período moderno.

Ao ressaltar a consciência individual, a Reforma pode ter contribuído para o desenvolvimento do espírito capitalista, que fundamenta a economia moderna. Assim argumentou o sociólogo alemão Max Weber em The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (1904). Weber admitia que o capitalismo já existia na Europa antes da Reforma; os banqueiros mercadores das cidades italiana e alemãs medievais, por exemplo, estavam envolvidos em atividades capitalistas. Mas, segundo ele, o protestantismo (sobretudo o calvinismo) tornou o capitalismo mais dinâmico. Os homens de negócio protestantes acreditavam ter a obrigação religiosa de enriquecer, e sua fé lhes dava autodisciplina necessária para isso. Convencidos de que a prosperidade era uma bênção de Deus e a pobreza sua maldição, os calvinistas tinham o estímulo espiritual para trabalhar com diligência e evitar a preguiça.

De acordo com a doutrina da predestinação de Calvino, Deus já determinara com antecipação quem seria salvo; nenhuma ação terrena poderia conduzir à salvação. Embora não houvesse uma forma de distinguir quem recebera a graça de Deus, os seguidores de Calvino passaram a acreditar que certas atividades eram sinais de que Deus operava através deles, de que eram eles na verdade os escolhidos. Assim, os calvinistas consideravam o trabalho árduo, o empenho, a obediência, a eficiência, a frugalidade e o desprezo por atividades de recreação – todos virtudes que contribuem para procedimentos racionais e metódicos nos negócios e também para o sucesso – como sinais de sua eleição. Com efeito, como argumentou Weber, o protestantismo, ao contrário do catolicismo, dava aprovação religiosa ao enriquecimento e ao modo de vida dos negociantes. Além disso, os seguidores de Calvino pareciam acreditar ter alcançado uma compreensão especial de sua relação com Deus; essa convicção fomentou o sentimento de autoconfiança e retidão. O protestantismo produziu, portanto, uma atitude profundamente individualista que valorizava a força interior, a autodisciplina e o comportamento sóbrio e metódico – atributos necessários a uma classe média em busca de sucesso num mundo altamente competitivo.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p.244-246.

Leia também: 

Lançamento do livro “Fé e dinheiro”

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23 thoughts on “A Reforma protestante e a modernidade

  1. Marcilene 04/03/2014 / 12:36

    Compartilhei nas redes sociais.

  2. Mira Santini 05/03/2014 / 10:28

    Nasci em família evangélica que está em sua quarta geração e como tal fui educada em escolas confessionais protestantes (quando ser protestante no Brasil era fazer parte de uma minoria)até o ensino fundamental. Quando li Max Weber fez sentido o quanto o individualismo é estimulado até nas inocentes gincanas bíblicas. De fato, a disciplina é essencial para a formação protestante tradicional, pois “obedecer é melhor do que sacrificar” diz o velho hino, que neste mundo fragmentário e volúvel, a tal modernidade líquida, ao meu ver, torna esta característica uma vantagem competitiva valiosa. No mais, com o rumo da igreja evangélica, especialmente, a brasileira, Lutero deve estar se revirando no túmulo. Os 500 anos da Reforma serão comemorados apenas pelas igrejas históricas e pouquíssimas AD, pois o movimento evangélico já se descolou há tempos da Reforma protestante: eles querem comemorar o Hanukkah. rsrrsrs

  3. Renato 07/03/2014 / 12:13

    Faltou falar sobre as igrejas ortodoxas orientias.

    • Bertone Sousa 07/03/2014 / 20:45

      Renato, mas aí já seria outro assunto, porque essas igrejas se separaram com o Cisma do século XI.

  4. Jonatan Freitas 07/03/2014 / 20:48

    Bertone,
    Não creio que na reforma luterana houve um “retrocesso” em por a salvação humana mediante a fé ao invés das obras, muito pelo contrário, havia na época uma grande dependência da população para com a igreja romana que taxava essa “salvação”, não se pode chamar isto de “obras de salvação”. A salvação mediate a fé trouxe uma mensagem realmente de libertação do povo e Lutero tinha escrituras o suficiente para provar isto.
    Está certo quando diz que as motivações de Lutero eram fundamentalmente de natureza religiosa, não política ou econômica, porém houve muitos movimentos que pegaram uma “carona” na reforma luterana por estarem desgostosos com o sistema atual.
    Porém a mensagem de Lutero já não surte o mesmo efeito para os dias de hoje. A igreja católica e a luterana são praticamente a mesma coisa, o trecho a seguir pertence ao Bispo episcopal anglicano Anthony Palmer em uma reunião recente de ministros associados à moderna igreja pentecostal e carismática dos EUA incentivando o ecumenismo:

    “…em 1999, a Igreja Católica Romana e a Igreja Protestante Luterana assinaram um acordo que pôs fim ao protesto. Lutero acreditava que fomos salvos pela graça mediante a fé somente… A Igreja Católica acreditava que fomos salvos pelas obras. E esse era o protesto. Em 1999 uniram isso… Estou lendo na íntegra do site católico do Vaticano: ‘Justificação significa que o próprio Cristo é a nossa justiça que partilhamos através do Espírito Santo de acordo com a vontade do Pai. Juntos, nós, católicos e protestantes – luteranos – cremos e confessamos que somente pela graça, pela fé nas obras salvadoras de Cristo, e não por qualquer mérito de nossa parte, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, o Qual nos renova o coração, equipando-nos e chamando-nos para as boas obras.’ Irmãos e irmãs, o protesto de Lutero acabou, e o de vocês?”

    • Bertone Sousa 07/03/2014 / 20:58

      Jonatan, você está falando a partir de uma perspectiva religiosa, de um crente, inclusive sua citação vai nesse sentido. Meu texto trabalha a perspectiva histórica, é outro discurso, com outros significados. É importante ter cuidado com esses discursos apologéticos, não são bons para um entendimento histórico de todo esse processo.

  5. Jonatan Freitas 09/03/2014 / 8:29

    Bertone,
    Grato pela dica. Sei que leciona história, muitos de seus textos atraem leitores com alguma tendência ideológica,estes casos devem ser pacientemente moderados.

  6. Jonatan Freitas 25/04/2014 / 20:58

    Professor,
    Comecei com o pé esquerdo neste assunto. Qual era a situação geopolítica nesta época?

  7. José Rubens Medeiros 09/10/2014 / 16:25

    Boa tarde,
    Se me permite a manifestação, eu diria que a propalada REFORMA PROTESTANTE, tendo como articulador ou “pai” o Sr. Martin Luther, não passa de um mito histórico. Lutero NADA reformou, pois que não foi além de tímidas (muitíssimo tímidas e contraditórias) teses, sem jamais se afastar do romanismo, ‘inda que supostamente excomungado.

    • Bertone de Oliveira Sousa 09/10/2014 / 18:58

      José, em hipótese alguma a Reforma é um mito. Esse infeliz comentário que você fez é coisa de quem fugiu das aulas de história do Ensino Médio.

  8. José Rubens Medeiros 09/10/2014 / 19:38

    Boa noite, Bertone de Oliveira Sousa:
    Achei deselegante a sua resposta, destoante do modo respeitoso como eu me manifestei. Expressar o pensamento livre, com urbanidade e lucidez, jamais poderia ser considerado um ato “infeliz”(sic). Mesmo assim, eu gostaria de registrar que, para que houvesse um diálogo, seria necessário, ou mais exatamente, IMPRESCINDÍVEL, que você se apresentasse como cristão e cristão bíblico, cristão conhecedor da Bíblia. Na hipótese de tal nuança não integrar o seu perfil, torna-se impossível a troca de impressões sobre o mito conhecido como “Reforma Protestante”, na medida em que necessariamente, teríamos de abordar todo o assim chamado “legado” literário de Martinho Lutero (que eu suponho que você conheça profundamente), a começar pelas “noventa e cinco teses”; e, inevitavelmente, enveredaríamos pelos escritos atribuídos a João Calvino, sempre atentos ao texto bíblico, que se inicia no Livro de Gênesis e termina no Livro de Apocalipse (no qual, igualmente, penso que você já se deteve longamente).

    • Bertone de Oliveira Sousa 09/10/2014 / 21:05

      José, você continua mostrando que fugiu das aulas de história, porque quer falar sobre o evento com base em suas opiniões pessoais, condicionadas por uma visão religiosa reducionista, fora da qual (você mesmo admite) não consegue ou não pode dialogar. Isso não é deselegância, é uma crítica a sua postura de negação da História. O que você pensa sobre a Reforma não tem nada a ver com História. Seria como um criacionista querer provar que o darwinismo está errado usando a Bíblia, ou seja, somente seus irmãos de fé podem suportar ouvi-lo. E aí tenho que lhe dar razão, o diálogo torna-se impossível. Abraço e tudo de bom.

  9. José Rubens Medeiros 09/10/2014 / 23:52

    Você está equivocado, porque pensa que a história corresponde àquilo que você leu em duvidosos registros. É necessário cotejar registros ou anais com fatos incontroversos, sabidos, mas “convenientemente” omitidos. Isso, a propósito, ocorre em inúmeras variantes da “história”(sic) como um todo, não apenas no aspecto religioso, mas igualmente, por exemplo, no aspecto político. Basta ver, como exemplo típico e malcheiroso, o panorama político brasileiro, recheado de inverdades, fatos ridiculamente maquiados etc. etc.
    Encerro em definitivo minhas manifestações. Uma boa noite.

    • Bertone de Oliveira Sousa 10/10/2014 / 13:06

      José, nenhum artigo aqui está fundamentado em “registros duvidosos”. Te falta leitura histórica, especialmente de teoria da história. Mas o que você quer é discutir religião sem história, o que é bem diferente. E isso também nada tem a ver com nossa política. Ao contrário do que muitos pensam, História não é para o bico de qualquer um, por isso esse espaço é uma modesta iniciativa para levar esclarecimentos às pessoas. Os que preferem dogmas, vão embora do mesmo jeito que chegaram, como você. Outros, ficam, dialogam e aprendem.

    • pedro gadelha 26/12/2016 / 15:19

      Acho que registro duvidoso são as obras de Lutero. Aliás este padre excomungado, de obras duvidosas foi até capaz de excluir livros da bíblia originalmente traduzida… e o fez pela mesma “conveniência” pessoal a que o senhor menciona em seu comentário. E sobre essas obras religiosas o senhor saberia me dizer quem dá ou o que dá veracidade a esses registros? É preciso muito estudo para se chegar a alguma conclusão.
      O Padre excomungado (Lutero) estudou muito. Mas morreu quase louco e deprimido depois que viu a grande bagunça que ele fez com o cristianismo e que confundiria a cabeça de milhares de pessoas após a sua reforma pessoal.
      Eu não sou exegeta, historiador, e tão pouco biblista, mas ouço com humildade àqueles que são e que dedicam suas vidas por essas causas. Você fala em “panorama”. Consenso mais do que comum entre os exegetas, historiadores e biblistas especializados é que a bíblia também foi escrita dentro dos mais variáveis cenários, panoramas e contextos. Por isso ela precisa ser estudada de forma particular sem caráter religioso para que possamos entender a sua mensagem religiosa. Levando-se em conta, a Tradição oral, a tradição escrita, os costumes para a construção de uma autêntica história mais próxima da verdade. Já que nenhuma delas será “absoluta” por sofrerem interferências pessoais em seu processo de construção da história geopolítica e religiosa.

      • Marcos Alberto Carvalho dos Santos 25/01/2017 / 13:03

        Pedro(Pedra) sua mente deve ser mesmo uma rocha, na qual o conhecimento não consegue chegar e se alojar. Querer contradizer o legado importantíssimo de um modo geral deixado por Martinho Lutero para o mundo chega a ser uma idiotice sem tamanho. Sabe-se que verdadeiramente, a igreja católica, tinha sim a artimanha de burlar a fé das pessoas e saqueá-las de modo covarde. Independente se foi o catolicismo ou não, a verdade é que foi um fato real e repugnante. Ninguém tem o poder de usurpar o próximo da forma que estava sendo feito. Por isto, foi importante sim o feito realizado por Lutero, que deixou tudo as claras e cristalinas para que as pessoas por si mesmas, decidissem sem pressão sobre a sua vocação religiosa. Não sei qual é a sua crença, mas contra a História não se tem argumento próprios, mas sim muitos estudos e pesquisas.

  10. Ricieri 15/04/2015 / 23:40

    Olá professor tudo bem ? Tenho alguma dúvidas sobre o quanto o protestantismo influenciou os Estados Unidos.

    Sou ateu e tenho uma dúvida gigante em relação a esta questão

    As vezes professor me parece que a Revolução Francesa e o Iluminismo não serviram para nada além de produzir pilhas de corpos no Nazismo, Comunismo e etc.

    1= A citação na declaração de independência dos Estados Unidos de que todos somos criados iguais e temos direitos inalienáveis é um fruto do Cristianismo ou do Iluminismo ( Deísta) de George Washinton ?

    2= As vezes acho muita presunção quando os religiosos dizem ( Civilização Cristã) como se toda estrutura institucional do continente tivesse bases Cristãs.

    3= Achava que Thomas Jefferson era Deísta e a citação sobre Deus era de um ponto de vista universal ( como o Deísmo)

    Espero que não tenha ficado confuso minhas dúvidas. O cerne de toda questão professor é se o Iluminismo influenciou a civilização a qual nós vivemos hoje ?

    E tenho outra pergunta

    Professor, porque nos últimos 50 anos sofremos tantas transformações na sociedade ocidental ? Isso é o modelo de sociedade Liberal se consolidando ? Pois ao que me parece, o futuro do Ocidente será semelhante ao da europa ocidental : LAICO

    Como ateu tenho estas dúvidas e se o Sr. puder me indicar alguma obra mais dentro desse contexto ( Iluminismo no Ocidente) fico grato.

    PS: Desculpe se minhas dúvidas ficaram confusas, porém como tenho muitas não consegui formular todas, postarei elas conforme elas vem em minha memória.

    • Bertone de Oliveira Sousa 16/04/2015 / 1:14

      Ricieri, os Estados Unidos foram fundados por protestantes calvinistas ingleses que fugiam de perseguições religiosas, os chamados Pilgrim fathers. O deísmo se desenvolve bem posteriormente, no século 18, no contexto do Iluminismo, na esteira do desenvolvimento da religião natural, que aceitava a existência de Deus, a criação e o governo do mundo por ele mas rejeitava a noção de revelação. Quase todos os filósofos iluministas franceses e alemães eram deístas, além de vários ingleses. Essa influência, juntamente com ideais de liberdade de consciência, são notáveis na Carta de Independência dos Estados Unidos e posteriormente na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 na França. Não há erro em dizer que as bases de nossa civilização são cristãs, inclusive as noções de individualismo e separação Estado e Igreja tem raízes na cosmovisão cristã, assim como a ciência moderna tem seu embrião na Escolástica medieval. Mas aí é importante entender como essas questões se desenvolveram com e contra determinadas tendências e restrições religiosas na modernidade, um processo complexo e demorado. Assim como as transformações que o mundo vem passando a partir dos anos 50 também constituem outro assunto amplo.

      Sobre a influência disso em nossos dias, a nossa civilização ocidental está assentada em bases iluministas: as ideias de governo representativo, liberdade de imprensa, consciência e associação, secularismo, progresso e tolerância são todas iluministas. No século 19, as filosofias de Hegel, Marx, Comte, Spencer e outros são herdeiras do Iluminismo. O Iluminismo e a Revolução Científica lançaram os fundamentos do pensamento social e científico do mundo contemporâneo. Baixe no site Minhateca o opúsculo “O Iluminismo e os Reis Filósofos” de Luis Roberto Salinas Fortes, vai te ajudar a entender melhor algumas dessas questões. Leia também meu texto “As Razões do Iluminismo” no tema Filosofia.

      • Ricieri 16/04/2015 / 1:37

        Ótima resposta professor. Entendi perfeitamente, pois nos Estados Unidos a primeira emenda proíbe a criação de um governo religioso. Por isso como ateu sempre fui simpático a sociedade americana.

        É inegável a influência cristã do protestantismo nos Estados Unidos, porém chega a ser meio triste de como o mesmo decaiu como religião. Me refiro professor ao movimento protestante da década de 20 que tem inicio nos Estados Unidos e que surgiu em resposta a publicação em 1859 do livro de Darwin, que viria a inevitavelmente solapar as fundações da sociedade Cristã.

        Hoje parece que o que sobrou do protestantismo americano foi um rastro de intolerância, fanatismo, falta de respeito e etc, me refiro aos diversos casos de cristãos entrando em clinícas de aborto para matar médicos e etc.

        (, assim como a ciência moderna tem seu embrião na Escolástica medieval)

        Mas Darwin não havia refutado a Teleologia com a publicação Origem das espécies ? Achava que a Scala Nature, Essencialismo e a teleologia haviam sido refutados ( espero não estar fazendo confusão com a filosofia grega).

        Perguntei sobre a constituição americana professor, pois conheço o tratado de tripoli escrito por George Washinton na qual ele afirmava que o governo americano não tem qualquer afiliação religiosa.

        Minha Grande dúvida a isso seria : Não foram os Calvinistas que produziram esta noção de igualdade jurídica que temos hoje não é professor ?

        Obrigado pelas dicas, irei procurar para sanar minhas dúvidas.

      • Bertone de Oliveira Sousa 16/04/2015 / 1:49

        O modelo denominacionalista do protestantismo americano foi muito importante pra essa escolha de não associar uma vertente religiosa ao Estado. Isto é, priorizava-se a liberdade de culto para todos os grupos (denominações), ao mesmo tempo que eles compreendiam que pra isso também era importante delimitar a separação entre religião e Estado. Com isso, eles puderam evitar as guerras de religião e o mesmo teor de perseguição religiosa que havia na Europa moderna (nos séculos 16 e 17), onde a fusão de religião e Estado frequentemente acarretava banhos de sangue, banimento e/ou silenciamento de outros credos.

        Já o movimento fundamentalista surgiu exatamente para fazer frente ao darwinismo e à teologia liberal alemã que rejeitava a infalibilidade da Bíblia e priorizava os estudos históricos dela. O fundamentalismo encontrou muita aceitação na sociedade porque o deísmo sempre foi a visão de poucos, não da maioria, que seguia os movimentos de revitalização religiosa que culminaram no pentecostalismo.

  11. Marcelo 18/01/2017 / 22:05

    A propósito de Comte, que o senhor cita ao lado de Hegel, Marx e Spencer, li, na obra de Ivan Monteiro Lins, “História do Positivismo no Brasil”, que o filósofo francês, um dos fundadores da Sociologia, embora agnóstico, tinha algumas propensões simpática com relação ao catolicismo medievale, por isso mesmo, condenou o Protestantismo, religião, segundo ele, “anárquica” e “negativa”. E a Igreja Católica, particularmente na Idade Média, era, ao contrário, a consubstanciação da ordem social. O que o senhor pensa a respeito do positivismo, na Europa e no Brasil?

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