O império religioso de Edir Macedo

Crédito da Imagem: http://www.diarioliberdade.org/archivos/Colaboradores_medios/sturtds/2013-04/iurd_dinheiro.jpg

Edir Macedo e a Igreja Universal do Reino de Deus já foram  objeto das mais variadas abordagens, de matérias jornalísticas a teses de doutorado foi impossível, nos últimos quinze a vinte anos, ficar indiferente à meteórica ascensão de seu império religioso fundado no final da década de 1970. O fenômeno que a sociologia da religião popularizou com a designação de “neopentecostalismo” provocou uma autêntica redefinição da vivência religiosa de muitos brasileiros, especialmente protestantes, sobretudo através da Teologia da Prosperidade. E não foi por acaso: as igrejas neopentecostais surgiram no contexto posterior ao Milagre Econômico do governo Médici e adaptaram o pentecostalismo brasileiro (até então restrito em grande parte ao ascetismo salvacionista de seus fundadores) ao materialismo economicista da sociedade norte-americana.

De suas congêneres pentecostais, a Igreja Universal manteve as práticas taumatúrgicas (pelas quais seu cunhado R.R Soares também se notabilizou no meio evangélico e que hoje garantem o sucesso de Valdemiro Santiago), a crença em dons espirituais e na guerra espiritual. Este último elemento ele tornou um dos principais de sua igreja, pois com a redemocratização a desescolarizada sociedade brasileira não soube lidar com a liberdade de culto e muitos passaram a ver as manifestações religiosas de origem africana, outrora proibidas e combatidas pelo próprio Estado, os sintomas do mal-estar social e da crise espiritual que atravessavam. Macedo soube canalizar esse medo coletivo para alavancar a imagem de sua igreja através de exorcismos, literatura sensacionalista e pregações contundentes contra o que acredita ser os representantes do demônio. No ensaio sobre  os temores europeus na era moderna, o historiador francês Jean Delumeau, em “História do Medo no Ocidente”, mostrou como o combate a heresias  atingia o clímax em tempos de fortes agitações sociais e crises econômicas. Mutatis mutandis, essas práticas podem ser vistas com certa regularidade em tempos de inquietações e infortúnios coletivos.

Hoje, a Igreja Universal não desfruta mais da mesma popularidade que tinha entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000, não porque as pessoas tenham abandonado o neopentecostalismo, mas porque na última década e meia o país conheceu uma pletora de novas instituições desse tipo, bastante heterogêneas em suas práticas e representações de mundo e que carregam a influência de variados tipos de cultos e tradições culturais. Mesmo assim, Edir Macedo continua em alta e a prova é o estrondoso sucesso de sua autobiografia lançada recentemente, uma trilogia da qual o segundo volume está prestes a ser lançado. Agora sua igreja está construindo uma réplica do antigo templo de Salomão. No mercado religioso, templos suntuosos são demonstrações de poder e de agregação de fiéis; não por acaso o padre Marcelo Rossi incluiu a Igreja Católica na disputa com seu “Santuário Mãe de Deus”. Recentemente incluído como o líder religioso mais rico do país pela revista Forbes, o líder da IURD voltou a ocupar as manchetes de jornais novamente.

Mas, para além de denúncias de estelionato e fraudes fiscais, o mais importante a se compreender em instituições como a Universal é sua inserção na cultura brasileira e como seu ethos se relaciona com um contexto marcado por ascensão social ou por sua busca. Também é importante como essas igrejas trabalham com produção de significados nos centros urbanos lançando mão de estratégias de propaganda  e difusão similares a de grandes empresas e como flertam com o campo político a fim de garantir um lócus privilegiado de ação e de recursos indispensáveis numa sociedade laica, democrática e pluralista. Em todos esses aspectos, Edir Macedo e sua igreja se tornaram um paradigma até mesmo para aqueles segmentos protestantes que lhe são arredios. Compartilho a seguir uma interessante matéria do portal Ig que traça em linhas gerais as características da personalidade e os reveses sofridos por Macedo em sua trajetória.

Dono da Rede Record e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, o líder evangélico ultrapassou a fronteira brasileira e hoje é conhecido nos cinco continentes

Templo é dinheiro. A variação da máxima de Benjamin Franklin enquadra-se com precisão idílica a Edir Macedo, o televangelista, religioso e empresário que se tornou o líder evangélico mais rico do Brasil – um bilionário. Seus dedos indicadores são tortos, os polegares finos, e todos os dez se movem com dificuldade, quase paralisados. Mas isso não o impediu de pregar e se transformar num dos maiores fenômenos religiosos das últimas décadas, no Brasil e no exterior. Seu poder vem de duas frentes religiosamente ligadas: na primeira, e principal, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), com presença em mais 170 outros países nos cinco continentes. A segunda frente é a Rede Record, da qual é proprietário, uma extensão da primeira. As duas formam uma espécie de força centrífuga e centrípeta simultânea, que alimenta e diversifica os dividendos surgidos da igreja. Afinal, entre as duas, a obra e a graça da generosidade dos fiéis. Raros executivos e empreendedores produziriam um “business plan” melhor do que este.  O dedo do “Bispo Macedo” para apontar para si e sua igreja o caminho de milhões de fíéis (1,8 milhão, segundo o IBGE; 8 milhões nas contas da IURD) escancarou um especial talento para atrair doações em tamanho e tempo capazes de fazer dele um bilionário. Ele segue como ninguém a “teologia da prosperidade”, doutrina segundo a qual a bênção financeira é o desejo de Deus, e o discurso positivo e as doações sempre aumentarão a riqueza material do fiel. Mas sua glória financeira e, digamos, espiritual é também seu calvário: os adjetivos e acusações, ele as recebe no mesmo compasso com que os dízimos enchem os cofres da IURD. Macedo já foi acusado de charlatanismo, curandeirismo e enriquecimento com a exploração da fé.  O bispo parece, no entanto, estar preparado para enfrentar os adversários de toda espécie. Tal atributo vem de longe. Devido ao problema físico nas mãos, sofreu bullying na infância, segundo revelou na biografia arrasa-quarteirão “Nada a perder”. Disse ele: “Muitas vezes senti complexo de inferioridade. Me considerava o patinho feio da escola e até da família. Sempre fui motivo de zombaria. Muitos adultos e meninos da minha idade me chamavam de dedinho”. Escrita em parceria com o vice-presidente de jornalismo da Record, emissora de televisão que pertence a Edir Macedo, “Nada a perder” ganhou um segundo volume, virá um terceiro a seguir, e seu lançamento foi um sucesso da América do Sul à Europa. Segundo dados da editora Planeta, o primeiro vendeu, em apenas cinco meses, mais de um milhão de exemplares em todo o mundo. Foi o título mais vendido no Brasil em 2012, de acordo com o portal Publishnews, especializado no mercado editorial. Superou o best-seller mundial “50 tons de cinza” e também as biografias de Steve Jobs e Eike Batista. Nem é preciso dizer que o livro contou com eficiente estratégia de divulgação. Na centenária livraria El Ateneo, em Buenos Aires, mais de 50 mil exemplares foram vendidos numa só tacada; para conseguir uma assinatura do autor, filas enormes se formaram.  

O sucesso – comprar o livro é dever obrigatório para um verdadeiro fiel – reflete a trajetória vitoriosa e polêmica do bispo evangélico retratado no livro como um ser quase perfeito. Uma pessoa cuja principal tarefa no mundo é abrir os olhos dos outros diante de um poderoso inimigo, o qual ele próprio faz questão de nomear com todas as letras: “A sina da Universal é barrar a Igreja Católica”. 

Tudo começou num coreto 

A sede da Igreja Universal do Reino de Deus fica em Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro. É a catedral chamada Tempo da Glória do Novo Israel. A IURD foi fundada no verão de 1977 pelo então pastor Edir Macedo e seu cunhado Romildo Ribeiro Soares. Os números em torno dela assustam. Em pouco tempo, tornou-se o maior e principal grupo neopentecostal do Brasil. Aqui existem mais de cinco mil templos. Para atender aos fiéis, quase 10 mil pastores. 

Um coreto foi seu primeiro e retumbante palco de pregação. Com teclado, microfone e na mão uma Bíblia, que não cessava de ser erguida aos céus, Edir Macedo não perdia um sábado de pregação no bairro do Méier, um dos mais populosos do Rio. Fazia isso ao ar livre. Eram os primeiros passos da IURD, cuja principal incentivadora foi dona Eugênia, mãe do futuro bispo. A primeira igreja seria levantada a seguir no lugar onde funcionava uma antiga funerária, no bairro da Abolição. Não havia sequer um ventilador, mas o negócio cresceu. Uma fábrica de móveis desativada no número 7.702 da Avenida Suburbana foi alugada para se transformar em um grande templo, com capacidade inicial para 1,5 mil pessoas. Logo precisou ser ampliado. 

Edir Macedo contou com o apoio do cunhado R. R. Soares, nome com o qual se tornaria conhecido como pregador. Eles haviam se conhecido em 1968 na Igreja Pentecostal da Nova Vida, fundada pelo americano Robert McAlister. Juntos, decidiram criar sua própria igreja, nomeada, a princípio, A Cruzada do Caminho Eterno e, em seguida, A Casa da Bênção. Macedo e Soares se desentenderam anos depois, quando a Universal já era um fenômeno, tanto religioso como econômico. Ex-católico, graças a Deus Espanta quem descobre que Edir Macedo Bezerra já foi católico de usar correntinha no pescoço, devoto de São José. Mas é verdade. Com 15 anos, numa Sexta-Feira da Paixão, foi levado pelos pais para cultuar Jesus morto e ficou assustado com a violência da imagem. Ao desistir do catolicismo, passou pelo espiritismo e frequentou terreiros de macumba, mas também ali não encontrou “as respostas desejadas”.  

Nascido em 18 de fevereiro de 1945, em Rio das Flores, município do Rio de Janeiro, foi criado no seio de uma família católica praticante. Ele lembra, e relata o episódio em sua biografia, que, adolescente, chegava a ironizar os evangélicos da Assembleia de Deus que se reuniam para orar no campo de São Cristóvão. “Aleluia, aleluia! Como no prato e bebo na cuia”, gritava o garoto Edir, fugindo depois de bicicleta. Nos tempos da Igreja Nova Vida, a postura foi outra. Ele revela no livro que destruiu as imagens e medalhas religiosas que levava consigo: “Botei todos aquelas objetos no chão, fitei os olhos deles e, apontando o dedo com desdém, desafiei: ‘Desgraçados! Vocês me enganaram!’”. Em seguida, pisou com raiva os pedaços de papel rasgados e a gargantilha. 

Ainda jovem, Edir Macedo conseguiu uma colocação: emprego público na Loteria da Guanabara, obtido com o auxílio do ex-governador Carlos Lacerda, com quem a família dele tinha certa proximidade. Seu trabalho era uma mistura de contínuo com auxiliar de escritório. Isso não impediu, no entanto, que o poder lhe subisse a cabeça: certo dia, levando ao pé da letra uma recomendação interna, impediu a entrada de um monsenhor no escritório administrativo, o qual havia sido enviado pelo arcebispo para recolher um dinheiro que na época algumas sociedades católicas recebiam das loterias: “Eu barrei a Igreja Católica naquele dia. Simbolicamente, seria um prenúncio do que se tornaria a sina da Igreja Universal ao longo os anos”, diria anos depois. 

Incômodo e riqueza permanentes 

Em 1992, o Ministério Público denunciou Edir Macedo por “delitos de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular”. Ele ficou preso durante 15 dias, mas se livrou das acusações. Assegura ter sido alvo de “perseguição do clero romano, políticos de prestígio, empresários da elite econômica e social, intelectuais”. Na verdade, o bispo passou a incomodar – aos menos aos chamados barões da mídia – quando comprou a TV Record, por US$ 45 milhões, em 1989. No segundo volume de sua biografia, ele tenta explicar como reuniu, 12 anos depois de fundar a Igreja Universal, o capital necessário para adquirir a emissora: “Até hoje não sei como conseguimos. Não foi por caminhos semelhantes ao de qualquer negócio comum. Não houve cálculos detalhados nem estudos financeiros. Simplesmente, agi pela fé”. 

Apontado pela revista “Forbes” com um dos bilionários do mundo, na 1268ª posição, Edir Macedo tem a fortuna avaliada em US$ 1,1 bilhão. Enquanto sua riqueza aumenta, as denúncias não param: em 2007, a Polícia Federal abriu investigação pela suposta prática de crimes de falsidade de ideológica, contra a fé pública, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro – o líder da Universal teria se apropriado de recursos da igreja para formar patrimônio pessoal em empresas de comunicação. 

Em 2008, reportagem da “Folha de S. Paulo” apontou Macedo com o maior detentor de concessões na mídia eletrônica brasileira, com 23 emissoras de tevê. O grupo teria registro no paraíso fiscal de Jersey, no Canal da Mancha, e seria utilizado para “esquentar” os dízimos recebidos pela Universal.  

Convocando o capeta 

Os embates públicos não se resumem, porém, a enfrentar a mídia, o Ministério Público e a Polícia Federal. Abarcam também os concorrentes religiosos. No ano passado, por exemplo, acendeu o sinal amarelo da Igreja Universal diante do arqui-inimigo de Edir Macedo: Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus. Num dos momentos-clímax da briga, ambos convocaram até o demônio para ajudá-los na batalha travada pela alma e generosidade dos fiéis. Em seu programa de TV, Macedo “interrogou” o diabo – que, supostamente encarnado em uma devota, “confessou” ter se instalado na igreja rival e ser o responsável pelas propaladas curas conduzidas por Valdemiro. 

O chefe da Mundial passou recibo e rebateu as acusações no mesmo nível da elegância do adversário: no Canal 21, afirmou que “câncer” de Macedo é obra de demônio. A tréplica chegaria sem tardança. Macedo levou sua médica à TV para atestar que não sofre da doença e ainda exibiu no programa Domingo Espetacular, da Rede Record, uma reportagem sobre a compra, por Valdemiro, de três fazendas avaliadas em 50 milhões.  

Essa aguerrida disputa se deu num momento em que a Universal passou a perder fiéis e receita para a Mundial. Em 14 anos, o segundo teria conquistado mais de 20% dos seguidores do primeiro. Para quem não sabe, Valdemiro foi membro da cúpula da Universal, mas acabou preterido por Macedo na indicação para um posto de maior visibilidade. O que se viu a seguir nos ensina que não se deve desejar ter um pastor como adversário: Valdemiro rompeu com o chefe, fundou a própria igreja e, além das baixarias listadas acima, resgatou o modelo primitivo que originou o fenômeno Universal – a luta contra Lúcifer e a promessa de curas e milagres de todos tipos, pilares que Macedo substituiu pela “teologia da prosperidade”. Atingia assim o nicho de fiéis de menor poder aquisitivo e altíssima credulidade. 

Se templo é dinheiro, sabemos, fé é mercado. 

Artigos relacionados:

Milagres e milagreiros do neopentecostalismo no Brasil

Encruzilhadas do protestantismo brasileiro

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18 thoughts on “O império religioso de Edir Macedo

  1. Anderson 30/09/2013 / 0:18

    Caro Bertone,

    Em minhas viajadas pela net, me deparei com seu excelente blog. Sempre demonstrando conhecimentos aguçados sobre os assuntos que escreve, de maneira muito fácil de ser compreendida, nos vislumbra com reflexões muito interessantes e construtivas. Deixando clara sua posição política, mas, mantendo o equilíbrio, faz críticas a esquerda e a direita de maneira muito esclarecedora. Como graduando em História, parabenizo-o por dividir seu grande conhecimento em um lugar tão cheio de tolices, como a internet.

    Abraços e boa sorte!

    Anderson.

    • Bertone Sousa 30/09/2013 / 1:05

      Anderson,

      também fico satisfeito quando encontro leitores com quem é possível estabelecer diálogos profícuos. Vem muito extremista aqui fazer patacoada, mas também vem gente séria e é isso que torna o diálogo interessante. Seja bem-vindo ao blog e espero que possa continuar acessando. Abraços.

    • ANA LÚCIA RODRIGUES DA SILVA 28/12/2013 / 23:42

      Professor Bertone , estou muito feliz por ter acesso a este blog vai ser de grande utilidade ,pois é muito fácil compreender o que você escreve. Ñ pelo meu intelecto mas pela sua capacidade e facilidade em transmitir seu conhecimento ao leitor .grande abraço e minha admiração ! feliz ano novo!…

      • Bertone Sousa 29/12/2013 / 0:11

        Oi Ana, que surpresa e seja bem-vinda querida. Feliz ano novo pra você também. Abraço.

  2. CandidoVillas 02/10/2013 / 14:22

    Excelente texto! O duro é ver gente que ainda cai no conto do vigário. Mudando de assunto. Um amigo me enviou um hangout promovido pelo sr. Cristiano Alves e com participação de uma moça, Angela. O rapaz distorce tudo, sobre qualquer assunto, e o pior, não é má fé. Ele realmente acredita no que diz. Uma auto-lavagem cerebral, existe um termo técnico para este comportamento, melhor não comentar. Este cara daria um virtuosíssimo chefe de seita. Abs!

    • Bertone Sousa 02/10/2013 / 21:03

      Candido, não apenas as seitas, mas as religiões, de um modo geral começam assim. É possível que ele acredite mesmo no que diz, não é apenas um sentimento de empatia por Stálin, mas um fervor religioso mesmo, já que o sentimento religioso não se define apenas pela crença em espíritos ou entidades sobrenaturais. O comunismo abole a religião porque pretende substituí-la e o culto à personalidade foi consequência inevitável dessa dessacralização forçada; e ele e outros que vieram aqui são uma prova viva disso. Nunca é possível dialogar com essas pessoas se você diverge delas.

  3. Carlos Wilker 02/10/2013 / 16:10

    Bertone, gostaria de saber sua visão sobre o relativismo moral e o relativismo cultural. Você bem que poderia escrever uns textos sobre rsrs. Grato

    • Bertone Sousa 02/10/2013 / 21:05

      Carlos, esses temas são muito amplos e creio que são mau compreendidos em nossa sociedade. Mas de fato é um bom assunto pra se escrever. No momento estou sem tempo, mas vou considerar a dica.

  4. Dantas 03/10/2013 / 20:27

    Bertone,

    Creio que instituições religiosas como a Universal – e seu sucesso avassalador – falam mais de nossa sociedade e as aspirações de nosso povo que mil palavras. Tenho a impressão que nossa velha cultura patrimonialista lá foi levada a relação com o divino. Não sei se vc conhece, mas tendo em vista o sucesso ascendente do neopentecostalismo, inclusive na cooptação de lideranças e membros das religiões de possessão afro-americanas, surgiu recentemente até uma Igreja Evangélica com o nome de Mundial dos Orixás. Será que este foi um caso do velho adágio: se não pode vencê-los, una-se a eles?

    • Bertone Sousa 03/10/2013 / 21:54

      Dantas, na verdade não. Essas instituições tomam emprestados práticas e significados das religiões que denegam; não há união, porque a rejeição continua. É algo similar ao que acontece com relação à ciência: embora rejeitem a evolução e o Big Bang como concepções científicas, usam ou redefinem a ciência para se adequar a seus princípios. É uma relação ambígua.

  5. Jonatan Freitas 04/10/2013 / 20:20

    Bertone,
    Como comentou no início de seu texto, o assunto já foi bem batido, mas é válido.
    Lembrando que nem todas as denominações neopentecostais se firmam na teologia da prosperidade. O que tenho observado é o crescimento das “comunidades evangélicas” que querem transmitir uma atmosfera “familiar” aos seus membros, suas pregações giram em torno do bem estar social e da auto ajuda: “como criar seus filhos” “como ter um casamento bem sucedido” tratam dos dependentes químicos, zelam pela juventude e por ai vai…naturalmente utilizam as escrituras para por os assuntos dentro duma base religiosa.
    Nada contra mas não há necessidade de religião para esse tipo de formação de princípios.
    Sinceramente sou mais adepto ao velho ascetismo salvacionista.

    • Bertone Sousa 04/10/2013 / 20:45

      Jonatan,

      esse religiosidade voltada pra autoajuda e questões pontuais como emprego, relacionamento e saúde atende a uma demanda de nossa época, onde ideologias coletivas cederam lugar à busca pela identidade. Na verdade é uma religião pós-moderna, que suplantou o ascetismo salvacionista, embora ele ainda permaneça de forma secundária.

  6. Duke de Vespa 07/10/2013 / 22:21

    Olá Bertone, parabéns novamente pelo texto. Tenho duas perguntas e gostaria que você me respondesse se possível.
    Tenho um irmão, formado em sociologia, que me disse que o “Brasil caminha para uma radicalização no tange a conflitos religiosos”. Ele acredita que no futuro, haverá conflitos entre católicos e protestantes, semelhantes aos que ocorreram na Europa. Primeira pergunta: o senhor acha esse prognóstico viável?
    Durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio de Janeiro nesse ano, ocorreu paralelamente a Marcha das Vadias. Pelos noticiários, lembro que alguns manifestantes, que estavam na marcha, quebraram símbolos religiosos católicos, protestaram contra os gastos públicos relativos à vinda do Papa e etc. Lembro que houve uma tentativa de ocupação, por parte dos manifestantes da marcha, no espaço onde estava ocorrendo uma reunião dos jovens da JMJ. A ocupação só não ocorreu, por que a polícia fez um cordão de isolamento. Não sei o que teria acontecido se a Marcha das Vadias entrasse na área de reunião da JMJ. Algumas semanas atrás, duas garotas se beijaram dentro de uma igreja evangélica durante um culto do pastor Marcos Feliciano. Houve a maior confusão e o caso foi parar na mídia. As garotas reclamaram que foram agredidas pela polícia, que foi chamada no local. A pergunta é: essa crescente radicalização entre grupos religiosos de um lado, e movimentos sociais (principalmente o LGBT) do outro, pode resultar em conflitos violentos mais sérios?

    • Bertone Sousa 07/10/2013 / 22:52

      Duke,

      é claro que é sempre difícil fazer prognósticos mesmo para o futuro próximo, mesmo assim é possível colocar alguma hipótese como mais provável. Em relação à primeira pergunta a resposta é seguramente não. Primeiro, os conflitos entre católicos e protestantes na era moderna ocorreram num contexto em que não havia separação entre religião e política. Por este motivo a religião era o único repertório de formação de visão de mundo das pessoas. Seria tautológico dizer que a Europa moderna era profundamente religiosa: não havia outra cosmovisão que pudesse rivalizar com a religião. Também era a época de formação das monarquias nacionais e a religião era um dos principais fundamentos daqueles Estados. O protestantismo abalou a Europa porque emergiu em um momento em que não havia tolerância religiosa (nem esse conceito era conhecido). Muitas guerras de religião foram guerras por legitimação política entre grupos que aspiravam ao poder ou simplesmente pela visão de que o outro era herege e deveria ser banido. Não havia leis que proibissem ou inibissem essas ações, apenas algumas ações por parte de Estados como no caso do Edito de Nantes. Hoje os embates ocorrem (no caso da nossa sociedade) entre segmentos religiosos que se sentem ameaçados pelo avanço de ideias e estilos de vida não religiosos e os adeptos dessas ideias e estilos de vida. Além disso, como nosso Estado é laico, esses conflitos tendem a permanecer na esfera do legislativo. Aí os grupos podem fazer lobby ou publicidade a favor de suas ideias, mas conflitos como aqueles do passado, podemos dizer quase com certeza que não.

      Já com relação à segunda pergunta, aí podemos dizer que sim. Na medida em que os movimentos sociais avançam no sentido de reduzir o papel da religião na vida pública e até mesmo de enfrentá-la, ações desse tipo podem se repetir. Mas isso já acontece há algum tempo com a rejeição a religiões africanas e campanhas de algumas igrejas para que seus símbolos não sejam colocados em alguns lugares nas cidades. Mas como eu disse, independente do nível em que as animosidades tem chegado, elas tendem a ficar restritas a determinadas ações relativamente isoladas, como quebrar imagens ou se beijar num culto, ou alguns fanáticos invadir terreiros, porque a legislação pode ser evocada pelos dois lados para punir excessos e inibir sua repetição.

  7. Duke de Vespa 08/10/2013 / 22:33

    Bertone, muito obrigado pelos esclarecimentos e pela gentileza de responder.
    Abraços!

  8. Bertone, só tenho a agradecer que um acadêmico de história tenha resolvido sair da torre de marfim das academias para divulgar conhecimento ao povo

    • Bertone Sousa 10/10/2013 / 19:31

      Benário, a academia só faz sentido se houver diálogo principalmente com quem está fora dela. E com tanta desinformação histórica grassando na internet, é importante fazer contrapontos. Se puder, ajude a divulgar. Abraço.

  9. everaldo 15/12/2015 / 13:03

    De novo o ‘ inconsciente coletivo ‘ o que da na bosta que vemos. Conheci muitos membros do BANCO UNIVERSAL DO REINO DE DEUS, e garanto que são tão capitalistas quanto seu Lider ‘MACEDO’. Sem contar que Macedo é visivelmente cultuado por seus adéptos e não esconde o EGO inflado…….

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