O orgulho de venerar um genocida

cristiano alvesA principal característica das pessoas que vêm aqui puxar uma discussão comigo é que rapidamente apelam para a calúnia e todo tipo de baixarias acreditando que, dessa forma, estão fazendo um grande debate. Não é possível discutir com alguém como Cristiano Alves sem afirmar categoricamente seu charlatanismo intelectual e seu fanatismo psicótico ao querer isentar os totalitarismos de esquerda do século XX de seu caráter genocida. Alguém que acredita que a ditadura stalinista ou mesmo o regime brutal da Coreia do Norte são marxistas, ou nunca leu Marx ou sonha em se tornar um ditador como eles com poderes para mandar milhões de pessoas para execução e trabalhos forçados em gulags.

E a evidência disso é esse comentário que Cristiano postou em seu próprio blog:

Você acha mesmo que eu tenho algum “horror” em saber que na URSS existia o GULAG? Que na Coreia do Norte existe o Kwan Li So? Claro que não! 
O socialismo foi o único sistema que até os dias atuais eliminou o analfabetismo, o desemprego, direitos humanos básicos e tão essenciais ao ser humano quanto comida e água.
Quando uma pessoa diz que um sistema que fez isso é o “inferno na terra”, e para sustentar sua tese baseia-se em mentiras e falsificações, essa pessoa deve ser tratada como o pior tipo de criminoso!!! Pior do que um ladrão!
Um ladrão vem e rouba sua carteira, leva 10, 500 reais talvez, alguns podem matar você por isso.
Anticomunistas vem e derrubam o governo que te garante saúde e educação, transformam você num miserável, roubam bilhões do erário público, como aconteceu na URSS, matam você como aconteceu no Vietnã e na Coreia, transformam cidades inteiras em escombros como houve na Líbia, além de fermentar a miséria, os bolsões de favela, etc
Anticomunistas são a escória da humanidade! O socialismo dá a esses indivíduos a possibilidade de expiarem seus crimes trabalhando para a sociedade num campo de trabalho ou ainda de ir, gratuitamente, para um hospício, pelo qual talvez pagariam muito num país capitalista.

Pessoas limítrofes como Cristiano Alves veem o mundo a partir da polaridade entre “nós” e “eles”. Nesse imaginário, todos aqueles que não estão conosco são potenciais conspiradores e, portanto, não podem viver. É bastante revelador que esse embusteiro pseudo-marxista não tenha nenhum “horror” pelos gulags e acredite que todos os que foram e são enviados para esses campos são “inimigos do povo”. No melhor estilo 1984 Cristiano trata como “anticomunistas” todos os que não aceitam o culto à personalidade de ditadores megalomaníacos. Do auge de seu ódio a qualquer resquício de liberdade de expressão, ele formula sua própria teoria do gulag: é um lugar de expiação! Aqui meu adversário demonstra ser mais do que um psicótico apologista de genocidas, mas com uma cosmovisão maniqueísta, medieval. Talvez Cristiano ache fantásticas as prisões sem julgamento e os fuzilamentos de milhões de pessoas inocentes por seus compatriotas lobotomizados pela propaganda dos regimes que defende.

Para o leitor que quiser saber mais acerca do assunto, recomendo a leitura do livro de Anne Applebaum, “Gulag: uma história dos campos de prisioneiros soviéticos”, que o leitor pode acessando clicando aqui. Só a introdução do livro prova o quanto picaretas intelectuais como Cristiano prestam um desserviço ao conhecimento e à história ao negar todos, absolutamente todos os crimes cometidos pelo stalinismo. Logo na introdução a autora faz algumas objeções pungentes que nos leva a refletir acerca do imenso silêncio do Ocidente acerca dos campos stalinistas frente à imensa produção literária e cinematográfica em torno dos campos de concentração nazistas. E ela diz:

A cultura dita elevada não se tem mostrado muito mais aberta ao sistema. A reputação do filósofo alemão Martin Heidegger foi profundamente prejudicada pelo breve apoio explícito ao nazismo, um entusiasmo que se desenvolveu antes de Hitler ter cometido suas maiores atrocidades. Por outro lado, a reputação do filósofo francês Jean-Paul Sartre não sofreu nada com o vigoroso apoio ao stalinismo durante todos os anos do pós-guerra, quando provas abundantes das atrocidades de Stalin estavam disponíveis para qualquer interessado. “Já que não éramos membros do Partido”, registrou Sartre, “não era obrigação nossa escrever sobre os campos soviéticos de trabalhos forçados; desde que nenhum fato de importância sociológica tivesse ocorrido, estávamos livres para permanecer distantes das desavenças sobre a natureza do sistema.”7 Em outra ocasião, ele disse a Albert Camus: “Assim como você, acho esses campos execráveis, mas acho igualmente execrável o uso que todos os dias se faz deles na imprensa burguesa”.

Se mesmo Sartre, um dos maiores intelectuais marxistas do século passado, preferia silenciar em torno do assunto a fazer concessões à “imprensa burguesa” isso deve nos fazer refletir acerca da relação dramática e frequentemente distante entre o marxismo e os direitos humanos. Há um ditado que diz que o caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções. A metáfora é perfeitamente aplicável aqui. O caminho para a sociedade sem classes foi marcado por incontáveis banhos de sangue, mas para militantes como Cristiano nada disso importa, porque pra essas pessoas vidas humanas não importam.

Cristiano começa seu ataque a mim negando novamente o antissemitismo de Stálin e o Holodomor. E que fonte ele usa para negar o antissemitismo de seu deus? Um discurso do próprio Stálin. Isso é tão risível quanto patético. É como dizer que na Coreia do Norte há plena liberdade de culto porque a constituição concede esse direito. Cristiano acredita cegamente em fontes oficiais soviéticas a ponto de rejeitar qualquer coisa que derrube as mentiras da propaganda oficial do governo. Sobre as políticas antissemitas de Stálin, confira aqui e aqui.

E sobre o Holodomor, novamente ele não respondeu à minha objeção. Ao invés de comentar o artigo de mais de cinquenta páginas (este artigo) sobre o assunto cujo link postei na sessão de comentários do texto “Lênin e o Comunismo”, Cristiano se finge de doido pra dizer que não tinha artigo nenhum artigo ali. O Holodomor foi a política de confisco de grãos e alimentos pelo Estado soviético que levou à morte por inanição milhões de pessoas na Ucrânica. A própria Anne Applebaum afirma no livro supracitado que Stálin matou mais ucranianos do que Hitler matou judeus.

Cristiano insiste na falácia de que o Holodomor foi provocado por causas naturais. De fato, houve uma crise do trigo no final da década de 1920, mas Mark Mazower, historiador inglês que escreveu o livro “Continente Sombrio: a Europa no século XX”, discute no capítulo 4 como Stálin usou a crise para forçar a coletivização, privando os camponeses de alimentos. No início, a estratégia era eliminar os camponeses ricos, conhecidos como kulaks, como classe. Moscou enviou tropas e membros do partido para punir quem estocasse trigo; logo a política se voltou contra os camponeses pobres que se viram obrigados a matar suas vacas para não entregá-las ao Estado.  Mazower faz um comentário interessante acerca das repercussões dessas ações:

O regime desprezara estratégias de desenvolvimento industrial que talvez demandassem paciência e cooperação com os trabalhadores rurais e optara pela violência em curto prazo: assim, conseguiu o grão de que precisava, mas no longo prazo prejudicou a agricultura soviética, acarretando consequências fatais para a União. Em 1932-33, quando a fome resultante dessa política fez milhões de vítimas […] “muitos jaziam ali, apáticos, fracos demais para esmolar nas estações ferroviárias. Seus filhos eram pouco mais que esqueletos de barriga inchada”. [grifos meus]. Fica claro, portanto, que foram milhões de vítimas e não por causas naturais, mas por uma política sistemática do Estado de confisco de grãos, onde não morreram apenas fazendeiros ricos, mas milhões de pessoas pobres, pequenos proprietários e seus filhos.

O trecho entre aspas na citação anterior é parte de um depoimento de uma testemunha ocular do fato. E Mazower complementa: O confisco do trigo no início da década de 1930 constituiu um treinamento para uma nova geração de membros do partido, familiarizando-os com um nível de violência e repressão que poucos anos depois, com o terror, atingira o restante da sociedade soviética […] A deportação de milhões de camponeses levou à rápida criação de colônias de trabalhos forçados e ao aperfeiçoamento de técnicas de controle populacional que nas décadas de 1930 e 1940 Stálin empregaria contra outras minorias – poloneses, tchetchenos, alemães étnicos, por exemplo. Portanto, Stálin foi um genocida em todos os sentidos da palavra. Para um militante extremista como Cristiano não resta outra coisa senão a negação peremptória por meio de panfletagens rasteiras e a reprodução de mentiras históricas absurdas.

Depois Cristiano tenta desacreditar a citação que fiz de Roy Medvedv acerca das vítimas de Stálin no artigo anterior como um “falsificador”, incluindo em sua lista o escritor que também denunciou os gulags Soljenitsin. A esse propósito também é bastante elucidativa a citação seguinte de Applebawm:

Por fim, a propaganda soviética não deixou de fazer efeito. Tiveram certo impacto, por exemplo, as tentativas soviéticas de semear a dúvida sobre os escritos de Soljenitsin, pintando-o como demente, anti-semita ou bêbado.18 A pressão soviética sobre acadêmicos e jornalistas ocidentais também ajudou a enviesar o trabalho deles. Na década de 1980, quando eu estudava história russa nos Estados Unidos, conhecidos me diziam para não continuar com essa matéria no curso de graduação, pois haveria dificuldades demais: naquele tempo, quem escrevia “favoravelmente” sobre a URSS ganhava mais acesso a arquivos, mais acesso a informações oficiais, vistos para permanências mais longas naquele país. Quem não o fazia arriscava-se a ser expulso e encontrar dificuldades profissionais em conseqüência. Desnecessário dizer, é claro, que a ninguém de fora se permitia o acesso a qualquer material sobre os campos de Stalin ou sobre o sistema prisional pós-stalinista. O assunto simplesmente não existia, e os que metiam demais o bedelho perdiam o direito de ficar naquele país.

Cristiano enaltece o regime stalinista por ter erradicado o analfabetismo, gerado empregos e transformado a Rússia numa potência industrial. Ué, mas não foi exatamente isso que Hitler também fez na Alemanha? Esse argumento não passa de uma falácia discursiva que escamoteia e legitima em nome da universalização de alguns direitos básicos, o extermínio de inocentes. Como se não bastasse, Cristiano repete todos os clichês anti-trotskystas, nega que havia culto à personalidade de Stálin, fingindo ignorar a imensa produção biográfica e bibliográfica que mostra como a educação soviética servia de doutrinação para as crianças aprenderem a cultuar Stálin, como lhe mostrei na sessão de comentário do texto “Lênin e o Comunismo”. Em todos os seus textos, Cristiano também usa como referência um panfleto pró-Stálin escrito pelo belga Ludo Martens, “Stálin: um novo olhar”, que enfatiza apenas o “milagre econômico” da industrialização soviética dos anos 30, o “trabalho voluntário” das pessoas e minimiza o impacto da coletivização sobre os camponeses. Tomando esse livro como base, Cristiano nega como teorias conspiratórias todas as pesquisas que mostram a tragédia humanitária que foi a coletivização e os expurgos da mesma década. Sobre o culto à personalidade, o historiador inglês Mark Mazower afirmou em seu livro “Continente Sombrio: a Europa no Século XX” (Companhia das Letras, p. 48):

Os cultos do líder – o Duce, Hitler ou Stálin – ajudavam a unificar e integrar populações e reconciliá-las com regimes de resto impopulares. Essa “sacralização da política” envolvia grandes gastos com edifícios e praças monumentais, eventos e publicações de propaganda. Gigantescos comícios, desfiles e marchas compunham o ritual e projetavam um senso de poder que sublinhava a atomização e a impotência do indivíduo.

Mazower discute as características dos regimes totalitários de direita e esquerda no século XX a partir da história cultural, mostrando como o avanço das tecnologias de comunicação e da escolarização foram importantes instrumentos a serviço do Estado para sedimentar, tanto no nazi-fascismo quanto no comunismo, a ideia da nação indivisa e poderosa. Logo esses regimes não encontraram problemas para usar a lei e a polícia como ferramentas de eliminação da oposição e imposição da obediência às massas. Nesse aspecto, a União Soviética foi terrivelmente mais eficiente do que a Alemanha. Mazower diz que os campos de concentração nazistas abrigaram na década de 1930 entre 25 mil e 50 mil prisioneiros, enquanto nos gulags havia milhões.

Mas essa prática embusteira não é apanágio dele. Como mostra a Anne Applebawm, foi uma prática sistemática do Ocidente durante toda a Guerra Fria, apanhando inclusive, como já mencionei no caso de Sartre, renomados intelectuais que temiam ceder à direita caso admitissem as mazelas do comunismo. Além disso, Cristiano finge ignorar o quando o Exército Vermelho que ele tanto adora foi protagonista de massacres contra civis não menos piores do que o que os norte-americanos fazem no Oriente Médio, como o massacre de Katyn e o estupro de milhares de mulheres alemãs quando da tomada de Berlim. Utilizando o tal Ludo Martens e discursos do próprio Stálin, ao mesmo tempo em que rejeita toda a bibliografia que não se coaduna com sua crença religiosa, Cristiano finge ignorar o quanto o bolchevismo tentou encarnar as leis da história do marxismo-leninismo na marcha em direção à sociedade sem classes. Autores como Robert Service e François Furet são categóricos em mostrar como Lênin desenvolveu todas as regras e mecanismos do Estado centralista e todo-poderoso que logo se voltaria contra seus próprios artífices nos expurgos stalinistas em sua perseguição obsessiva pelo poder absoluto.

O restante do artigo de Cristiano não passa de argumentos ad hominem tacanhos dignos da mediocridade de um militante que se orgulha de ser stalinista. Tomado por um ódio visceral contra minhas postagens, não lhe restou nada de mais digno do que escrever abobrinhas infantis do tipo “ele não é historiador”, “não tem diploma” e outras asneiras. Que ele queira defender seus tiranos sanguinários é problema sexual dele, mas daí a vir aqui querer fazer proselitismo político, usar a calúnia, como me chamar de “machista” por ter chamado uma tal de Angela de burrinha e fraudar a história usando meus textos como isca para chamar a atenção, é  não apenas inadmissível como prova o mau caráter energúmeno que ele é. Cristiano e sua seita de stalinistas neuróticos não merecem ser levados a sério tanto quanto os jornalistas de extrema direita e seus sequazes que vivem de parasitismo virtual. São exatamente a mesma escória pseudo-intelectual que usam a mentira e a difamação pra se reproduzirem na internet.

Leia também: Marx ontem e hoje

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38 thoughts on “O orgulho de venerar um genocida

  1. Roni 11/09/2013 / 19:28

    Excelente, Bertoni. Assim como devemos combater reacionários fanáticos sem dó, também devemos combater esquerdistas fanáticos sem dó. Só um completo escroto ou ignorante em história para idolatrar Stálin. Se combate esse tipo de ignorância com a inteligência viva, e você tem feito isso muito bem Bertoni.

    • Bertone Sousa 11/09/2013 / 19:49

      Roni, eu nem ia responder, mas ele escreve tantas falácias que me sinto na obrigação de dar uma resposta a meus leitores. Valeu. Abs.

  2. Renato 11/09/2013 / 19:30

    Não foi Ludo Martens que se descobriu, depois da aberturas dos arquivos da União Soviética, recebia dinheiro da própria União Soviética para falar bem daquele país?

    • Bertone Sousa 12/09/2013 / 2:27

      Lúcio, se eu não soubesse que não existe debate acadêmico sobre a União Soviética no exterior, eu não teria citado somente (repito, somente) autores estrangeiros nas minhas postagens sobre o assunto aqui. Não é porque eu não acredito no revisionismo que não conheço historiografia estrangeira sobre o assunto; ao contrário, é com base nessa historiografia que rejeito o revisionismo. Meu amigo entenda que nem todo mundo é besta pra acreditar nessas cartilhas stalinistas que vocês reproduzem. E já que você quer falar em aluninhos, é melhor mesmo se preocupar com os seus e eu tenho muita dó deles, muita mesmo. Não tenho o que discutir com quem acha que Stálin era democrata, eu só não gostaria jamais de viver numa “democracia” onde você estivesse no poder. E vocês não estão à frente de nenhuma mudança paradigmática, meu caro. Vocês estão vivendo num mundo paralelo, só de vocês.

  3. Sérgio Rodrigues 12/09/2013 / 18:19

    Então, não me censure!…e venha para o debate!…Eu concordo com a maioria das colocações do Cristiano, pois são fundamentadas em evidências históricas. Sua posição é mais ideológica e baseada em fontes desonestas, cujos os matérias de pesquisa são duvidosos e em sua grande maioria de fontes secundárias, terciárias e até mesmo quaternárias, feitos para enganar incautos. Muitos desses materiais foram produzidos no calor da Guerra Fria, patrocinados pela CIA, sob o lema: A mentira necessária. Leia o livro Quem Pagou a Conta, de Frances Stonor Saunders e vc entenderá o que estou afirmando. Além do Robert Conquest, outros autores se notabilizam por suas desonestidades intelectuais e claras posições ideológicas anticomunistas a serviço do que representam. Entre esses posso citar: Constantine Pleshakov, que escreveu um livro patético chamado A Loucura de Stalin, Roy e Zhores Medvedev, A Corte do Czar Vermelho – só o título já dá uma ideia da magnitude de sua desonestidade -, Simon Sebag Montefiore , O Jovem Stálin – que insinua até que a mãe de Stalin era prostituta – que acha correto, em nome da História (sic) que o arquivo pessoal dele tenha desaparecido por obra dos desleais que o sucederam, Richar Overy, Os Ditadores – faz um esforço descomunal para equiparar Nazismo e Comunismo, reduzi-los a mesmas vala comum, etc…O curioso desses que citei, é que seus conteúdos são profundamente contraditórios entre as várias afirmações (e desafirmações que encerra), sobrando somente os adjetivismos para caracterizar Stalin.

    • Bertone Sousa 12/09/2013 / 18:39

      Sérgio, o problema é que vocês possuem uma devoção religiosa por Stálin e não é possível debater com fundamentalistas religiosos. Vocês desqualificam qualquer autor que não se coadune com suas ideias como teóricos conspiracionistas e anticomunistas. Os autores que mencionei aqui são todos pesquisadores sérios, como Robert Service, Archie Browm, Fraçois Furet, Anne Applebawm, Mark Mazower e o próprio Roy Medvedev cujo pai morreu num campo de concentração stalinista. A Anne Applebawm, por exemplo, pesquisou em fontes primárias nos arquivos russos durante anos e entrevistou mais de vinte sobreviventes dos campos de concentração. A maior parte dos autores que vocês denunciam como anticomunistas pesquisaram em fontes primárias. Já provei aqui que o Holodomor não foi por causas naturais, mas foi genocídio mesmo e vocês continuam negando apenas com base em posições reducionistas. Vocês são comunistas religiosos e é perda de tempo discutir com fanáticos extremistas.

  4. Ávila Lopes 12/09/2013 / 22:06

    Bertoni, Tendo em vista todo o sangue derramado, todos os sonhos de liberdade democrática solapados pelos regimes comunistas, você considera a intervenção militar de 1964 oportuna? Explico melhor: Acredita que corríamos o risco de descambar para uma revolução sangrenta nos moldes da Revolução Bolchevique e da Cubana ? Apesar de considerar a ditadura militar uma fase nefasta da nossa história, com todos os abusos cometidos e a demora em regressar à Democracia, fico pensando se os militares não agiram em boa hora, ao menos para apagar o incendio que se anunciava. Gostaria muito de conhecer sua opinião, já que acompanho seus artigos com admiração. Obrigado.

    • Bertone Sousa 12/09/2013 / 22:51

      Ávila, na verdade Goulart não era comunista como muitas pessoas da direita alardeiam. As reformas de base de seu governo não tinham a intenção de promover o socialismo, ao contrário, objetivavam desenvolver o capitalismo brasileiro. Mas o Brasil vivia um momento de tensões sociais muito agudas naquele momento, especialmente no campo, onde pressões por reforma agrária terminaram desencadeando conflitos em várias regiões. Mas nem o partido comunista, nem a guerrilha no campo tinham chances de uma tomada efetiva do poder. Mesmo que a revolução cubana tenha se tornado um fantasma para muitos grupos de direita no Brasil, uma revolução comunista não era uma possibilidade palpável. Na prática o que os militares fizeram foi solapar projetos de reforma social importantíssimos e aprofundar ainda mais o abismo social entre ricos e pobres.

  5. Lucio Jr 13/09/2013 / 16:39

    É, nunca pensei que diria isso, mas o Conde fascista disse algumas verdades: Cristiano entende mais de Marx do que Bertone, Zizek defende Stálin (ainda que por diversionismo…). O fascista é sempre a vanguarda da direita.

  6. dimas 13/09/2013 / 17:02

    Um ótimo artigo, apenas creio que não vale a pena perder o tempo com Cris Alves ou outros crentes como ele, a fé deles é inabalável, me recordam os estalinistas que fuzilados pelas ordem do Stalin gritavam “Viva Stalin”…

    • Bertone Sousa 13/09/2013 / 22:55

      Lúcio, recomendo que poste os links de suas réplicas ao conde lá no blog dele. Quanto a esses ataques pessoais infantis que você faz a mim, não me atingem nem um pouco, apenas confirmam o sujeito mau caráter que você é. E é preciso ser muito mau caráter pra defender Stálin.

  7. bailux 14/09/2013 / 9:28

    Para o Conde (vulgo Rachel Piaszt), Bertone é tão insignificante que perde um belo tempo para escrever sobre seu “esquerdismo incurável” e sua briga com o Cristiano. Bela contradição, não é? E ele não consegue perceber que ao contrário dele, quando o Sr. Bertone denuncia as mazelas do comunismo, ao mesmo tempo ele critica os preconceitos da direita, algo no qual o conde peca, como mostrarei mais adiante. É por isso, Sr Conde pode ser considerado um fascista quando diz sobre os socialistas, ao contrário do professor de história da UFT. Bertone pode até ter falhado em desconsiderar as verdadeiras posições de Eric Hobsbawn ou Zizek, mas isso não o joga no mesmo grupo do Cristiano, na seita bolchevista stalinista. Na verdade, se Slavoj tem a polêmica posição de não igualar stalinismo com fascismo, recusando assim o conceito de totalitarismo sobre o governo de Stalin. (PG), Bertone já taxou o stalinismo de totalitarismo, portanto a posição moderada dele é legítima. E o dono desse blog já demonstrou em não querer amenizar os crimes comunistas, ao contrário que insinua Leonardo Bruno. Ora, qual a diferença em dizer “apropriação das riquezas pelo Estado” em vez de “coletivização”, se, no final, se admitiu que isso levou a cabo milhões de vítimas e a um terror estadista? Se Cristiano tenta enquadrar Bertone de um jeito ou de outro como fascista, o Conde tenta, com um método fail, de o acusar em defender o comunismo sutilmente, o que quer que isso signifique. Mais uma prova demonstrado que no mundo fantasioso da religião política, ou existe comunista ou fascistas. Ser moderado não existe para essas criaturas.

    Essa figuraça, que teima em não ser denominado (corretamente) de fascista, esquece que ele não passa apenas de um blogueiro racista e preconceituoso que continua solto (sic). O conde escreveu essa pérolas: ” Percebi nele, aquela sensação de inferioridade encontrada em alguma pessoas pardas, com aquela negroide feiura” ;” Os movimentos negros agora redescobriram a cultura africana: só falta derramar o sangue das galinhas pretas e jogar farofa na encruzilhada, para assumirem seu lado racial e culturalmente negro, tal como os nazistas!; ” A cultura negra atual, no velho continente africanóide, é, por assim dizer, um lixo! “; ” A médica cubana não faz inveja nem ao terreiro de umbanda”. Me responda Conde, que tipo de liberal-conservador em sã consciência vociferaria tais absurdos? Entretanto, qualquer criança sabe que essa é uma birra típica de ultra-direitistas fascistas. Claro que o exemplar blogueiro pode me acusar de estar jogando frases fora de contexto. Agora, será que um ateu pode, no contexto adequado, chamar a cultura cristã de lixo e suas crenças de ideologias assassinas? Pessoalmente acredito que não, pois estaria sendo um preconceituoso da pior espécie, e, no mínimo, criando generalizações apressadas execráveis. Note que possivelmente, na mentalidade do Conde, se um descrente fizer isso, não passa de um esquerdopata fascista e ateu toddynho, mas se uma pessoa como ele escrever tais asneiras, não passa de um liberal-conservador!

    Se o Conde acusa o Sr. Bertone de um esquerdista incurável, não seria muito taxar o Bruno de um idiota incurável, rs.

    • Bertone Sousa 14/09/2013 / 11:58

      Bailux, eu também acho muito curiosa essa insignificância que já levou o Leonardo Bruno escrever vários textos sobre mim. Imagina se eu fosse importante. O fato é que ninguém leva a sério as coisas que esse fascistoide pseudo-liberal escreve, eu deixei o link dele aqui só pra diversão das pessoas. O mesmo pode ser dito do Cristiano, ninguém pode levar a sério um fanático religioso stalinista como ele. Não é possível ter um debate de qualquer nível intelectual com nenhum porque nenhum deles é nem têm pretensões intelectuais. Esses caras são como os adventistas do sétimo dia, quanto mais seus prognósticos escatológicos falham, mais eles acreditam cegamente nos dogmas de suas seitas.

  8. Claudio ricardo santos 14/09/2013 / 22:27

    Tem que ter esquerda e tem que ter direita, assim como ocorre na europa e nos eua, sobe um e desce o outro, é assim que se aprimora um democrácia e conserta erros e inibe abusos de qualquer vertente partidária. Toda ideologia que vise perseguir e matar seres humansos, tem que ser execrada da vida política, seja ela qual for.

    O nazismo já está morto politicamente, só falta o comunismo.

  9. Sandro 15/09/2013 / 0:18

    O fanatismo político tem o mesmo odor fétido e repugnante daquele de natureza religiosa. Para ambos, apenas um destino existe: o desprezo intelectual e o esgoto da História. Pena que muitos homúnculos intelectuais, fanáticos alucinados pelos odores e miasmas nauseabundos que se desprendem de velharias ideológicas apodrecidas e carcomidas pelo tempo, tais como o ególatra, desinformado e bitolado Cristiano, individuo cujo senso do ridículo nele não produz qualquer imunização contra o falar e o comportar-se como imbecilizante e cômico fantoche imitador do genocida Stalin, encontrem prazer em chafurdar na lama desse esgoto asqueroso e de onde as mentes com um mínimo de esclarecimento e formação intelectual querem distância.

  10. Tiago Cássio 16/09/2013 / 13:24

    Ola Bertame, sou estudante de história, não sou stalinista(pelo contrário, vivo debatendo com partidários dessa ideologia, que acredito ser quase que uma religião para seus seguidores), acredito que Stalin foi sim um ditador totalitarista .
    Gosto muito dos seus textos, e gostaria de fazer só algumas observações sobre esse seu texto aqui.
    Acho que existe muita desinformação sobre o governo de Stalin, existe uma linha extremista a favor de Stalin e outra contra, e não podemos combater extremismo com extremismo.

    Primeiro usar Furet como fonte fidedigna é bem questionável, pois suas análises são bastante questionáveis dentro das faculdades de história (principalmente sobre a Rev. Francesa), Furet tem um profundo sentimento anti-revolução, o que , em minha opinião, reflete em seu trabalho(e ele as vezes se apega em fontes irrelevantes para provar esse ponto de vista), axcredito que seu trabalho seja interessante como um contra ponto á análises gerais da academia de História, só isso.

    Segundo : as mortes de Holomor são consequências da adoção de uma política desastrosa, mas que a conjuntura entre todas as partes envolvidas contribuíram para o desastre, é absurdo creditar essas mortes na conta de Stalin e ainda tentar comparar essas mortes com o genocídio Nazista, são contextos e motivações completamente diferentes.

    Para finalizar, gostaria de indicar um livro bastante sóbrio sobre Stalin, seu nome é : “Stalin – História Critica de uma lenda Negra” de Domenico Losurdo, esse livro é fruto de anos de pesquisa e, em meu ponto de vista, desconstrói com argumentos sólidos muitas lendas pró-Stalin e anti-Stalin.

    Abraços

    • Bertone Sousa 16/09/2013 / 22:08

      Tiago, se você reler o texto verá que não é absurdo creditar o Holodomor a Stálin. A ação de aniquilação de uma classe social resultou num genocídio que afetou toda aquela sociedade. A comparação com o Holocausto também não é fortuita. O Holodomor não teria acontecido se Moscou tivesse adotado uma postura diferente, é o que o Mazower enfatiza. As motivações foram diferentes, mas não o contexto e havia semelhanças também. De fato, o Holocausto foi produzido de forma planejada pelos mentores de uma ideologia racista, como os campos de concentração nazista em muitos casos foram mais brutais que os soviéticos, mas as vítimas do comunismo, embora não fossem oriundas apenas de uma classe ou etnia, foram muito maiores do que as do nazismo, até porque o sistema comunista durou muito mais tempo e alcançou uma expansão territorial maior. É preciso compreender as raízes disso na doutrina do centralismo democrático de Lênin, que, como diz o Bauman, transformou a subserviência e o servilismo em virtudes. De todo modo, os genocídios que o comunismo promoveu na URSS, na China e Camboja provaram o quanto ideologias coletivistas e sua negação do individualismo adquirem consequências nefastas quando postas em prática por um partido que acredita estar na vanguarda da história. É por isso que o comunismo e o marxismo ortodoxo enquanto filosofia da história estão mortos.

  11. Éderson Cássio 20/09/2013 / 2:05

    Bertone, sei que o blog é seu e que você escreve o que quiser aqui, mas permita-me dar minha opinião. Não acho que valha a pena dedicar tantas linhas a pessoas visivelmente doentes. Se é para divertimento dos leitores, uma simples menção bastaria. Eu, no caso, sinto pena de pessoas tão limítrofes, e mais ainda de quem convive com eles.
    Esses caras não precisam de aulas nem de História, nem de nada. Precisam de intervenção psiquiátrica. Tomar uns faixas-pretas (talvez o toddynho ajude a engolir).

    • Bertone Sousa 20/09/2013 / 12:15

      Éderson, concordo plenamente com você, mas apesar de esses caras serem derrotados e paranoicos, sempre apelam para a calúnia pra chamar a atenção e ganhar audiência, o que me força a ter de respondê-los. Mas que o problema deles é psiquiátrico, isso é.

  12. Sérgio Rodrigues 22/09/2013 / 13:59

    Churchill sobre Stalin:

    “Ele foi uma figura destacada que se impôs ao nosso tempo, aquele período no qual transcorreu sua vida. Stalin foi um homem com erudição e energia incomuns, com uma inabalável força de vontade, brutal, áspero, impiedoso tanto no trabalho como nas conversações; inclusive eu, educado no parlamento inglês, nunca pude contestá-lo em nada… Em suas obras soava uma força colossal. Esta força era tão grande em Stalin que parece que ele é inigualável entre os dirigentes de todos os tempos e povos (…)

    “A sua influência sobre as pessoas era incontestável. Quando ele entrou na sala da conferência de Yalta, todos nós como que respondendo a um comando, pusemos-nos de pé. E, surpreendentemente, mantínhamos as mãos nas cinturas. Stalin tinha uma inteligência profunda, lógica e razão, privado de todo pânico. Ele era um mestre perfeito para encontrar nos momentos difíceis os caminhos para sair das situações mais difíceis. Ele era um homem que liquidava os seus inimigos com as mãos dos seus inimigos, ele nos obrigou, a nós que ele chamava abertamente de imperialistas, a lutarmos contra os imperialistas… Ele encontrou a Rússia com arado e a deixou equipada com armas atômicas. A história não esquece tais pessoas.”

    • Ávila Lopes 22/09/2013 / 22:01

      Sem julgar o mérito ou as circunstâncias que levaram Churchil a proferir tais elogios ( apesar do “brutal, áspero, impiedoso”), penso que a genialidade e o imenso poder de persuasão tão característicos do grandes psicopatas, não os torna menos psicopatas.

      • Bertone Sousa 22/09/2013 / 22:21

        Ávila, isso mesmo. Militantes como o Sérgio repetem essas coisas a esmo como papagaios, como se isso invalidasse o fato de ele (Stálin) ter sido um assassino e um comunista que ordenava assassinatos de outros comunistas. Características semelhantes poderiam ser atribuídas a outros facínoras, não necessariamente estadistas.

  13. New Right 28/09/2013 / 22:31

    Novamente Bertone venho aqui te cobrir de elogios pelo excelente desempenho em desmascarar gente como esse Cristiano; um cara desses é um Stalin sem poder, pois se tivesse mataria tantos quanto puder. Como já disse em outro comentário, sou de direita, conservador (não olavette, olavette não é conservador, é fascista) nos moldes do PArtido Conservador britânico, mas respeito o seu posicionamento a esquerda e seu empenho em combater extremistas, seja de direita como as olavettes fascistas ou os comunas.

  14. Matheus 30/09/2013 / 23:47

    O Cristiano Alves exagera demais, sua tentativa de reabilitação de Stálin é muito forçada, de fato poderia ser chamado de “esquerda autoritária”. Mas ele não está totalmente errado. A comparação entre o stalinismo e o nazi-fascismo, com o objetivo de reduzi-los a um mesmo “totalitarismo”, é realmente forçada e espúria. Toma as semelhanças, algumas delas superficiais (a questão do “regime de partido único”, p.ex., é meramente formal, assim como se o governo reconhece ou não uma ideologia como sendo oficial), e abstrai as diferenças. Além disso, há uma questão, que ninguém sério pode ignorar: a hiper-inflação de vítimas.

    Para recorrer a uma comparação mais próxima, na América Latina as vítimas de assassinato ou tortura por motivo político sob ditaduras foram verificadas caso por caso, individualmente, buscando determinar se: a) aquele indivíduo tinha militância política ou era considerado um “comunista” (inimigo) pelo regime ditatorial; b) se os culpados diretos ou indiretos pela sua morte ou tortura eram agentes do governo. Com este método as Comissões da Verdade chegaram a diagnóstico razoáveis, embora quantitativamente subestimados, sobre a organização, motivação, impacto e perfil das vítimas das agências de repressão política.

    Coisa muito diferente acontece com muitos estudos sobre a repressão política na ex-URSS. Não vemos essa preocupação metodológica tão profunda em “historiadores” anticomunistas, muitos deles simples propagandistas com cargos acadêmicos, preocupados somente em encontrar as justificativas mais convincentes para um golpe de Estado, para a invasão (ou embargo) de um país sob governo socialista/comunista, enfim, para ações terroristas contra a esquerda – toda a esquerda, e não somente os militantes comunistas.

    Para começar, o que era Gulag? Era uma sigla para designar o sistema penitenciário soviético. Antes da Revolução, o Gulag chamava-se Katorga, e aplicava exatamente a mesma coisa: pena privativa de liberdade, pena de trabalhos forçados e pena de morte. Podemos criticar os bolcheviques (e depois os stalinistas) por não terem rompido a tradição autocrática-imperial russa, mas eles não foram seus inventores. A criminalização da dissidência política era regra tanto na ex-URSS quanto no ex-Império Russo (que também criminalizava heresias religiosas), mas além desses haviam presos condenados por vadiagem, furto, roubo, agressão, homicídio, estupro. Então é preciso separar quantos presidiários eram acusados ou condenados por crimes políticos, e quantos não eram. Finalmente, a ex-URSS passou por guerras internas e externas, então uma parte desses presidiários eram prisioneiros de guerra.

    Muito da “historiografia” girou em torno de especular sobre o número de vítimas. Eu disse ESPECULAR, porque não há tanta preocupação em verificar. Há especulações bizarras, de onde saem as famosas afirmações, completamente infundadas, de que “Stalin matou mais que Hitler”. Os repressores (policiais e juízes) soviéticos prendiam em campos de trabalho forçado, os nazi-fascistas prendiam em campos de extermínio – ou seja, depois do trabalho forçado, era a execução sumária, na URSS você era liberado depois de cumprir a pena, e, na grande maioria das vezes, sobrevivia à prisão. Os nazi-fascistas, além de reprimir dentro do país, invadiram e ocuparam vários outros países, se impondo pelo terror e escravizando ou exterminando parcelas da população subjugada. Os repressores soviéticos reprimiam pessoas por terem cometidos atos definidos como crimes pelas leis (não estou dizendo que as leis necessariamente são justas, muito pelo contrário), os nazi-fascistas faziam isso e ainda mais: prendiam, torturavam, escravizavam e matavam pelo modo como a pessoa “era” (deficiente, homossexual, judeu ou cigano).

    Além dos milhares de fuzilamentos, o governo de Stálin foi responsável por um fenômeno de super-encarceramento comparável ao que vive os EUA de hoje. Óbvio que, por um lado, os EUA possuem melhores condições de vida nas prisões, e, por outro, a URSS não possuía a extrema seletividade penal étnico-racial, nem a enorme rede de controle penal extraprisional dos EUA. Mas as taxas de encarceramento são semelhantes. O que a URSS tinha de viés político-ideológico no encarceramento, os EUA tem de viés de classe e raça.

    A questão ucraniana também não me parece razoável falar de “genocídio”. Os fascistas ucranianos adoram essa versão, que para eles lhes dá algum respaldo para serem anticomunistas e ainda por cima xenófobos com os russos. A explicação mais razoável, no entanto, é que se tratou de uma crise agrícola, consequência imprevista da política de coletivização forçada, provocada por uma conjugação de fatores naturais e sociais. Temos um exemplo próximo no Brasil, mais ou menos na mesma época, com uma seca no Nordeste, com direito a campos de concentração para camponeses famintos que fugiam para as cidades da escassez nas áreas rurais. E não conheço pessoa séria que diga que o propósito de Getúlio Vargas e seus aliados era exterminar os camponeses nordestinos, embora a consequências imprevista das suas decisões tenha sido um grande número de mortes evitáveis. Genocídio é eliminação deliberada (por assassinato ou esterilização forçada) de um grupo étnico ou racial, como se vê pela raiz “genos”, de onde deriva “gene” e “genética”. Seriam Stalin e Vargas genocidas? Bem, se eles são, sinto muito dizer que os governos semidemocráticos do Brasil e outros países também o são, por conta do que fazem na repressão criminal, especialmente na repressão militarizada às drogas.

    Finalmente, um ponto interessante é que os “historiadores” anticomunistas não levam em conta o contexto interno e externo da URSS. Pouco lhes importa que a URSS tenha emergido de uma sangrenta guerra externa e interna, iniciada com a entrada da Rússia tzarista na I Grande Guerra e finalizada com a reconquistada da unidade territorial pelas forças militares comunistas. Não lhes interessa que o país tivesse uma tradição de cultura política autocrática e teocrática. Que a industrialização fosse incipiente e a economia devastada por guerras. Ou que houvesse uma hostilidade internacional muito real. Enfim, fatores que contribuíram para gerar uma sensação de medo e urgência, que levou muitos a apoiar as políticas desenvolvimentistas e repressivas de Stalin.

    Sua preocupação é encontrar um culpado. Pois bem, para mim é legítimo considerar que os agentes do regime são culpados materiais, e as autoridades são os culpados intelectuais (mandantes). Ora, os historiadores anticomunistas não pensam assim. A preocupação deles é dizer que a culpa foi do autor X, que publicou textos com a teoria social Y, para assim criminalizar a teoria social Y e justificar ações terroristas, golpistas e imperialistas. Desculpem o estilo seco, mas é isso o que eu vejo. Vão dizer que o terrorismo de Estado stalinista foi culpa de Lênin, de Engels, Marx, Rousseau… até que um maluco consegue encontrar a “origem do totalitarismo” na “República” de Platão.

    Resultado patético desse tipo de postura é quando um reacionário diz que os golpes de Estado e ditaduras anticomunistas estão justificadas para evitar o comunismo. Aí aparece uma bela alma democrática, e diz que não haviam perigo comunista real, na verdade eram governos democráticos. Ora bolas, isso é óbvio, nem tem o que discutir que os golpistas, com apoio imperialista, depuseram governos eleitos em nome de uma ameaça imaginária. Mas e se os governos eleitos fossem comunistas, seria legítimo derrubá-los? É claro que não. Salvador Allende era socialista, os comunistas eram aliados e participantes do seu governo. Isso justifica o golpe? É claro que não. Não sei de uma única democracia constitucional deposta por comunistas. Sei de muitas depostas por anticomunistas, em nome do combate ao comunismo em defesa da democracia (por mais incoerente que seja, era o discurso dos caras). Então se alguém fala de “contra-revolução para deter os comunistas”, é preciso responder: se o comunista foi eleito pelo povo e respeita a constituição, qual é o problema? Se não gosta, não vote nele e ponto.

    • Bertone Sousa 01/10/2013 / 12:28

      Matheus,

      que o comunismo não era a mesma coisa que o nazismo está muito claro no texto, a questão colocada é a semelhança entre eles por serem regimes totalitários. Outra coisa é que comparar o genocídio ucraniano com a seca nordestina da era Vargas é completamente sem noção; o Estado Novo nem chegou a ser um regime totalitário, nem o país conheceu políticas sistemáticas de extermínio de alguma etnia naquele período, apesar de teorias racistas também repercutirem no Brasil. Quanto ao Holodomor ter sido um genocídio, há uma discussão histórica a favor dessa tese que já apresentei aqui em outros momentos. Sobre as vítimas dos gulags soviéticos, recomendo que leia o livro de Anne Applebauwm cujo link postei no texto. De fato, não há uma concordância quanto às vítimas totais dos regimes comunistas, os números costumam ser aproximados, mas isso não exclui o fato de haver pesquisas sérias e bem fundamentadas acerca da questão. A principal questão aqui não é ser comunista ou anticomunista, essa dicotomia não faz mais sentido na historiografia, somente militantes incautos levam pra esse lado.

      • Matheus 01/10/2013 / 15:01

        Bertone,
        O próprio conceito de “totalitarismo” me parece equivocado, pois foi construído exatamente segundo o método que eu critiquei: reunir o que é semelhante, abstrair o que é diferente. E essa diferença inclui pontos centrais, como a política econômica e a origem de classe da elite política, a questão racial/eugênica e colonial, que separam o stalinismo e o nazi-fascismo de maneira decisiva. Há outro conceito, anterior a Hanna Arendt e muito mais consistente, desenvolvido por Franz Neuman em “Behemoth”: o capitalismo totalitário, ou fascismo simplesmente. Talvez o livro de Neuman seja um tanto esquecido (sequer há tradução para o português!) por sua análise da origem e estrutura social do III Reich explicite semelhanças com os Estados Unidos…

        A tragédia ucraniana dos anos 1930 me parece melhor explicável como consequência imprevista (lembrando o conceito de “efeito perverso” da análise de política estatais) do plano de coletivização forçada. Certamente o objetivo da cúpula stalinista era o desenvolvimento industrial “a qualquer custo”. Não apenas houve muita violência ENTRE camponeses ucranianos, como também haviam ucranianos entre altos funcionários do governo. Outras repúblicas soviéticas próximas à Ucrânia também sofreram com a crise os mesmos problemas de violência e escassez. Não havia doutrina racista defendida pelo regime, nem os ucranianos foram excluídos da plena nacionalidade soviética (como ocorreu com judeus e ciganos no III Reich). Faz, portanto, pouquíssimo sentido falar de um “plano de extermínio sistemático” que só serviria para prejudicar o próprio governo soviético. Falar de uma crise econômica, repressão violenta, talvez até de uma guerra civil, seria mais razoável.

        Sobre a letalidade do sistema penal soviético, há pesquisas a partir do próprio arquivo da NKVD, aberto por Mikhail Gourbachov, identificando um total entre 750 mil e 1,5 milhão entre 1922 e 1953. O encarceramento e a letalidade são altas – imagine um sistema penal são encarcerador quanto o dos EUA, e tão letal quanto o brasileiro, sem a seletividade racial de ambos, mas, em compensação, com um viés político-ideológico mais acentuado. E ainda assim pouco se compara aos campos de extermínio do III Reich.

        Claro que se pode atacar o stalinismo por outras vias. P.ex., a ruptura com o internacionalismo socialista, através da imposição de um nacionalismo autoritário soviético como linha oficial de um regime de partido único, correspondente ao enrijecimento e dogmatismo que sufocaram a criatividade artística, filosófica e política. Talvez os anticomunistas não gostem de lembrar desses pontos porque eles mesmos se vejam neles.

        abraços

      • Bertone Sousa 01/10/2013 / 21:08

        Matheus,

        não vejo o totalitarismo como um conceito equivocado, até porque se se levar em conta apenas a abstração do diferente, conceitos como nação e identidade cultural também seriam questionáveis; não que haja conceitos estanques e absolutos em história, mas como o totalitarismo começa como uma ideologia de direita, concordo que é preciso ter cautela ao comparar o nazi-fascismo com o comunismo. Se olharmos pela ótica da história cultural, por exemplo, a questão da importância da universalização do ensino como aparelhamento do Estado, veremos como esse recurso foi tão amplamente utilizado pelas duas ideologias. Por isso, a erradicação do analfabetismo também era tão importante na União Soviética. Trabalhadores submissos e escolarizados são mais eficientes para a produção do que analfabetos. Esse é um exemplo, mas é claro que muitas outras coisas podem ser colocadas no tabuleiro.

        Concordo com você que o conceito de genocídio deve ser flexibilizado quando aplicado a regimes comunistas, porque em nenhum lugar o comunismo se manifestou como uma ideologia racista; pode ter visto no estrangeiro um imperialista, como nos casos de China e Coreia em relação ao Japão e do Camboja em relação aos vietnamitas, mas isso evidentemente não é o mesmo que racismo. Stálin se sentia incomodado com judeus e promoveu deslocamentos de comunidades judaicas, mas em nenhum momento promoveu uma política efetiva de eliminação do elemento judaico. Contudo, no caso ucraniano, há diversos fatores que precisam ser levados em conta. O conceito de genocídio estabelecido pela ONU em 1948, inclui entre outros itens, o extermínio de grupos. Não vejo isso como uma consequência “imprevista” da coletivização forçada, porque a Ucrânia foi sitiada e isolada. Uma tragédia de proporções tão grandes não acontece sem que haja uma ação coordenada do Estado para provocá-la. Eles podem não ter perdido o status de cidadãos, mas os efeitos dessa política resultaram num extermínio.

        Eu mencionei pra ti o livro da Anne Aplebauwm porque um dos pontos iniciais que ela levanta e é esse que você colocou: o sistema prisional soviético não era tão degradante e xenófobo como o nazista, mas pra uma ideologia que se propunha a construir um novo homem a partir de valores humanistas (e não foram apenas burgueses, latifundiários e membros da antiga nobreza que foram enviados aos gulags), isso foi um calcanhar de Aquiles. De fato, os anticomunistas usam isso pra exacerbar seus discursos anti-marxistas, atribuindo todos os males do mundo a Marx e chegando ao ridículo de considerar inócuas ditaduras fascistas como a de Franco, como o tal Conde Loppeux aí acima. Concordo com muitos pontos que você levantou, só divirjo na questão ucraniana e alguns conceitos. De todo modo, o que tenho chamado a atenção é que reabilitar Stálin como faz o Cristiano Alves a ponto de faltar evocá-lo como um deus, é um delírio completo. A esquerda não precisa se apegar a essas mesquinharias dogmáticas pra mostrar alguma força. Pelo contrário.

        Abraços

      • Matheus 02/10/2013 / 11:27

        Bertone,
        A URSS foi emergiu de uma guerra externa e interna que devastou o antigo Império Russo, de industrialização incipiente e de tradição absolutista e teocrática, e após 10 anos de existência viu a ascensão de uma nova ameaça externa, o III Reich. Não vejo como dizer que um governo de união nacional-popular e medidas de emergência para a defesa externa e interna não foram necessárias por um longo período.

        O problema é que o stalinismo foi muito além disso. O sistema monopartidário (centralismo burocrático), a instituição do culto à personalidade, a imposição do “realismo socialista” às artes e do dogmatismo à filosofia, a expansão descontrolada do controle policial e prisional sobre a população, os tribunais de exceção e penas draconianas para comunistas dissidentes foram mais que erros ou excessos. São parte de um sistema perverso que foi exportado, por imposição (Polônia, Bulgária, etc) ou por imitação (Coreia do Norte, China, etc). E como você disse, é ainda pior se pensarmos que o propósito era criar uma sociedade onde a opressão é impossível.

        E sobre a questão da Ucrania, por enquanto continuará sendo ponto de dissenso entre nós. O propósito dos governantes soviéticos era acelerar a Revolução Industrial, e o meu escolhido foi a coletivização forçada da agricultura. Não acho que o resultado esperado era gerar miséria e violência, mas o contrário. Tanto que em seguida houve um recuou diante dos resultados, e decidiu preservar um espaço importante para a agricultura privada. Não acho que foi dirigida aos ucranianos, pois eles foram alguns dos mais, não os únicos, prejudicados pelo fracasso parcial da coletivização forçada. Então eu defino como crise econômica e política, de dimensão nacional, mas com o ponto de maior tensão na região da Ucrânia e adjacências.

        “Observem que, da forma como Riutin a compreendia, a “liquidação dos kulaks como uma classe” envolveria sua transição da classe dos kulaks para a classe dos kolkhozy (fazendas coletivas). Supunha-se que isto resultaria no melhoramento dos ex-kulaks. Entretanto, o resultado não intencional do plano de Stalin foi deletério para os kulaks. Ironicamente, Riutin vê Stalin como o promotor de uma guerra civil que era contrária à verdadeira essência do Comunismo. Riutin, com efeito, recusa-se a categorizar Stalin como um dos grandes líderes comunistas, ao lado de Marx e Lênin.

        Conquanto Riutin responsabilize pessoalmente Stalin pela destruição dos kulaks, é possível encontrar evidências de que Stalin não era capaz de controlar os oficiais superdedicados que eram pessoalmente responsáveis pela violência contra os kulaks. Como observado por Getty e Naumov, Stalin até mesmo determinou uma “pausa na coletivização forçada e ordenou uma redução no uso da violência contra os camponeses” em um artigo publicado na edição de 2 de março de 1930 do jornal Pravda.”(http://rebeldiametafisica.wordpress.com/2012/08/22/ateismo-e-o-grande-terror-na-russia-stalinista/)

        abraço

  15. Leo 04/10/2013 / 8:04

    De acordo com Leszek Kołakowski, há três posturas quanto à relação entre a doutrina marxista e o comunismo moderno:
    (1) O comunismo moderno é a encarnação perfeita do Marxismo, o que prova que o segundo é uma doutrina que leva a escravidão, tirania e crime.
    (2) O comunismo moderno é a encarnação perfeita do Marxismo, e portanto significa uma esperança de libertação e felicidade para a humanidade.
    (3) O comunismo como nós o conhecemos é uma deturpação profunda de Marx, e uma traição dos fundamentos do Socialismo Marxista.
    O que temos aqui é um marxista do tipo (3) horrorizado com um do tipo (2).

    • Bertone Sousa 04/10/2013 / 12:46

      Leo, nem todos que leem Marx e dialogam com sua obra são marxistas. As pessoas precisam aprender que a relação de alguém com um autor clássico não se limita à dicotomia adesão/ojeriza.

  16. Sérgio Kazinskiy 07/10/2013 / 20:51

    Hoje fui checar meu Face e vi alguem compartilhando esse blog. Nem me toquei que era dessa figura. Fiquei curioso pra saber que tipo de coisa se publica lá, até que vejo “Celular, uma invenção dos comunistas”. A vontade que tive foi de derrubar meu monitor. É puro lixo o blog. Deviam denunciar isso pra sair do ar, parabéns por denunciar aqui, Bertône.

  17. Roni Kurono 28/03/2014 / 11:43

    Cristiano Alves literalmente surtou no Facebook. Ele tem um grupo onde está banido todo mundo que é a favor da legalização da maconha. Segundo ele, a maconha é um plano da CIA contra o Comunismo. Ao ser questionado por causa de seu autoritarismo, começou a colar um texto de Engels, como se fosse um crente colando trechos da bíblia, para dizer que comunistas devem ser autoritários. O cara é semelhante a um fanático religioso.

  18. Alan 05/03/2017 / 21:42

    eu sou iniciante no ramo da história política e esses textos do Sr. Bertone me ajudam muito porque tem dicas de livros indispensáveis e informações muito importantes. A equidade também merece aplausos. Obrigado, sinceramente professor Bertone por ser a luz no túnel escuro e eivado de ignorantes dessa internet brasileira.

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