O indivíduo contra o Estado

rio-de-janeiro-protestoNunca vi neste país do futebol as pessoas abrirem mão da Copa a favor da educação e da saúde. As pessoas recusando pão e circo pelas coisas que acham mais importantes […]. Acho que a frase que pede padrão Fifa para o país é genial, é genial pedir isso para educação e saúde. Porque tudo o que a Fifa pediu, o país começou a fazer. Mostra que é uma questão de vontade, que se quer pode fazer.

Peter Fry, professor da UFRJ, em entrevista ao G1

Foi curioso ver nos últimos dias os portais de notícias refletindo o assombro da sociedade diante do ineditismo dos eventos que estavam cobrindo. Assombro acompanhado pela incapacidade de avaliar, no calor dos acontecimentos, as razões de sua formação e a rejeição a formas tradicionais de manifestações políticas, com forte organização partidária e/ou sindical. Houve quem falasse em “revolução do indivíduo”, em algo inteiramente novo, uma participação espontânea de uma juventude que se organiza a partir da internet, sem a intermediação desses agentes institucionais e se colocando acima da mera questão ideológica.

De entusiastas desse tipo a pessimistas, o fato é que muito foi dito e escrito nos últimos dias sobre eventos que, sem nenhum planejamento prévio, já ocupará lugar de destaque em nossa história recente. História, aliás, não é uma área de conhecimento que inspira muito o brasileiro médio na hora de tomar decisões políticas. Por isso mesmo é sintomático que um protesto que inicia com a reivindicação da redução de uma tarifa de ônibus em uma cidade, ganhe proporções nacionais e passe a ter como uma de suas principais reivindicações a ampliação dos investimentos em educação. Algo tão repentino e inusitado que ficou muito bem expresso nas palavras de Peter Fry que inicia essa postagem.

Conhecesse melhor a história, o brasileiro não aceitaria há muito tempo o que só agora começa a rejeitar. É desalentador estudar a história brasileira. Somos uma sociedade pródiga de revoluções. Fomos coadjuvantes na independência e na proclamação da República. Fomos um dos últimos países do continente a abolir a escravidão e a possuir universidades e mesmo assim, por décadas o ensino superior foi privilégio das elites do país. Nossa república foi construída com base em golpes militares, alijamento político da população, perpetuação do latifúndio e do analfabetismo, espoliação da força de trabalho e dos recursos naturais por grandes corporações estrangeiras e subserviência à superpotência do Norte. Subserviência que historicamente é muito bem simbolizada pelo episódio em que Otávio Mangabeira beijou, de joelhos, a mão do general Eisenhower quando este visitava o Rio de Janeiro em 1946. Na época, Mangabeira era líder da UDN, principal partido direitista do país.

A primeira vez que tivemos um projeto de reforma agrária, educacional e tributária, o que ocorreu durante a gestão de Goulart, o golpe militar podou essas iniciativas, salvaguardando os interesses dos latifundiários e das elites urbanas, causando arrochos salariais e redução do rendimento dos trabalhadores. Em duas décadas de ditadura, o abismo entre ricos e pobres aumentou astronomicamente. A herança do regime foi uma década perdida, falência da máquina estatal por endividamento e aumento do desemprego.

Os regimes democráticos que seguiram, especialmente com Fernando Henrique e Lula, conseguiram estabilizar a economia e criar programas sociais de transferência direta de renda, dinamizando a economia e alçando milhões de pessoas da linha da miséria. No entanto, deixaram de investir em infraestrutura, não investiram na qualidade dos serviços públicos e deixaram  de fazer reformas essenciais ao desimpedimento da economia e os resultados vêm se manifestando com estagnação econômica e aumento do custo de vida. Houve modernização de alguns setores com as privatizações, mas atrofiamento e sucateamento de outros, notadamente aqueles em que a sociedade agora mais sente o peso da carestia: a saúde e a educação.

Algumas semanas antes de tudo isso acontecer, Geraldo Alckmin, durante um evento, afirmou que o brasileiro não sabe nem dez por cento do que é feito contra ele pelos que estão no poder. E que se soubesse de tudo faltaria guilhotinas para cortar todas as cabeças corruptas. Ele disparou contra todos os partidos e finalizou dizendo que é no judiciário que é mais fácil corromper-se. A conclusão é taciturna: o que se pode esperar de e para uma nação onde seus sistemas legislativo e judiciário estão completamente corrompidos? O discurso veio de onde menos se espera. Mesmo assim, em plena semana de protestos, o mesmo Alckmin havia proposto a Haddad a não cederem às reivindicações do movimento e manterem o aumento das passagens. A indecente proposta nada mais expressa do que um inequívoco desprezo que o poder público no Brasil tem pela sociedade, mesmo quando esta vai às ruas dizer que não aguenta mais pagar tantos impostos para ser tão massacrada.

Desprezo que se manifesta de Norte a Sul. Em Juazeiro, no Ceará, o prefeito reduziu em cerca quarenta por cento o salário dos professores para “cortar gastos” do município. As caxirolas fabricadas com dinheiro público ficaram encalhadas e ministros civis e militares também ganharam viagens e ingressos para assistir aos jogos com suas famílias com dinheiro público. Enquanto isso a imprensa tentou causar estupor por causa de alguns vidros quebrados na manifestação em Brasília. Agora fala-se por uma boca só que os protestos revelaram uma grande decepção e rejeição da sociedade a lideranças verticalistas, partidos políticos, sindicatos, tão mergulhados que estão nos interesses fisiológicos do jogo do poder, não demonstram há muito tempo qualquer interesse por pautas sociais, exceto nos demagógicos discursos eleitorais.

O PT, que agora é um partido de direita e apenas levemente mais social democrata do que o PSDB, assim como a esquerda como um todo, acomodou-se ao status quo,  mas como bem falou um jornalista do espanhol El País, os protestos dos últimos dias foram manifestações dos filhos rebeldes de Lula e Dilma, que ascenderam socialmente nos últimos anos e agora exigem melhorias substanciais em outros setores, pois pagam caro por isso e não se sentem devidamente restituídos. A esquerda perdeu o bonde da história e agora está atônita porque não possui mais a capacidade de mobilização das massas de outrora. Mas também não está morta. São movimentos de esquerda como o MPL, organizados por uma juventude que não se conforma em apoiar incondicionalmente um partido, que pode ajudar a repensar as ações sociais de nosso tempo, a promover debates junto à sociedade e construir propostas concretas e eficazes de ação política.

Os líderes do MPL tomaram a atitude certa ao não convocarem novos protestos após conseguirem a redução da tarifa, já que a extrema direita e parte da imprensa começaram a tentar dar um direcionamento golpista às manifestações. Essa direita que também saiu da internet para as ruas, embora represente uma minoria, são os saudosistas da ditadura, os verdadeiros baderneiros que querem uma “democracia” sem partidos. O saldo, porém, é positivo. Essa geração ficará marcada pelo que fez, por sua capacidade de mobilização e, principalmente, por ter erguido a voz e ter mostrado a nossos políticos que eles são nossos funcionários, não nossos senhores de engenho. Não mais.

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13 comentários sobre “O indivíduo contra o Estado

  1. Pra Marcilene Almeida 22/06/2013 / 8:20

    Compartilhado. Em Paragominas pessoas de todas as classes sociais foram para as ruas protestar contra ações de um “governo” que está lá há 16 anos e agora nesse mandato completarão 20 anos no poder. Está parecendo que passam de geração em geração o “comando” da cidade. E é o PSDB que está lá! Nunca havia visto uma manifestação daquele tipo, com aquela força. Pasme! A mídia, controlada pela prefeitura local, não citou os protestos contra a administração municipal. Mas nas Redes Sociais é o que mais se fala. É um novo tempo!

    • Bertone Sousa 22/06/2013 / 11:47

      Oi, em alguns lugares o trabalho é ainda mais árduo de lutar contra essas oligarquias que controlam até a imprensa. Essa insatisfação geral pode criar nas pessoas uma consciência de cidadania para além do voto e do voto de cabresto. Obrigado por compartilhar e comentar.

  2. Virgínia Celeste 22/06/2013 / 21:03

    Li seu texto pela manhã, mas como não estava no pc, não comentei. Eu estava esperando por uma palavra sua sobre os acontecimentos… Espero que o saldo seja positivo, mesmo. Aqui no Recife foi uma massa de zumbis para rua. Ninguém questionou Dudu (Eduardo Campos) e ele comia tranquilamente num restaurante da cidade. De imagens aéreas, até ficou bonito… mas tinha que ficar bonito pra foto, não é? Foi tudo como Dudu quis. Quem já estava “acordado” e foi, não conseguiu segurar um coro coerente, mas, pelo menos, quem gritava “impeachment” ou “golpe militar já!” não teve muita força. Militantes vermelhos foram ameaçados e dispersos. Moradores de rua apanharam dos manifestantes “pela paz”. O horror. Ontem, quem se meteu a fazer outra passeata com “menos paz”, apanhou da mesma polícia pacífica de Dudu. Estou escrevendo um texto sobre minhas impressões, mas é um texto emotivo.. Por isso sou fã dos seus textos, pois você consegue colocar com clareza e lucidez.

    • Bertone Sousa 22/06/2013 / 21:54

      Lembrei de você quando vi as imagens dos protestos aí, especialmente no dia daquele jogo. Eu não queria acreditar que com tudo isso o Eduardo consiga capitalizar votos para as eleições do ano que vem, apesar de ser cedo pra dizer isso. Como essas manifestações refletem um profundo descontentamento com todos os partidos e não existem palanques, a tendência é que nenhum deles saia ganhando. Mas o fato de ele não ter sido alvo de protestos e sendo pré-candidato à presidência pode beneficiá-lo, principalmente porque a queda da popularidade da Dilma vai dispersar esses votos para os adversários, e ele representará a “novidade” ou pelo menos tentará passar essa imagem. Agora veja o pandemônio que se transformaram as manifestações, palco de pequenos conflitos ideológicos. Emotivo? Mas o que seria de nós sem a poesia hein? Sempre serei muito grato a você pelo apoio e pelo carinho. Tê-la como leitora e fã é um privilégio. Abraço.

  3. Myrna Santos 23/06/2013 / 12:00

    Tal como a Virginia Celeste, estava ansiosa esperando pelo seu texto. Gostei de sua análise e faço as seguintes observações, a partir da minha cidade, Belém-Pa. Aspecto positivo: afundou a PEc 37, que ia limitar as investigações pelo MP e demais intituições como Receita Federal. Aspecto negativo: pensar que toda a política é mau e corrupta, assim como os políticos. Até político que sempre foi aberto ao diálogo com a sociedade ou ativo junto as classes mais populares foram vaiados, diga-se de passagem , manifestantes rejeitaram políticos do PSDB (caso do prefeito de Belém) aos do PSOL. Éssa turma de jovens não sabe o que foi viver numa ditadura. Não sei não, isso me lembra a ascenção do fascimo no seculo passado. O que voce pensa disso Bertone?

    • Bertone Sousa 23/06/2013 / 12:59

      Mira (acostumei a te chamar assim),

      A maioria das pessoas que vão aos protestos não acredita mais nos partidos. O PT como o resto da esquerda que o apoia está desacreditado por estar à frente de toda a corrupção que envolve essa questão dos estádios. O PT conseguiu melhorar o padrão de vida das pessoas, mas não da forma como aparece nas propagandas. Não reduziu os impostos e ninguém aguenta mais pagar caro por serviços de baixa qualidade. Outra coisa é a ausência de oposição que alcance as massas. Existe oposição ferrenha ao governo no Congresso, mas ela não sai de lá. A oposição não fala a língua do povo, não leva a sério essas questões que afligem a sociedade. A oposição não tem nenhuma proposta de fazer as reformas que o país precisa pra voltar a crescer. Com isso ela se anula politicamente. O resultado é todo esse ceticismo com a política partidária. A extrema direita (os fascistas) também estava nos protestos, mas felizmente essas pessoas ainda são minoria, fazem mais barulho do que qualquer outra coisa. As mobilizações em geral são espontâneas e há variados grupos com variadas bandeiras. A maioria não está interessada nessas disputas ideológicas, até porque não tem muita clareza do que essas disputas representam, as pessoas querem apenas a melhoria dos serviços públicos, já que foi prometido que a copa ia trazer isso. Agora impedir as manifestações partidárias deu um rumo autoritário às manifestações. Os efeitos disso só serão bem compreendidos a médio prazo, mas é preocupante porque foi uma atitude nada democrática.

  4. Bruno Ribeirk 24/06/2013 / 10:08

    Bertone, não acho que os manifestantes (incluso eu) são filhos de Lula e Dilma e agora reivindicam os serviços prometidos. Trata-se de todas as classes sociais e culturais. É uma indignação generalizada não apenas contra o PT, mas contra a corrupção em geral, inerente a todos os partidos, sejam eles de direita ou de esquerda.

    • Bertone Sousa 24/06/2013 / 11:50

      Bruno, é claro que isso é uma metáfora e nem mesmo é uma referência a filhos no sentido ideológico. Mas foi o que eu quis dizer, é uma revolta contra todos os partidos.

      • Bruno Ribeirk 24/06/2013 / 12:25

        Bertone, estive sumido do blog por conta de uma viagem e preciso me atualizar. É correto afirmar que os partidos políticos perderam a essência ideológica de outros tempos e hoje em dia se ligam a correntes até de ideologia contrária em troca de favores?

      • Bertone Sousa 24/06/2013 / 13:44

        Isso é como disse o FHC ontem no Canal Livre, praticamente não existem mais partidos no Brasil no sentido convencional. Os partidos se tornaram corporativistas, não representam os cidadãos porque não são eleitos por eles, tanto no âmbito do executivo como no do legislativo. Eles representam apenas algumas agremiações e interesses específicos, por quem são eleitos e para quem governam ou legislam. As pessoas com razão não se sentem representadas por eles porque de fato não são. O que interessa à coletividade, como redução de impostos, melhorias salariais, educação, saúde, etc. não faz parte desses interesses corporativos. As ideologias morreram e no Brasil isso implicou um retrocesso a essas práticas clientelistas. A exceção são os três ou quatro maiores que ainda se configuram como partidos. Os outros são venais, se mantém em suas órbitas dependendo das concessões e privilégios que possam alcançar.

  5. Dantas 24/06/2013 / 17:47

    Bertone,

    Ótimo texto, já esperava que vc ia falar sobre os movimentos em todo Brasil. Na postagem anterior, a de como identificar os burros, eu ia até perguntar qual era sua avaliação, mas imaginei que se vc não havia dito nada ainda era por que estava esperando os desdobramentos para ter uma melhor visão de conjunto.

    Olha aqui em Natal/RN, pelo que eu vi nas redes sociais, foi a primeira cidade onde pipocaram as manifestações do passe livre (eu acho?). Aqui a origem remonta as agitações políticas de dois anos atrás: o Fora Micarla (prefeita de Natal), alias esta prefeita foi afastada do poder por ação do Ministério Público que agiu juridicamente, baseado em investigação de anos atrás, mas ocorreu num clima de forte legitimidade social. Este foi nosso primeiro movimento organizado em redes sociais e bem sucedido.

    No ano passado, o movimento nascido do Fora Micarla se reorganizou pelo facebook para pressionar os vereadores a impedir o aumento das passagens de ônibus e os vereadores (de olho nas eleições) vetaram a proposta de aumento da prefeita que havia perdido a esta altura todos os aliados.

    O MPL natalense de agora teve inicio quando o prefeito atual e a maioria dos vereadores reeleitos apoiaram agora o aumento, certos de que a mobilização popular era fogo de palha. De resto, ela foi similar aos das demais partes do Brasil, diria até que a medida que os potiguares foram percebendo que sua luta não era apenas SUA, mas era NOSSA luta, ao olhar os movimentos em todo os país, desta vez ocorrendo em sincronia, foi despertando para outros problemas ligados ao mal uso do dinheiro público e a corrupção em geral: a PAE dos juízes e promotores, o aumento dos legislativo, a PEC 37, o ocaso dos partidos etc. Bem, isso era o pouco que eu desejava compartilhar com vcs.

    • Bertone Sousa 24/06/2013 / 20:48

      Dantas,

      não é à toa que querem tirar poder do Ministério Público com a tal PEC 37. Lembro que vi uma reportagem sobre essa Micarla na época, foi uma coisa escandalosa. Valeu pelo comentário, é legal ver como as pessoas estão percebendo os protestos em diferentes lugares.

  6. Alcides Saggioro Neto 22/09/2013 / 21:51

    Já falei para várias pessoas que a república brasileira está mais para uma oligarquia, lembra mais os tempos do café-com-leite do que uma democracia moderna.

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