Uma análise do livro “A linguagem de Deus”

a-linguagem-de-deusFrancis Collins é um autor que dispensa muitas apresentações. O fato de ter sido diretor do Projeto Genoma, estrategicamente colocado logo abaixo de seu nome na edição brasileira de “A Linguagem de Deus” publicada pela editora Gente (2007), já é um aperitivo para ler sua obra, independente do posicionamento religioso do leitor. O pretensioso subtítulo “um cientista apresenta evidências de que Ele existe” só pode fazer sentido, à primeira vista, para um crente. Além disso, o subtítulo também evoca uma preocupação crescente de muitos escritores cristãos nas últimas décadas: a de que a ciência pode fornecer provas concretas para existência de Deus. E há ampla demanda de consumidores religiosos desses manuais; não por acaso o livro de Collins se tornou um Best-seller.

Mas ao final da obra, os religiosos fundamentalistas poderão ter uma profunda decepção. Antes, porém, uma reflexão: para qualquer pessoa de fé, a existência de Deus ou de um ser superior é autoprobante: se manifesta na natureza, na regularidade de seus fenômenos e na consciência individual da espiritualidade. Ao ler um livro como o de Collins, portanto, a começar pelo título uma pessoa de fé já estará predisposta a concordar com as premissas do autor sem submetê-las a  questionamentos. Para muitos desses leitores (não todos, naturalmente) a ciência é verossímil e objetiva quando corrobora suas crenças pessoais, mas herética quando age em sentido contrário. Foi por este motivo que Galileu foi julgado e silenciado, Giordano Bruno foi assassinado e tantas outras mentes inquietas coagidas quando a religião cristã ainda tinha o poder de vida e morte sobre as pessoas. Mas para os religiosos radicais, a leitura de “A Linguagem de Deus” poderá ser concluída com ares de profunda decepção.

Hoje, porém, a religião tem de lidar com a dialética e aceitar a competição com outras formas de explicação do mundo. Um resultado é que a religião não explica mais o mundo e só pode tentar fazê-lo se usar as armas da ciência. É isso o que Collins tenta fazer e inicia traçando um esboço de sua vida pessoal, da infância religiosa à escolha de uma carreira dedicada à pesquisa e à opção pelo agnosticismo e, posteriormente, pelo ateísmo. Collins quer mostrar que, de um cientista ateu, tornou-se um crente convicto não em uma força impessoal qualquer, mas em um Deus pessoal que responde a orações. Ao lermos sobre sua fase ateia, porém, algo muito importante se sobressai: Collins foi aquele tipo de ateu declarado que por algum tempo saiu da religião, mas a religião não saiu dele. Do ponto de vista moral e intelectual, o ateísmo requer um grau de autonomia que poucos indivíduos são capazes de suportar. Para muitas pessoas, se Deus não existe, então tudo é permitido, pois não há para quem prestar contas no final. Esse foi um dilema pelo qual passou; a ausência de uma força maior julgadora lhe incomodava bastante.

Então se sentiu reconfortado ao conhecer a lei moral exposta por C.S. Lewis no livro “Cristianismo puro e simples”, outro “ex-ateu” que também se converteu ao cristianismo. A “Lei Moral” de Lewis propõe que as noções de certo e errado são universais na espécie humana. Para ele, alguém que for a uma biblioteca estudar a história das civilizações “fará um apanhado das mesmas denúncias triunfantemente monótonas de opressão, assassinato, traição e falsidade; as mesmas obrigações de gentileza aos idosos, aos jovens e aos fracos, sobre a doação de esmolas  e a imparcialidade e a honestidade”. A “Lei Moral” também inclui o impulso altruísta do sacrifício pelo outro e a iniciativa de ajudar aos outros, não apenas pelos mais próximos, mas por pessoas de outros grupos. A Lei Moral, para Collins, não poderia ser explicada pelo evolucionismo porque o contradiz, já que parte do princípio de que os indivíduos desenvolvem noções de hostilidade para com os inimigos ou membros de outros grupos. Para Lewis, como para Collins, a Lei Moral somente pode ser explicada pelo fato de um poder controlador fora do universo tê-la colocado nos seres humanos. Como, então, não podemos demonstrar sua existência pelos métodos da ciência? A essa objeção, Collins responde: “Se Deus existe, deve ser encontrado fora do mundo natural e, portanto, os instrumentos científicos não são as ferramentas certas para aprender sobre ele”. Quais seriam, então, as ferramentas certas para aprender sobre ele? Essa é a primeira parte da obra e Collins encerra o capítulo sem dar nenhuma pista. No capítulo seguinte, voltar a citar outras obras de Lewis, fala de desejos, milagres e faz o questionamento nada científico de “por que temos um vácuo do tamanho de Deus em nossos corações”?

A noção de lei moral de Lewis é falha em muitos aspectos, pois desconsidera as variações culturais que podemos encontrar nas mais diversas sociedades. Embora possamos encontrar em virtualmente todas as sociedades objeções à opressão, por exemplo, isso não impediu que a escravidão estivesse presente, também, nas mais variadas sociedades, sem que tenha sido contestada por legisladores e líderes religiosos, incluindo o Cristianismo. Se o impulso altruísta faz parte da tal “Lei”, por que foi necessário o desenvolvimento de um tipo específico de instituições políticas e consciência social para que algumas culturas passassem a ver a escravidão como abjeta e desumana? Por que as sociedades desenvolveram instrumentos de guerra e mecanismos de defesa para conquistar seu espaço vital em detrimento da alteridade, se há uma “Lei” que nos impulsiona a não oprimir os mais fracos?

Alguém poderia objetar que essas questões decorrem da escolha humana de “fazer o mal” ou de simplesmente não agir de acordo com a “Lei Moral”. Nesse caso, a “Lei Moral” (que pretende ter o mesmo estatuto de uma lei natural) não é uma Lei, logo é falsa. Por outro lado, valores como a monogamia ou o patriarcado não são universais. Se a imparcialidade e a honestidade são virtudes valorizadas universalmente, seria mais prudente atribuí-las ao pacto social do que a uma espécie de “circuito” implantado na mente humana por uma entidade “fora do universo”. Não por acaso, o que se compreende por esses substantivos (honestidade e imparcialidade) varia de acordo com o contexto, a formação cultural e a localização geográfica de cada comunidade.

Além disso, Collins reconhece no decorrer de sua obra que os instrumentos científicos são as melhores ferramentas para compreendermos a natureza. Se Deus supostamente se encontra fora do mundo natural, então não é possível conhecê-lo de forma alguma. Evocar a interioridade como o tal “vazio no coração” remete mais à subjetividade da fé, não se constituindo em qualquer hipótese em evidência para a existência divina. Até o fim da primeira parte, Collins elencou uma série de razões subjetivas que o levaram a voltar à fé religiosa, incluindo sua necessidade pessoal de um poder sobrenatural julgador e imparcial.

Na segunda parte, ele disserta sobre alguns conceitos da ciência moderna como o Big Bang, a formação da vida na Terra e a teoria de Darwin, para finalmente explicar a importância do Projeto Genoma Humano, cuja direção ele assumiu no final de 1992 após a renúncia de James Watson (que descobriu a hélice dupla do DNA com Francis Crick). O aspecto mais curioso de sua abordagem a partir daqui é sua tentativa de conciliar a evolução (sim, Francis Collins é um cientista cristão e evolucionista) com sua crença em um Deus criador e intervencionista (teísmo). Embora reconheça que suas conclusões neste capítulo possam ser desconcertantes para muitos religiosos, ele diz: “Hoje, nenhum biólogo sério duvida de que a teoria da evolução explique a complexidade e a diversidade maravilhosas da vida. Na verdade, o parentesco de todas as espécies por meio do mecanismo da evolução é uma base tão profunda para a compreensão da Biologia que fica difícil imaginar como seria possível estudar a vida sem essa base”.

Para ele, o Gênesis contém uma linguagem poética que não deve ser interpretada literalmente e subscreve a asserção científica de que nossa espécie descende de um grupo de ancestrais de cerca de 10 mil membros que viveram entre 100 mil e 150 mil anos na África Oriental. Logo a seguir expõe um esquema da árvore da vida que mostra a proximidade genética dos seres humanos com o macaco, o chimpanzé e o oragotango. Collins também explica que o fato de o evolucionismo ser chamado de “teoria” não remete à noção de incerteza, para a qual um cientista usaria a palavra “hipótese”. O uso científico do termo “teoria” remete ao conjunto de princípios fundamentais subjacentes a uma determinada área do conhecimento. Contudo, enfatiza que apesar de os seres vivos descenderem todos de um ancestral comum não invalida a existência de Deus. Para ele, a ciência também não explica a Lei Moral e a busca universal por Deus, que apontam para uma entidade criadora que deixou suas pistas no DNA humano e na natureza.

Na terceira e última parte da obra, Collins tece algumas considerações sobre o ateísmo (em que faz algumas críticas especialmente a Richard Dawkins),o  agnosticismo (em que se limita a uma breve conceituação), criacionismo (onde refuta a iniciativa de alguns teólogos de interpretar literalmente a Bíblia, invalidando os avanços da Biologia evolucionária) e a teoria do Design Inteligente. A este último dedica um capítulo inteiro. Explica que o ID (Inteligent Design) surgiu em 1991 por iniciativa de um advogado da Califórnia que publicou um livro expondo a teoria. Ela foi aceita por alguns professores universitários, que lhe deram elaborações conceituais mais amplas e foi difundida como uma visão científica alternativa ao darwinismo. Collins, porém, rejeita as pretensões científicas do ID, a começar pelo fato de não ter nascido dentro da tradição científica e não apresentar argumentos satisfatórios (alguns dos quais ele refuta) para se contrapor ao evolucionismo. Para ele, o ID apenas apela a um “Deus das lacunas”, isto é, vai inserindo Deus como resposta para questões para as quais a ciência ainda não apresentou respostas e esclarece que o próprio ID vai perdendo credibilidade à medida que a própria explicação científica vai avançando.

Os últimos capítulos Collins reservou pra expor sua própria teoria da criação, que ele chama de BioLogos e conceitua dessa forma: “BioLogos expressa a crença de que Deus é a fonte de toda a vida, e a vida expressa a vontade de Deus”. Ele diz que essa teoria não tenta colocar Deus em questões que a ciência ainda não responde (não é uma teoria do “Deus das lacunas” segundo ele) mas pretende oferecer respostas pra questões sobre as quais a ciência não pode falar e complementa: “Como o universo apareceu aqui? Qual o sentido da vida? O que nos acontece após a morte? Ao contrário do Design Inteligente, o BioLogos não se pretende uma teoria científica. Sua verdade só pode ser testada pela lógica espiritual do coração, da mente e da alma”. Adverte que, de todas as visões possíveis sobre o mundo, a ateísta é a menos racional, e diz isso no mesmo capítulo em que termina citando passagens da Bíblia. No último capítulo, faz apenas algumas considerações sobre a Bioética.

Não se pode negar que Francis Collins seja um cientista de primeira linha. O fato de ter  alcançado o posto de diretor do Projeto Genoma lhe deu muita visibilidade e certamente teve peso determinante nas vendagens de sua obra. Apesar disso, seu conceito de BioLogos não ganhou tanta aceitação e difusão como o Design Inteligente, este último bem menos inteligente, diga-se de passagem, do que a proposta de Collins. Contudo, apesar de sua reputação como cientista, seus argumentos a favor da existência de Deus não vão muito além do que a teologia liberal já havia colocado há mais de um século. Mas ele tem o mérito de não ser fundamentalista. Collins não quer usar a ciência para provar o Gênesis, reconhece a veridicidade e importância do evolucionismo como fundamento da ciência moderna (o que não é pouca coisa pra um cientista cristão e norte-americano), aceita os pressupostos do Big Bang, é arredio com relação a teorias pseudocientíficas como o Design Inteligente e não pretende transformar seu BioLogos em algo semelhante.

Contudo, não justifica sua afirmação de que o ateísmo  é a menos racional das visões possíveis sobre o mundo e nesse ponto parece cair na mesma armadilha de qualquer cristão não cientista: o ateísmo tende a ser amoral, é perigoso e nega a “óbvia” existência de um criador. É redutivo e excessivamente sintético quando fala do agnosticismo, como se quisesse evitar escrever sobre as concepções pelas quais não têm empatia. No final, o que fica da leitura de sua obra é que ele sempre foi um homem profundamente religioso e, movido pela necessidade pessoal de encontrar um sentido para a existência fora das pesquisas de laboratório, fez um esforço hercúleo para conciliar seu teísmo com a ciência. Em toda a obra, apresenta basicamente duas evidências a favor da existência de Deus: a Lei Moral de C.S. Lewis e a crença espiritual presente em virtualmente todas as culturas. Para ele, essa é a linguagem de Deus, inscrita de forma sutil, mas indelével na genética humana, cujo mapeamento (genoma) ele ajudou a decifrar.

Sua tentativa de estabelecer um diálogo entre a religião e a ciência, em que a primeira não precisa invalidar a segunda quando se sente ameaçada por ela, é uma iniciativa elogiável. O Deus de Collins cura e ouve orações, mas não é o dos pregadores fundamentalistas da TV. Collins pode não ter sido um ateu muito seguro na juventude, mas o fato de ter se afastado da religião por um tempo e escolhido uma carreira científica deixou marcas positivas. No fundo, seu Deus evolucionista também não deixa de ser um Deus de lacunas, e como todos os deuses, foi criado por ele mesmo para suprir suas necessidades particulares. Collins é um religioso que atravessou muitos conflitos internos até escolher entre a fé o ceticismo, talvez por isso não se sinta bem ao falar do ateísmo, mas precisou sufocar sua descrença para dar sentido à vivência de uma espiritualidade mística.

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22 comentários sobre “Uma análise do livro “A linguagem de Deus”

  1. homemsemsobrenome 24/01/2014 / 22:36

    “Adverte que, de todas as visões possíveis sobre o mundo, a ateísta é a menos racional, e diz isso no mesmo capítulo em que termina citando passagens da Bíblia.” Como o senhor é mau, professor, hahaha. Bem legal o texto, gosto bastante dessa discussão, aliás, outro dia vi um economista na tv que lançava um livro afirmando que os novos paradigmas da ciência implicavam numa retomada do conceito de deus (acho que é “A razão de deus”, o livro). Aí, no meio da fala, ele solta uma frase assim: “essa é quase uma discussão metafísica!”.
    Eu estou quase pegando um livro do Mario Ferreira para resenhar, o invasão vertical dos bárbaros, mas tenho algumas coisas por acabar antes e já estou prevendo reações dos olavetes, o que desanima um pouco, porque o Mario tem coisas interessantes. Um abraço!

  2. Bruno Vasconcelos 25/01/2014 / 0:01

    Amigo, pelo o que eu sei Collins cresceu em um lar ateu sem qualquer estímulo a comcepções teístas ! Teve sua vida marcada pelo ceticismo científico, não ?! Pelo meu entendimento de seu artigo você alega que o biólogo teve sua fé abalada, ultrapassando um período ateísta para ulteriormente ele voltar a ser cristão ? É isso ?

    • Bertone Sousa 25/01/2014 / 23:33

      Bruno, de fato no início do livro ele afirma ter crescido numa família onde a fé não era muito importante, mas em nenhum momento chega a dizer que era um lar ateu. Em decorrência disso, embora ele também não desse muita importância à religião na infância, acreditava em Deus. Ele até fala de um contrato com Deus que fez aos nove anos, que, embora tenha sido uma coisa de criança, já evidencia que não recebeu uma educação ateia.

  3. Bruno Vasconcelos 25/01/2014 / 0:02

    Desculpe alguns erros gramaticais, foi a pressa. rsrs

  4. Wanderson Marçal 28/01/2014 / 7:02

    Seu site é indubitavelmente um dos melhores no que tange conteúdo produzido por um historiador brasileiro. Sublime. Sem mais. Mas permita-me fugir um pouco ao tema central e tirar uma dúvidas: caro Bertone, tu sabes de onde surgiu a “lenda” de que a Igreja afirmava que “negros não tinham alma”? Digo lenda, pois entrei em contato com Manolo Florentino e garantiu ele que não procede, em parte respaldado pelo livro “O problema da escravidao na cultura ocidental” do David Brion. Mas a questão que fica é: de onde surgiu, então? Não há uma bibliografia que verse sobre? Só encontrei sites católicos altamente tendenciosos e olavetes que abordem a questão. No entanto, desde meus primeiros anos no colégio, ouço esta história e não apenas da boca de marxistas, mas até de conservadores protestantes – que estendem inclusive a sentença (de que não tinham alma) a eles. Fica a dúvida.

    • Bertone Sousa 28/01/2014 / 15:22

      Wanderson, obrigado. Não sei te dizer a origem dessa bazófia. E com tanta pesquisa sobre o assunto da relação entre a Igreja e a escravidão negra, não faz mais sentido dizer esse tipo de coisa. Desde o século 16, por exemplo, escravos eram batizados em Angola e até o século 18 navios negreiros deviam ter capelães para realizar sacramentos, além do que escravos eram catequizados e seus filhos também eram batizados. Tem um artigo bem fundamentado e interessante sobre o assunto que você pode ver. Não consegui colocar o link aqui, mas digita no google: “Tópicos sobre o papel da Igreja em relação à escravidão e religião negra no Brasil”.

    • Claudio Cesar 05/02/2014 / 2:37

      Talvez isso ajude um pouco.

      CAPÍTULO V
      Da escravidão do negros

      Se eu tivesse que defender o direito que tivemos de escravizar os negros, eis o que diria:
      Tendo os povos da Europa exterminado os da América, tiveram que escravizar os da África, a fim de utilizá-los no desbravamento de tantas terras.
      (…)
      Aqueles a que nos referimos são negros da cabeça aos pés e têm o nariz tão achatado que é quase impossível lamentá-los.
      Não podemos aceitar a idéias de que Deus, que é um ser muito sábio, tenha introduzido uma alma, sobretudo uma alma boa, num corpo completamente negro.
      (…)
      Uma prova que os negros não têm senso comum é que dão mais importância a um colar de vidro do que ao ouro, fato que, entre as nações policiadas, é de tão grande consequência.
      É impossível supormos que tais gentes sejam homens, pois, se os considerássemos homens, começaríamos a acreditar que nós próprios não somos cristãos.

      (Montesquieu, Do Espírito das Leis, Livro Décimo Quinto – Como as leis da escravidão civil relacionam-se à natureza do clima, Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1962)

      • Bertone Sousa 05/02/2014 / 13:17

        Claudio,
        já é conhecida essa posição de Montesquieu acerca da escravidão. Mas não foi com ele que essa visão teve início, já que ele escreve no século XVIII. E o foco aqui é a posição da Igreja sobre o assunto.

  5. Rafael 16/02/2014 / 0:08

    Olá. Talvez seja o caso de eu ter que tomar conhecimento de outros textos seus, mas não consigo entender bem o que você quer dizer ao afirmar que o “O Deus de Collins cura e ouve orações, mas não é o dos pregadores fundamentalistas da TV”; simplesmente o fato de ele reconhecer evidências científicas não usualmente aceitas por cristãos norte-americanos indica que ele não é “fundamentalista”?, e é aqui que está a minha dúvida, no sentido que você atribui a essa palavra. Pelo que entendi, um fundamentalista nesse caso seria alguém que tenta usar a ciência para validar a hipótese do seu Deus; nesse caso, seria errado supor que um cientista que afirma ter excluído a necessidade de Deus com suas descobertas age com semelhante fundamentalismo?
    No segundo parágrafo, você afirma que os religiosos tendem a ler livros como esse do Collins sem questionar suas premissas básicas, o que eu concordo, uma vez que é justamente nesse aspecto que eles concordam entre si. Meu problema com esse trecho está na parte em seguida em que você diz que esses leitores religiosos tendem a concordar com dados e teorias científicas até o ponto em que contradizem sua fé, citando os casos de Galileo e Giordano Bruno. Quanto ao Galileo, sabe-se que ele não conseguiu fornecer evidências definitivas a favor do modelo copernicano e que sua condenação partiu também de problemas pessoais. O caso de Giordano Bruno me parece muito mais uma discordância teológica do que científica, dentro do que chamamos ciência . Além disso não vejo atualmente como postura comum entre os religiosos com conhecimento decente em ciência essa descrita por você.

    • Bertone Sousa 16/02/2014 / 13:35

      Rafael, umas das características principais do fundamentalismo desde que surgiu como doutrina no início do século 20 foi a rejeição tenaz ao darwinismo. Collins tenta mostrar que a teoria evolucionista não é apenas uma hipótese científica, mas um fato constatado por várias áreas do conhecimento, algumas das quais devem sua existência a essa teoria; e tenta mostrar também que o evolucionismo não exclui necessariamente a ideia de um criador. Por isso ele não pode ser considerado fundamentalista. Esse conceito também não pode ser aplicado fora de um contexto religioso monoteísta, exceto como metáfora e mesmo com cuidado. Não existe, por exemplo, um ateísmo fundamentalista, um Hinduísmo fundamentalista ou um feminismo fundamentalista, como já vi alguns falarem por aí. Sobre Galileu, a questão não é tão simples assim; creio que você não estudou direito sua teoria. E meu texto não é sobre “religiosos com conhecimento decente em ciências”. Nesse ponto você confunde as coisas.

  6. Rafael 16/02/2014 / 18:25

    Com o que você me respondeu e lendo mais um pouco a respeito, compreendo agora a definição que você aplica quando utiliza o termo fundamentalista.
    Quanto ao caso do Galileu, a questão não é simples justamente porque sua condenação não se deve unicamente pela defesa do heliocentrismo. Tanto a descrição baseada nas ideias de Tycho Brahe (uma modificação do geocentrismo de Ptolomeu) quanto uma baseada nas ideias de Copérnico podia dar conta de concordar com as observações. Porém, por motivos que você deve saber bem, as pessoas da época ficavam mais a vontade com a teoria geocêntrica e não estavam dispostas a abandonar essa concepção a menos que evidências definitivas fossem fornecidas. Galileo não conseguiu fornecer tais evidências, e se aventurou a sugerir uma forma de interpretar a Bíblia quando ela trata da descrição da natureza, o que incomodou religiosos. Além disso, a forma como ele expôs os argumentos a favor do geocentrismo na sua obra, ofendeu o papa da época, que até simpatizava um pouco com ele. Talvez minhs “tréplica” seja um tanto longa, só quis deixar claro aqui o que quis dizer ao tratar desse caso.
    Quanto a última parte do meu comentário e da sua resposta, realmente ignorei uma observação sua feita no texto, e a tendência de agir da maneira descrita por você é simplesmente uma característica que define o grupo do qual você trata.

    • Bertone Sousa 16/02/2014 / 18:46

      Rafael, a questão é que os métodos das ciências da natureza ainda não estavam suficientemente consolidados, por isso trabalhar com a noção de “evidências definitivas” para o século 17 é problemático. Mesmo assim, Galileu também propunha uma separação entre ciência e teologia, que, segundo o entendimento dele, tratavam de coisas distintas. Isso ainda era impensável para a maioria das pessoas na época, inclusive intelectuais. Não foi à toa que ele ofendeu a Igreja ao defender o geocentrismo na obra, afinal, ele tentou sutilmente mostrar o que considerava como equívocos na teoria. É difícil conceber como ele poderia teorizar sobre o heliocentrismo, mesmo com todas as limitações, sem ir de encontro aos dogmas da Igreja.

  7. Rafael 16/02/2014 / 20:13

    Bertone, concordo que os métodos utilizados em ciências naturais usados na época são bem diferentes dos aplicados hoje. No entanto, ainda assim ideias eram aceitas com base em argumentações e até mesmo de evidências empíricas na época e os argumentos e evidências que o Galileu apresentou (em que podemos encontrar equívocos, como na sua conexão entre as marés e o movimento terrestre) não foram suficientes para convencer grande parte dos intelectuais da época, dentro e fora dos círculos clericais.
    Do resto, concordo com você: dificilmente, para o pensamento da época, uma defesa do heliocentrismo não encontraria resistência da Igreja e até importantes membros da Igreja Católica reconheceram isso recentemente, basicamente concordando com a separação defendida por Galileu. Basicamente o que quis dizer quando citei o caso do Galileu no meu primeiro comentário foi afirmar que os religiosos da época não agiram simplesmente fechando os olhos para a clara verdade que o Galileu havia descoberto e que sua condenação esteve também relacionada a sua sugestão de interpretação de textos bíblicos e a um problema pessoal com o papa.

    • Bertone Sousa 16/02/2014 / 22:30

      De fato, ele cometeu alguns erros, mas ficou mais conhecido por seus acertos. Graças ao telescópio que aperfeiçoou, conseguiu observar crateras na lua, manchas solares e as quatro luas de Júpiter. Outra coisa é que as opiniões sobre ele dentro da Igreja divergiam. Naquela época, o Colégio Romano reunia algumas das principais autoridades científicas, incluindo jesuítas. Mas os dominicanos não gostavam das ideias dele, por isso o cardeal Bellarmino redigiu um relatório sobre ele considerando suas ideias ofensivas à Igreja. Mas é importante também destacar que ele teve a infelicidade de pegar uma Igreja Católica pós-Concílio de Trento e Urbano VIII iniciou seu pontificado na mesma década em que o Concílio terminou; o papa já tinha aconselhado Galileu a falar do heliocentrismo como hipótese, não como uma verdade científica. O Tribunal do Santo Ofício também determinou o mesmo em 1616; por isso sua condenação ia além dos problemas pessoais que tinha com o papa que você menciona. Mas você está certo, interpretar textos bíblicos era criar um conflito com a Igreja devido o desenrolar dessas questões.

  8. Rafael 17/02/2014 / 9:32

    Agora estamos entendidos.
    Percebi que me alonguei numa discussão com você sobre um assunto que nem era o tópico principal do seu post. Agradeço a possibilidade.

  9. Cronos 01/03/2014 / 16:47

    Sobre o ateísmo, que muitos consideram uma ideologia imoral e criminosa,tenho a seguinte opinião:ser ateu não é muito inteligente.Qual a diferença entre o ser humano e um rato(pode ser de laboratório)? Na visão do ateísmo, nenhuma.E é aí que eu não concordo.

    • Bertone Sousa 01/03/2014 / 23:02

      Cronos, sua opinião está apenas no nível do senso comum. Já os que consideram o ateísmo uma ideologia “imoral e criminosa” falam a partir de princípios ideológicos teocráticos, fundamentalistas e/ou antissecularistas. Favor leia a política de comentários do blog antes de comentar. Não é permitido o uso de nomes impessoais. Isso torna o espaço de discussão um furdunço. Por isso entre com seu nome verdadeiro caso deseje comentar novamente.

  10. Ivan Boeno de Camargo 02/09/2015 / 13:02

    Excelente artigo Bertone! Gostei muito da sua análise do livro! Já o li, e me senti pouco convicto sobre os argumentos do Collins só não sabia exatamente os motivos… Suas críticas me organizaram quanto a isso!
    Parabéns! Achei ótimo o blog.
    Abraço.

  11. Jorge Ary 14/09/2015 / 9:16

    Sempre achei extremamente complicado conciliar a evolução e a ideia de um deus qualquer, principalmente um deus pessoal. Durante 2 bilhões de anos as únicas formas de vida eram unicelulares que iam lentamente acumulando diferenças que possibilitaram o surgimento de formas mais complexas e o que o deus pessoal fazia? É muito mais racional acreditar que as forças atuantes eram as das variações aleatórias e da seleção natural. O mesmo se aplica em relação à origem do homem. Em que ponto da evolução do homem deus teria colocado a alma no ser humano? Nos neandertais, nos homo eretus, nos cro-magnon? Gostaria de saber como um cientista como Collins, que entende muito bem da evolução responde a isso.

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