Resposta a Olavo de Carvalho – Parte II

No segundo texto que escreveu sobre mim no Mídia sem Máscara, em resposta a minhas considerações sobre a participação americana no golpe de 1964, Olavo de Carvalho limitou-se a repetir basicamente os mesmos argumentos sem apresentar nenhuma fonte nova que corrobore sua tese. Ele também diz que responde a meus textos pela importância que dá aos temas, não à minha pessoa. Seria um caso de auto-engano ou mentira deslavada? O que importa é sua demonstração de incômodo e enervação por eu ter mostrado equívocos de algumas de suas argumentações históricas. Ele começa dizendo que me atrapalhei e fiquei nervoso. Contudo, tenho mais razão para pensar que o sr. Olavo é quem de fato está nervoso. Sua tréplica está eivada de termos em caixa alta, algo que raramente ele faz. É de conhecimento geral que escrever com letras maiúsculas na internet equivale a gritar. Isso, sim, denota nervosismo. Ao lermos a resposta de Olavo não é difícil percebermos as razões pelas quais ele estava enervado. Vou elencar algumas:

1. Ao final de seu primeiro texto, ele diz que não pesquisei “nem mesmo em livros”. Depois de mostrar-lhe as referências bibliográficas que confirmam minhas afirmações, ele sequer teve a decência de retratar-se. Ao contrário, ao ser surpreendido, agiu como se nada tivesse acontecido tentando sair pelas tangentes.

2. No primeiro texto, ele nega que a CIA tenha financiado órgãos de oposição a Goulart. No segundo, ele já admite que o IBAD e o IPES receberam ajuda financeira da CIA. Olavo disse que o montante total de 12 bilhões de dólares usados por essas entidades foi pura invenção minha. Quando indiquei o livro e a página, ele tergiversa sem saber o que dizer. E detalhe: a obra organizada por Maria Yedda Linhares já está na nona edição. Se o autor do capítulo tivesse errado a cifra, certamente teria sido corrigida em edições anteriores.

3. O terceiro ponto é gesto de desonestidade intelectual: ele diz que atribuí o valor de 12 bilhões de dólares a uma abordagem de Bóris Fausto. Mentira. Se o leitor conferir meu texto “A Confusão mental dos seguidores de Olavo de Carvalho” verá que eu disse “segundo o mesmo autor que citei […]”. Nos parágrafos anteriores eu havia citado Evaldo Vieira, Boris Fausto e Francisco Carlos Teixeira da Silva, sendo este último a fonte da informação. Acontece que ele não leu nenhum dos três e tirou sua própria conclusão errada atribuindo tal erro a mim.

José Ênio Casalecchi, no livro “O Brasil de 1945 ao golpe militar” (editora Contexto, p. 102) afirma que a unidade IPES/IBAD recebia contribuições de 297 corporações norte-americanas além da CIA. Com tanto financiamento, não é de estranhar que um montante de 12 bilhões de dólares tenha sido movimentado pela organização. Basta termos uma ideia de sua função para entendermos que, do ponto de vista de seus financiadores, o investimento era justificável: a unidade era responsável por desarticular organizações de trabalhadores urbanos e rurais, o movimento estudantil, mobilizar as classes médias e a alta oficialidade na oposição ao governo e promover campanhas na imprensa e por meio da ação de variados grupos  como a Frente da Juventude Democrática, Campanha da Mulher pela Democracia e Movimento Sindical Democrático. Casalecchi também diz que só a campanha para a renovação do Congresso em 1962 envolveu milhões de dólares para garantir a vitória da maioria conservadora. Ora, com tanto dinheiro norte-americano entrando no país pra desmobilizar o governo, Olavo de Carvalho se preocupa com o apoio de Cuba à guerrilha. Ele não conhece absolutamente nada do que se escreve no Brasil a respeito a ainda atribui tudo isso à minha imaginação. O homem é burrão, canta de galo, faz pinta de autoridade no assunto, mas não sabe nada a respeito. Ele diz que o IPES/IBAD não participou do golpe, mas escamoteia todas essas ações que contribuíram para desestabilizar o governo e criar as condições favoráveis ao golpe. Olavo de Carvalho quase fica louco porque Teixeira mencionou o valor de 12 bilhões de dólares. Será que agora ele também vai dizer que Casalecchi está mentindo sobre as contribuições de 297 corporações norte-americanas?

4. Olavo me acusa de não saber confrontar fontes. Na verdade, ele toma as memórias de um ex agente por definitivas, sem se preocupar se este apresenta ou não evidências conclusivas de suas afirmações. Se Bittman afirma que tudo não passou de uma conspiração do serviço secreto soviético, então onde estão as provas desse engodo? Além disso, Olavo acha que ele não falou à imprensa brasileira porque não foi convidado. É possível que ele considere a razão disso o fato de nossa imprensa ser “comunista”. Mas Bittman não foi o único a negar a participação americana no golpe. O brasilianista Thomas Skidmore também negou em seu livro “Brasil: de Getúlio a Castelo”. Ele reproduz falas de Gordon e do secretário de Estado americano, após o golpe no Brasil, em que negam qualquer envolvimento dos Estados Unidos e da CIA nos eventos. Nesse aspecto, Skidmore se enganou como voltarei a demonstrar adiante.

Vamos agora aos outros pontos de sua argumentação:

Cuba estava espalhando guerrilhas por toda a América Latina. Apoiá-la não era simplesmente alinhar-se a uma ideologia, mas tornar-se cúmplice de uma agressão militar. A diferença obviamente escapa ao sr. Bertone.

Olavo de Carvalho tem uma tendência impressionante de omitir informações históricas. Eu mesmo já havia explicado no texto “A Confusão mental dos seguidores de Olavo de Carvalho” como a concentração fundiária entravava o crescimento econômico no Brasil. Na ocasião, escrevi o seguinte: “Para que o leitor tenha uma ideia do tamanho da concentração fundiária, segundo Francisco Carlos Teixeira da Silva apenas 31% das terras do país eram efetivamente ocupadas. As terras com mais de 1.000 hectares de área ocupavam 47,3% do total, contribuindo com apenas 11,5% da produção e tendo em cultivo apenas 2,3% do total de suas áreas, ou seja, a maior parte eram improdutivas. Em 1963 o governo promulga o Estatuto do Trabalhador Rural, que previa pagamento de salário mínimo e jornada de trabalho de oito horas aos camponeses. O resultado foi a expulsão em massa de trabalhadores pelo fato de seus patrões recusarem-se a cumprir a legislação. Em novembro de 64, os militares criaram em substituição o Estatuto da Terra que nunca saiu do papel e nem era uma proposta concreta de reforma agrária”.

Num contexto marcado por tensões sociais tão intensas, a guerrilha se justificava por uma necessidade premente de reforma agrária. Ora, se os próprios latifundiários se recusavam a cumprir a legislação que regulamentava a jornada dos trabalhadores rurais, não havia outra alternativa a não ser a luta armada. A própria legislação já foi resultado, em parte, de pressões sociais das ligas camponesas. Em meados de março de 1964, o governo também enviou ao Congresso um projeto amplo de reforma agrária que não chegou a ser votado.

As Ligas Camponesas não começaram como movimentos de resistência armada, mas, para usar as palavras de José Ênio Casalecchi (O Brasil de 1945 ao Golpe Militar. Editora Contexto, p. 98), como “uma organização legal e pacífica de trabalhadores rurais”. Somente a partir de 1962, a ação armada passa a ser adotada.

Esses embates somente podem ser bem compreendidos se também se levar em conta o conceito e a importância do projeto nacional-desenvolvimentista que se esboçou a partir dos anos 1950, marcado por intensa transição do mundo rural ao urbano em decorrência do processo de industrialização. Nesse contexto, a problemática de determinados grupos sociais emergiu como uma questão nacional. A dos trabalhadores rurais foi uma delas. Durante todo esse período democrático, vários projetos de reforma agrária foram feitos sem que nenhum fosse votado. Nos anos 60 essas tensões chegaram ao auge porque o movimento sindical também ampliou suas ações na expectativa de mudanças estruturais e embalados por iniciativas nacionalistas do governo.

Os erros do governo de João Goulart para estabilizar a economia e promover reformas sociais também repercutiram negativamente na relação externa com os Estados Unidos, especialmente a partir de meados de 1963. No início de 1964 o governo americano já previa um direcionamento mais à esquerda por parte de Goulart e preocupava-se com o que considerava como “infiltração esquerdista” no regime. Por isso, uma das primeiras ações foi suspender a assistência financeira ao governo. Gordon e o secretário de Estado americano Rusk já falavam abertamente numa solução peronista que poderia ser dada aos problemas políticos do país. Washington monitorava passo a passo as ações do governo brasileiro. O próprio Thomas Skidmore transcreveu em seu livro trechos de falas de Gordon onde ele aponta para um auxílio militar norte-americano aos golpistas em caso de guerra civil. A intervenção era uma possibilidade iminente e havia sido negociada com os militares e não uma mera conspiração da KGB.

Depois, Olavo escreve o seguinte:

Não, não converge. O que Amorim diz é que “por uma questão meramente cronológica, a Operação Brother Sam, deflagrada em 31 de março de 1964, nada teve a ver com o golpe contra o governo Jango”. O que os documentos provam é que: (1) O golpe foi preparado durante mais de um ano, e os americanos não tiveram a menor participação nisso. (2) Nos quatro últimos dias antes do golpe, o embaixador Lincoln Gordon avisou ao presidente Johnson que algo estava para acontecer e que era preciso improvisar, numa pressa louca, alguma ação militar americana para o caso de um agravamento da situação. (3) Essa ação militar não chegou a ser realizada. O golpe transcorreu, pois, SEM NENHUMA INTERVENÇÃO AMERICANA. Só se poderia falar de participação dos americanos NA PREPARAÇÃO DO GOLPE se a vinda da frota tivesse sido tramada entre o embaixador e os golpistas AO LONGO dessa preparação. O que se viu, ao contrário, foi que o embaixador, surpreendido pelo desenrolar dos acontecimentos de cuja preparação não havia participado de maneira alguma, tentou no último instante improvisar alguma ação americana, que não se realizou. Será difícil perceber a diferença entre alguém tomar parte na preparação de um golpe e tentar entrar no jogo na última hora, quando sua presença já nem é mais necessária?

O que ele está dizendo que não converge é minha citação de Bóris Fausto com a de Vitor Amorim. Mas aqui ele está distorcendo minhas palavras. O que eu disse foi que os dois autores mencionam a autorização do governo americano para fornecimento de material de guerra para uma eventual intervenção. E ainda vou citar mais uma referência, novamente a obra de Casalecchi, “O Brasil de 1945 ao golpe militar”, página 108:

Antes mesmo que Goulart deixasse o país e o general Castelo Branco tomasse posse, em 11 de abril, Lyndon Jhonson, presidente dos Estados Unidos, saudava o novo governo brasileiro. A presença norte-americana nas articulações golpistas era efetiva. A operação Brothher Sam deveria, caso necessário, oferecer apoio material, logístico e militar aos golpistas. Contrariando as previsões da CIA, que acompanhava passo a passo o governo Goulart, não houve “guerra civil”, para alegria do embaixador norte-americano Lincoln Gordon:

“Vocês fizeram uma coisa formidável! Essa revolução sem sangue e tão rápida! E com isso pouparam uma situação que seria profundamente desagradável [sic] e de consequências imprevisíveis no futuro de nossas relações; vocês evitaram que tivéssemos que intervir no conflito”. [grifos meus]

Se os diálogos Johnson-Gordon foram apenas conspiração da KGB segundo o sr. Olavo, por que então Gordon saúda o novo governo afirmando que eles pouparam o Brasil de uma intervenção militar? E eu é que sou acusado por este senhor de não confrontar fontes. Olavo simplesmente calou acerca do assunto do fornecimento de material bélico, que prova a preparação do governo americano para o golpe.  Mais adiante ele escreve:

Em estudo recente (“Requiem for Revolution, The United States and Brazil, 1961-1969”), a historiadora americana Ruth Leacock afirma taxativamente que a entidade jamais dependeu de dinheiro americano, pois havia anticomunismo suficiente entre os empresários nacionais na ocasião.

Sim, havia. Mas ou a autora ou Olavo esqueceu de mencionar que os empresários temiam a ameaça comunista que consideravam maior. Até mesmo Thomas Skidmore disse algo mais relevante a respeito (“Brasil: de Castelo a Tancredo”, p. 22):

Os conspiradores sustentavam ideias marcadamente anticomunistas desenvolvidas na ESG (Escola Superior de Guerra), segundo o modelo do National War College dos Estados Unidos. […] Da doutrina ali ensinada constava a teoria da “guerra interna” introduzida pelos militares no Brasil por influência da Revolução Cubana. Segundo essa teoria, a principal ameaça vinha não da invasão externa, mas dos sindicatos trabalhistas de esquerda, dos intelectuais, das organizações de trabalhadores rurais, do clero e dos estudantes e professores universitários. Todas essas categorias representavam séria ameaça para o país e por isso teriam que ser todas elas neutralizadas ou extirpadas através de ações decisivas.

Mas essa paranoia dos militares não se adequava à conjuntura social. O governo Goulart começava a perder apoio popular, o PIB era fraco, a inflação alta e ainda fazia concessões à direita. O governo possuía minoria no Congresso e as Ligas Camponesas o pressionavam por outro lado. Mas o investimento americano e a intenção de uma intervenção militar é um ponto praticamente inconteste na historiografia nacional.

Olavo poderia ao menos ter a nobre atitude de reconhecer que está errado e não conhece absolutamente nada do que se produz no Brasil acerca dessa questão, nem mesmo os materiais mais recentes. Ao invés disso, ele repete os mesmos jargões pra não dar o braço a torcer e continua agindo como uma puta contrariada chamando “burro”, “analfabeto” e todo o seu vocabulário de cabaré, como se isso tivesse alguma força argumentativa.

Leia também: 

Resposta a Olavo de Carvalho

Resposta a Olavo de Carvalho – parte III

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19 thoughts on “Resposta a Olavo de Carvalho – Parte II

  1. Ricardo Lira 01/11/2013 / 17:42

    Professor, congratulo-o por replicar a Olavo de Carvalho. Sei que não é uma tarefa fácil nem agradável, em face da grande habilidade dele em tecer argumentos cujas lacunas não são facilmente perceptíveis, e do tom agressivo que o caracteriza. No entanto, como ele se tornou um formador de opinião entre muitos jovens, é mister que seja contestado e todos possam enxergar os múltiplos aspectos das ideias que ele prega. Omitir ou adaptar evidências para que elas confirmem uma ideia pré-concebida parece-me perigoso. Pode servir a qualquer ideologia. Ninguém é proprietário da verdade. Assim, é apropriado que as afirmações históricas dele – algumas insólitas! – sejam escrutinadas por um professor. Olavo certamente não tardará a fazer uma tréplica. Sinceramente, espero que os debates continuem. O público só tem a ganhar com isso.

  2. Ricardo Lira 02/11/2013 / 7:06

    Professor, o Sr. Olavo fez sua tréplica. Ela se encontra em:

    • Bertone Sousa 02/11/2013 / 10:43

      Ricardo, curioso é que dessa vez ele se esquivou completamente de discutir bibliografias e mandou a discussão história pro beleléu (parece que seu repertório teórico sobre o assunto esgotou), para desviar a atenção para mais ataques pessoais e ainda se fazer de vítima como se toda a calúnia na discussão não partisse dele.

  3. mendesx 02/11/2013 / 11:55

    Bertone,
    é preciso ser muito palerma para negar o apoio dos EUA aos golpes e às ditaduras militares implantadas na América Latina, especialmente no Brasil, durante a Guerra Fria. Esse Olavo de Carvalho é aquele tipo de maluco que, de tão medonho, chega a reunir seguidores devotados. Pelo que tenho visto, o sujeito é acometido de paranóia que o faz enxergar em tudo uma conspiração mundial comunista, patrocinada por entidades tão díspares como a Rede Globo, os gays, a fundação Ford, as feministas, o PT, os antitabagistas, os muçulmanos, além do Barack Obama. Certamente você não levará esclarecimento a uma criatura como essa, porque o caso não é limitado à ignorância. Mas as suas respostas ajudam a desfazer os sofismas e as mentiras que ele engendra, propagadas depois pelos seguidores furiosos. Parabéns mais uma vez. Abraço.

  4. Odonato Alkohol 02/11/2013 / 22:40

    Boa noite Professor. Primeiro, parabéns pelo blog e pela coragem em enfrentar este embuste. Se me permite uma sugestão, creio que você deveria insistir nos termos absolutamente a-históricos do discurso de OC, que inclusive já provou que não sabe nada de história e de teoria da história. Se você reparar bem, a versão dele para a história do século XX não é outra coisa além do discurso ideológico da Guerra Fria. O problema é que nem nas universidades estadunidenses se pode sustentar a sério isto. Em geral, o que ele faz é indução. Ele sempre chega à mesma conclusão, à qual ele volta a partir de cada dado particular: a malévolo plano da esquerda pra dominar o mundo e acabar com a civilização “judaico-cristã-ocidental”. Tudo o que corrobora esta tese é verdade e está bem documentado, não importa que seja apenas um frágil depoimento (veja que nem a heurística básica da documentação ele sabe fazer), ou que seja um dos poucos temas de consenso entre pesquisadores que divergem na maioria dos casos (como é o caso em ciências humanas). O que não corrobora a tese só pode ser “do capeta”, financiado pelo mal, fruto de ignorância ou de burrice. Não existe “divergência” na verdade para OC, pois o mundo foi criado por deus e é perfeitamente harmônico. Só os demoníacos não querem enxergar isto.

    O discurso do OC não pode ser falseado, pois é uma meta-narrativa (no sentido em que o W. Walsh, por exemplo, afirma), esta fora da história e não pode ser formulado a partir de construções históricas concretas. OC já sabe a verdade histórica antes de se colocar a investigar qualquer assunto, ele apenas confirma o que já sabia antes. Por isto, o reverso da lógica indutiva e argumentação através de exemplos. Ele seleciona aqui e ali o que confirma o que ele acredita. Mesmo que esta seleção precise falsear o contexto.

    Achei que você “matou a pau” com isto das Ligas Camponesas. Nunca houve ameaça séria de “golpe comunista” no Brasil, qualquer um que estude a sério nossa história sabe disso. Ele repete novamente o discurso ideológico. Penso no Brasil pré-64 mais ou menos como no Chile pré-Pinochet. Era um momento único de participação popular na política, de trabalhadores lutando por seus direitos. Os golpes arrasaram com isso. Foram regimes não apenas sanguinários, mas que permitiram um tipo de industrialização perversa e concentradora de renda. A alternativa não era o comunismo, penso que os dois países se encaminhavam pra algo mais próximo à social-democracia escandinava (que OC também odeia)… nunca saberemos. Quando você apontou para o contexto histórico, deixou ele com as “calças na mão”. Ele não sabe nada sobre contextos. Sabe alguns fatos de cabeça. É absolutamente incapaz de discutir uma questão como, por exemplo, as “possibilidades de crescimento do comunismo no interior do nordeste”, onde supostamente estava em marcha o “golpe”. Aqui está outro dos traços do pensamento dele. A ideia de “alta cultura” e “baixa cultura” (ou plebe, se vc preferir). Ele pensa (um olavete me disso, e me parece coerente com o pensamento dele) que se vc “largasse” uns comunistas no meio da gente pobre do nordeste, eles automaticamente teriam virado “guerrilheiros”, pois eram um bando de analfabetos e incultos. Seriam todos enganados. Ele não sabe absolutamente nada sobre cultura popular (desconfio que nunca leu um livro de história cultural).

    Por fim, achei a cifra de 12 bilhões muito alta. É provável que se refira ao fundo disponível para projetos no Brasil, ou algo assim. Mas de valor transferido para cá tenho certeza que está errado, pois é uma movimentação muito grande para a época. Agora, uma citação pra corroborar as muitas que você já juntou, é do Clodoaldo Bueno, no livro dele com o Amado Cervo, dois especialistas em história da política externa brasileira: “Não existem provas quanto à participação do governo norte-americano nos acontecimentos que puseram fim ao mandato de Goulart, em março/abril de 1964. Mas não há dúvida de que acompanhou todo o desenrolar da crise, que estava alinhado aos conspiradores e – o mais importante – que organizou uma força-tarefa para atuar nas águas brasileiras com a finalidade de dar apoio aos revoltosos, fornecendo-lhes armas, munições, combustíveis e lubrificantes, se necessário. Não se previa desembarque. A operação preventiva, chamada de Brother Sam, foi cancelada em 3 de abril de 1964, quando seus navios se encontravam no Caribe, sem qualquer atuação, em razão da maneira rápida com que a crise teve seu desfecho. Mesmo contando com a simpatia e eventual apoio dos EUA, o movimento armado que depôs Goulart foi exclusivamente brasileiro. (…) Outro aspecto a salientar é a ajuda dos Estados Unidos a governadores estaduais e a prefeituras no período imediatamente anterior a 31 de março. Além disso, houve, também, auxílio a projetos específicos, como às polícias e ao Exército. (…) A ajuda econômica, assim, favoreceu forças opositoras a Goulart. Parker, aliás, afirma que a ‘assistência econômica é um dos instrumentos mais importantes da políticas externa dos Estados Unidos’. A influências destes sobre os acontecimentos políticos no Brasil no período de 1962-64 exerceu-se, sobretudo, na manipulação da assistência econômica como instrumento de política externa” (pp. 361-362, História da Política Exterior do Brasil, Ed. UnB, 2002).

    Abraço.

  5. Robson La Luna Di Cola 02/11/2013 / 22:56

    Bertone, sou membro da direita raivosa. Acho que o grande erro do golpe de 1964 foi não ter mandado para o oceano (as famosas viagens de helicóptero) toda a esquerda brasileira, inclusive a intelectal) Hoje, seríamos um país muito melhor. Sobre seus textos: tolos…

    • Bertone Sousa 03/11/2013 / 0:29

      Robson, você não é membro de direita nenhuma, você é só uma besta quadrada.

  6. Virgínia Celeste 02/11/2013 / 23:23

    estava eu longe das leituras de blog, quando volto me deparo com essa discussão! não espere uma “nobre” atitude de um cidadão tão raso!

  7. Edy Knopfler 03/11/2013 / 3:25

    Olavo de Carvalho comete um erro histórico básico: sorvete se toma pela boca.

  8. Carlos Eduardo 08/12/2013 / 12:59

    Estou lendo pausadamente e com calma e só posso dizer uma coisa, até aqui : Você destruiu completamente o astrólogo que quer se passar por filósofo.

    Claro, a pessoa infectada pelo vírus Olavo de Carvalho, não sonsegue enxergar isto. Este vírus, depois que chega ao cérebro, causa danos tremendos à vítima.

    • Bertone Sousa 08/12/2013 / 18:05

      Carlos, passe adiante. É importante que as pessoas vejam (não as que já foram envenenadas, é claro, mas outras que não foram e podem ser ensinadas) que o astrólogo distorce deliberadamente a história pra se promover como arauto de verdades que ele acha que todos ignoram.

  9. Evanuel Ferreira Silva 17/12/2013 / 18:54

    Bertone,
    Sou aluno do curso de Direito da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Estou acompanhando atentamente o embate entre você e Olavo de Carvalho, e percebo que você tem se esforçado – ao contrário do Olavo – por manter o debate na esfera da História. A cada linha que leio percebo o quão perdido está o Olavo. Esta é a segunda vez, que eu saiba, que alguém o confronta de verdade, o que mostra que toda aquela sapiência que ele se diz ter na verdade não passa de uma farsa. Se você puder, tente acompanhar um debate travado há alguns anos atrás entre Olavo e o professor Orlando Fedeli (http://www.montfort.org.br/). Talvez não seja a sua temática favorita, no entanto, mostra mais um momento em que o Olavo é moído.

    A julgar pela última intervenção do Olavo nesse debate, penso que você o cansou, pois o último texto produzido por ele é pequeno e disperso, para mim isso diz algo.

    • Bertone Sousa 17/12/2013 / 19:40

      Emanuel, na verdade não me surpreendi com a reação rasteira dele porque já esperava isso, só não imaginava que ele fosse apelar tão rápido, principalmente porque na primeira resposta deu a entender que ele iria discutir outros pontos do texto. Mas ele se perdeu no primeiro tema e teve de mudar completamente o foco do assunto. Ele na verdade debate com a intenção de querer esmagar adversários, quando essa estratégia falha ele se apega a pontos secundários ou mesmo externos ao debate para acusar o outro.

  10. Roberto 20/03/2014 / 3:10

    Sempre fui de esquerda e votei na esquerda. Mas acho que o seu texto ficou contaminado quando você coloca a cifra de 12 bilhões de dólares para aquela época. Isso corresponderia, hoje, a algo entorno de 150 bilhões de dólares. E claro que houve participação dos EUA, mas esse valor é só ser uma invenção da sua fonte. Por outro lado, parece-me que tb já está provado a participação da KGB nos eventos anteriores ao golpe. Recentemente foram abertos os arquivos do serviço de espionagem da Checoslováquia. Acessível para qualquer um via internet. Como falo tcheco, pois morei 6 anos lá, um amigo me pediu para traduzir alguns documentos relacionados ao Brasil e América latina. Assim, a quantidade é enorme. O pouco que traduzir deu perceber que a KGB já atuava intensamente no Brasil desde 1960. Há referências a políticos, imprensa, guerrilha etc.

    • Bertone Sousa 20/03/2014 / 13:30

      Roberto, ninguém está argumentando com base em quem vota na esquerda ou quem não vota na esquerda. O problema de algumas pessoas é que elas pensam que todo mundo é monomaníaco como elas. Todo mundo sabe que a KGB atuava na América Latina no contexto da Guerra Fria. A questão que você não entendeu é que a tese de uma intervenção militar dos Estados Unidos no Brasil não é conspiração e a historiografia nacional que fala sobre o tema expõe isso com muita clareza como eu citei neste e no outro texto. Eu citei vários autores aqui que desmentem a tese de conspiração da KGB. O Elio Gaspari que também tem se dedicado intensamente ao estudo do período, postou em seu site um documento que prova que ainda no governo de Kennedy a intervenção militar norte-americana para depor Jango já havia sido cogitada:

      http://arquivosdaditadura.com.br/documento/multimidia/pouco-antes-seu-assassinato-kennedy

      • Roberto 21/03/2014 / 3:42

        Professor, nunca tive dúvidas da influência americana no golpe de 64. Só acho que ela se deu mais no plano diretivo intelectual do que de outras formas. O artigo do Elio Gaspari confirma um pouco isso. O texto fala que eles estavam cogitando, “mas que não foi preciso oferecer mais do que apoio diplomático”. Ou seja, segundo o texto, eles não participaram tão diretamente assim. E os tais 15 bilhões de dólares (mais que 100 bilhões em valores de hoje)? Onde teriam sido gastos? Com esse valor acho que dava pra transformar o país numa potência militar. Mas, pelo que sei, não era isso o que se via. O Chile, sim, foi transformado numa potência militar com ajuda dos ingleses. Talvez, se tivesse ocorrido confrontos militares importantes, os EUA teriam participado mais efetivamente, com dinheiro e armas. A questão, no meu entender, é que dois fatores favoreceram a realização do golpe, sem necessidade de uma ajuda material substancial dos EUA: (i)falta de uma oposição efetiva ao golpe entre os próprios militares (com exceção de alguns grupos esporádicos, verdadeiros heróis) e (ii) a omissão, quando não muito, a conivência por parte da grande massa da população. Nesse panorama, eventual ajuda dos EUA não seria tão fundamental assim. Aliás, essa é uma questão que eu gostaria de saber a sua opinião? Para que os militares precisariam de mais ajuda do EUA se todas as condições para o golpe estavam ali? Isso não quer dizer que os EUA não interviriam militarmente no Brasil se eles achassem que havia chances de uma nova revolução, tipo cubana, no Brasil ou América latina. Eu não tenho a menor dúvida disso. Aliás, acho que é essa mais ou menos a linha do artigo do Elio Gaspari. Os americanos tinham conhecimento da participação do SBT tcheco no Brasil, mas, de certa forma, confiavam que os militares brasileiros resolveriam. Há até um documento do SBT que eles fazem referência a suposta dificuldade de se infiltrarem dentro das forças armadas no Brasil. O documento, em si, consta como destruído nós arquivos do ministério, de forma que não da pra saber muitos detalhes dessa tentativa. Gostaria de ter tempo pra poder ler e estudar mais esses documentos do arquivo da SBT. Mas acho que aquilo é um trabalho pra profissionais e eu sou apenas um engenheiro de formação, que tem conhecimento na língua tcheca pelo fato de já ter morado lá na década de 90. Por outro lado, também deve ter muito documento do lado americano a respeito dessa época no Brasil que os EUA não mostram. Em matéria de guerra fria não tem ninguém bobo. No mais, gostaria de parabenizar-lo pelo seu excelente artigos a respeito da questão Cubana (o investimento brasileiro no porto e programa mais médicos) e vários outros que eu li.
        Ps. Meu interesse nessa questão tem haver com questões pessoais familiares. Afinal, eu acabei nascendo no exterior e passando boa parte da minha infância lá por causa do golpe. Por isso tenho pavor a qualquer tipo de ditadura.

      • Bertone Sousa 21/03/2014 / 13:27

        Roberto, essas questões que você levantou foi o que eu discuti nos textos: o apoio militar foi oferecido e o material disponibilizado para o exército brasileiro mas não foi utilizado por falta de resistência ao golpe. O link do Gaspari também confirma isso, como você entendeu. Foi por isso que o embaixador Lincoln Gordon disse ao novo governo que eles evitaram que os Estados Unidos tivessem que intervir no conflito. Minha discussão com Olavo foi por ele ter negado inclusive que esse apoio foi colocado à disposição. Leia novamente esse texto que você entenderá melhor, até mesmo a questão dos 12 bilhões de dólares. Esse dinheiro não dado ao Brasil, foi investido por quase 300 empresas norte-americanas somado a outras ações para renovação do congresso nacional, como falei no texto. E como eu disse, se a cifra estivesse errada, certamente teria sido corrigida em edições posteriores no livro, que já passou da nona edição revista e atualizada. Olavo não apresentou nenhum argumento que provasse algo diferente, apenas o blefe de que a cifra é impossível porque ele acha que é. Embora o foco da discussão tenha sido o assunto do apoio norte-americano, esse não foi o fator determinante para o êxito do golpe. Se você tem pavor de ditaduras, seja de direita ou de esquerda, então estamos do mesmo lado. Não é o caso dessas pessoas que querem outro golpe militar. Eu que agradeço pelo elogio e pela contribuição.

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