Pós-teísmo

Don CupittDesde a década de 50 nossa civilização ocidental passou por transformações culturais profundas. Chamamos isso genericamente de pós-modernismo. É um conceito bastante controverso, porém suficientemente sedimentado nas ciências sociais para ser simplesmente rejeitado. As mudanças ocorreram na arquitetura, arte, literatura, moda, economia, comunicações, transportes e mudaram substancialmente nossa percepção de mundo, as relações interpessoais e diluíram identidades baseadas em noções de território, nacionalidade, etnicidade, política e religião.

Os sistemas religiosos baseados na consciência do pecado, da culpa, da expiação e redenção foram fortemente impactados com essa diluição identitária. Os grandes sistemas religiosos são herdeiros da revolução neolítica e foram criados para atender à estrutura política e ideológica das civilizações que nasceram a partir disso e dominaram o mundo pelos cinco a sete milênios posteriores. Foi a religião das cidades-estado, dos impérios sagrados e ancoradas no dualismo entre o sagrado e o profano, nas identidades territoriais e coletivas. Os impérios da era neolítica substituíram as religiões animistas com seus espíritos errantes e impuseram a disciplina dos deuses da guerra, muito mais poderosos e exigentes.

O contraponto a isso ocorreu na Grécia com a desmitificação da religião, especialmente na filosofia platônica. A filosofia mostrou o quanto a religião e todos os aspectos de nossa vida são governados pelos signos da linguagem que criamos, isto é, a estabilidade do mundo depende da estabilidade dos nossos signos linguísticos. Enquanto eles permanecerem inalterados, teremos um conjunto de explicações coerentes do mundo. Posteriormente a metafísica platônica foi fundida à metafísica cristã numa relação de subordinação. Essa relação gerou o teísmo filosófico ou filosofia realista de Deus, cujo fundamento enlaça elementos do judaísmo e do cristianismo numa narrativa histórica do mundo, que por séculos justificou a missão civilizadora da Europa em suas conquistas coloniais e missionárias.

Foi preciso o aparecimento da modernidade e a criação da filosofia crítica para separar a filosofia da metafísica e isso não foi possível sem que se degolasse as duas metafísicas, platônica e cristã. Portanto, de Descartes a Derrida as ilusões da metafísica ocidental foram sendo demolidas, e, juntamente com ela, a credibilidade e inteligibilidade de Deus. O resultado foi o fim do teísmo, da crença em absolutos e a crise dos sistemas religiosos baseados em regras estabelecidas a serem rigidamente observadas.

No Cristianismo essa crise começou a cristalizar-se no período pós-iluminista.  O século 19 foi agonizante para a teologia cristã. Depois de Hume e Kant, a metafísica ruiu e o que sobrou dela foram versões seculares da escatologia cristã e o historicismo. Na década de 1880 a velha ordem havia sido quase tão completamente desmontada que Nietzsche anunciou a “morte de Deus”. A narrativa está no livro “A Gaia Ciência”; é a metáfora de um homem louco que vai ao mercado numa ensolarada manhã com uma lanterna acesa gritando que procura a Deus. As pessoas, que já não acreditavam mais em Deus, riem e perguntam se ele emigrou, se está viajando ou dormindo.

O homem louco então começou a discursar para eles e disse que Deus estava morto e eles eram os responsáveis por tal ato; começou a fazer-lhes questionamentos pungentes, no que silenciou todo o mercado. “Como foi que matamos Deus? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos quando desatamos esta terra do seu sol? Para onde vai ele agora? Para onde vamos nós mesmos? […] não estamos incessantemente a cair? Não estamos errando através de um vazio infinito? Não anoitece eternamente? Não ouvimos ainda o barulho dos coveiros que enterram Deus? Quem nos limpará este sangue? Que água poderá nos lavar?”

A parábola termina com o homem entrando em várias igrejas no mesmo dia. “Expulso e interrogado teria respondido da mesma maneira: ‘O que são estas igrejas senão túmulos e monumentos fúnebres de Deus?” A metáfora do homem louco de Nietzsche prenunciava o fim da religião como aquelas pessoas a conheciam e o triunfo do niilismo. Essa crise teológica e de consciência teve como epicentro a Alemanha até disseminar-se para outros lugares. Foi preciso aproximadamente sete décadas para que essa consciência viesse a cristalizar-se na Europa com o nome de pós-modernidade.

Esse é o tema do livro Depois de Deus: o futuro da religião (Editora Rocco, 1999), do filósofo e clérigo inglês Don Cupitt. O autor discute como a religião ainda pode sobreviver numa ordem cultural marcada pela morte de Deus. Cupitt é conhecido como “sacerdote ateu” e propõe uma espiritualidade que dispensa a expectativa em vida após a morte. Ele reconhece que Deus está morto, mas propõe que ainda é importante que as pessoas (ao menos aquelas que não conseguem viver sem fé religiosa) ainda se comuniquem com ele, mas numa forma de comunicação peculiar: da mesma forma que continuamos a amar nossos entes queridos que já morreram e quando visitamos seus túmulos conversamos com eles, tentamos imaginar sua presença e sua companhia, algo semelhante pode ser feito com relação a Deus:

Nietzsche segue em seu estilo típico do século XIX falando sobre as igrejas serem os “túmulos de Deus”, mas não lhe ocorre que podemos um dia visitar igrejas para sermos estimulados a falar com Deus, da mesma maneira que visitamos os túmulos para nos comunicarmos com nossos mortos, e com benefícios semelhantes.

Cupitt sugere que o modelo de religião da pós-modernidade é muito próximo do budismo, com uma ascese voltada para a contemplação, o relaxamento e o esvaziamento. Nossa época é marcada pela instabilidade dos signos e pelo trânsito de significados, o que impossibilita a permanência de uma narrativa (Significado) totalizante, onde o outro é herege, pecador, apóstata, pagão, inimigo de Deus. A religião baseada no autoritarismo, no poder absoluto de uma divindade que exclui e condena está fadada à rejeição e ressignificação.

Cupitt fala a partir da Europa, onde as reações à religião são diferentes do que acontece em nosso meio. Aqui, por exemplo, um número expressivo de pessoas enxerga as igrejas neopentecostais, por exemplo, como empresas dirigidas por líderes inescrupulosos ávidos por dinheiro. Do ponto de vista sociológico, é uma visão equivocada. Elas possuem, sim, uma estrutura empresarial e não é por acaso. As instituições da pós-modernidade são as grandes empresas multinacionais, que rompem paradigmas territoriais, linguísticos e culturais e desconstroem relações sociais baseadas em laços sanguíneos e de fidelidade. É esse o modelo organizacional das igrejas neopentecostais, internacionalistas em sua essência, afeitas à publicidade, pós-cristãs e voltadas mais para a prosperidade material do que à busca da vida eterna. Seu êxito em países pobres atende a uma demanda por ascensão social e integração econômica, requisitos indispensáveis à integração sociocultural. Mas não significa que essas agências religiosas ainda não estejam vinculadas a esquemas teológicos dualistas e ideologias salvacionistas. Estão, mas não mais da mesma forma como o Cristianismo costumava se apresentar mesmo em suas variadas versões protestantes. Essa mudança paradigmática é bem enfatizada por ele dessa forma:

É muito curioso que Deus e Mamom (o falso deus da riqueza e da cobiça) tenham trocado de lugar eticamente. Mamon é um internacionalista. Ele quer que as pessoas sejam saudáveis e bem-educadas. Ele quer paz e estabilidade, progresso e prosperidade universal. Ao contrário, Deus (especialmente no Oriente Médio) parece ter se tornado um Moloque que exige a ignorância, a pobreza e a guerra.

Por fim, ele propõe que a velha teologia assentada em dogmas e numa linguagem obsoleta do divino seja substituída por uma teologia poética, uma religião universal inclusiva, cujo ideal tenha por base signos unificadores de valores, uma versão minimalista da teologia cristã, que, segundo ele, seria a única justificativa para que alguém ainda possa continuar cristão.

O autor dialoga muito com Kant e Derrida e traz para a Teologia abordagens da Filosofia da Linguagem para mostrar que a metafísica e o realismo (visão segundo a qual há absolutos que coordenam a vida humana e uma realidade que independe de nossa linguagem) são concepções ingênuas desmontadas pela filosofia pós-modernista e sobre a qual ainda estão assentadas religiões mundiais como o cristianismo e o Islã. Sua proposta é mostrar que a morte de Deus é uma constatação irreversível e que essas religiões se refugiaram no fundamentalismo para não abrir mão dos signos territoriais de exclusão e com uma teologia sobrenaturalista.

Partindo da premissa de que criamos e recriamos o mundo a partir das categorias linguísticas e culturais que temos à nossa disposição, Cupitt diz que as religiões de deuses étnicos e de guerra, cujos significados abarcam tudo já não correspondem mais à atual tendência de afirmação de uma nova cultura mundial secular. Nesse contexto o nacionalismo político e o fundamentalismo religioso subsistem apenas “na boca daquelas pessoas que mais temem as mudanças que estão ocorrendo e que tentam resistir-lhes ao máximo”.

Don Cupitt parece ser bastante otimista em sua perspectiva de religião universal, haja vista que mesmo a ideia de uma cultura mundial secular também pode ser tomada como a universalização frequentemente belicista de um modelo cultural. Mas é compreensível como ele coloca a universalização do modelo de modernidade ocidental e as transformações culturais que produz. De toda forma, sua abordagem a partir de Hume e Kant até chegar à filosofia da linguagem contemporânea é bastante pertinente e não há dúvida de que a metafísica platônica e cristã entrou em forte declínio a partir do último quarto do século 19 num processo que se agudizou a partir da década de 1950, com a tomada de consciência de uma modernidade mais crítica de si mesma e do que a antecedeu. É uma leitura e proposta de religião humanista instigante, crítica, mesmo que não seja completa ou parcialmente viável.

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One thought on “Pós-teísmo

  1. Adair Neto 25/04/2014 / 12:03

    Excelente texto! Conheço um pouco de Don Cupitt e ele me parece ser um dos melhores intérpretes da religião vivos. Espero que o sonho dele de um mundo pós-teísta se transforme em realidade (aliás, esse é o meu sonho também). Mas infelizmente parece que o fundamentalismo religioso e o nacionalismo político estão ganhando força. Será que isso vai durar muito? Na Venezuela e no Brasil, pelo que vejo, eles estão fracos. Espero que seja assim em todo o mundo.

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