Quem precisa do papa?

Escândalos de corrupção, pedofilia e acobertamento dos sacerdotes criminosos: nada disso abalou significativamente a imagem da Igreja entre seus fiéis pelo mundo. Mas por que deveria? Coisas piores foram feitas no passado: apoio ao fascismo, silenciamento em relação a genocídios. Numa era em que a informação está a alguns cliques da maioria das pessoas e em que as liberdades democráticas proporcionam a possibilidade de estilos de vida libertários, ainda não faltam multidões para aplaudir lideranças religiosas e até considerá-los como super-humanos dotados de dons sobrenaturais.

Deus está morto, a Igreja e o papa sabem disso, mas como dizer isso às pessoas? Ou pior, como livrar-se de todo o ouro e dinheiro do Vaticano, como abrir mão de todo o poder acumulado ao longo de quase dois mil anos? A Igreja entende que é melhor manter a formalidade da religião do que deixar as pessoas sem esperança.

A maior parte da teologia cristã está perdida. As pessoas não estão mais preocupadas em saber as diferenças entre calvinismo e arminianismo, Patrística e Escolástica ou o que foi dito e feito após o Concílio de Trento. Nem saberiam explicar a doutrina da Trindade. Esses conhecimentos se mantêm apenas na esfera da erudição teológica e se perderam do contato do público há gerações. Mesmo assim, as pessoas ainda acreditam no papa. Mas agora é uma crença ingênua, sustentada mais pela imagem impactante da tradição religiosa, transformada em propaganda pós-moderna, do que pela vivência ou mesmo pela crença na fé professada, porém ignorada. Propaganda que inclui tanto as estratégias de marketing das agências de turismo como de grupos como a Canção Nova, que tenta trazer o modelo de culto pentecostal para dentro da Igreja Católica a fim de adaptá-la à era do espetáculo da mídia de massas.

A mudança de mentalidade coletiva acontece mais lentamente do que as transformações econômicas e técnicas. Nossa época é marcada por ambiguidades. Ao mesmo tempo em que a pós-modernidade rejeita significados totalizantes, tanto de ideologias políticas como religiosas e lança os indivíduos a tomarem decisões, ela também é marcada pela rejeição à liberdade, pelo medo de fazer escolhas, da autonomia, pela insegurança existencial. Como no livro “O Medo à Liberdade” do psicanalista Erich Fromm, a liberdade gera o medo e leva os indivíduos a recorrerem a alguém para que tome as decisões por eles.

É aí que entra a figura dos líderes religiosos. O poder simbólico de que dispõem ao se colocarem como representantes legítimos de uma divindade na terra, ancorados numa tradição de longa duração, também lhes confere o poder de intervir nas vidas de milhões de pessoas. Os totalitarismos do século passado ascenderam ao poder para exorcizar os medos coletivos da liberdade. Após suas derrotas e as revelações de suas monstruosidades ficou claro que as pessoas não queriam mais um poder centralizador que anulasse o indivíduo e promovesse genocídios em nome do cumprimento de abstratas leis da história.

Hoje as pessoas se manifestam contra os abusos do poder, seja aqui, no Egito ou na Turquia. Mas ainda não conseguem demolir os sistemas religiosos centralizadores da era neolítica. Contudo, as pessoas não querem que a Igreja lhes diga que não devem ir a baladas ou que não devem usar contraceptivos. A religião perdeu quase completamente sua força de controle sobre as condutas individuais. As pessoas só querem se prostrar diante do papa e esperar que ele exerça sua função de monarca absolutista, lhes oferecendo um sentido para o vazio da liberdade. Elas querem que o papa lhes diga que vão para o céu, que na Igreja estarão salvas e cumprindo os sacramentos estarão agradando a Deus.

Mas o papa não vem ao Brasil apenas para um evento religioso, mas para fazer lobby político também. Já vimos isso quando Bento XVI esteve aqui. A Igreja tenta salvaguardar seu último reduto de fiéis praticantes no mundo, que é a América Latina, especialmente o Brasil. Aqui, ela ainda não tem de vender paróquias por falta de frequência e pagamento de dízimos como na Europa, nem tem de lidar com uma religião rival belicista e perseguidora como o Islã no Oriente.

Mesmo assim, não se justifica que a Câmara do RJ decrete feriado nos dias da visita do papa. Alguns tentarão ganhar votos e publicidade com a visita de Francisco. A Igreja como sempre tentará ampliar sua esfera de influência. Os fiéis irão encontrá-lo como se fossem a um espetáculo de Lady Gaga, farão tietagem com o papa e, como num show secular, erguerão faixas e bandeiras num culto à personalidade do convidado. E onde Deus fica em tudo isso? Bom, isso não importa mais, pois Deus está morto.

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29 comentários sobre “Quem precisa do papa?

  1. Plábio Desidério 15/07/2013 / 23:18

    Caro Bertone.
    Quando Nietzsche anunciou que Deus está morto, o indivíduo gritando numa feira , procurando por Deus e as pessoas zombando dele, dizendo que “Ele” está morto, não imaginou o espetáculo dos “tempos contemporâneos”. A espetacularização da realidade como você mesmo lembrou elimina qualquer possibilidade de ressuscitar Deus Na verdade o substitui completamente. E será que ainda querem ressuscitá-lo?

    • Bertone Sousa 16/07/2013 / 1:29

      Plábio, no texto anterior, “pós-teísmo” até comentei o livro de um autor inglês, teólogo também, que não acredita mais nessa possibilidade e até propõe um novo modelo de religião, que na verdade não seria tão novo, já que ele foi buscar inspiração no Budismo. Mas o fato também é que a perspectiva desconstrucionista afetou a teologia e com exceção do fundamentalismo não teve êxito em reerguer-se novamente como meta-narrativa.

  2. leo 21/07/2013 / 3:31

    vcs esquerdistas não suportam o fato de que as leis primordiais para a organização da sociedade ocidental tenham vindo do cristianismo.. e enquanto não acabarem com isso não irão sussegar né 😉 que Deus tenha pena de vcs!!! a igreja pode ter se omitido no passado.. matado muita gente.. mas não mais do que vcs comunistas já mataram em toda a historia da humanidade!!!

  3. Jose Henriwue 23/07/2013 / 12:46

    Excelente texto, compartilhei no meu face. Quanto ao comentario desse Leo, me divertiu mesmo!! Kkkk abraco Bertone.

  4. marcelo tavares da cruz 24/07/2013 / 13:57

    Ao logo dos séculos a humanidade vinha perdendo seu real valor, que para mim vejo que hoje é coisa fácil e simples de aderir em nossas vidas, pena que essas crenças primitivas por motivo cultural roubaram essa nossa liberdade com seus dogmas, opressão e imposição barata. Passei trinta anos da minha vida preso a um deus morto ou melhor que nunca existiu. Hoje já não preciso mais dessas escoras. Apenas tento viver o aqui agora e traçando sempre o caminho do meio.

  5. SERGIO DE ARAUJO TORRES 25/07/2013 / 22:42

    Também me diverti com o Leo. Talvez por ignorância, discorde desta passagem ” uma religião rival belicista e perseguidora como o Islã no Oriente”. Perdoe minha ousadia. Seu texto será discutido em sala de aula com meus alunos. Compartilhei…os “cristãos” provavelmente irão me crucificar.

    • Bertone Sousa 26/07/2013 / 2:22

      Sergio,

      O Islã nasceu como uma religião belicista. O caráter persecutório veio a se manifestar posteriormente, especialmente após as cruzadas, mas não apenas em decorrência delas. Escrevi sobre isso no texto “Islamismo e Intolerância”. É claro que há outros elementos que podem e devem ser colocados como objeto de análise, especialmente a partir dos estudos culturais, mas o conceito de “história vigiada” do Marc Ferro é bastante pertinente para se pensar essas questões. No mais, agradeço pelo compartilhamento e discussão do texto, afinal, é para isso que escrevemos.

      • SERGIO DE ARAUJO TORRES 27/07/2013 / 16:26

        Bertone,
        Seria errado afirmar que quando a religião se “associa” ao Estado ela torna-se belicista? Pelo menos as monoteístas? No livro de Karen Armstrong, intitulado Uma história de Deus, ela afirma que Abraão seria um mercenário que prestava seus serviços ao rei de Sodoma ou Gomorra.

      • Bertone Sousa 28/07/2013 / 2:27

        Sérgio, os grandes sistemas religiosos nasceram interligados a uma concepção de poder e a noções de territorialidade e identidades coletivas, não apenas as monoteístas. Os territórios conquistados por um soberano também deveriam seguir sua religião. Mesmo na era moderna, essa uma prática corriqueira. Somente na era contemporânea essa visão foi substituída pelo nacionalismo e outras teorias políticas seculares. Não sei se você leu o texto abaixo “Pós-teísmo”, mas há mais alguns elementos sobre isso. No tocante às religiões monoteístas, outro livro da Karen, “Em nome de Deus”, fala especificamente sobre esse tema, enfocando o fundamentalismo.

  6. SERGIO DE ARAUJO TORRES 28/07/2013 / 14:55

    Obrigado.

  7. Waldo Teles 29/07/2013 / 11:23

    Porque que toda vez que se comenta ou analisa uma situação religiosa, sempre aparece alguém rotulando todos de esquerdistas ou comunistas ou filhos do diabo mesmo ?
    Mas que povo sem imaginação !
    Obs.: Não sou ateu ou esquerdista ou comunista ( filho do diabo, talvez), sou livre para pensar, analisar e opinar !

  8. Guilherme Fronteno 13/08/2013 / 21:37

    Nao tenho bola de cristal, mas penso que seja uma questao de tempo a eliminacao completa de qualquer tipo de religiao. Veja, estou falando de centenas de anos ou at’e mil^enios. ‘E uma evolucao natural. Penso que o progersso da humanidade passe longe de manifestacoes guturais ou subjetivas como f’e e emocoes passionais. Infelizmente toda a manifestacao religiosa tem estes componentes (f’e, paixao, raiva, ira…defendendo a “sua bandeira religiosa”…).

    Emocoes ben’eficas e positivas como o amor a o prazer ap’os um ato de caridade nao sao estritamente associadas a nenhuma religiao. Logo um ateu ou agn’ostico pode ser sim um excepcional ser humano. Talvez mais livre de potenciais vi’eses do que um religioso ferrenho. Essa dissociacao de qualquer “partido religioso” provavelmente resultar’a em uma maior capacidade de desenvolvimento do esp’irito cr’itico, pois este vi’es, o religioso, ser’a eliminado.

  9. Teodoro 17/08/2013 / 18:47

    Sou esquerdista. Vivo me contrapondo aos reacionários que habitam parte desse mundo virtual que é a internet. Sempre apoiei e apoio os governos do PT, Lula e Dilma. Porém, também sou religioso, cristão e católico. Não acho que os militantes de esquerda devam se contrapor à religião e indiretamente politizar a fé como fazem a extrema direita e fascistas. Dizer que Deus e a religião estão acabando equivale a dizer que a história acabou, que o socialismo é coisa do passado.e outras bobagens do gênero. Incoerências existem na Igreja assim como em toda a organização das quias fazem parte os humanos.

    • Bertone Sousa 17/08/2013 / 18:59

      Teodoro, a religião institucionalizada está acabando em alguns países, mas isso não é a mesma coisa que dizer que a história está acabando. As religiões são afetadas pelas mudanças históricas porque elas são históricas. Já o socialismo também é outra coisa. Há outros textos aqui que explicam melhor essas questões.

  10. Leandro Sampaio 05/10/2013 / 19:23

    Mestre, primeiramente, gostaria de dizer que é um prazer ler suas palavas. Segundo, o leo é sensacional! Adorei as palavras dele!!! kkkkk. E gostaria de salientar algo, usando o comentário do Teodoro de exemplo, como as pessoas são “espertas” na hora de argumentar. Quero dizer, na parte que ele fala ” Dizer que Deus e a religião estão acabando equivale a dizer que a história acabou”, ele atrela deus com história como se fossem uma. Obviamente, na esperança que deus seja algo imprescindível e vital. Claro que esse argumento é efetivo, ou melhor, “cola” quando o ouvinte, ou leitor, não é tão instruído, e astuto. De qualquer forma, quero agradecer poder participar e parabenizar o ótimo texto, muito bem escrito! E parabenizar, também, o Teodoro por ter defendido sua perspectiva sem usar de palavras ásperas.
    Ps: Desculpem os erros gramaticais.
    Um abraço e sucesso!!!!!!

    • Bertone Sousa 05/10/2013 / 19:29

      Leandro, já cheguei até a receber vários comentários ofensivos para esta postagem, a questão é que não aprovo ofensas e ataques pessoais. Obrigado pelo apoio e pela contribuição. Abraço.

  11. Elisana Trinck 07/11/2013 / 13:39

    Tenho pena de vcs pois achar que Deus esta morto, é por que vcs nao tem nada dentro de vcs, pois vejo a ação DEle a cada dia a cada hora, infelizmente é triste ver que vc nao tem nada só si mesmo no coraçao, sei que nao acredita e nem vai colocar no blog as minhas falas e se colocar é só para zombaria como fez com o do rapaz acima, mas é uma pena vcs nao ver ação Dele em suas vidas, achando que estão vivendo e fazendo as coisas da vida por si mesmo kkkk.

    • Bertone Sousa 07/11/2013 / 22:00

      Elisana,

      eu não zombo de leitores, apenas escrevo para um público que sabe lidar com críticas mesmo sendo religioso. Aqui eu tenho leitores pastores e seguidores de vários segmentos cristãos, por exemplo, e tenho uma relação virtual muito boa com todos eles. Aos que não sabem lidar com críticas e deixam comentários sem noção, ofensivos, criticando o que não compreendem eu dou mesmo um chega pra lá. Os que querem aprender e dialogar serão sempre bem-vindos.

    • Cristina Ataide 16/09/2014 / 10:35

      Oi Elisana faço minha suas palavras Deus vive e reina e nos cristãos não aplaudimos lideranças religiosas ou os consideramos como super-humanos dotados de dons sobrenaturais e sim cremos em Deus vivo e nos dons do espirito santo.

  12. Tiago Martins 20/11/2013 / 13:42

    O fato é que Deus está vivo! Na sua opinião que não o busca, Ele está “morto”. Opinião não muda os fatos, Professor Bertone.
    Uma igreja não se sustentaria apenas em homens por dois mil anos, repito: Deus está vivo!
    Presumo eu que você desconhece a Sã Doutrina Católica. Há um livro chamado Catecismo da Igreja Católica, leia-o por favor. Embasamentos pautados em fontes confiáveis são sempre bem vindos! =)

    • Bertone Sousa 20/11/2013 / 17:08

      Tiago, é preciso ser muito burro pra não saber a diferença entre um manual apologético e um texto sociológico, além de não saber o que são fatos sociais. É melhor você ficar mesmo rezando na sua igrejinha e não dar palpite sobre o que não compreende.

      • Elton 14/07/2017 / 22:42

        Isso me suscitou uma dúvida. Se eu fosse fazer um trabalho acadêmico sobre a igreja católica, o catecismo da igreja católica seria considerado uma referência válida?

  13. waldo-gomes@bol.com.br 21/11/2013 / 6:42

    Professor Bertone, admiro bastante seus textos e o raciocínio imp´lícito nos mesmos, entretanto, devo discordar da maneira como respondeu ao ingênuo Tiago Martins, considerei desnecessário e penso que sua resposta não o incentivará na busca pela verdade ou pelo menos de outros horizontes ! Em todo caso, continue o bom trabalho !

    • Bertone Sousa 21/11/2013 / 8:54

      Waldo, o Tiago não veio aqui disposto a buscar outros horizontes, ele veio pra afrontar e tentar intimidar. O tipo de resposta que dou a gente como ele é justamente para que não voltem mais aqui; quando alguém estabelece um ponto de diálogo, uma dúvida, é uma coisa, quando vem apenas pra afrontar merece um safanão virtual.

  14. ANDERSON DE ARAUJO 24/01/2016 / 13:44

    Olá Professor! Brilhante o raciocínio. De minha parte creio que tal compreensão desta fatídica proposição que deus está morto passa por uma transição onde talvez, eu tenha conseguido enxergar no seu próprio texto, pois, a forma de se conceber deus atualmente vem se modificando e isto , como você bem diz em sua colocação, com a diminuição da autoridade da igreja sobre seu devoto que por sua vez e como exemplo, transforma aparição ou visita de seu expoente de maior autoridade, o papa, em um espetáculo que se distancia dos modos severos e reverenciais como se havia dantes. Parece haver um declínio, uma mudança de poder.

  15. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 14/07/2017 / 18:03

    Bertone,

    Sei que você não precisa ser defendido. Apenas acho que parece que muitas pessoas não entenderam o que você disse.
    Ao meu ver, o que você quis dizer é simplesmente que, para algumas pessoas que se dizem cristãs, Deus tornou-se uma figura simbólica, usada efetivamente apenas para usar outras pessoas.
    Vide o exemplo dos fariseus: eles usavam descaradamente a doutrina judaica a seu favor. Cristo foi categórico em diversas passagens para que seus fiéis evitassem agir como eles.
    Concordo que, para estas pessoas, não faz diferença se Ele está vivo ou não.
    Agora, que fique bem claro que os descaminhos da religião não devem ser usados para denegrir a opinião de quem acredita. Recentemente, li o texto do dragão na garagem de Carl Sagan. Não posso acreditar que um cientista sério fosse capaz de perder tanto tempo desacreditando algo para outras pessoas simplesmente porque não concordava.
    simplexoAliás, depois de ler as críticas de Sam Harris à nomeação de Francis Collins pelo Obama, não dá nem para dizer que este homem tenha seriedade para se chamar cientista.
    Novamente, a crítica aqui não é ao Bertone, mas à maneira como muitas pessoas se referem a este assunto. Afinal, conheço Jung, Marx, Husserl; quanto mais aprendo sobre a filosofia, a física e a política, mais eu creio em Deus e deixo aqui o meu testemunho.

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