Irracionalismos da direita brasileira

Por ser um espaço que proporciona ampla democratização da opinião, a internet pode ser uma importante fonte de informações, desinformações e debates, mas também tem sido palco de manifestações racistas e extremistas que vêm se multiplicando exponencialmente nos últimos anos. Me refiro às manifestações de uma direita raivosa que não tolera a ampliação de direitos sociais ocorridos nos últimos dez anos (e, verdade seja dita, iniciadas antes, no governo FHC) e acolhe qualquer pensamento tacanho apenas pela ânsia de criticar Lula, Dilma e o PT. É claro que a esquerda que se manifesta na internet também possui seus defeitos e análises redutivas, mas a direita consegue ser infinitamente mais tosca e intolerante.

O maior problema da direita brasileira é que ela nunca deixou de ser udenista, isto é, golpista, entreguista e – como consequência de seu anticomunismo radical – devota de ditaduras militares. A direita tupiniquim é uma caricatura do que há de mais retrógrado na esfera política, desde a defesa descarada de regimes fascistas até o alinhamento a fundamentalismos religiosos, como aconteceu com as duas últimas campanhas de José Serra. A título de exemplo podemos citar a iniciativa da estudante gaúcha Cibele Baginski, que possui uma proposta de refundação da ARENA, partido de apoio à ditadura militar. Bolsista do ProUni, ela tem como uma de suas propostas acabar com qualquer tipo de sistema de cotas para entrada nas universidades.

As manifestações contra cotas não são manifestações contra “privilégios”, porque cotas não são privilégios, mas contra a inclusão, da mesma forma como as manifestações contra outras políticas como o Bolsa Família. A direita repete sempre o mesmo discurso de que essas políticas são feitas para conceder “esmolas” ao povo e garantir votos. Às vezes vemos até pequenos empresários repetirem essas opiniões sem se darem conta de que suas empresas somente existem porque esses programas aqueceram o mercado e melhoraram a economia. É uma direita que também quer a redução da menoridade penal sem se dar conta de que isso, ao invés de resolver o problema da criminalidade, irá agravá-lo, porque menores em penitenciárias se tornarão recrutas do crime organizado, além do fato de que o Estado teria de gastar muito mais verbas com construções de presídios aumentando os impostos, e a direita é a primeira a se manifestar contra impostos para essa finalidade.

Iniciativas de pessoas como Cibele é apenas um sintoma de uma sociedade desorientada e com baixo nível educacional. Uma sociedade que acredita no que lê na Veja e forma sua opinião nas colunas de gente como Reinaldo Azevedo. Este, um dia cunhou o neologismo “petralhas” e hoje não se lê quase uma matéria sobre política na internet sem que se leia nos espaços reservados aos comentários algum débil mental repetir esse e outros jargões. O problema não é ser de direita, mas se pensar que é liberal quando se está sendo limítrofe. Há uma juventude abobalhada, acrítica e que fornece ampla audiência a sites e blogs de extrema direita como Usina de Letras, Mídia sem Máscara, Conservadorismo Brasil, Nota Latina e dezenas de outros.

Para que o leitor não pense que estou exagerando quando digo que algumas dessas pessoas defendem descaradamente regimes fascistas, reproduzo aqui o comentário, feito neste blog no artigo “As Razões do Iluminismo” de um leitor que se identifica como Pedro Almeida:

E só pra frisar: o fascismo tinha apoio popular, já paises esquerdistas como China e URSS eram ditaduras de uma oligarquia politica que oprimia a tudo e a todos. Nao estou querendo justificar o fascismo, mas se analisarmos o contexto da epoca, ajudou no combate ao comunismo.

Na cabeça do rapaz, que não está querendo “justificar” o fascismo, mas já justificando, o fato de ter ajudado no “combate ao comunismo” é razão suficiente para que sua existência seja celebrada; para ele, o fascismo não foi uma ditadura nem causou opressão. É isso tipo de postura, que reproduz inverdades históricas a granel que tem se difundido muito na internet. Vou pegar outro exemplo também neste blog. No texto “A confusão mental dos seguidores de Olavo de Carvalho”, outro leitor, que usa o fake “Um Dissidente”, escreveu:

Não há como pensar em democracia com a esquerda existindo. Tudo, tudo o que veio de inspiração impositiva deu em bosta: nazismo, marxismo, leninismo, o iluminismo satânico da Revolução Francesa etc. Assim sendo, penso que direcionar boa parte de sua artilharia contra a esquerda seja no mínimo, NO MÍNIMO, algo bastante razoável.

É desnecessário chamar a atenção para o teor de intolerância e extremismo desse comentário. A postura de algumas pessoas, de afirmar que nazismo e fascismo eram de esquerda não passa de uma estratégia discursiva para escamotear suas reais intenções, ao usar uma retórica de teor apenas denuncista (muitas vezes hiperbolizando fatos, omitindo e falsificando outros) como estratégia de disseminação do ódio à oposição. Com isso, também criam um espantalho para si próprios, ao transformarem o comunismo no único vilão do século passado e retirarem da direita a responsabilidade pelas guerras mundiais, pelo nazismo e o Holocausto.

A direita brasileira está ancorada em duas posições: o fanatismo religioso e teorias conspiratórias. Os dois elementos não são distintos, mas estão interligados em seus discursos. O primeiro é amplamente usado para combater a laicidade do Estado, as políticas afirmativas e associar a esquerda ao mal, ao demônio. Esse tipo de discurso é velho no Brasil e remonta à Guerra Fria. Naquela época os comunistas eram acusados de “comerem criancinhas”, hoje a esquerda é acusada de facilitar e incentivar a pedofilia, atentar contra os valores da família e “impor” a homossexualidade como norma. Agora a turba de reacionários se une em torno de figuras polêmicas como os deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano e vários pregadores de televisão espalhados pelo país para tentar barrar o avanço de políticas sociais. Na ausência de um plano de golpe militar, a religião tem sido o fermento de ação dos extremistas. E aí entram as teorias conspiratórias, como a de que a religião cristã (e apenas ela) está sob ataque de entidades globalistas e “esquerdistas” como o Foro de São Paulo. E nesse aspecto o pseudo-filósofo Olavo de Carvalho se destaca como guru que descobriu um “Ovo de Colombo” ao se vangloriar de denunciar o Foro de São Paulo como entidade terrorista, quando toda a mídia não dava atenção a isso. Sobre isso, as palavras do jornalista Celso Lungaretti, escritas em 2007, ainda ressoam com bastante atualidade:

Já os sites financiados por facções políticas pouco têm a perder, daí a desenvoltura com que agem. Direcionam-se para cidadãos frustrados e rancorosos, propensos ao fanatismo e, portanto, incapazes de perceber a total falta de verossimilhança naqueles relatos mirabolantes. Trata-se do mesmo caldo de cultura que gerou o nazismo e o fascismo.

A extrema-direita, em sites como o Ternuma, Mídia Sem Máscara, Usina de Letras e A Verdade Sufocada, prega ostensivamente um novo golpe militar, tentando reeditar, de forma mecânica, a receita que deu certo em 1964. 

(…)

O mais risível é o papel de vilão principal, antes ocupado pela conspiração comunista urdida em Moscou e Pequim. Na falta de coisa melhor, os sites fascistas hoje alardeiam a periculosidade do Foro de São Paulo, por eles apresentado como a “organização revolucionária que está influenciando de maneira decisiva os destinos políticos da América Latina, em especial a América do Sul”.

Na verdade, trata-se apenas de um encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais contrárias às políticas neoliberais, que vem acontecendo desde a reunião inicial de 1990, em São Paulo (daí o nome). 

Essas pessoas que celebram a ditadura militar não querem democracia, querem um governo sem povo, como realmente são as ditaduras. Eles pensam que a esquerda ainda é revolucionária e pega em armas para tomar o poder; eles não sabem que existem eleições democráticas no Brasil, por isso nunca deixaram de ser udenistas. Ao invés de criar cotas e bolsas, talvez eles preferissem fazer como Carlos Lacerda, que foi acusado de mandar matar mendigos e jogá-los no rio. Ou querem a redução da menoridade penal apenas porque pensam em limpeza étnica e social, já que as cadeias brasileiras têm apenas negros e pobres e a tal redução apenas ampliaria esse contingente, deixando as ruas das grandes cidades livres para os ricos e as classes médias – que jamais são punidos por seus crimes – transitarem nelas. Essas pessoas não suportam o fato de Lula e Dilma terem sido eleitos democraticamente e ainda criticam outros de direita que não se alinham a seus ideais. A verdade é que essas pessoas não toleram mesmo é inclusão social. A compreensão do que seja uma democracia passa longe deles. A velocidade com que esses posicionamentos extremistas se espalham pela internet chega a ser assustador. E em geral as discussões cedem lugar a calúnias e difamações. A difusão desse irracionalismo não poderá resultar em coisa boa.

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37 comentários sobre “Irracionalismos da direita brasileira

  1. mauropenedo 22/04/2013 / 11:42

    Caro Bertone, você não acha que defender a esquerda brasileira possa ser uma faca de dois gumes? Não podemos esquecer que todos os países que adotaram esse tipo de regime se tornaram ditaduras. Talvez o Brasil esteja caminhando em doses homeopáticas para o mesmo destino, haja visto que, para um bom observador, algumas transformações políticas já são perceptíveis. Quero ressaltar que já desisti de levantar uma bandeira vermelha, amarela ou qualquer outra cor que seja, pois percebi que todas, TODAS, sem excessão, estão mais preocupados com seus próprios umbigos do que propriamente com o fim da desigualdade social. Os vermelhos,quando estão no poder, mantém a mesma política neoliberal sem tirar nem por, com algumas variáveis para distinguí-las dos amarelos. Isso é muito parecido com a postura adotada por extenções do cristianismo, por exemplo, que adotam características para diferenciá-las umas das outras. Digo isso, pois, como você, tive a experiência, não de fazer parte, mas de ter “aceitado Jesus” em algumas denominações evangélicas na adolescência, inclusive na Assembléia de Deus o qual fizeste parte. Por falar em Assembléia de Deus, quero parabenizá-lo pelo seu trabalho, e que já tive o prazer de ler! Voltando ao assunto, concordo quando afirmas que a direita extremista diz que ” transformarem o comunismo no único vilão do século passado e retirarem da direita a responsabilidade pelas guerras mundiais, pelo nazismo e o Holocausto”. Isso é fato, pois já tive o desprazer de ser ofendido no Facebook, mais especificamente no Grupo “Junto e Misturado Democrático”, no qual eu fazia parte, mas que resolvi sair por conta da agressividade dos reacionários e neoliberais que descarregavam uma metralhadora de insultos e insanidades de causar inveja ao pseudo-astrólogo, pseudo-filósofo e pseudo jornalista Olavo de Carvalho pela mesma colocação. Bem, não quero me alongar muito nesse primeiro comentário, já que tenho estado um tanto quanto ocupado, mas quero te dizer que não deixe que os insultos como o do Olavo de Carvalho (que tive o desprazer de assisti-lo ofendendo-o em um vídeo postado no Youtube) lhe desanimem, pois tens um nível intelectual dos mais notáveis. Um abraço!

    • Bertone Sousa 22/04/2013 / 12:51

      Mauro,

      compreendo sua decepção com a esquerda e também tenho minhas críticas a ela; não creio que uma adesão deva ser incondicional e nem que devamos dar um cheque em branco ao PT ou a qualquer partido. Não concordei, por exemplo, com a carta aberta de apoio do PC do B à Coreia do Norte após o início das recentes tensões com os Estados Unidos, não que os americanos sejam os “bonzinhos” da história, mas determinadas posturas têm de ser bem avaliadas antes de serem tomadas.

      Mas veja, diante do quadro que temos aí, com o crescimento desses grupos fundamentalistas e de extrema direita é importante tomar uma posição. A esquerda, até certo ponto, ainda está conseguindo manter os fundamentalismos sob controle. Também houve uma redução significativa da desigualdade social no Brasil nos últimos anos, melhorias nas universidades públicas (apesar da longa greve no ano passado, os investimentos têm sido maiores), aumentaram os postos de empregos e órgãos internacionais como o Banco Mundial já não ditam mais as regras de nossas políticas econômicas.

      Por isso não considero que eles mantenham a mesma política neoliberal como você falou. Mas o próprio termo “neoliberalismo”, de certa forma, já foi muito esvaziado de seu conteúdo. Essas políticas foram muito mais fortes nos anos noventa do que agora. Então não creio que a esquerda esteja apenas preocupada com o próprio umbigo; é claro que ela também se corrompe, faz alianças espúrias, mas no frigir dos ovos, ela também tem uma visão social mais aguçada e projetos sociais mais abrangentes. A direita sequer tem proposta de governo.

      Sobre a questão de caminhar para a ditadura, também não vejo por esse ângulo. Não vejo pretensões ditatoriais do PT como os teóricos da conspiração tanto falam; percebo essas acusações da parte deles mais como gestos de desespero do que qualquer outra coisa. Nossa democracia está bem consolidada. Muitos imaginavam que o Lula iria propor um terceiro mandato, o que não aconteceu. Todas as previsões de que o PT se tornaria autocrático no poder foram desmentidas pelo curso dos acontecimentos. Sobre esse pessoal da direita do Facebook que você mencionou, alguns vêm aqui de vez em quando fazendo comentários na base do xingamento e eu não aprovo. Não existe diálogo com essa gente; agora imagina esse povo no poder, o estrago que não fariam. O fascismo começou assim. No mais, obrigado pelo apoio e pela contribuição. Abraço.

  2. Bruno Ribeirk 22/04/2013 / 14:25

    Preliminarmente, não há mesmo como defender um partido político que foi responsável pelo maior crime da história da política brasileira (mensalão). Ademais, não vejo essa relação toda da direita com o fascismo. Mas se isso é verdade, também é verdade que a esquerda apóia ditaduras como Irã, Coreia do Norte, China e etc. Colocando na balança, ambos os lados tem seus defeitos.

    • Bertone Sousa 22/04/2013 / 17:21

      Bruno, quem repetiu à exaustão essa coisa de mensalão como “maior crime da história” foram bestas quadradas que só leem Reinaldo Azevedo. Acho que você consegue ser mais inteligente do que isso, mas pelo visto vem piorando muito nas últimas semanas.

      • Bruno Ribeirk 22/04/2013 / 17:41

        Eu procuro analisar os fatos e apenas os fatos. Esse negócio de direita e esquerda hoje em dia é muita superficialidade. Não existe mais esse conceito binário, embora muitas pessoas neguem isso na prática. Eu procuro analisar cada conceito de forma isolada, sem me prender a nenhuma ideologia previamente imposta. Veja bem: eu sou a favor da legalização do aborto, e por isso os direitistas tem raiva de mim, ao mesmo passo que sou contra a adoção de crianças por casais homoafetivos, e por isso os esquerdistas tem raiva de mim. Entende como não da pra se prender a conceitos binários como direita e esquerda?

      • Bertone Sousa 22/04/2013 / 17:55

        Sei bem que esses conceitos não são estanques e na prática política muitas ações tendem a ser semelhantes. Já vi políticos do PSDB mudarem para o PC do B e vice-versa sem nenhum problema e essas coisas são comuns no jogo de interesses entre agentes e partidos, especialmente a nível municipal e estadual. Mas ainda há diferenças entre grupos que, dependendo das circunstâncias, podem pender para determinados posicionamentos causando polarização ideológica e é sobre isso que meu texto fala. Não estou falando de esquerda e direita como conceitos puros ou tipos ideais, mas de polarização, irracionalismos e difusão de extremismos e nesses aspectos ainda há identificações ideológicas e luta por capital político, busca de legitimidade e (no caso da extrema direita que você diz não enxergar) o desejo de aniquilamento do outro. Outra coisa é ninguém “analisa os fatos e apenas os fatos”, você nunca verá “apenas os fatos”.

  3. strodrigo 24/04/2013 / 11:33

    Bertone, você não acha que de maneira desonesta até, existe um exercício quase religioso na esquerda em enxergar a direita como “o mal ?” ao invés de simplesmente uma perspectiva diferente de mundo ?

    E claro que podemos dizer que a “direita” também faz a mesma coisa, no âmbito político, mas não estou fazendo essa minha análise me referindo diretamente aos políticos. Tento sempre separar os políticos do debate “direita x esquerda”, porque penso que os políticos sempre fazem concessões em nome da causa. Não é raro ver por exemplo, um político ateu convicto disposto a “posar para foto” ao lado de um pastor evangélico se isso for lhe garantir votos. O próprio Lula fez campanha para o Eduardo Paes pela prefeitura do Rio de Janeiro. O mesmo Eduardo Paes que o chamou de chefe de quadrilha 2 anos antes ! O único traço de direita que enxergo nos partidos brasileiros chamados de direita é o conservadorismo. O PSDB e o DEM são tão estadistas quanto o PT. Você destilou perfeitamente a situação política atual, a nossa “direita” está perdendo força, e está entrando em certo desespero.

    Mas como disse anteriormente, trazendo a análise para o campo dos valores. Você não acha que a grande massa na esquerda é tão irracional quanto a classe média mimada ?

    Por isso não gosto desses rótulos e penso que eles só funcionam na política. Pois apesar de meus valores estarem mais a direita do espectro, me sinto perfeitamente confortável para criticar aberrações como Olavo de Carvalho ( como outros membros da “direita” já o fizeram), discordar diametralmente de Luiz Felipe Pondé em diversos aspectos da sua concepção sobre a direita e admirar pessoas como Marcelo Freixo.

    No cotidiano eu confesso que percebo muito mais intolerância e irracionalidade por pessoas com valores de esquerda. A Veja de fato presta um papel ridículo na nossa sociedade. Mas, além dos números e alcance, qual é a diferença entre a Veja e a Carta Capital ou o Pragmatismo Político (site que já rasgou flores para Marina Silva, e começou a critica-la quando se afastou da esquerda) ?

    Perdi as contas de quantas vezes já fui chamado de fascista e burguês por dizer abertamente que acredito no livre mercado e na meritocracia.

    Um abraço ! Excelente artigo !

    • Bertone Sousa 24/04/2013 / 12:12

      Rodrigo,

      não gosto de reproduzir uma visão estereotipada das coisas e foi o que tentei manter no artigo. Estou falando de um segmento específico da direita, não de toda a direita. Não chamo toda a direita indiscriminadamente de fascista, até porque isso seria desonesto, mas há um segmento dela que pende para isso. O que escrevi aqui sobre a extrema direita também se aplica ao PSTU ou o PSOL, cujos discursos estão completamente fora de tempo. O que você falou de concessões é fato. Mesmo assim, ainda acredito que haja diferenças de projetos e perspectivas entre partidos e pessoas.

      Também concordo com você que a grande massa da esquerda é irracional, como, aliás, toda massa é. Embora eu seja mais simpático da esquerda, não sou devoto dela, acho que é mais importante se colocar acima disso. A esquerda é muito cega quando só consegue criticar FHC e elogiar Hugo Chávez, por exemplo. Mas acredito que a esquerda tenha mais facilidade para auto-crítica do que a direita, além de ser mais propensa a projetos sociais, à inclusão. Numa visão geral é possível perceber diferenças significativas. Já os conservadores, como o próprio nome diz, não têm proposta nenhuma fora da manutenção dos privilégios que consideram atemporais e até sagrados. Além disso, a direita tende mais para o fanatismo religioso e os preconceitos de todo tipo. A esquerda, com todas as suas imperfeições, possui visão social mais ampla e é menos inclinada a se pautar por verdades transcendentes e trans-históricas e por isso é mais crítica. Quanto ao Pragmatismo Político, também não concordo com tudo o que é publicado lá, mas no geral é um bom site.

      • gleiton 14/06/2017 / 16:51

        Pq você não critica a esquerda com a mesma energia que tem contra a direita? Como posso dar crédito a uma e pessoa que passa a mão na cabeça da esquerda, mas detona a direita como se fosse de toda burra, errada e etc? Se for querer parecer imparcial precisa ser de verdade. As críticas que você faz a esquerda fica só aqui nos comentários, de forma amena, como se erros delas fossem até compreensivos, mas o da direita são absurdos, loucos. Da mesma forma que você fala tanto assim, do outro lado de lá pode ter um escritor que haja da mesma maneira. Então você acaba caindo na polaridade. Se for pra analisar algo, analise sem paixão e de forma imparcial. Além do mais tem alguns erros bem contentáveis em algumas coisas que você diz.

      • Bertone Sousa 14/06/2017 / 20:23

        Gleiton, se tem algo que tenho feito muito neste espaço nos últimos meses é criticar a esquerda. E não é de forma amena em comentários não, é em textos bem incisivos também. Observe melhor o blog. Já fiz textos aqui contra o discurso de golpe a respeito do impeachment, contra o messsianismo de Lula e a roubalheira do PT, fiz texto contra as ocupações estudantis do ano de 2016, critiquei de forma veemente a idolatria da esquerda a Fidel em um texto com notas específicas sobre isso, fiz texto crítico sobre o populismo de esquerda na América Latina e texto sobre o antiamericanismo de esquerda ainda muito forte no Brasil.
        Não fecho os olhos para os dogmatismos da esquerda, seus reducionismos, fanatismos nem para seus devaneios, como também não deixo de escrever sobre eles. Não é à toa que tenho recebido ataques dos dois lados. Mas em se tratando de desonestidade intelectual, tenho observado que a direita tem conseguido ser bem pior e por isso tenho dedicado vários textos a isso também.

  4. Jonatan 26/04/2013 / 19:27

    Bertone,

    O jornalista Olavo não é vinculado em nenhuma mídia conceituada, até os periódicos em que ele trabalhava o demitiram. O que restou foi se promover pela rede combatendo justamente quem “o prejudicou”: a mídia.
    Não há movimentos de extrema direita no governo, até porque, se houvesse seriam sufocados pelo sistema, tão pouco existe essa “teoria da conspiração” dos esquerdistas como afirmam esses olavitas.
    Além de sua justa preocupação em combater essas desinformações bizarras não vejo maior preocupação nisso.
    Excelente texto.

  5. Plábio Desidério 26/04/2013 / 20:19

    Caro Bertone,

    Uma questão torna-se pertinente nas suas observações e também dos comentários sobre seu texto. O fortalecimento de grupos conservadores e reacionários, nas últimas décadas, principalmente no “espectro” da direita remete para algumas questões. Por que esse fortalecimento e seu casamento com a ideologia neoliberal? É um processo de descontinuidade (no sentido foucaultiano) depois de uma período no século XX de luta por direitos humanos e maior justiça social na esteira do welfare state? Qual a vontade de verdade que o discurso desses grupos de direita buscam? Quais disputas que os mesmos travam e quais saberes e poderes eles mobilizam para isso? Interessante observar é como essa mobilização consegue adesão muito rápida, por exemplo na emergência da classe trabalhadora. Muitos alunos são totalmente a favor da redução da maioridade penal, da pena de morte e contra as cotas. São alunos oriundos de grupos que historicamente foram excluídos dos direitos sociais e civis, mas que na inclusão dos últimos anos à esses mesmos direitos se posicionam de forma conservadora, num processo dialético. Penso que a religião e a mídia (a hegemônica) contribuem decisivamente para influenciar e construir uma hegemonia conservadora e até reacionária sobre esses grupos. Por que a visão de mundo desse espectro da direita está sendo assimilada de forma “quase natural” pelos grupos das classes menos favorecidas? Por que o gota-a-gota simbólico (Bourdieu) desse discurso conservador e quase proto-fascista consegue se impor de forma mais rápida?

    • Bertone Sousa 27/04/2013 / 1:00

      Plábio,

      essas questões são mesmo interessantes pra se refletir. E há paradoxos também: geralmente aqueles que defendem a redução da menoridade penal também são os que são contra qualquer prática de aborto, por exemplo, ou até o uso de contraceptivos. No caso dos alunos que, mesmo sendo de baixa renda, se opõem a cotas e defendem redução da menoridade penal penso que é mais por desinformação mesmo. O que justifica que alunos pobres e negros vejam as cotas como “discriminação”? Os conservadores geralmente não precisam aprofundar suas análises; eles espalham seus pontos-de-vista em frases de efeito que terminam se tornando senso comum e são facilmente assimiláveis por qualquer segmento, além de, como você falou, possuírem a hegemonia dos meios de comunicação. Isso é importante pra se problematizar a questão da violência simbólica também. Outro dia eu li uma coluna da Danusa Leão, da Folha, em que ela dizia que ficou chato passar férias em NY ou Paris porque até o porteiro do prédio viaja pra esses lugares agora. Essa é a cara dos conservadores que não gostam de programas de transferência de renda (por isso eles usam todos os meios de que dispõem para pôr a sociedade contra isso) e não gostam de ver as coisas dando certo para as camadas mais baixas. Mesmo assim às vezes sai algo importante. Há alguns dias a “Isto é” trouxe uma matéria de capa sobre cotas, mostrando o que deu certo e exemplos de vários estudantes que ascenderam socialmente através delas. Mas são poucas pessoas que entendem e se dão ao trabalho de esclarecer para que servem as cotas, as políticas afirmativas ou que a redução da menoridade não resolverá o problema da criminalidade. Nesse assunto, o sentimento de revolta pessoal termina obliterando a possibilidade de uma visão sociológica, o que implicaria analisar um conjunto de fenômenos interligados, e não o fenômeno da criminalidade isoladamente.

  6. Virgínia Celeste 01/05/2013 / 0:57

    Eu gostaria que houvesse uma oposição crítica à esquerda. Mas o que vejo é um amontoado de discursos classicistas, sexistas e retrógrados. “Mas acredito que a esquerda tenha mais facilidade para auto-crítica do que a direita, além de ser mais propensa a projetos sociais, à inclusão. ” eu não poderia dizer melhor.

    Não quero me alongar, no mais, como sempre, achei seu texto lúcido e inteligente. Obrigada por promover um espaço de discussões saudáveis. Li em um dos comentários que você anda sendo alvo de xingamentos; não se deixar levar por eles só mostra o quão preparado você é.

    abraços

    • Bertone Sousa 01/05/2013 / 1:15

      Oi Virgínia,

      eu que agradeço por tê-la como leitora e por você enriquecer este espaço com preciosas contribuições. Obrigado também pelo apoio, é um forte estímulo a continuar escrevendo. Abraços.

  7. Anônimo 05/05/2013 / 5:18

    Gostei, vô dar um “copyleftada”. Belê? Só uma coisa, esse negócio de ditadura vindoura, que você chamou de teoria da conspiração nos comentários, tem mais a ver com a negação da expressão individual humana do que com o conceito estabelecido de coup d’état. O processo de massificação, urbanização e proletarização da sociedade ocidental nos últimos séculos ainda é a principal mola condutora de tudo que podemos enxergar como esse pós-neoliberalismo que vivenciamos cotidianamente.

    Um grande abraço!

    P.S. – É justamente aí, no pós-neoliberalismo, que se insere o partido dos trabalhadores atual, que alguns ainda insistem em xingar de “vermelho”…

    • Bertone Sousa 05/05/2013 / 11:42

      Olá, pode reproduzir à vontade. Só peço que, caso volte a comentar novamente, entre com seu nome e e-mail verdadeiros, já que não faz parte da política do blog aceitar comentários anônimos. Afinal, não precisamos nos esconder para expressar nossas opiniões se somos livres pra isso. Abraço.

  8. sergio lima 07/05/2013 / 20:43

    Muito bom texto,falou verdades que vejo ha muito tempo,só não tenho a sua capacidade de colocar no papel,valeu.

  9. Antonio Bacellar 20/05/2013 / 23:59

    Parabéns, Sr. Bertone, pelo artigo. Um texto bem-feito, que critica a direita sem ter rabo-preso com algum partido.

    Sucesso no seu blog!

  10. Dantas 01/06/2013 / 0:37

    Bom texto,

    Só teve uma parte que para mim é indigesta:

    “Ou querem a redução da menoridade penal apenas porque pensam em limpeza étnica e social, já que as cadeias brasileiras têm apenas negros e pobres e a tal redução apenas ampliaria esse contingente, deixando as ruas das grandes cidades livres para os ricos e as classes médias – que jamais são punidos por seus crimes – transitarem nelas…”

    Bertone, eu sou um daqueles que defendem a redução da maioridade penal, ao menos, nos casos dos crimes hediondos como estupro e assassinato, não nos crimes contra o patrimônio.
    Mesmo por que aqueles crimes ameaçam a vida e a dignidade humana, os bens mais preciosos que temos.

    Acho que a criminalidade tem um aspecto social, mas também moral, tanto que mesmo jovens tão bem nascidos não são imunes a criminalidade, como aqueles que puseram fogo em um indio ou em mendigos, ou aquele que espancou uma prostituta ate a inconsciência e a amarrou ao seu carrão, sendo ela arrastada pelo asfalto, ou mesmo o caso do adolescente que dopou uma jovem e a estuprou etc.

    Eu penso que as penas tem também um caráter retributivo, afinal não tem sentido um caso que vi no rádio, um homem que teve a esposa estuprada, quando voltava a noite do trabalho, por um menor. Ele esta livre e solto, como se nada tivesse ocorrido, ela vive presa em sua dor e medo. O Estado não fez nada, contra o anginho, mas o esposo também não pode fazer, no final ele viu que vale a pena estuprar mulheres, basta escolher a próxima. Francamente limpeza etnica e social não é o que penso, quando defendo maior rigor no trato destes crimes hediondos.

    • Bertone Sousa 01/06/2013 / 11:50

      Dantas,

      em muitos casos está sim implícito um desejo de limpeza étnica e social entre os que defendem a menoridade penal, já que o rico, independente da idade, não vai pra cadeia. Então a maior parte dos estupradores, frequentadores de cracolândias e outros tipos de delinquentes estão nas favelas, periferias. Por isso não faz sentido reduzir a menoridade penal: primeiro, porque a estrutura presidiária do Brasil não comportaria tantas pessoas. O governo teria que construir muito mais presídios e usaria isso pra elevar a carga de impostos, além do fato de que obras não sairiam do papel e outras seriam superfaturadas, dado o problema endêmico da corrupção no país; segundo, esses menores iriam servir de recrutas para o crime organizado que atua nas cadeias e sairiam de lá piores do que entraram. Para o crime organizado seria um prato cheio, já que quanto mais jovem for o criminoso mais fácil será dobrá-lo; terceiro, o problema de nosso país não é a falta de leis, mas o não cumprimento delas. Então se formos reduzir maioridade penal pra 14 anos, pessoas já podem cometer crimes com 13, ou 12, ou 11. É claro que é muito revoltante você ver menores estuprando e matando pessoas a bel prazer, mas no caso do Brasil a tal redução não resolveria o problema da criminalidade.

      • Dantas 02/06/2013 / 18:38

        Bertone,

        Geralmente minhas posições são mais a esquerda do espectro político e eu não duvido que muitos querem a diminuição da idade penal com fins elitistas, quando sabemos que a maior parte dos crimes são aqueles contra o patrimônio e suas estatísticas geralmente reproduzem as diferenças e mazelas sociais de nosso país.

        Particularmente eu sou a favor de um maior rigor com os crimes contra a vida e a dignidade, como disse, e obviamente que a redução da maioridade penal não vai resolver nada, mas eu acho que deveria haver sim um debate mais profundo do processo penal, sistema penitenciário, polícia etc e eu não seria contrário ao tratamento como adulto dos menores que cometem assassinato ou estupro, independente de sua idade, como ocorrem no direito anglo-saxão. Bertone, nestes casos não estamos falando de simples furto.

        Certa vez vi um jurista comentar que países como o Brasil que saíram de um regime ditatorial geralmente criam uma série de recursos processuais, prazos e demais garantias no processo que muitas vezes estrangulam a Justiça, pois a sua memória dos desmandos ditatoriais é recente. Um exemplo foi as tentativas de emplacar a lei seca. Olha Bertone, a primeira tentativa de redação que falhou estimulou uma série de eventos que me pareceram desrespeito cínico das Leis e do bem-comum sob a proteção do direito de não produzir provas contra si mesmo, em alguns casos seguidos do famigerado: vc sabe com quem ta falando…

        No meu estado teve caso de Juiz e políticos (e familiares destes) sendo pegos e se recusando em tom poderoso de desafio a fazer o teste do bafômetro: eu não estou bêbado, provem que eu estou, o kra dizia com andar trôpego e voz característica de ébrio. O jurista comentou que em nenhuma grande DEMOCRACIA do globo algo deste naipe ocorre, só no Brasil a autoridade policial não pode solicitar testes para comprovar se alguém está bêbado. A segunda redação da lei teve respaldo no entendimento doutrinário dos tribunais superiores e ta emplacando, mas se o entendimento deles fosse mais frouxo ia dar em pizza do mesmo jeito.

        Enfim, não nego a importância de politicas afirmativas e projetos sociais, mas também a repressão ao crime faz parte do processo. As vezes, vejo que muitos tem ojeriza a palavra policia e combate ao crime como se fossem pares do autoritarismo, não vejo as coisas por aí, cada um tem sua função. O que não dá mais é viver nesse clima de impunidade e insegurança, como se fossem coisas normais.

      • Bertone Sousa 02/06/2013 / 19:52

        Dantas,

        só pra esclarecer: não estou dizendo que menores devam ser tratados como anjos nem que não devam ser punidos. Em vários países da Europa a maioridade penal varia entre 10 e 15 anos. Em outros países da América do Sul há países que se atinge aos 16 anos, como é o caso da Argentina. Creio que a comparação com a lei seca não é um bom argumento porque se trata de coisas diferentes. O problema é o sistema prisional brasileiro mesmo que é muito defasado e não proporciona possibilidade de recuperação à maioria dos que entram lá. Mas você colocou bem que a questão precisa ser debatida e repensada em âmbito nacional e o melhor caminho é começar por aí, não pela simples redução, que acarretaria esses problemas que elenquei acima.

        Concordo com você que deveria haver maior rigor. O que eu quis dizer é que, dado o atual estado de coisas, a redução sozinha não resolveria o problema porque é estrutural. Estamos falando do mesmo país que não pune políticos corruptos (e ainda existe a lei de imunidade parlamentar), réus primários não são condenados, indivíduos que cometem determinados homicídios pagam fianças irrisórias, juízes são assassinados por policiais e ricos compram a justiça. É aquela coisa: o Brasil não fez o dever de casa em matéria de segurança pública, nem as leis que já existem são cumpridas com rigor e agora a sociedade paga caro por isso. Por isso também a tomada de qualquer ação nesse sentido só poderá ser resolvida a médio prazo.

  11. Dantas 03/06/2013 / 1:18

    Bertone,

    Com certeza, Não estava criticando suas posições, só queria mostrar meu ponto de vista e que nem todos, que clamam por maior rigor, querem uma faxina étnica e social.

    O que eu tentei mostrar usando o caso da Lei Seca como exemplo é o modo como nosso Ordenamento Jurídico e o Sistema estimula a impunidade, o que é muito discutido por juristas, especialmente, quando fazem estudos de Direito Comparado. Outrossim, o modo como o ECA lida com o menor infrator, a meu ver, estimula a sensação de impunidade, faz parecer que crimes hediondos cometidos por menores são mais toleráveis.

    Quando o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) coloca todos os menores sob o mesmo prisma: um trombadinha e um adolescente estuprador, favorece o segundo, um indivíduo muito mais periculoso a meu ver, que não merece as garantias do primeiro. Certa vez vi um diálogo de jovens do CEDUC e eles pensavam de modo bem calculista: isso é só um ano, é fichinha, aquilo a punição é mais pesada, bom evitar etc.

    Neste ponto, sou a favor sim de reformas e sei que os resultados não são de imediato, mas o quanto antes começarmos melhor.

  12. Senso crítico 14/09/2013 / 4:49

    Bertone, venho desde algum tempo acompanhando seu blog, cujos textos são fascinantes e esclarecedores. Em especial os que dizem respeito ao pseudo filósofo Olavo de Carvalho e toda essa massa reacionária e irracionalista da direita, que é doutrinada por ele. Este homem, além de denotar que nosso país carece de intelectuais sérios e academicamente reconhecidos, é simplesmente uma vergonha extrema para o rol de intelectuais e formadores de opinião brasileiros. Se é que “intelectual” seja algo digno deste senhor. Pois não passa de um hidrofóbico acometido por um suposto problema de ordem mental. É mero exibidor de uma polimatia, uma erudição vazia. Estilo sem substância.

    Acredito que essa massa irracionalista de direita no Brasil, é o retrato de uma educação de base precária, que fora destruída desde os tempos da ditadura militar. É voltada ao consumo e a padrões americanos de sociedade e de vida. Onde a ausência de educação política e de consciência social, são agravantes letais que acarretam em problemas endêmicos. Como a apolitização (por uma reação emocional e absurdamente irracional ao não conseguir um meio termo entre esquerda e direita), um individualismo trasvestido de “racional” (quando na verdade é idealista e irracional) e o próprio analfabetismo político.

    E pelo que li no presente texto. Creio que tens as mesmas visões políticas com relação às minhas: a direita é indefensável. Políticas igualitárias e universais estão próximas da ciência. É como se pudéssemos considerar “científico”, uma política universal, igualitária, inclusiva, racional, abrangente e fraterna, como nos valores do Iluminismo. A direita é impossível de se atrelar a tais valores que sustentam um sistema político científico. Porque é conservadora, obscurantista, retrógrada, fascista, individualista a nível global (o que é logicamente insustentável) e clama por uma liberdade ausente de toda e qualquer responsabilidade ou ética. Como se vê entre uma juventude alienada perceptível no Facebook, adepta de uma ideologia chamada “anarcocapitalismo”.

    Os problemas da esquerda não são menores com relação aos da direita. Pois apesar do progressismo amplamente apregoado, há um irracionalismo tão latente como na direita. É porém, como falei, constituído de uma capa de progressismo que muitas vezes, beira a uma espécie de neo-reacionarismo. Sustado por intelectuais “pós-modernistas” que visam “provocar” os conservadores, sem fornecer soluções políticas igualitárias e que minam os autoritarismos deles. O que contribui apenas para o florescer da massa irracionalista da direita.

    Outro grandíssimo problema da esquerda é o próprio conservadorismo embasado em velhos dogmatismos. É um erro crasso não imaginar que existem conservadores de esquerda por considerar a crença de que a “direita é conservadora e esquerda é sempre progressista”. Aqui, podemos incluir marxistas-leninistas, stalinistas, trotskistas e intelectuais acadêmicos pós-modernos. Através desses dogmáticos, vemos uma repulsa irracional e não-argumentativa, e sim, dialética, aos valores do Iluminismo e da razão. Esses mesmos dogmáticos não acreditam em democracia. Muitas vezes por considerá-las como “burguesa”, sem evidenciar isso. E aí, preferem os governos autocratas de líderes que são vistos como “socialistas”, mas que na verdade, são estatistas ditadores.

    Deixo meus elogios ao ótimo texto e continuarei a acompanhar seu blog. Siga mantendo o ótimo nível dos demais. Fazes um ótimo trabalho!

    Saudações cordiais.

    • Bertone Sousa 15/09/2013 / 18:46

      Senso crítico,

      mas algumas questões precisam ser levadas em conta: a primeira é que Olavo de Carvalho e Reinaldo de Azevedo (juntamente com todos os seus colegas da “Veja”) não representam a totalidade da direita brasileira, apenas sua face mais radical e marcadamente anti-petista e anti-lulista. Juntando a eles pessoas como Demétrio Magnoli, teremos um quadro de agentes formadores de opinião radicalmente contrários a políticas sociais de inclusão porque as consideram (erroneamente) estratégias esquerdistas de perpetuação no poder. Mas a direita brasileira é paupérrima de intelectuais que de fato defendem o fortalecimento da democracia pela redução do abismo econômico secular entre ricos e pobres.

      Outra é a questão do pós-modernismo. O pós-modernismo é mais uma constatação da crise das ciências sociais e da política como lugar privilegiado de ação do que uma proposta mesmo de mudança, justamente porque junto com essa constatação veio o ceticismo com relação a teorias de mudança ou transformação social. Não é por acaso que o pós-modernismo iniciou e se difundiu entre intelectuais de esquerda, na Europa e Estados Unidos. Por isso, fornecer soluções políticas igualitárias não é mais a questão, a principal questão hoje talvez seja promover inclusão social e fortalecer as instituições democráticas. Algo importante que o pós-modernismo fez foi mostrar que as velhas categorias interpretativas da esquerda e da direita ficaram obsoletas. Naturalmente, a forma como esse discurso se apresentou fortaleceu mesmo a direita e as políticas neoliberais em vários países, mas isso se deveu menos por uma intenção desses intelectuais do que pelo definhamento da própria esquerda e das noções de justiça social relacionadas ao Estado de bem-estar social e modelos de centralização e planejamento econômico. Esse é um assunto amplo que mereceria um ou mais artigos, mas em linhas gerais é basicamente isso.

      Obrigado pelo apoio e por acompanhar o blog. Abraços.

  13. Marcus 14/09/2013 / 17:12

    Excelente texto, incrível como a direita busca se sustentar utilizando-se do ad metum para um governo comunista, mas é sempre assim, eles sabem que dificilmente vencerão nas urnas e por isso buscam se impor de modo desonesto, baixo, vendendo sua visão como se fosse uma verdade absoluta salvadora.

  14. Jonatan Freitas 15/09/2013 / 18:22

    Sobre os últimos comentários:

    Não creio que este Blog seja de “anti-direita” apesar de conter textos de esquerda moderada, lamentaria vê-lo se alinhando assim. Vejo o Blog como uma ferramenta de auxílio contra o extremismo político e religioso, tanto da esquerda como o da direita. Não satanizem a direita! O governo brasileiro se firma nas bases da coalizão. Olavo de Carvalho não representa a direita como supostamente afirma.

    Bertone, Parabéns! Depois de um ano sendo sabatinado percebo que foi reconhecido como adversário no hall dos críticos históricos/políticos a saber: a extrema direita, os neo-comunistas e outros desafortunados. Continue centrado.

    • Bertone Sousa 15/09/2013 / 18:51

      Jonatan, de fato “anti-direita” não é, nem vai mesmo se tornar; o “anti-” traz muito a conotação da militância e do fechamento ao diálogo; prefiro a crítica como problematização teórica e colocar a história à frente dos rótulos ideológicos. Meus críticos não entendem isso, mas os assinantes e leitores do blog de um modo geral entendem e pra mim é o que importa.

      • Alan 25/02/2017 / 15:06

        Eu já li uns 32 posts e não percebi nenhuma parcialidade. O Prof. Bertone “acabou” com os idólatras de Marighella, Mao, Guevarra, entre outros “ícones” da esquerda atual. Ele também desmistificou muitas mentiras propagadas pela direita que cobrem de opróbio a própria de direita. Ele “desceu a lenha” no Stalinismo, apresentou provas construtivas em relação ao “direitismo” do Nazismo. Mostrou a relação entre o fascismo e a atual “direita conservadora”. Desmentiu o escritor Stalinista que quis tirar o peso das milhões de mortes provocadas por Stalin durante a URSS. Sim, as vezes sim ele cai em vicissitudes, paradoxos muito complexos para conseguir explicar em um post, mas alguém com o mínimo de habilidade em interpretação vai conseguir ler o que ele quis escrever de fato. Se isso não é ser imparcial eu não sei o que é.

  15. Philipe Antunes 15/10/2013 / 12:21

    Caro Bertone,
    Desde já agradeço pelos seus textos, que já me elucidaram bastante em várias questões importantes, em vários assuntos de meu maior interesse. Neste texto, inclusive, gostei bastante das suas colocações. Contudo, uma coisa me deixa com “a pulga atras da orelha”: se realmente o foro de são paulo é essa ferramenta inofensiva que é, por que há tantos videos e textos com supostas provas de suas ligações com meios escusos, mas não consigo encontrar nenhum texto ou video provando o contrário, que as informações que os ligam a “facções terroristas” são mentirosas, enfim, que as difamações ao encontro bianual são só difamações mesmo? Sinto que essa falta de informações conclusivas só dá mais poder aos difamadores, e é exatamente isso que eles querem.
    No mais, mas uma vez, obrigado pelo blog. Já o mostrei para algumas pessoas, e realmente o modo como você expôs o pensamento paranóico e “nonsense” de Olavo de Carvalho e seus olavettes bate com minha visão do falacioso mentiroso que ele se revelou.

    • Bertone Sousa 15/10/2013 / 21:36

      Philipe,

      esse falatório alarmista que Olavo faz em torno do foro de São Paulo só serve pra arrebanhar militantes para sua causa. Associar o PT ao chavismo e às farcs só faz algum sentido pra conservadores. Curioso é o silêncio escandaloso dele sobre os crimes da CIA, que Terry Eagleton diz que também pode ser considerada uma entidade terrorista e sobre os abusos cometidos pelo exército americano no Oriente Médio. Milhares de crianças iraquianas têm nascido com câncer e outras doenças desde 2003 por causa da guerra e pra essa turma nada disso é digno de qualquer ênfase séria. O homem é monomaníaco, tem uma visão maniqueísta dos eventos, ele quer formar um contraponto com aquele site que nem chega a ser jornalístico e não consegue pensar nada fora desse extremismo ideológico de direita. Esse pessoal nutre um ódio visceral pelo fato de a esquerda estar no poder na América Latina e cria todo esse clima de denuncismo conspiratório pra tentar falar de pretensões ditatoriais do PT. Pura bobagem, o Brasil é uma democracia bem consolidada, com eleições diretas e independência de poderes. A direita não possui expressividade por causa da memória do regime militar, do autoritarismo e por não possuir um projeto de país e de inclusão social. O resto é balela de ressentidos.

      Seja bem-vindo ao blog e obrigado por estar ajudando a divulgar. Abraços.

  16. Marcelo 02/06/2014 / 13:16

    Em quase que a totalidade dos sites blogs e mídias de esquerda existe uma nefasta tendência de chamar a direita de fascista, extremista, etc…
    É fato que a direita no Brasil é pouco articulada politicamente. Um dos motivos é essa constante demonização sobre o que é ser direita. Apesar de ser um conceito pouco representativo ainda vigora fortemente.
    Hoje assumo uma posição política muito mais alinhada com a direita, sem negar aquilo que considero útil na esquerda. Para isso, precisei de algumas leituras para afastar que ser de direita é assumir um pacto com opressores, e ser contra os pobres. Obviamente fui atacado imediatamente a assumir tal posição. Virei coxinha, reaça, burguês opressor, etc… Confesso que por um tempo me machucou, mas hoje não me abalo mais. Parte do jogo, onde os dois lados manipulam, boa parte do povo não tem senso crítico para ir ao fundo em todos os assuntos, é mais fácil ser sedutor e agressivo que profundo.
    Já li vários artigos muito bons em seu site, claramente mas alinhado a esquerda, mas acredito existir o mesmo viés de chamar de extrema direita aquilo que é simplesmente direita ou até centro-direita.
    O mesmo denuncismo que existe contra e “esquerda golpista”, existe contra a “direita golpista” sendo a maioria delas infundadas. Mas algumas acontecem em frente do nosso nariz e não podemos negar.

    E assim vou seguindo na procura de um partido para chamar de meu.

  17. Reginaldo 11/08/2014 / 17:16

    Olá, Bertone, parabéns pelo texto! Não é difícil encontrar os indivíduos que se encaixam nesse esteriótipo de direitista que você descreveu. Na internet, principalmente em comentários no YouTube e no Facebook, eles estão sempre expressando toda sua irracionalidade em poucas linhas.

    O que mais me preocupa é a forma como eles agem, com ausência de, humildade, maturidade e honestidade intelectual. Qualquer indivíduo que pense que está de posse de uma certeza absoluta inquestionável já me preocupa. E é justamente esse o comportamento que se destaca nas exposições que eles fazem. Eu penso que o condicionamento necessário para a filiação do indivíduo a esse tipo de comportamento/ideologia, só é possível pela desvalorização do conhecimento, principalmente da Filosofia que é tão neglicenciada nos colégios pelos alunos, e que é de caráter essencial para esse e tantos outros debates.

    Faço essa afirmação com base na análise que faço dos meus colegas no colégio, é quase unânime a desvalorização da Filosofia como matéria chata e inútil ou coisa pior, mas o engraçado é que os indivíduos que mais negligenciam essa matéria são os que querem abri a boca para debater sobre política em uma aula de História. Negligencia um ano inteiro de Filosofia Política e depois chega ao debate não para questionar, apresentar um argumento ou aprender, mas para dizer sua “verdade”. Verdade aprendida em uma página do Facebook, em um vídeo no YouTube ou apenas a repetição das verdades impostas pelos pais ou ainda um fraco produto oriundo do seu egocentrismo intelectual.

    Isso não aplica-se a todos, mas a uma boa parcela deles.

    O Sr. lembra de mim? Eu mandei um e-mail a pouco tempo sobre ateísmo. Gostei muito da sua resposta, irei comprar, assim que possível, os livros indicados.

    • Bertone de Oliveira Sousa 11/08/2014 / 17:31

      Olá Reginaldo, lembro sim do seu contato e acredito que você pode crescer muito somando aquelas leituras às que você já têm. Obrigado pela contribuição. Abs.

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