Stalin: Uma lenda fabricada sob medida

Joseph Stalin at Potsdam ConferenceEm 1856, escrevendo sobre a Revolução Francesa, Tocqueville observava: “Várias vezes, desde que a Revolução começou até nossos dias, temos visto a paixão pela liberdade extinguir-se, depois renascer, depois extinguir-se novamente e depois renascer; assim fará por muito tempo, sempre inexperiente e mal regulada, fácil de desencorajar, de assustar e de vencer, superficial e passageira”. Os historiadores costumam dizer que a Revolução Russa está para o século 20 como a Francesa para o século 19. As revoluções têm o mérito de acelerar o tempo, produzindo mudanças estruturais profundas e de longa duração. Em seu estudo sobre o Antigo Regime e a Revolução, Tocqueville observou que as noções desenvolvidas pelo novo regime não se coadunavam com a manutenção de instituições livres e com a paixão que aqueles que lutavam pela revolução demonstravam pela liberdade política. Mutatis mutandis, o mesmo pode ser dito sobre o golpe de Estado pelo qual os bolcheviques tomaram o poder em 1917.

No texto “Lênin e o comunismo”, discuti as diretrizes autoritárias e centralistas que o socialismo tomou sob o comando do líder bolchevique e que ganhou contornos mais dramáticos a partir de 1929, quando Stálin se consolidou como líder absoluto. Se é possível argumentar a favor do Estado soviético que a centralização política era necessária para solidificar a revolução e o novo governo, por outro lado também podemos verificar que a revolução voltou-se contra seus próprios cidadãos, como camponeses, militares e operários que deveria representar, como o ilustram os casos da rebelião dos marinheiros de Kronstadt e o Holodomor, para depois voltar-se contra seus próprios construtores e extinguir qualquer possibilidade de discussão democrática dos destinos do país.

Stálin sempre foi uma das figuras mais controversas da história do comunismo. Assassino de comunistas e mentiroso obstinado, muitos ainda se recusam a enxergá-lo como tal. Ao contrário, tentam reabilitá-lo como arauto do mais autêntico marxismo revolucionário. Um exemplo é o uso que os últimos governos da Rússia têm feito de sua figura para direcionar o ensino no sentido de mostrá-lo como um herói nacional, como mostrou uma matéria do jornal Estadão de 2009 (clique aqui para ler). Esse tipo de postura é perigosa na medida em que flerta com o nacionalismo e a xenofobia, duas outras ideologias que também desfrutam de ampla popularidade na Rússia. O fato é que a figura de Stálin comporta muitas ambiguidades: se, por um lado, transformou a ex-URSS numa superpotência, erradicou o analfabetismo e foi decisivo na derrota do nazismo, por outro lado aniquilou quase todos os dirigentes bolcheviques que participaram da Revolução de Outubro, instituiu o culto à sua personalidade, aparelhou o Estado de modo a transformá-lo numa monstruosa organização todo-poderosa (no que foi seguido por virtualmente todos os demais regimes comunistas) e em seu regime milhões de pessoas foram enviadas a campos de trabalho forçado na Sibéria, os gulags, onde muitos perderam a vida, como já comentei em outras postagens.

Desde o início dos anos 1990, com a quantidade de arquivos do período soviético abertos a pesquisadores, vários livros têm vindo a público com o objetivo de elucidar os meandros do regime, as personalidades e as ações de seus representantes. A distância temporal que nos separa da Guerra Fria já nos permite analisar com mais acuidade essas questões do que comumente se fazia no calor da militância de décadas atrás, quer de direita, quer de esquerda, embora os intelectuais que tentam negar seus crimes ainda vejam a história em preto e branco, dividida pela ação de agentes comunistas e anticomunistas. Um fato, porém, é que o comunismo enquanto teoria e sistema político não tem mais qualquer importância na conjuntura internacional e dentre os partidos comunistas que ainda permanecem no poder em vários países, nenhum possui prestígio externo e nem se pode mais dizer que tenham alguma relação com a doutrina marxista. O legado de Lênin e Stálin está morto. O que é importante é que a discussão histórica não cesse nem seja silenciada. Nesse sentido, a análise documental pode nos trazer informações surpreendentes, como, por exemplo, a hipótese de Stálin ter sido agente secreto do regime que os comunistas derrubaram em 1917.

Essa é uma tese desenvolvida pelo historiador francês François Kersaudy e publicada na Revista História Viva (link ao final da postagem), que apresento aos leitores. O artigo de Kersaudy é interessante por vários motivos, entre eles o entendimento de que a obsessão de Stálin pelo poder absoluto não encontrava limites, mesmo que para isso tivesse que delatar seus camaradas de partido ainda no regime czarista e forjar provas contra dirigentes do partido para acusá-los de crimes que não cometeram e condená-los à morte quando já estava no poder. Kersaudy chama a atenção para os cuidados que o ditador soviético tinha de eliminar os documentos referentes à sua juventude e não permitir que biógrafos escrevessem sobre ele, como Trotsky estava fazendo. Stálin transformou o comunismo numa farsa e multidões em rebanhos subservientes. Uma característica de regimes autoritários é o silenciamento da memória e a reescrita da história, de modo a colocá-la a serviço dos interesses do aparelho de Estado e da deificação do líder. Nesse ponto entra a pertinência do subtítulo do artigo de Kersaudy: Stálin foi uma lenda fabricada sob medida e, pior, uma lenda que o Estado russo tenta ressuscitar e vender a seus cidadãos, a despeito das atrocidades cometidas em seu governo. Segue o artigo de Kersaudy:

Documentos revelam que até 1917, por trás da fachada de revolucionário exemplar, o líder soviético operou como agente da polícia secreta do czar

François Kersaudy

A versão dos biógrafos oficiais sobre a juventude de Stalin surgiu nos livros de história há mais de meio século. Em 21 de dezembro de 1879 nasceu Iossif (Josef) Vissarionovitch Djougachvili. Filho de uma autêntica família de proletários georgianos, estudou na escola religiosa de Gori, depois no grande seminário de Tiflis (hoje Tbilissi). Bom filho, bom aluno, bom cantor, bom esportista, grande leitor, grande poeta, grande organizador, grande orador, modesto, dotado de excelente memória, voz agradável e carisma sem igual, Josef, apelidado de “Sosso”, leu Karl Marx no original aos 16 anos – um feito para esse adolescente que não conhecia uma palavra de alemão. Nessa versão, aos 20 anos, Josef-Sosso Djougachvili, também chamado de “Koba”, já era um revolucionário experiente. Estava em todo lugar ao mesmo tempo: Tiflis, Batumi, Tchiaturi, Kutaisi, Baku… e nada acontecia sem que ele tivesse decidido e organizado. 

Após várias detenções e fugas, foi preso em fevereiro de 1913, em São Petersburgo e deportado para Touroukhansk, próximo ao círculo polar; somente a revolução de fevereiro de 1917, quatro anos mais tarde, lhe permitiria entrar em São Petersburgo, onde retomaria suas atividades de agitador, propagandista e matador de mencheviques. Nesse período, Iossif Djougachvili viveu sob muitos nomes: Sosso-Koba-Ivanovitch-NijeradzeVassili, até o definitivo “Stalin” – o homem de aço…

Só se pode passar para o outro lado do espelho da vida do ditador russo antes de 1917 com a ajuda dos arquivos – e graças às testemunhas que escaparam do regime de terror e do culto à personalidade do “Pai dos Povos”. Josef Iremachvili pinta um retrato diferente: se ele é descrito como inteligente, dono de excelente memória e dotado para o canto, aparece também como taciturno, dissimulador, esperto, arrogante, intrigante, arrivista, brutal e dominador com seus camaradas. Mais: em 1899, o seminarista Djougachvili, tornado membro de um círculo revolucionário social-democrata, escondeu panfletos subversivos entre os objetos pessoais de seus companheiros e em seguida denunciou-os ao reitor. O dormitório foi revistado… e 45 seminaristas foram expulsos. 

pós sua própria expulsão do seminário, tornou-se contador no observatório de Tiflis, emprego que lhe permitia dedicar-se a atividades de propaganda nos meios operários. Porém, os dirigentes social-democratas Noé Jordania e Sylvestre Djibladze logo perceberam que a propaganda do militante Koba era dirigida mais contra eles do que contra as autoridades czaristas, e o qualificaram de “caluniador e agente provocador”. Junto com um bandido armênio chamado “Kamo”, Djougachvili-Koba montou uma tipografia clandestina para produzir panfletos subversivos, convocando para uma grande manifestação em 1o de maio de 1901, uma provocação organizada por um oficial da Okhrana (ver glossário) chamado Samedov, que possibilitou a prisão de Victor Kournatovski, enviado de Lenin à região.

A manifestação foi particularmente sangrenta, e o ministro do Interior ordenou uma investigação sobre suas origens, o que obrigou Samedov a acusar Koba… que teve de se refugiar em Gori. Mas voltou a Tiflis no mês de outubro e tentou se eleger à frente do que restou da seção local do partido social-democrata. Qualificado de caluniador, foi excluído do partido no dia 11 de novembro de 1901, por unanimidade de votos.

Entre o início de 1904 e a meados de 1905, Djougachvili organizou vários assaltos nos arredores de Tiflis, com a participação de Kamo, que tinha acabado de fugir da prisão de Batumi. Simultaneamente, Koba freqüentava os círculos revolucionários, principalmente a facção bolchevique de Tiflis, dirigida por Stepan Chaoumian, um enviado de Lenin.

Chaoumian foi preso pela Okhrana em março de 1905; quando de seu interrogatório, os policiais mencionaram o endereço de seu apartamento secreto, o que permitiu a Chaoumian identificar seu delator: somente Koba conhecia aquele endereço… 

Na Finlândia, Koba, agora “Ivanovitch”, se encontrou pela primeira vez com Lenin, que, impressionado com seus ataques à mão armada altamente rentáveis, iria encarregá-lo de continuar com os assaltos, desta vez em benefício do caixa do partido e rebatizados de “expropriações revolucionárias”, o que mudava tudo. Depois disso, Lenin e Ivanovitch foram secretamente para Berlim, e a Okhrana receberia um relatório detalhado sobre a viagem, assinado “Ivanov”… Um nome que lembra Ivanovitch? Mera coincidência!

Stalin (terceiro da esquerda para a direita, na segunda fila) na Sibéria, em 1915: punido por acusar outro agente da Okhrana de colaborar com os bolcheviques
Stalin (terceiro da esquerda para a direita, na segunda fila) na Sibéria, em 1915:
punido por acusar outro agente da Okhrana de colaborar com os bolcheviques

De volta a Tiflis, Djougachvili-Ivanovitch começou o recrutamento para suas operações de expropriação… Mas no início de abril de 1906, foi novamente detido pela Okhrana; no entanto, sua pena foi aliviada no mesmo dia! Isso porque ele forneceu aos agentes do czar o endereço da tipografia clandestina de Avlabar, dirigida pelos mencheviques, que foi destruída pelos policiais e pelos cossacos em 15 de abril. Neste momento, o delator já havia partido para assistir ao congresso social-democrata de Estocolmo. Naturalmente, a Okhrana receberia um relatório das deliberações redigido pelo agente Ivanov; ocorreria o mesmo no ano seguinte, no Congresso de Londres. 

No final de 1908, o expropriador-provocador-delator foi para Vologda, onde ficou exilado por dois anos por decreto especial do ministro do Interior. Sua “evasão”, nove meses depois, foi organizada pela Okhrana, que lhe forneceu um passaporte com o nome de “Totomiantz”, armênio de Tiflis…

Isso porque a polícia do czar precisava novamente de seus serviços em Baku, para que se infiltrasse nos meios nacionalistas armênios e nas organizações sindicais revolucionárias. Mas, uma vez ali, ele cometeu gafes, e desde o início de 1910, o chefe do sindicato dos tipógrafos o acusou abertamente de ser um agente provocador – acusação logo reforçada pelo chefe dos bolcheviques de Baku, Chaoumian, que tinha alguns motivos para se lembrar de seu delator de 1905… Em fins de março de 1910, o comitê do partido social-democrata de Baku se reuniu para decidir sobre o caso do agente provocador Totomiantz. Mas o local da reunião foi cercado pela polícia, e todos os membros do comitê foram detidos. O agente armênio Totomiantz, agora queimado no Cáucaso, não tinha mais utilidade para a Okhrana e foi enviado para Vologda para ali cumprir o resto de sua pena!

Stalin é fichado na prisão em 1908. Sua “fuga” seria organizada pela própria polícia
Stalin é fichado na prisão em 1908. Sua “fuga” seria organizada pela própria polícia

Após sua libertação em junho de 1911, o Congresso Pan-Russo de Praga se reuniu, e Lenin nomeou discretamente Ivanovitch (Stalin) “agente do Comitê central”. Mas para esse comitê, Lenin elegeu também o delegado dos trabalhadores de Moscou, um certo Malinovski…

O polonês Roman Malinovski era o principal agente da Okhrana infiltrado no partido de Lenin e ao mesmo tempo o favorito deste último: um duplo desafio para o antigo seminarista arrivista e vingativo que jamais suportou a concorrência… Vassili-Ivanov, passando por cima de seu agente de ligação da Okhrana, escreveu ao vice-ministro do Interior Zolotarev para lhe dizer que “Malinovski era de fato um partidário de Lenin e trabalhava mais assiduamente pela causa bolchevique que pela polícia”. Infelizmente, Zolotarev não era ingênuo, e escreveu na margem da carta: “Este agente deve realmente ser deportado para a Sibéria. Ele procurou por isto”.

Eis por que Koba-Vassili foi detido em 23 de fevereiro de 1913 e enviado para o exílio em Touroukhansk, próximo ao círculo polar, de onde não conseguiria voltar antes da revolução de fevereiro de 1917. Após a Revolução de Outubro, foi publicada em Moscou a lista dos 12 principais agentes da Okhrana infiltrados no partido de Lenin. Ela incluía um certo “Vassili”, cuja identidade não foi revelada. Vassili era mais um pseudônimo de Iossif Vissarionovitch Djougachvili-Sosso-Koba,Ivanovitch-Ivanov——Nijéradze-Totomiantz, que entraria para a história como Stalin.

Após a Revolução de Outubro, Stalin irá apagar os traços de um passado vergonhoso. Registrado em dossiês nos arquivos policiais de Gori, Tiflis, Baku, Batumi, Kutaïssi, Vologda, Narym, Irkoutsk, Moscou e São Petersburgo… 

As lembranças dos companheiros de Lenin, assim como as biografias de Stalin escritas no decorrer da década de 20, desapareceram das bibliotecas soviéticas. Esse trabalho de obliteração se estendeu ao exterior, onde as referências constrangedoras ao passado de Stalin foram cuidadosamente amputadas dos documentos, dos livros e até dos jornais da época, um trabalho colossal que durou três décadas. Após 1926, Stalin pediu a historiadores dóceis e a alguns antigos cúmplices que escrevessem biografias em forma de panegírico, nas quais qualquer semelhança com fatos reais- seria puramente fortuita; também construiu no Kremlin um ateliê de falsificações de todo tipo, que inundou os arquivos com falsos relatórios da Okhrana, exaltando os méritos do grande revolucionário Koba…

Leon Trotski: um dos inimigos políticos assassinados para apagar o passado de Stalin
Leon Trotski: um dos inimigos políticos assassinados para apagar o passado de Stalin

Mas para que tudo isso fosse convincente, era preciso eliminar muitas testemunhas. É assim que veremos Iakov Sverdlov morrer de modo nada natural porque sabia demais; a estranha morte de Maksim Gorki, que se recusou a escrever a biografia do grande Stalin; e a eliminação do professor Sepp, pelo historiador que havia descoberto, nos arquivos da polícia de Batumi, o dossiê do agente Djougachvili-Ivanov, que havia entregue o documento a Beria, que chefiava a polícia secreta, e o levou a Stalin. O ditador teria afirmado então: “Não passam de bobagens, mas é preciso cuidar de Sepp”.

“Cuidaram” de muitas pessoas ainda. Uma coleção de documentos da Okhrana havia sido confiada para exame a um oficial muito competente do NKVD chamado Stein, que descobriu um dossiê do diretor adjunto da polícia do czar, Vissarionov. Ao folheá-lo, Stein encontrou um questionário no qual estava presa uma foto de Stalin jovem, e relatos destinados a Vissarionov, com a letra do ditador. Não se tratava do dossiê de Stalin, o revolucionário, mas o do agente provocador, que tinha trabalhado com zelo para a polícia secreta do czar.

Stein, assustado, foi a Kiev e mostrou o dossiê a seu antigo superior do NKVD ucraniano, V. Balitski, que tomou conhecimento do fato ao mesmo tempo que seu adjunto Katsnelson. Balitski e Katsnelson mostraram esses documentos ao general Iakir, comandante-chefe das forças armadas da Ucrânia, como também a Stanislav Kossior, membro do Politburo e homem forte da Ucrânia. Iakir fez seu relato ao marechal Toutkhatchevski, comandante-chefe do Exército Vermelho. Segundo Katsnelson, tudo isso os levou à decisão de preparar um golpe de Estado visando livrar o país do antigo agente provocador em 1937.

Mas aos militares faltou discrição. A polícia de Stalin era onipresente e eles foram presos uns após os outros. Foram acusados de conspiração com a Alemanha, produziram-se falsas provas e os militares foram executados; eliminaram também todos os que participaram do processo, dos juízes às testemunhas, passando pelos investigadores do NKVD, que poderiam ter visto certos documentos ou ouvido alguma confidência… Finalmente, Kossior foi eliminado, o mesmo ocorrendo com Balitski, Katsnelson e os membros de suas famílias.

Leon Trotski, exilado no México, escrevia uma biografia de Stalin o que não poderia ser mais perigoso… Uma primeira tentativa de assassinato em maio de 1940 fracassou, mas a segunda, em 20 de agosto, funcionou perfeitamente: Trotski foi definitivamente silenciado.

Stalin e Gorki (à direita), em 1931. O escritor morreu de forma misteriosa em 1936, depois de se recusar a escrever uma biografia do ditador
Stalin e Gorki (à direita), em 1931. O escritor morreu de forma misteriosa em 1936, depois de se recusar a escrever uma biografia do ditador

Após 35 anos de eliminações impiedosas e falsificações sistemáticas, não deveria ter subsistido o menor vestígio do passado de Iossif Vissarionovitch Djougachvili-Stalin. Entretanto, bem depois de sua morte, os documentos continuaram a aparecer. Foi assim que, em 1964, de acordo com o historiador Roman Brackman, foi encontrado nos arquivos da Okhrana de Irkoutsk um telegrama de setembro de 1903, proveniente da Okhrana de Kutaisi, escrito nos seguintes termos: “I. V. Djougachvili tem intenção de fugir. Não o impeçam. Dêem assistência”. Em novembro de 1966, a revista Newsweek anunciou a descoberta do antigo diplomata e sovietólogo americano George Kennan, segundo o qual “o passaporte utilizado por Stalin para assistir ao Congresso de Estocolmo em 1906 tinha sido fornecido pela polícia secreta”. Depois, em 1990, a historiadora Z. Serebriakova escreveu no número 7 da revista Sovierchenno Sekretno que ela havia descoberto nos arquivos de Estado soviéticos a origem do relatório manuscrito redigido em 1912 enviado à Okhrana pelo agente Vassili-Ivanov-Djougachvili, sobre as diferentes facções do partido social-democrata. Enfim, em uma recente biografia de Stalin, Edvard Radzinsky mostra uma entrevista de Olga Chatounovskaïa, militante bolchevique desde 1916, presa por ordem de Stalin e reabilitada por Kruschev: “Chatounovskaïa disse que os documentos sobre a carreira de Stalin como agente provocador foram mostrados a Kruschev, mas que, diante dos pedidos para realizar investigações complementares, este teria levantado os braços ao céu e declarado: ‘É impossível. Isso significaria que nosso país foi dirigido durante 30 anos por um agente da polícia secreta do czar’”.

CRONOLOGIA:

1879
Nasce no dia 21 de dezembro em Gori, na Geórgia

1899
Entra para o partido social-democrata russo

1905
Primeiro encontro com Lênin

1922
Torna-se secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética

1953
Morre “oficialmente” no dia 5 de março, em Moscou, após vários dias de agonia

UMA FARTA DOCUMENTAÇÃO

Mais de 20 livros, jornais e relatórios sobre Stalin confirmam a tese desenvolvida nestas páginas. Os testemunhos, documentos e estudos sobre seu passado de delator e agente provocador se estendem como um longo fio vermelho por 80 anos. Encontramos as primeiras indicações no livro de S. T. Arkhomed, Rabotcheïe dvijenie i sotsial-demokratia na Kavkazie(Genebra, 1910). Os anos 50 vêem a publicação das revelações na matéria “The sensational secret behind damnation of Stalin” na revista Life, 23 de abril de 1956. No final dos anos 80, o artigo de B. I. Kaptielov e Z. I. Peregoudova: “Byl li Stalin agentom Okhranki?” (Stalin seria um agente da Okhrana?) no Voprosy Istorii KPSS, abril de 1989, não traz revelações, mas a partir do ano seguinte, o de Z. Serebriakova: “Stalin i tsarskaïa okhranka” no Sovierchenno Sekretno no 7, 1990, ressuscita dos arquivos soviéticos documentos eloqüentes.

PARA SABER MAIS

The secret history of Stalin´s Crimes. (A história secreta dos crimes de Stalin) Alexander Orlov. Random House, 1953.

The young Stalin. (O jovem Stalin). Edward Ellis Smith. Cassel, 1968.

Let history judge. (Deixe a história julgar). Roy Medvedev. Macmillan, 1972. Stalin. Edvard Radzinsky. Doubleday, 1996.

The secret file of Joseph Stalin. (O arquivo secreto de Joseph Stalin). Roman Brackman. Routledge, 2001.

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13 thoughts on “Stalin: Uma lenda fabricada sob medida

  1. Waldo Gomes 06/01/2014 / 6:54

    Excelente trabalho Professor ! Sem dúvida alguma, o senhor possui um valor inestimável para as pessoas que buscam conhecimento, seja por sua imparcialidade, seja por sua seriedade, seja pelo entusiasmo com que se dedica à tarefa
    sobre o tema em si, é interesssante observar que nosso popular Lula também foi indicado como colaborador da polícia secreta no Brasil antes do poder em suas mãos, conforme livro de Romeu Tuma Jr..
    Uma outra figura que merece uma detalhada e comprovada análise é o “ícone” Che Guevara, tido por herói inconteste para muitos !
    Novamente parabéns !

    • Bertone Sousa 06/01/2014 / 11:56

      Waldo, obrigado. De fato, é uma prática dessas organizações a tentativa de cooptação de militantes ou lideranças importantes para colaboração. Abs.

  2. Veloso mike 07/01/2014 / 16:10

    Já vi stalinista dizer que Kronstadt era uma contra revolução branca, burguesa. Deu vontade de rir. Kronstadt foi a última revolução realmente comunista. Depois a URSS descambou para algo que eu nem sei dizer do que se tratava

  3. natanielsouza 15/01/2014 / 15:06

    Stalin meteu 3 milhões e 700 mil pessoas na cadeia por crime de “anticomunismo” de 1930 até 1953, inclusive famosos comunistas.
    Executou mais ou menos 700 mil pessoas.
    4 milhões morreram de fome, apesar de não ter sido intencional, mas aconteceu.

    • Bertone Sousa 15/01/2014 / 18:13

      Nataniel, como não foi intencional? Não se adota uma política sistemática de confisco de grãos de um país sem se esperar que as pessoas morram de fome. Além do mais, Moscou sabia a tragédia humanitária que estava causando, mas não deu importância à quantidade de vítimas.

  4. Grasso 05/02/2014 / 17:39

    Professor,o senhor já teve contato com a crítica trotskista acerca do cárater do Estado soviético?Se sim qual sua opinião?

    • Bertone Sousa 05/02/2014 / 21:04

      Grasso, li a Revolução Desfigurada. Dá pra perceber que Trotsky era mais intelectual do que propriamente um estadista e Stálin o oposto. Isso, naturalmente, terminou beneficiando Stálin na sucessão de Lênin, mas por seu perfil intelectual e, principalmente, por seu entendimento do marxismo, a meu ver as críticas de Trotsky foram agudas e certeiras.

  5. Elizeu Josias DE Souza 05/02/2014 / 19:13

    Professor, excelente texto, também magnífico o artigo do historiador francês. A leitura me fez recordar ‘’Os sete chefes do império soviético’’ de Dmitri Volkogonov para o qual todos os excessos do Stalin decorrem do próprio leninismo e não de desvio doutrinal.

  6. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 21/08/2015 / 22:01

    Muito bom o artigo,excelente professor!Que Stalin foi genocida,não há dúvidas,por mais que alguns militantes fanáticos o tentem reabilitar,mas o senhor acha que as ações de Stalin que destruíram a Revolução Russa?Ou o sistema já nasceu fadado a um fracasso,devido a um autoritarismo já existente em Lenin,ou em Trotsky,que mandou matar marinheiros?E posteriormente a Stalin,com Kruschev,Brejnev,Gorbatchov,as repressões continuaram,não é?

  7. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 21/08/2015 / 22:07

    Uma dúvida que tenho,Trotsky foi ministro de Lenin,exerceu algum cargo durante seu governo?Porque ele possuía alguma autoridade durante esse governo não,porque na ocasião de uma revolta de marinheiros,este a reprimiu!

  8. Mateus Roger 07/06/2016 / 21:17

    Professor, falando em Tocqueville, quero ler seu livro “Da democracia na América” e gostaria de saber 2 coisas:
    1-A linguagem é muito rebuscada? Humanas ainda não são a minha área de estudo e queria saber se esse é um livro que teria de ler com um dicionário na mão para entender.
    2-O livro possui valor como bibliografia histórica? Enriqueceria meu conhecimento na área?

    Desde já agradeço a resposta.

  9. Mateus Roger 07/06/2016 / 21:56

    Aliás, faço essas mesmas perguntas sobre os livros “o caminho da servidão” de Hayek e “casa grande e senzala” de Gilberto Freyre.

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