Por que nossos partidos não nos representam?

cartaz-manifestação-1Os protestos de todo o mês de junho serão lembrados como a maior manifestação espontânea da história brasileira. O movimento em si foi inovador e muito do que foi dito e escrito não pôde captar o espírito dessas manifestações porque tais análises se pautaram por categorias arcaicas. Tudo bem que tudo começou com as reivindicações do Movimento Passe Livre, uma entidade estudantil de esquerda sem vinculação partidária. Mas o que veio a partir daí fugiu-lhe aos objetivos iniciais e ao controle.

Podemos até dizer que havia elementos da extrema direita, fascistas infiltrados erguendo suas bandeiras e de fato eles estavam lá. Mas também estavam lá comunistas e anarquistas que souberam entender a importância do engajamento em manifestações descentralizadas e apartidárias. Um dos pontos mais importantes é que a sociedade soube manifestar que nossos partidos políticos não mais nos representam. Os protestos não eram vazios de conteúdo ao contrário do que muito se disse. Eram contra o PT, o PSDB, o PMDB, o DEM e seus partidos-satélites: todos os partidos esqueceram que existem em função de uma sociedade e ficaram tão escancaradamente atolados em práticas fisiológicas, na inabalável confiança da impunidade e da omissão do poder público, que restou à sociedade soltar o grito há muito contido de repúdio.

A possibilidade de golpe é remota, não estamos mais em um contexto favorável a esse tipo de ação. Por outro lado, algumas entidades tentaram cooptar os movimentos para o lado governista no que não foram nem poderiam ser bem-sucedidas. Para quem ainda não acreditava que a UNE não representa mais ninguém, seu silêncio o demonstrou. A entidade que há anos não passa de uma secretaria de partido, é incapaz de fazer qualquer outra coisa além de distribuir carteiras de meia-entrada e garantir uma carreira política a seus dirigentes.

Alguns intelectuais, especialmente marxistas, criticaram a “falta de organização” dos movimentos. Sem palanques, sem líderes, sem siglas aglutinadoras, o movimento foi marcado pela espontaneidade de pessoas que atendiam a chamados nas redes sociais. Os marxistas, tão acostumados a ser vanguarda de movimentos sociais, não conseguiram compreender um conjunto de eventos onde não tinham o privilégio da tribuna  e dos discursos para multidões. Os pequenos grupos de extrema direita e esquerda que se digladiaram em alguns momentos pretenderam inutilmente arrebanhar pelo menos parte das multidões para seus propósitos. Mas a maioria não estava preocupada com disputas ideológicas cujos fundamentos sequer conseguem ainda explicar os meandros de nosso mundo contemporâneo (vejam, por exemplo, as lambanças de Luís Filipe Pondé e Vladimir Safatle na Folha de São Paulo), as pessoas queriam gritar por um país que vá adiante, atenda às necessidades dos indivíduos e lhes ofereça serviços à altura do que pagam. Ponto. Inventar conceitos no calor dos eventos, apelar a filosofias da história ou lançar mão do expediente de teorias da conspiração tanto não são a melhor forma de avaliar uma situação extraordinária como também demonstram o despreparo de nossa intelligentsia para abordar esse tipo de situação. Nesse ponto os analistas internacionais, mais distantes de abordagens ideologicamente viciadas do que nós, Alain Touraine entre eles, conseguiram entender com mais acuidade o que se estava se passando diante de nossos olhos.

Também é fato que a mídia em geral tentou deslegitimar os protestos hiperbolizando as ações dos “vândalos” em detrimento do pacificismo de outros. Em nenhum momento se questionou o que significa o prejuízo causado pelos tais “vândalos” mascarados diante daqueles causados pelos de colarinho branco, que já gastaram quase três vezes mais com estádios do que Alemanha e África do Sul nos últimos mundiais. Nesse sentido Romário foi a única voz no Congresso que teve a ousadia de falar o que deveria ser falado. O silêncio do restante evidenciou não apenas a escandalosa letargia política de nossos legisladores, como agora suas repentinas aparições entusiasmadas para votar contra a PEC 37 e debater a reforma política não podem ser vistas senão como receio por outras manifestações e oportunismo para criar a imagem do político interessado pelos anseios do povo.

Se houve diferentes bandeiras nos protestos isso apenas demonstrou a nossa necessidade de democracia. Se bandeiras partidárias foram repudiadas, isso mostra menos uma tendência fascista do que nossa completa incredulidade ao que elas representam. Os protestos em si tinham uma mensagem muito clara: não aguentamos mais pagar os impostos mais altos do mundo pelos serviços mais precários. A revindicação era legítima, clara e suficientemente direta para que agora comece a colher os primeiros frutos: o arquivamento da famigerada PEC 37, o direcionamento integral dos royalties do petróleo para educação e saúde e a reforma política, há tanto tempo procastinada por um poder público atrofiado e desinteressado por fazer as mudanças que o país precisa para crescer.

Na entrevista que concedeu ao Canal Livre da Band no domingo, FHC foi incisivo nas colocações que fez. Afirmou que os partidos brasileiros são corporativistas, os pequenos (muitos) sequer se interessam por pautas sociais porque não são eleitos pelo povo, mas por grupos específicos para governar e/ou legislar para eles. Não representam a sociedade, mas apenas seus grupos e bandeiras. O problema do Brasil é que não temos uma economia e mentalidade liberal. O que temos é a hegemonia de algumas empresas em associação com um Estado paternalista e clientelista dividindo entre si os espólios do que deveriam ser políticas públicas voltadas para a melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida da sociedade. Diante desse quadro não é de admirar que tenhamos o sétimo melhor PIB do mundo mas estejamos abaixo da octagésima posição em qualidade de vida. O Estado brasileiro é grande para a sociedade mas não no sentido de garantia de serviços públicos de qualidade, mas no sentido de impor uma pesadíssima carga tributária aliada a um baixo poder aquisitivo.

Os protestos de junho eram pela afirmação do indivíduo, não de ideologias coletivistas. Tentou-se comparar com o que ocorreu na França em 1968 e 2005, a primavera árabe e os protestos na Turquia. Mas já foi corretamente dito que, diferentemente dos países muçulmanos, não lutamos por democracia. Já na Turquia as manifestações se dirigem em parte contra iniciativas do governo para islamizar o país, solapando liberdades seculares. Aqui, apesar do PSC e dos Felicianos da vida, a laicidade de nosso estado não está suficientemente ameaçada para justificar que nos dirijamos às ruas quase exclusivamente para isso. Quando à França, o primeiro evento foi outro contexto e o segundo também por outras motivações. Não há dúvida, porém, que o que aconteceu no mundo islâmico nos inspirou, afinal, pra usar um termo de Manuel Castells, vivemos numa sociedade em rede. FHC até remeteu a uma antiga teoria sua do curto circuito, onde um fio desencapado pode desencadear um curto de grandes proporções. FHC também colocou corretamente que, nas ruas, o jovem desiludido e descrente encontrou o outro, a esperança e com isso uma perspectiva de futuro. Sociologicamente esse é um fator muito relevante que, por si só, já faria as manifestações valerem a pena. Mas  importante, também, é que as falas das ruas forçaram o governo ao diálogo e à mudança de agenda. Mesmo que a maioria dos parlamentares esteja preocupada com possíveis perdas de votos e motivada pelo conservantismo de seus cargos, foram forçados a sair de seus convencionais comodismos e a tratar esses encontros com deferência. Essa é uma mudança importante e, somada ao conjunto, fará esta geração não ser a mesma.

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7 thoughts on “Por que nossos partidos não nos representam?

  1. Bruno Ribeirk 26/06/2013 / 5:29

    Bertone, o expediente natural da democracia é a coexistência de diversos partidos políticos. Não estou defendendo nenhum em específico, mas da feita que toda e qualquer bandeira partidária é linchada de uma manifestação, não acredito que isso seja democracia. Sabe, que deixem levantarem bandeiras do PT, PSOL, DEM, PPS, PSTU, PSDB, PSC e assim em diante. Mais do que desavenças ideológicas, alguns partidos de esquerda estiveram bem no começo dos protestos, quando a massa ainda não estava nas ruas. Temo por uma multidão nas ruas sem nenhuma liderança. Já vimos isso uma vez. Multidões sem liderança, insatisfeita, pedindo por segurança e sem enfoque especifico, é um campo fértil para o surgimento de um golpe de estado. Abraços.

    • Bertone Sousa 26/06/2013 / 11:39

      Bruno,

      ainda queremos pensar em liderança no sentido vertical porque não estamos acostumados a participar de manifestações horizontais. A liderança é horizontal e se organiza ali mesmo no movimento ou antes pela internet mas sem pretensões vanguardistas. Essa rejeição à liderança está mais próxima do anarquismo (embora ainda não se confunda com ele) do que de outras iniciativas, inclusive golpistas. Parte da imprensa tentou dar esse encaminhamento, mas não conseguiu. As Forças Armadas e a sociedade civil não estão pedindo um golpe, por isso os protestos não se voltaram exclusivamente contra o PT e a Dilma, mas contra todos os governos. Esse foi o elemento inovador das manifestações que deixou muitos políticos estupefatos. Os partidos se fecharam em suas esferas de influência e deixaram de fazer política para a coletividade. Sobre as bandeiras, não digo que sou contra elas, é fato que democracia se constrói com partidos, mas é preciso analisar também o porquê de a maioria não querer as bandeiras, até porque era contra os partidos e o fato de eles não nos representarem que os protestos estavam acontecendo.

  2. nelson muniz 26/06/2013 / 9:08

    Texto lúcido, sem achismos. Parabens, prof Bertone. Continuamos amarrados em velhas teorias que não dão conta das novas realidades, ou de legisladores corporativistas que dialogam e não escutam as ruas. A análise desses pequenos partidos( como PSC ou PR) como interessados apenas atender seus proprios interesses e do nicho de eleitores que dizem representar foi acertada.

  3. Angela 26/06/2013 / 14:30

    Prof. Bertone.

    Encontrei seu site a pouco tempo, em meio a esse turbilhão de manifestações…E tem me esclarecido em muito o entendimento da “politica partidária” no país. Diante do texto/relato, lhe pergunto humildemente: Até que ponto um movimento horizontal e nitidamente popular conseguirá acompanhar e cobrar as mudanças que tanto pede agora ? Passado o calor, a adrenalina e as endorfinas das ruas, essa mesma massa não estará de novo em frente à TV assistindo novela e perdendo a memória? Será que esses gritos irão reverberar nas eleições de 2014 ? Será que todas as reivindicações não estarão fadadas ao museu dos albuns de fotos nas redes sociais?

    Sou leiga. Não sou estudiosa, tenho apenas o ensino médio e me interesso nessas questões. Sinceramente, não participei dos protestos porque a mim pareceu que uma grande parcela dos ativistas, estava lá por moda, pra tirar foto e postar em rede social…! O julgamento do mensalão, a divulgação dos gastos públicos nos portais de transparência e a vida de luxo da classe política foram muito mais agressores ao nosso nacionalismo do que o aumento da passagem, mas quase ninguém percebeu..!

    Não sei, é um desabafo, posso estar redondamente enganada, mas como já fui enganada no “Fora Collor!” e pintei minha cara, agora fiquei com o pé atrás de que tudo fosse um arranjado manipulativo….

    Então, sinceramente, na sua opinião, qual será o prognóstico da massa popular daqui a alguns meses?

    • Bertone Sousa 26/06/2013 / 15:23

      Angela,

      Primeiro gostaria de lhe dar boas-vindas ao blog. Sobre suas colocações, posso dizer o seguinte: nosso pensamento (e isso inclui os intelectuais) sobre consciência política e movimentos sociais está defasado. De certa forma ainda estamos nos anos 80 na era das mobilizações sindicais contra a ditadura, quando o país estava atolado no desemprego, recessão, inflação e endividamento externo. Mas essas (com exceção do retorno da inflação) não são mais as questões centrais hoje. A taxa de desemprego está baixa, o país não está crescendo o esperado, mas não está em recessão nem endividado. Também não vivemos mais na era de ideologias coletivas, mas na da individualização. Por isso falar em moda para postar nas redes sociais não explica a dimensão dos movimentos, até porque o mundo virtual não é uma antítese do social, nem um contraponto, mas seu complemento. Sem essa conexão os protestos sequer teriam sido possíveis. A internet tem gerado um novo tipo de jovem com uma subjetividade libertária e mais cética com o poder. Creio que essa é uma mudança que muitos não estão conseguindo compreender adequadamente.

      Outra coisa é que precisamos entender que as mobilizações começaram a dar resultados significativos. Somos tão pessimistas com nossa capacidade de mudar o país que mesmo quando conseguimos mudá-lo ficamos céticos. Aprendemos que indo às ruas podemos pressionar os agentes que estão no poder a fazer o seu trabalho. Também ficou o entendimento de que as mudanças não ocorrerão pelo alto, mas pela base e que os partidos não estão mais interessados em fazê-la. Essa não foi uma mobilização de partidos e intelectuais e por isso não é de “homens-massa”, mas de indivíduos, pessoas que assistem a novelas e que poderão voltar às ruas se acharem necessário. Foram movimentos de indivíduos falando para outros indivíduos, não de lideranças partidárias ou sindicais falando para massas; não houve messianismo ou vanguardismo nem mesmo por parte da mídia (como ocorreu no caso Collor). A mídia tentou desacreditar o movimento e não conseguiu, então passou a falar quase incessantemente de vandalismos. Os partidos não conseguiram cooptá-los, porque o espírito dessas manifestações era libertário. A esquerda e a direita ficaram ofendidas porque nenhuma conseguiu controlar os protestos. A mudança já aconteceu e foi de mentalidade, de subjetividade, que é o mais importante antes de uma eleição e era o que muitos acreditavam ser mais difícil de mudar no Brasil.

  4. Duke de Vespa 10/10/2013 / 1:04

    Bertone, tua crítica aos partidos políticos (em especial a UNE…) de fato procede. Eu participei de algumas manifestações aqui em São Paulo, e confesso que já fui um dos equivocados defensores da “tese do golpe”. Hoje reconheço que as ruas estavam tomadas por pessoas e grupos distintos. Havia tanto grupos organizados de esquerda (partidos e movimentos sociais em geral) e de direita; quanto pessoas comuns, não ligadas a uma ou outra ideologia específica (inclusive, creio que esse era o perfil dominante nas manifestações).
    Entretanto, gostaria de saber, como você enxerga o papel da mídia nos protestos. Percebo que a mídia tradicional adotou dois discursos antagônicos durante o desenrolar das manifestações:
    O primeiro discurso foi o da criminalização. Falavam dos manifestantes como bandidos, vândalos, perturbadores da ordem pública e etc. Porém, depois daquela fatídica quinta-feira em São Paulo, quando uma jornalista da folha levou um tiro de borracha no olho, e a PM endureceu a repressão, detendo e agredindo até mesmo jornalistas, a grande mídia mudou o tom do discurso. As manifestações passaram a ser divulgadas como revindicações legítimas de grupos insatisfeitos com os desmandos dos governos, e a PM passou a ser denunciada pelo excesso de truculência. Coincidentemente, as manifestações passaram do pouco mais dos cinco mil participantes, para os setenta e cem mil, e ganharam todo o país.
    Só para te dar um exemplo, eu estudo na Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec-SP) e vários de meus colegas, que nunca deram a menor importância para questões políticas, como educação, saúde e transporte, se enrolaram em bandeiras e foram protestar num clima de balada, por saúde, educação e transporte. Acho que meus colegas não foram exceção…
    Afinal, qual foi a real importância da mídia tradicional como promotora das manifestações?
    E as redes sociais, de fato elas são eficientes para organizar sozinhas, grandes manifestações como as que ocorreram em julho?

    • Bertone Sousa 10/10/2013 / 15:09

      Duke, não vejo a mídia tradicional como promotora das manifestações, mas as redes sociais. O que percebi acerca do papel da mídia tradicional foi uma incompreensão dos eventos, mas isso foi algo que pegou toda a sociedade, até intelectuais renomados como a Marilena Chauí, que interpretaram essas manifestações a partir de esquemas mentais arcaicos e não souberam entender o caráter predominantemente libertário das manifestações. As redes sociais foram importantes porque colocaram em evidência indivíduos que estavam juntos pela insatisfação com a política partidária, esse era o foco; graças às redes sociais, não havia palanques nem lideranças, porque as ações eram articuladas ali mesmo pela internet. Por isso os partidos não conseguiram cooptar o movimento. Não faz mais sentido qualificar a mídia tradicional de golpista porque essa não é mais uma tendência da imprensa brasileira, sem falar que o governo também tem suas mídias. Por exemplo, os militantes costumam ver a Globo como “alienadora” e impostora, mas quando a mesma globo denunciou em primeira mão que o governo brasileiro estava sendo espionado pela CIA, todos acreditaram sem questionar e a própria presidência começou a tomar ações baseada inicialmente apenas no que a globo noticiou.

      Agora que houve uma tentativa de criminalizar o movimento pela ênfase excessiva no vandalismo, isso ficou evidente. Mas em muitos momentos a própria polícia também foi criticada por ações violentas contra civis. O fato é que a mídia tradicional já não é mais a única formadora de opinião nem a única fonte de informações. Então mesmo com a ênfase no vandalismo e todo aquele discurso vazio de pacifismo o movimento se fortaleceu e uma importante mudança de mentalidade começou a acontecer. Agora tentam fazer o mesmo com os Back Blocks. Mas isso não é característica só da imprensa de direita. A Marilena Chauí chegou a comparar os mascarados com fascistas, foi um equívoco grosseiro. Mas as redes sociais mostraram sim eficiência como recurso primário de organização dos manifestos, não é à toa que o governo sentiu a necessidade de estar mais presente nessas redes. E como hoje quase 80 milhões de brasileiros têm acesso a internet, isso já dá uma amostra do peso que a internet pode ter nessas questões.

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