Teorias de conspiração: usos e abusos

illuminatiEm um ensaio sobre Escatologia, o historiador francês Jacques Le Goff disse que a proliferação de teorias sobre o fim do mundo (ou dos tempos) é resultado de uma história que não domina mais o futuro. Ele faz alusão às filosofias da história que, a partir de Hegel, adquiriram um sentido de apreensão do significado da história universal. As filosofias da história se desenvolveram no século 19 e são herdeiras do racionalismo iluminista, em que o passado caracterizado pela superstição religiosa e a ignorância seria suplantado, no futuro, pela ciência e sua capacidade crescente de aperfeiçoamento das habilidades humanas. O enredo da história deveria culminar com a liberdade humana e, para pensadores como Hegel e Fichte, essa liberdade estava vinculada ao Estado. Hegel desenvolveu uma concepção de história calcada em leis gerais e continuada, com nuances diferentes, pela tradição idealista alemã, o materialismo histórico de Marx e Engels e o Positivismo.

O século 20 iniciou com esse otimismo acerca do futuro da humanidade e terminou com boa parte dela cética e aterrorizada com as consequências pra lá de catastróficas que o marcaram. Acontecimentos de repercussões tão fortes e dramáticas como as guerras mundiais, a eugenia, a grande crise de 1929, o Holocausto, a hecatombe nuclear e da Guerra Fria, os conflitos étnicos e religiosos, as imagens de milhares de pessoas esquálidas na África esperando a morte, a concentração de renda, o fracasso do comunismo… Fatos que em um período relativamente curto de tempo redefiniram a história humana e de nações inteiras e permitiram que as mais variadas interpretações apocalípticas ganhassem forma e adeptos através de inúmeras seitas. Afinal, se as ideologias seculares não cumpriram o que prometeram, a despeito do avanço estrepitoso da ciência, restou às religiões proporem outras narrativas, ou velhas narrativas sob novas roupagens. Não que o apocalipsismo seja apanágio de nossa época, sua origem remonta à Antiguidade e durante toda a Idade Média e Moderna esteve presente de formas distintas no imaginário ocidental.

Mas em nossa época o advento da internet pôs em evidência outros enredos: as teorias de conspiração. É possível encontrar tais teorias nos mais variados campos, mas seu atrelamento a posturas religiosas fundamentalistas é o principal. Isso ocorre porque os fundamentalistas fazem leituras literais e descontextualizadas de seus livros sagrados e vasculham na história tudo o que, em suas mentes, possa ter alguma relação com o cumprimento de profecias. Em nossa época, alguns religiosos escolheram sociedades secretas como bodes expiatórios para denunciá-las como grupos que urdem planos mirabolantes contra a religião, a família, a moral e até mesmo o Estado-nação.

Conspirações sempre fizeram parte da história. Júlio César e Jesus Cristo foram vítimas delas em seu tempo; as grandes revoluções da era moderna foram urdidas como conspirações contra governos estabelecidos. Em nosso dia-dia, costumamos conspirar contra outras pessoas ou grupos. Sociedades secretas se desenvolveram na era moderna como forma de escapar à perseguição da Igreja e cultivavam uma mescla de pensamento científico e esotérico para distinguir-se dos não iniciados, das massas ignorantes. Sabemos que exerceram influência decisiva sobre os principais acontecimentos mundiais da era contemporânea: o Iluminismo, a Revolução Francesa, a independência norte-americana, a independência dos países latino-americanos. Consideradas erroneamente como “anti-cristãs”, essas sociedades secretas se opuseram à Igreja Católica e à hegemonia ideológica que exerceu sobre o Ocidente até o final do século 18. A história recente está repleta de eventos em que teorias conspiratórias foram evocadas: o assassinato de Kennedy, a morte de Marilyn Monroe, os atentados do 11 de setembro ou supostas evidências de visitas alienígenas. Um fato é que essas teorias possuem inúmeras ramificações independentes entre si, de segmentos cristãos fundamentalistas a caçadores de OVNI’s e crentes em teorias de antigos astronautas.

Sociedades secretas também não são apanágio apenas da modernidade. Existiram em toda a história. Ritos de iniciação e mistérios já eram características marcantes em antigas religiões. Mas quem pretender realizar um estudo histórico da atuação de algumas delas na era moderna encontrará um grande obstáculo: a escassez de fontes e de bibliografia, especialmente em língua portuguesa. Na internet é possível encontrar inúmeros sites e vídeos, mas quase sempre de caráter denuncista, sensacionalista e a partir de uma visão religiosa. Uma vez comprei em uma livraria Saraiva o livro “Sociedades Secretas” de Sylvia Browne. Como estava plastificado e não conhecia a autora, pensei tratar-se de um manual histórico. Ao abri-lo, percebi que a autora escreveu toda a obra baseada em informações fornecidas por Francine, que ela identifica como um espírito-guia que viveu há centenas de anos.

As teorias conspiratórias podem estar associadas a visões apocalípticas de determinados segmentos religiosos, mas não se resumem a elas. De um modo geral, sua popularidade se deve a alguns fatores básicos: primeiro à falência do projeto revolucionário de esquerda e, em decorrência disso, a impotência e letargia dos partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais como vanguarda de melhorias sociais e trabalhistas, bem como a fragmentação do conceito de classe trabalhadora e sua redução a variados papéis econômicos para agentes transnacionais e impessoais; segundo, o definhamento do Estado como agente promotor de bem-estar ou como árbitro privilegiado nas relações sociais.

Como consequência, o acirramento do individualismo e da competição pelas melhores vagas de emprego tem levado a uma série de efeitos colaterais, como a crise da família nuclear tradicional, o desenvolvimento de distúrbios psicológicos e do consumo de drogas para aliviá-los e ampliação de marginalizados e outros sujeitos sociais descartáveis pela economia de mercado. Aos dois motivos anteriores segue a exposição crescente de símbolos esotéricos ligados a sociedades secretas nos meios de comunicação de massa e na indústria cultural. O desejo e a curiosidade para esquadrinhar poderes ocultos é uma constante na história humana e em nosso tempo tem se propagado de forma rápida graças às tecnologias da informação e difusão da alfabetização. Isso também tem contribuído para alavancar um nicho de mercado crescentemente lucrativo.

Se há algum tempo a indústria cultural se liga ao capitalismo monopolista como promotora de uma sociedade do espetáculo, agora também passa a ser vista como instrumento nas mãos de segmentos anônimos que conspiram para aumentar seu poder político e econômico e cooptam Estados e outros agentes para seus interesses. Terceiro, a publicidade em torno de sociedades secretas nas últimas décadas, como os best-sellers de Dan Brown, também impulsionou a propaganda conspiratória.

As teorias conspiratórias são radicalmente diferentes das teorias sociais revolucionárias sobre os escombros das quais emergiram: se estas enfatizavam o papel proeminente da coletividade como sujeito social consciente de sua função transformadora da história, as teorias conspiratórias são basicamente alarmistas, deterministas e remetem à impotência de qualquer agente individual ou coletivo de alterar o curso dos acontecimentos. Nas teorias sociais revolucionárias, o inimigo tinha nome e rosto, aqui o inimigo é uma espécie de entidade toda-poderosa impessoal, chamados genericamente de “senhores do mundo”, “illuminatis” ou qualquer tipo de fraternidade de ricos e poderosos.

O motivo pelo qual os defensores dessas teorias não propõem alternativas concretas é  simples: são politicamente conservadores e quase sempre vinculados a uma religiosidade radical. Através da internet e explorando um mercado editorial crescentemente lucrativo, os teóricos da conspiração conseguem plateia em um mundo onde a política é desacreditada como lugar privilegiado de ação social. As teorias sociais revolucionárias como o marxismo e o anarquismo são teorias políticas em sua essência; seu definhamento ante o triunfo da economia de mercado globalizada cria um vazio que passa a ser preenchido com outras instâncias, como o conspiracionismo ou, por outro lado, a literatura de autoajuda. No primeiro caso, o ceticismo em relação a teorias revolucionárias conduz a uma crença cega no fabuloso travestido de informação. O segundo caso implica em uma busca narcisista de autoafirmação num mundo competitivo, excludente e crescentemente individualista.

As teorias conspiratórias também revelam um aspecto dramático do inconsciente coletivo: o medo de um poder desconhecido, com amplo controle sobre a ciência e que trabalha clandestinamente para usá-la a seu favor. Comecei o texto mencionando a crença de alguns intelectuais europeus na conjugação do poder transformador da ciência e do Estado para a solução dos problemas humanos. Hoje, muitos se veem amedrontados ante a capacidade de “destruição de mundos” que, desde Oppenheimer, a ciência proporcionou a um grupo seleto. Como adeptos de uma religião, em geral os crentes em enredos de conspiração veem os demais como iludidos e fazem uma salada de escritos que podem abarcar desde a Bíblia até 1984 e qualquer outra fonte que, mesmo descontextualizada, corrobore sua crença.

As pessoas sabem que os governos mentem, conspiram e receiam o quê ou quem eles escondem. Na era da internet, informação é facilmente confundida com desinformação. E nesse aspecto o Brasil também é um caso emblemático: a “nova classe média”, as dezenas de milhões de pessoas que ascenderam socialmente nos últimos anos, em sua maioria não valorizam a cultura erudita e não se enquadram no conceito de classe média como tradicionalmente este grupo era conceituado. A internet proporciona a divulgação de informações que podem fugir aos controles das agências governamentais  e não são divulgadas na mídia tradicional e nem todos sabem lidar com isso. Como não valorizam a cultura erudita, essas pessoas podem se mostrar bastante crédulas com relação a esses jogos de contrainformação. A ciência ainda é jovem e limitada e é fato que não raramente pode ser usada a favor de interesses políticos obscuros. Mas ainda é o principal instrumento de que dispomos para pensarmos o mundo e não nos tornarmos vítimas, nem de seu uso indevido, nem da credulidade cega, ingênua.

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14 thoughts on “Teorias de conspiração: usos e abusos

  1. Mira Santini 21/10/2013 / 12:21

    Caro Bertone. Um dos meus passatempos prediletos nas horas vagas é pesquisar e acessar sitios que exploram as tais teorias conspiratórias, pois para mim é literatura tipo “comédia de realismo fantástico”. Em seu post você destaca muitos deles estão ligados a religiosidade radical, notadamente cristã. Algo compreensível porque a teologia cristã afirma que Cristo voltará, dai o uso e o abuso da Escatologia para fundamentar as mais diversas teorias conspiratórias. Mas não é um fenômeno exclusivo ao misticismo cristão: já encontrei teorias conspiratórias em sitos de comunistas (negando os extermínios praticado em nome do regime chinês e soviético), de nacionalistas portugueses ligados ao paganismo, ao judaísmo místico, ao espiritismo não kardecista, Alguns tem cunho pessimista em relação ao futuro da humanidade e outros são mais otimistas. Enfim, tem para todos os gostos e mentes, menos para uma mente humana dotada de um mínimo de cultura geral e de bom senso.

    • Bertone Sousa 21/10/2013 / 20:11

      Mira, o que acho mais engraçado nesses sites e blogs conspiracionistas é que eles se levam muito a sério. E também já até discuti com alguns desses comunistas que negam os tais extermínios aqui. Mas é verdade, não é um fenômeno apenas cristão e na internet há um variado cardápio self-service de conspirações.

  2. Marco Centeno 21/10/2013 / 15:04

    Perfeita a descrição. Eu acompanho o Alex Jones e é exatamente esse o padrão. Ele mobiliza as pessoas, não para alguma ação política organizada, apenas instiga uma raiva perigosa calcada no fetiche das armas. Toda informação conspiratória é alienante e leva a uma sensação de impotência. No fim das contas terminam num porão esperando o apocalipse com suas espingardas, comida em lata, uma banheira cheia d’água e montes de rolos de papel higiênico.

  3. Philipe Antunes 21/10/2013 / 16:59

    Excelente texto, como sempre. O que o senhor acha de caras como David Icke e Mike Tsarion? Abraço e parabens pelo blog!

    • Bertone Sousa 21/10/2013 / 20:18

      O Icke com seus reptilianos consegue ser pior do que Daniken com seus antigos astronautas. O que falei no texto se aplica a eles também.

  4. Luiz Fernando Velho 23/10/2013 / 8:52

    O PRINCÍPIO DO BULE DE CHÁ

    1. É conhecido o fato de que não importa o quanto uma crença seja absurda que sempre haverá quem acredite nela. É irrelevante que no início os adeptos sejam em pequeno número. Há um modo de colocar uma fechadura no sistema através de um artifício de lógica, comum a todos que se aventuram por esse caminho. Esse artifício pode ser ilustrado pelo que Bertrand Russell (1872-1970) chamou de Princípio do Bule de Chá: não cabe a quem duvida de uma proposição fora do comum prová-la falsa, mas sim a quem acredita nela prová-la verdadeira. O filósofo inglês utilizou a imagem de um bule de chá voador: cabe a quem acredita nele demonstrar a sua existência.

    2. Obviamente, ignorar o princípio faz com que o sistema se torne impenetrável e a saída possível para acreditar nesse estranho bule é transformá-lo em artigo de fé. Por exemplo: se alguém lançar a ideia de que exista uma benéfica conexão telepática entre os habitantes de um planeta na constelação de Órion e os seres humanos, não é função de quem duvida disso provar que tal fato não exista. Se o inventor da ideia dá um passo adiante e resolve fundar a Igreja Mundial da Graça Orineana poderá, por exemplo, afirmar que os males do mundo são decorrentes dos ruídos nessa comunicação e, a partir disso, criar rituais para melhorá-la. Pode até mesmo dizer que Jesus Cristo foi um enviado orineano e que no futuro esses seres extraterrestres retornarão à Terra para inaugurar aqui uma era de paz, harmonia e prosperidade. No entanto, da impossibilidade de provar a falsidade das bases dessa construção não decorre que ela seja verdadeira.

    3. A técnica de transferir a responsabilidade costuma ser adotada pelos discípulos: são os céticos que precisam demonstrar que o mestre está errado. O truque, além disso, serve como processo de seleção. Na medida em que o interlocutor cai na armadilha, nunca poderá sair dela: ou é um desonesto que duvida sem argumentos ou um cego digno de piedade ou uma alma passível de admitir a sua ignorância e iniciar a escalada para compreender como pode um bule de chá voar. Cria-se assim uma comunidade razoavelmente homogênea sob uma autoridade única onde as dissensões são menos habituais.

    4. Surge então a interessante questão de como uma organização dessas pode conquistar adeptos. A resposta é que, além do artifício lógico, normalmente essas construções são grandiosas o suficiente para que alguém com carências na vida consiga sentir-se especial, que alguém com desejo de discernimento universal seja atendido ou que alguém com raiva de alguma coisa obtenha a sua armadura. Seja como for, agora faz parte de um grupo, desempenha uma missão em favor da humanidade e possui uma referência que contribui para o seu sentimento de existir e para interpretação da realidade. Quanto ao líder, em geral possui algum transtorno de personalidade, sendo os mais comuns o antissocial, o narcisista e o paranoide, conhecido como grupo MAD do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria.

    5. Nesses sistemas, um grau mais ou menos acentuado de projeção paranoide está quase sempre presente na forma de um inimigo poderoso, geralmente ardiloso e evasivo. Além de ser um meio para aumentar a coesão entre seus membros, estimula a fantasia de que fazem parte de uma epopeia. Ao unir imaginação com fragmentos da realidade forma-se um todo que parece coerente. Esse recurso é largamente utilizado nos enredos da literatura de ficção. Mais recentemente, em best-sellers como O Código da Vinci. Já na série das histórias policiais de Sherlock Holmes, por exemplo, o famoso detetive se vê às voltas com um gênio do mal, responsável por planejar todos os grandes crimes que assolam a humanidade, o professor Moriarty, assim descrito por Canan Doyle no conto O problema final: “Senta-se imóvel como a aranha em sua teia, mas sua teia tem milhares de ramificações. Além disso, conhece o ponto sensível de cada uma delas. Ele próprio pouco faz, apenas planeja. Mas seus agentes são numerosos e magnificamente organizados. Foi a existência dessa organização que deduzi, Watson”.

    6. Não é difícil para o inventor da crença encontrar o seu Moriarty, geralmente pinçado da realidade e colocado à luz do dia. Pode ser uma pessoa, um movimento, uma corrente política, uma sigla, uma facção religiosa, personagens de um fato histórico. Em comum, a tentativa de controlar o destino através de meios sutis e de técnicas sofisticadas para dirigir nossas mentes. Obviamente, um dos recursos disponíveis para desmascarar essas ações e essa propaganda subliminar é ele, o mestre, um dos heróis da inteligência à altura de compreender e de esclarecer os desígnios das personificações do mal, que não raro possuem a marca adicional de integrar uma corrente iniciada nas brumas dos séculos. Os adeptos podem achar uma sorte terem encontrado um guia de tamanha envergadura: implacável, lógico, perspicaz e destemido. Que esses alvos reais quase nunca reclamem abertamente por serem demonizados é fácil de entender: há uma certa convergência de interesses. Eles tem o seu extremista e o mestre a sua visibilidade, de modo que ambos prestam-se excelentes serviços. E a evidência de que o líder viva tranquilamente a salvo mesmo denunciando forças tão poderosas costuma passar despercebida.

    7. Uma dose de milenarismo também é frequente. Ainda no mesmo conto de Doyle, o desfecho da luta do brilhante detetive solitário contra o chefe da poderosa organização, que lembra o confronto entre David e Golias, não poderia deixar de ser “no fundo daquele caldeirão de águas redemoinhantes e de ferventes escumas” onde, digladiando-se, precipitam-se. Depois do apocalipse das trevas, faz-se a luz: a sociedade, alheia à terrível pugna, finalmente está livre do professor Moriarty. Na maioria das vezes, nesses sistemas de bules de chás voadores há uma batalha final se aproximando, ou mesmo já travada, e entre os seus seguidores estariam as últimas resistências da luz contra a escuridão. Como uma crença sem esperança não costuma atrair muita gente, sempre é conveniente deixar uma porta aberta para milagres de redenção. O certo é que o destino é inevitável e não é preciso dizer quais almas poderão ser agraciadas com semelhantes milagres: se o adepto não for impaciente e souber esperar a vinda da nova ordem, talvez esteja na lista.

    8. O leitor certamente saberá identificar inúmeras organizações religiosas, políticas e intelectuais do gênero. Surge então uma questão: é eticamente aceitável a crítica de que se tratam de uma ilusão? Afinal, os seguidores encontram ali um lugar, um ambiente social, uma crença na maioria das vezes inocente, um conjunto pronto de ideias e uma espécie de pai. Mas esse é um falso dilema: a realidade é sempre melhor que a fantasia se o desejo é melhorá-la, incluindo nossas próprias vidas. Uma crença que aprisiona o indivíduo não fará isso por ele; ao contrário, o infantilizará. É sintomático que os abandonos que se observam nesses tipos de seitas, ideologias ou filosofias costumam ser quase sempre traumáticos e que os ex-adeptos muitas vezes acabem se voltando contra os mestres, denunciando-os. De outro lado, não raro integram-se a um novo sistema análogo ou até mesmo dedicam-se à fundação do seu próprio com características semelhantes ao de origem.

    9. O melhor antídoto para esses bules celestiais é mais educação a fim de que as pessoas adquiram elementos para pensarem por si próprias. A seara onde os falsos gurus colhem seguidores não é propriamente a da ignorância, mas a da incompreensão. É sedutor filiar-se a um conjunto praticamente acabado de concepções que organizem uma visão de mundo e então dedicar-se à tarefa de decifrar seus mistérios. Subjacente a isso está a ideia de que exista a Verdade. No entanto, ao utilizar-se desse expediente, os líderes que pregam a existência dos bules voadores acabam criando lacunas maiores das que afirmam preencher.

    Luiz Fernando Velho

  5. Rafael 03/01/2014 / 0:08

    Eu gostei desse artigo porque uma coisa que eu vejo e me sinto frustrado é que nessa nova onda conservadora é que ninguém reage. Isto é, quando eu vejo resenhas dos livros do Olavo de Carvalho, do Rodrigo Constantino e outros, eles nunca são levados a sério, as resenhas contrárias são sempre recheadas de sarcasmo e quase nenhuma informação. Por mais que as ideias deles sejam risíveis, eu não acho isso uma coisa boa, nem um pouco, porque eles estão falando sério naquilo que suas pesquisas dizem. Sarcasmo não é uma metralhadora, mas um rifle com mira, e eu vejo muitas oportunidades perdidas para demonstrar os problemas no pensamento deles, erros de pesquisa e tal, por isso o seu blog está de parabéns porque tenta dialogar e abordar esses assuntos de forma séria, porque se avacalhar no futuro, esses assuntos vão se tornar dominantes (fora isso tem uns conservadores que são inteligentes e dignos de respeito acadêmico, como Russell Kirk).

    Quanto a teorias da conspiração em si, eu era um frequentador assíduo do citado A Espada do Espírito e acreditava piamente nas conspirações e tal. Devido a crises de paranoia na adolescência, eu achava todo mundo à minha volta eram satanistas querendo me pegar, dá pra imaginar como era eu né? Mas dou graças a Deus que eu consegui me libertar, graças a inúmeros fatores, como perceber que existiam teorias conspiratórias de esquerda (muitas são exatamente as mesmas de direita, apenas com alguns nomes trocados) e parar de me preocupar, pois a Bíblia diz “não andeis ansiosos por coisa alguma” (Filipenses 4:6) e que Deus está no controle e esses conspiratas parecem acreditar mais no demônio do que em Deus.

    • Bertone Sousa 03/01/2014 / 0:40

      Rafael, muito pertinentes suas considerações acerca dos autores de direita. É realmente importante que as refutações saim do esculacho e prezem pela fundamentação e consistência teórica. Sobre as teorias conspiratórias, é sempre importante ressaltar seu caráter frequentemente redutivo e fatalista, dois ingredientes perigosos que conduzem ao fanatismo e intolerância. Abs.

  6. Allan 10/01/2014 / 10:45

    Professor essa semana li um texto cujo tema abordava o plano maquiavélico da página no facebook “Golpe Comunista 2014 – Eu vou”. Plano este revelado pelo autor do texto. Claramente sabemos que a página é uma sátira ás ideias mirabolantes sobre uma vigente ditadura comunista no Brasil, mas o ilustre o autor viu alguém além da sátira. Para ele, o tom sarcástico da página é um pano de fundo para desacreditar as intenções dos comunas e o golpe ser dado. Brilhante! rs.. O engraçado é, como vc escreveu, eles se levam muito á sério. Tenho pena de pessoas assim. Desperdiçando tempo e energia com tolices. Olavo de Carvalho está contaminando e emburrecendo a mente de muitos jovens. Isso me preocupa

    • Bertone Sousa 10/01/2014 / 10:57

      Allan, e é praticamente impossível tirar isso da cabeça deles depois que inculcam com essas coisas.

  7. ELIZEU SOUZA 13/02/2014 / 18:11

    Professor Bertone, ótimo texto, Sempre me preocupei com o crescimento dessas teorias, tenho inclusive muitos amigos que acreditam piamente nelas, mas eu não sabia como dialogar com eles. Muito bom o seu texto me ajudou bastante.

  8. Roni 17/02/2014 / 22:28

    Adorei o texto! Já que o assunto é Filosofia da história. Tem alguns livros sobre este assunto que vc poderia me recomendar, Bertone? Estou na graduação de Filosofia.

    • Bertone Sousa 18/02/2014 / 12:43

      Roni, leia “Filosofia da História” do Hegel, “O Sentido da História” de Karl Löwith e “A Miséria do Historicismo” de Karl Popper.

      • Roni 18/02/2014 / 16:19

        Muito obrigado!

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