Por que a crença no inferno ainda importa?

inferno
Ilustração de Gustave Doré para “A Divina Comédia”, retratando Dante e Virgílio no inferno. Fonte: wikipaints.org

A ideia de um “mundo dos mortos” sempre aterrorizou a humanidade ao longo da história. As narrativas sobre o que compreendemos como “inferno” são incrivelmente semelhantes quando as cotejamos. Isso ocorre porque as civilizações estão em contínuo processo de trocas culturais e simbólicas. Entre os antigos mesopotâmicos, acreditava-se que após o enterro o fantasma do morto ficava aprisionado em uma espécie de caverna, úmida, escura e cercada por muralhas. A existência de muralhas, guardiões e palácios de deuses nesse “país dos mortos” remetia à estrutura das cidades no Oriente Próximo. A crença em reencarnação ou qualquer outra forma de renascimento era inexistente, diferente dos egípcios, que imaginavam um julgamento antes de o morto adentrar na outra vida e é de conhecimento geral que suas técnicas de mumificação foram desenvolvidas por sua crença na ressurreição.

Entre os antigos hebreus a ideia de uma alma imortal que habitaria um paraíso ou um lugar de tormentos era desconhecida. Não é por acaso que as promessas de Jeová se limitavam a recompensas e punições na Terra, dependendo da obediência ou não dos israelitas à Lei. Com a difusão da cultura grega durante o Helenismo e o caldeirão de culturas que coexistiam no Império Romano muita coisa mudou, especialmente para os judeus que fundaram o Cristianismo. Poucas religiões deram tanta ênfase à crença no inferno como o Cristianismo. Os autores do Novo Testamento foram claramente influenciados pela religião grega e as representações do Tártaro como lugar de punições aos condenados pelo que fizeram em vida, além da ascese estoica e da dicotomia corpo e alma da filosofia platônica.

Mesmo assim, o  Novo Testamento não possui uma definição bem elaborada de inferno; era concebido apenas como um lugar de sofrimento para onde vão as pessoas más. A maioria das pessoas ignoram o que está escrito nos evangelhos apócrifos, mas para os historiadores eles oferecem ideias importantes acerca do que as pessoas acreditavam naqueles primeiros séculos. Nesse sentido o “Apocalipse de Pedro” é uma das narrativas mais interessantes do Cristianismo Primitivo, a primeira a descrever os níveis de suplícios no inferno. A partir do final do primeiro século, a crença cristã inicial pela vinda física do Messias e do Reino de Deus à Terra foi substituída por uma visão teológica que transfere o Reino para outra dimensão após a morte, dando lugar a elaborações mais detalhadas do inferno.

Da Antiguidade Tardia em diante o temor do inferno encorajou muitos a se converter à fé cristã pelo medo da danação. Tal doutrina sedimentou a autoridade da Igreja e do clero quando o Império de desintegrou e foi um importante elemento de domesticação dos pagãos. Embora o Cristianismo tenha sempre se afirmado como “religião do amor”, também expandiu a concepção de um Deus punitivo e vingador. Nesse sentido, a doutrina do inferno se constitui importante instrumento de denegação do outro, de banimento daqueles que não se convertem à religião ou que se mostram como “hereges”. A representação do outro como “o mal” ou como um meio pelo qual o mal se manifesta marcou épocas de intensas perseguições e medos coletivos da ira divina. Por causa do dogma do pecado original e da crença na condenação automática da humanidade, o Cristianismo desenvolveu uma cosmovisão de negativação do corpo e da sexualidade como agentes de separação da divindade e causas maiores da condenação eterna. No luteranismo e no calvinismo, o sentimento de culpabilização e miserabilidade humana frente à onipotência divina reforçaram a doutrina ascética agostiniana e acentuaram a predestinação como ação arbitrária de Deus para com a humanidade.

A partir do século XVIII, o desenvolvimento do universalismo buscou fazer frente à teologia calvinista da predestinação. Mas essas concepções não tiveram muita aceitação em outros lugares. Nos Estados Unidos dos séculos XVIII e XIX, épocas marcadas por intensos movimentos religiosos avivalistas, a noção do inferno estava ligada também à noção de cidadania virtuosa. Segundo Kathryn Gin, uma pesquisadora norte-americana de História das Religiões, na América o medo do inferno estava ancorado no medo da anarquia social, da desordem e do não cumprimento dos deveres civis.

No século XVIII, no verbete Inferno de seu Dicionário Filosófico, Voltaire escrevia: Vários foram os Padres da Igreja que não acreditaram nas penas eternas: parecia-lhes coisa absurda pôr a assar durante a eternidade inteira um pobre homem, só por ter roubado uma cabra. Rousseau também fez profundas críticas ao dogma da condenação eterna. A “Profissão de Fé do vigário saboiano”, no livro III d’ O Emílio é uma das passagens mais célebres de sua crítica à religião cristã. O deísmo do século XVIII e a teologia liberal dos séculos XIX e XX envidaram grandes esforços para humanizar a encolerizada imagem divina forjada nas eras medieval e moderna. Mas, por que, apesar de todas essas críticas, ainda há pessoas que afirmam ter viajado ao inferno e visto sofrimentos que mal podem descrever? A partir da década de 1950, essas narrativas se tornaram mais comuns, especialmente entre protestantes norte-americanos. O contexto marcado pela Guerra Fria e os embates com o comunismo ateu da União Soviética tornavam essas narrativas bastante atrativas do ponto de vista político, por sua forte capacidade de inculcação do medo e de rejeição a padrões morais e comportamentais desaprovados pela religião.

Atualmente essas narrativas se proliferam em contextos em que a religião perde terreno para a secularização, não necessariamente para a irreligiosidade, mas para outras religiões também. Se no passado as incessantes pregações sobre o inferno tinham o efeito de controle social, hoje já não possuem essa capacidade. Os padres, de um modo geral, não aterrorizam seus fiéis com ameaças em suas homilias. Já os pregadores fundamentalistas, que reafirmam a literalidade da Bíblia, ainda acreditam numa vingança divina e na existência física de um lugar eterno de tormentos, com seus níveis de punição, bem ao estilo do Apocalipse de Pedro ou da Divina Comédia de Dante. Mas o Brasil está longe de ser um país dos sonhos dos fundamentalistas.

Segundo uma pesquisa realizada em 2011, embora o Brasil seja o 3º país no mundo onde mais se acredita em Deus (ficando atrás apenas de Indonésia e Turquia), apenas 51% acreditam em vida após a morte e, destes, 19% acreditam em céu e inferno (fonte: G1). Mesmo com pouca educação, o brasileiro é mais liberal em matéria de religião. O crescimento do protestantismo, por outro lado, que abarca mais de vinte por cento da população brasileira segundo o censo de 2010, não tem reforçado com vigor essa crença, devido à heterogeneidade de suas doutrinas e à estrutura empresarial das igrejas com maior índices de crescimento e cujos discursos são mais voltados para o bem-estar pessoal do que pela pregação apocalíptica e as ameaças de danação. De toda forma, há uma parcela significativa da população que ainda acredita no inferno. Não é a maioria, como nos Estados Unidos, mas um número relevante. Embora esse tipo de crença possa conter diversas interdições morais, não é a única. Seitas que não acreditam no inferno, como as Testemunhas de Jeová, possuem interdições morais frequentemente mais rígidas do que outras religiões onde essa crença se faz presente.

Apesar de haver clérigos universalistas como Rob Bell, ainda são minoria. Pode não ser possível que o Cristianismo exorcize seus demônios da punição eterna sem descaracterizar-se como religião. Certamente, um dos motivos pelos quais o inferno não desaparece como crença coletiva, é porque é sempre o lugar onde colocamos nossos desafetos, aqueles cujas práticas repudiamos e criminosos que vemos escaparem impunes a seus delitos. Para muitas pessoas, o inferno também explica a existência do mal no mundo e o sofrimento de inocentes como algo que será devidamente julgado no pós-morte. Como imaginário, o inferno contém os medos mais tenebrosos da humanidade, a hesitação perante a morte e a certeza de não se poder evitá-la, mas também desvela os sentimentos e desejos mais sádicos que a mente humana pode conceber e são quase onipresentes na história.

Anúncios

13 comentários sobre “Por que a crença no inferno ainda importa?

  1. Leonardo 19/05/2013 / 11:29

    O surgimento da Renovação Carismática Católica fez essa crença ganhar impulso. Frequentei a igreja católica quando pequeno e me lembro de histórias que eram passadas de boca em boca sobre um jovem metaleiro que vivia indo para baladas e que certa noite fez um passeio pelo território do “coisa ruim” e voltou de lá apavorado e que depois disso começou a ter uma vida mais “regrada” e religiosa. No entanto, por experiência própria vejo que entre os católicos há um certo nível de liberalismo com relação a certos dogmas que em outra igrejas, como as neo-pentecostais seriam motivo de condenação. Fazendo uma visita à alguns cultos evangélicos ou mesmo assistindo a alguns vídeos destes no YouTube (como fiz pois acho um tanto desagradável e irracional a gritaria e o balburdio destas igrejas) para ver quantas vezes as palavras inferno, diabo, satanás são pronunciadas comparando-se com outras denominações cristãs.

    Acredito que essa crença no céu e no inferno é talvez a maior responsável pela subida ao poder de políticos que acabaram por cometer as maiores atrocidades que a humanidade já viu. Esse conceito trabalha com dois absolutos o bem e o mal. Não pode existir um ser meio bom ou um meio mau. Isto acaba por negar a existência, no ser humano, de condutas que refletem não um absoluto, mas uma variação de condutas ora aceitáveis ora condenáveis. O Hitler foi “endeusado” pelos eleitores que não o consideravam capaz de deixar a Alemanha destruída e empobrecida ao final da Segunda Guerra Mundial, por exemplo.

  2. Rogério Beier 13/07/2013 / 12:33

    Olá Bertone, ótimo texto. Sobre esse assunto e a existência de demônios e do próprio Satanás, recomendo a leitura de um livro intitulado ANTES QUE OS DEMÔNIOS VOLTEM, do padre jesuíta Oscar González Quevedo. Se não me engano, saiu pela Loyola. O Pe. Quevedo é frontalmente contra a existência de Satanás e fala abertamente (talvez por isso tenha sido punido tantas vezes pela Igreja) contra a existência do inferno. Quando comenta sobre o assunto, diz que ninguém sabe como se dá a justiça divina e que o Inferno é apenas uma possibilidade, mas que a misericórdia divina é infinita…. enfim, um livro realmente bastante interessante sobre este assunto.

    • Bertone Sousa 13/07/2013 / 14:29

      Rogério, ainda não conheço esse livro do padre Quevedo, mas é importante essa humanização da religião a partir de dentro, que, apesar de ser uma tendência que se manifesta desde o Renascimento, sempre encontra resistências dos setores mais conservadores. Admiro o nível intelectual do Pe. Quevedo, apesar de não gostar da ênfase excessiva que ele dá à parapiscologia. Mas vou buscar esse livro. Obrigado pela contribuição.

    • Bertone Sousa 22/11/2013 / 16:54

      Barto, meu texto não tem relação com seu conteúdo, pois não é uma pregação religiosa.

  3. Aristeu Camargo 24/05/2014 / 18:38

    Boas colocações, principalmente quando toca na questão do uso do inferno como ferramenta de controle social. Um filósofo contemporâneo de nome Michel Focault descreveu como certas técnicas de manipulação do medo foram e ainda são usadas contra as massas, para o seu melhor controle. Também não acredito na imortalidade da alma, porquanto essa doutrina prega que o falecido passa, depois de morto, a viver em outra dimensão, coisa que não encontra e nem jamais encontrou evidência fisiológica que a apoiasse. Deixo aqui uns links sobre um desabafo contra o inferno e uma resenha sobre a obra de Michel Focault (livro Vigiar e Punir) e a sociedade de controle.

    Acessem:
    http://www.umanovaera.com/Fraudes_Religiosas/O_Inferno_Existe.htm
    http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/sociedade%20disciplinar/Sociedade%20de%20controle.htm

    • Bertone de Oliveira Sousa 24/05/2014 / 19:00

      Aristeu, conheço a obra “Vigiar e Punir” e realmente é uma boa referência pra se pensar os mecanismos de controle (eu não diria “manipulação” devido ao uso abusivo que esse termo já ganhou) sobre o corpo na sociedade contemporânea. Já do site umanovaera.com não se pode dizer o mesmo. Lá se mistura alhos com bugalhos com todas aquelas estórias de conspiração e se passa muito longe de qualquer discussão histórica relevante. Minha proposta aqui é a discussão histórica, não a refutação de doutrinas religiosas. Recomendo que você leia outro artigo aqui no blog, “Teorias de conspiração: usos e abusos”. Abs.

    • Bertone de Oliveira Sousa 05/01/2015 / 23:45

      Roni, o texto deles está correto, as traduções de Sheol e Hades realmente alteraram os sentidos que esses termos originalmente tinham nas culturas que os produziram. Eles não mencionam, mas o apocalipse de Pedro, um livro apócrifo do século II, também já descrevia o inferno como lugar de tormento e com níveis variados de punição, dependendo do pecado que as pessoas mais cometiam em vida. É possível que Dante tenha se inspirado aí para escrever a Divina Comédia. Alguns estudiosos não entendem porque esse apócrifo não foi escolhido para compor o cânon da Bíblia, já que nada ali destoa da ortodoxia católica.

      • Roni 06/01/2015 / 1:29

        Obrigado, Bertone. Abç.

      • Roni 06/01/2015 / 1:35

        Seria muito bom se você fizesse um post falando das origens da bíblia, sobre os livros que ficaram de fora, as influências que os autores bíblicos tiveram. Eu tava lendo esses dias que há uma citação da fábula de Esópo no livro de “Eclesiástico” – que, como você deve saber, só há na bíblia católica. Abç.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s