Feliciano e o fortalecimento da direita religiosa

cdhmÉ preciso admitir: o que aconteceu com o deputado pastor Marcos Feliciano nas últimas semanas foi uma verdadeira execração pública. Embora ele realmente não seja a pessoa mais apta a presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara (até FHC reconheceu que foi um erro), por outro lado ele não fez nada que pudesse legalmente impedi-lo de estar lá. Investigaram sua vida, reviraram-na do avesso e o que encontraram? Um sorrateiro calote por não ter comparecido a um evento religioso para o qual já tinha confirmado sua presença, um culto religioso em que pede descaradamente doações financeiras aos fiéis (e nisso ele não se diferencia de outros figurões neopentecostais maiores do que ele que fazem coisas piores) e frases soltas no twitter. O problema maior não é o seu passado, mas o fato de a CDHM ter sido criada para atender a determinadas demandas contra as quais Feliciano se opõe frontalmente. Mas também é preciso perceber que ele chegou aí através de uma barganha política entre o governo (que preferiu indicar presidentes para comissões estrategicamente mais importantes) e a base aliada. A situação é delicada porque é uma navalha de dois gumes.

Dizer que os africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé é realmente um pensamento infeliz, mas não implica necessariamente em racismo. Muitos pastores e teólogos protestantes também acreditam que os palestinos descendem de Ismael, filho bastardo de Abraão e por isso estão condenados a ser errantes e viver em pugna com os judeus (filhos legítimos) e não vemos se fazer tanto estardalhaço quanto a isso como com a frase do pastor. As religiões têm sua forma peculiar de interpretar e compreender o mundo. Para a teologia cristã, já nascemos todos amaldiçoados pelo pecado original, que na mitologia bíblica foi cometido por apenas duas pessoas. E isso não significa que o Cristianismo seja preconceituoso em relação à humanidade.

O que aconteceu com Feliciano é que ele entrou de gaiato no navio. Antes de tudo isso começar, ele havia dito que nunca se imaginara presidindo a CDHM, mas por causa da questão dos homossexuais, decidiu aceitar. Mas Feliciano não é como Malafaia, que possui objetivos bem definidos em seus embates com o movimento homossexual, além de ser, até certo ponto, respeitado por eles pela influência que possui. Feliciano é mais fraco, por isso se tornou um alvo fácil. Mas agora, ele e seu partido (que há poucos dias cogitava “renunciá-lo” do cargo) começam a se sentir fortalecidos diante da situação. E o motivo é o crescimento do apoio religioso em torno de sua pessoa, além do fato de as manifestações contra ele terem descarrilado para atitudes grosseiras.

Afora os gritos de racista, homofóbico e fascista pronunciados contra ele, o movimento LGBT e outros manifestantes perderam a oportunidade  de sair da retórica meramente acusatória para promover o debate e o diálogo. Se o pastor diz que a militância homossexual quer apenas privilégios, que são financiados com dinheiro público e eles respondem a isso dia após dia com insultos e agressões à sua pessoa, perdem a razão. Numa democracia não se ganha uma causa no grito, mas pela discussão, pelo consenso, pelo dialogismo entre atores que corporificam diferenciados interesses. É curioso que as organizações evangélicas critiquem os movimentos sociais quando recebem subsídios governamentais, mas elas mesmas não os rejeitam quando têm a oportunidade de também serem beneficiadas. Por outro lado, Feliciano não representa uma ameaça direta às liberdades dos homossexuais.

A bancada evangélica no Congresso não está preocupada com minorias, tampouco com desemprego, saúde ou qualquer outra temática social. Sua razão de existir é por interesses corporativistas das igrejas. A bancada evangélica é o instrumento por meio do qual as lideranças protestantes do Brasil fazem lobby para aquisição de passaportes diplomáticos, isenção de impostos, concessão de emissoras de rádio e TV. Feliciano é uma peça nessa engrenagem mas nem chega perto de ser a principal delas. Agora se colocará na condição de um mártir da causa da família e da moralidade.

Não é possível fazer que todos aceitem com naturalidade o casamento homossexual. E o fato de muitos não o aceitarem com base em princípios religiosos não os torna necessariamente homofóbicos e fascistas. Essas opiniões conflitam e numa democracia é natural que assim seja. Os evangélicos não querem menos privilégios do que os homossexuais. Mas o uso da violência como forma de manifestação, através dos xingamentos na porta de sua igreja ou no Congresso tem sido uma atitude pouco inteligente dos militantes e, pior do que isso, poderá ter efeitos deletérios num futuro próximo. Suas ações poderão servir para que a direita religiosa inflame uma unidade conservadora da sociedade contra o governo e a esquerda, além de fornecer combustível para as teorias mirabolantes de mania de perseguição das igrejas evangélicas. A militância que se volta contra ele está usando a tática errada e agindo contra a pessoa errada.

Falei no início que Feliciano não fez algo que legalmente impossibilitasse sua posse, bem diferente de Renan Calheiros no Senado, por exemplo.  Há muito mais motivos para se protestar contra o fato de Renan estar presidindo o Senado do que com o fato de Feliciano estar presidindo a CDHM. Mas as manifestações contra o primeiro, além de ter sido incomparavelmente mais brandas, também foram mais efêmeras.  O que no início parecia ser apenas manifestações democráticas contra um parlamentar, não demorou a se tornar uma verborragia insultuosa e cansativa. Todo o alarmismo da imprensa e do movimento LGBT contra o deputado não é de todo justificável e só contribui para polarizar o debate. E polariza  porque o movimento LGBT não está vinculado ideologicamente com a esquerda, apenas organicamente e, assim como a bancada evangélica, luta apenas por seus interesses particulares, não raramente se utilizando de uma retórica alarmista.

Enquanto isso, um projeto de lei do deputado João Campos, do PSDB de Goiás, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça concedendo a entidades religiosas o direito de propor a inconstitucionalidade de uma decisão judicial. Na prática, isso implica uma intervenção direta de instituições religiosas na laicidade do Estado. Eis aí uma ação que engrandece a direita religiosa, que há décadas vem se imiscuindo na política brasileira e que pode prejudicar os direitos de variados segmentos da sociedade com ou sem Feliciano na presidência da CDHM. Líderes religiosos como R. R. Soares e Valdemiro Santiago ganharam, entre o final do ano passado e o início deste, passaportes diplomáticos. Outras lideranças católicas também já desfrutaram do privilégio e agora a expressividade numérica dos protestantes em todo o país começar a pesar mais fortemente na balança em que seus líderes ganham e a laicidade do Estado perde. Feliciano e a direita começam a se fortalecer, enquanto o PT, o restante da esquerda e o governo Dilma certamente terão suas imagens arranhadas nas eleições do próximo ano.

Nossa sociedade tem entrado num caminho perigoso de fortalecimento de extremismos religiosos e movimentos irrelevantes, além do ambientalismo que consome recursos mas não propõe nada realmente concreto, afinal, quem leva a sério a existência de um “Partido Verde”? Quem acredita que um Sarney Filho esteja realmente preocupado com desmatamento da Amazônia ou qualquer outra pauta ambiental? No plano social, estamos nos perdendo em futilidades, quando não se fala mais em reformas política, tributária, problemas educacionais. A direita sabe que não derrotará Dilma no voto e vai pescar dessa situação elementos para lançar mão da mesma estratégia retrógrada e rasteira que usou em 2010: alinhar-se ao fundamentalismo religioso para atacá-la por todos os lados. Contra isso, é preciso que os movimentos sociais e a esquerda como um todo deixem de lado disputas provincianas e foquem num projeto de país que há algum tempo vem se perdendo num lamaçal de insanidades extremistas.

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42 comentários sobre “Feliciano e o fortalecimento da direita religiosa

  1. strodrigo 05/04/2013 / 9:51

    É uma pena que a causa das minorias sexuais tenha caído nas mãos de pessoas lamentáveis como Toni Reis. Assim como a militância estudantil de esquerda esvaziou de significado a palavra fascista, usando como um mero xingamento genérico contra pessoas que dialogam com a ideologia de direita, este grupo está esvaziando a palavra “homofóbico”, usando pessoas como massa de manobra pra fazer mais barulho do que protesto.

    A priori mesmo concordando com sua posição, eu enxergava nessa “execração” de forma positiva. Vejo como um dos principais problemas da nossa democracia a falta de engajamento político de nosso povo, e essa é uma causa de simples entendimento, justamente por ser uma questão menor. Eu enxergava nessa mobilização, uma oportunidade para o nosso povo aprender que engajamento político faz diferença e citando Thomas Jefferson “Quando o povo teme o ‘governo’, temos tirania. Quando o ‘governo’ teme o povo, temos democracia.”. Eu acreditava ( e ainda acredito um pouco). Que uma vitória nesse episódio, serviria de combustível para casos cada vez mais complexos, de Renan Calheiros a reforma tributária.

    Mas como você já colocou previamente, essa luta tem se limitado a ofensa e ao ataque pessoal contra pessoa do Feliciano, se perdendo totalmente o foco do núcleo da questão…

    Uma pena !

    • Bertone Sousa 05/04/2013 / 12:14

      Rodrigo,

      eu também vi no início uma possibilidade de mudança na postura das pessoas com relação ao engajamento, mas a coisa ganhou tonalidades mais pessoais do que propriamente políticas. Tua colocação ficou perfeita, a esquerda e outros movimentos realmente transformaram os adjetivos “fascista” e “homofóbico” em mantras para desqualificar oponentes, estratégia análoga que a direita também utiliza com seus adversários. No frigir dos ovos, isso esvazia o debate e empobrece a democracia.

  2. Munhoz 05/04/2013 / 19:55

    Ótimo texto, Bertone. Um dos melhores que li por aqui. Vejo a questão do Marco Feliciano somente como a ponta do iceberg de uma cultura que é, no mínimo, preconceituosa com a homossexualidade. Por outro lado, achei interessante a discussão eclodida depois que o pastor assumiu a liderança da Comissão. Não só pelos movimentos sociais de esquerda e intelectuais, mas também a exposição do posicionamento de grande parte da população contra a prática homossexual. Discutir uma ideia de “comunidade” (o que é “comum”) é bastante importante numa época de desencatamento e consenso por desinteresse político. Afinal, penso que democracia seja isso.

    • Bertone Sousa 06/04/2013 / 0:59

      Munhoz, obrigado. Pois é, esses movimentos religiosos estão encampando uma onda conservadora, agora contra os homossexuais, antes contra os cultos africanos, com a diferença de que agora há uma politização desses posicionamentos. Mesmo que isso seja parte da democracia, receio que o debate fique engessado em acusações e teorias conspiratórias. Valeu pelo comentário. Abraço.

  3. Mira Santini 06/04/2013 / 23:15

    Só sei dizer que o Marco Feliciano saiu lucrando com o imbróglio,pois ele nunca foi unanimidade no meio evangélico onde era famoso por falar muita besteira. Agora, está encarnando o papel de “vitima” e muitos que não o suportavam, passaram a apoia-lo. Só sei que o estrago está feito.

    • Bertone Sousa 07/04/2013 / 11:57

      Mira, é verdade. Como teólogo ele é fraco e vai continuar falando besteria, mas em se tratando de eleições isso nem vai importar, já que se prevê que ele vai tirar uma votação bem maior no ano que vem, como aconteceu com Bolsonaro antes, que ainda elegeu os filhos pra Assembleia legislativa do RJ.

  4. Leonardo Carvalho 07/04/2013 / 12:08

    Bertone, Excelente blog!

    É sempre muito bom descobrir um blog tão lúcido, inteligente e crítico como este.
    Vou continuar acompanhando suas postagens e indicar o blog para amigos.

    Sobre a postagem, acredito que esta onda ultra-conservadora cristã está sendo despertada para perseguir o direito das minorias pelos pastores e líderes dessas igrejas neo-pentecostais. Estes líderes, por estarem segundo eles mesmos representando Deus, conseguem manipular a opinião de um grande número de pessoas.

    E porque fazem isso?

    Porque a atividade que lhes dá mais lucro é o dízimo que milhares de fiéis que frequentam suas igrejas são coagidos a pagar sob pena de não serem ouvidos por Deus ou de serem jogados ao inferno pela eternidade. Ora, quando a sociedade perceber que o casamento homossexual, depois de legalizado, não era aquele “fim de mundo” pregado pelos seus pastores, muitas pessoas irão começar a questionar cada vez mais, as pregações destes líderes e escritos bíblicos questionáveis, isto porque a mesma bíblia que diz que a homossexualidade é abominável (passagem que faz parte de Código Judaico de Leis, código este criticado inclusive por Jesus Cristo) tb diz que escravizar pessoas é correto (Levítico 25:44-46), que comer carne de porco é impuro (Leviticus 11:7-8, Deuteronomio 14:8), que o homem é glória de Deus, mas a mulher é glória do homem (I Coríntios 11:7) e diversas outras partes da bíblia que contém “ensinamentos” que vão contra o que a própria igreja prega.

    Enfim, seria talvez um golpe final na ignorância e no obscurantismo intelectual que existe neste mundo deste o começo da civilização humana.

    Termino por citar uma frase de Bertrand Russel, do livro No que acredito:

    “A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.”

    Uma Boa Semana!

    • Bertone Sousa 07/04/2013 / 12:36

      Leonardo,

      encontrar o apoio dos leitores é algo que motiva a continuar. Seja bem-vindo ao espaço e de já agradeço pela ajuda na divulgação.

  5. Jonatan 07/04/2013 / 17:54

    Nunca concordei em citar textos bíblicos em Blogs, mesmos nos evangélicos, para mim soa como um sacrilégio. O que pode ocorrer é que quando cite um texto bíblico atraia a simpatia dos evangélicos da mesma forma como citar um texto do alcorão atraia a simpatia dos muçulmanos, isso politiza.
    No texto do Leonardo então devo interpretar que Deus é homofóbico e machista ?

  6. Mira Santini 07/04/2013 / 19:52

    Eu só gostaria de saber do leitor Leonardo Carvalho se ele já teve o trabalho de ler a Bíblia toda.

  7. Virgínia Celeste 08/04/2013 / 0:10

    Sabe qual o sentimento que me fica? que pessoas não podem se unir que vira efeito manada… explico: a infelicidade das posturas do Marcos Feliciano é latente e temos que agir. Então aparecem líderes que unem pessoas em torno de um bom propósito (até com boas intenções, quem sou eu para julgar intenções), mas parece que abamos repetindo o erro do outro! a discussão que deveria ser levada com inteligência – ensinando aos marcos felicianos como é uma discussão inteligente – desce ao nível dele… e acaba fazendo uma propaganda ao avesso!

    Mas ainda prefiro essa desinteligência dos líderes ao silêncio.

    Quanto ao deus bíblico ser machista e homofóbico, bem, isso é uma leitura descontextualizada. Eu tenho problemas com leituras parciais da bíblia: pastores evangélicos a leem sem discutir a produção que lhe deu origem para podar o direito alheio… e só citam essa parte… esquecendo-se daquele lindo trecho, onde se lê “vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres”. Infelizmente tenho visto em sites e discussões entre ateus a mesma descontextualização. Triste.

    Quanto a essa postura anêmica de Dilma diante do que está acontecendo por questões eleitoreiras… só posso dizer uma coisa “nada é tão tiririca que não possa se tornar feliciano”.

  8. strodrigo 08/04/2013 / 8:52

    Virgínia, esse é sem dúvida o meu sentimento. Prefiro uma desinteligência engajada a uma inteligência silenciosa.

    Acho que a questão bíblica foge um pouco a discussão, mas vou comentar porque considero pertinente. Não sei se você é religiosa ou não, mas tento ser ao máximo respeitoso em assuntos teológicos mesmo sendo ateu( só tendo a perder um pouco a paciência quando entre no campo da ciência e dos fatos. Falar de criacionismo já é demais !). Mas sempre me confundo com duas posições que considero contraditórias :
    – A base da moralidade ocidental é judaico-cristã
    – Bíblia só é homofóbica/racista/misógina quando analisada fora de contexto.

    Ora se nossa moralidade é derivada da moralidade cristã, e nós produzimos sociedades misóginas, racistas e homofóbicas, como a bíblia não teria nenhuma parcela de “culpa” na nossa maneira de enxergar as questões “morais” ?

    Não consigo conceber nenhuma leitura imparcial, não só da bíblia mas como a de qualquer texto. A única maneira minimamente imparcial de ler um texto que eu consigo imaginar, é a leitura direta e literal, e essa não intercede muito a favor da bíblia.

    Eu não acho que a Bíblia tenha “culpa” sobre a nossa maneira de pensar, eu acho que a Bíblia reflete a moral da época. Tenho lido alguns estudos sobre como a moral floresce numa comunidade ( o que se descobriu nessa década é que diversos outras comunidades animais também tem suas formas de moral) , e percebo que ela é muito mais produto do superego do que de intervenções externas ( que influenciam é claro, mas não são a fonte), um exemplo que podemos citar é a sociedade Japonesa. E é por isso mesmo que conforme a sociedade vai mudando, nossas concepções do que é Deus e como ele pensa, e por consequência, novas interpretações da Bíblia vão surgindo, gerando concepções ultra sofisticadas. Logo, essas discussões sobre o pentateuco, são de fato infantis, pois a fé não se baseia exatamente na lógica ou na consistência das alegações bíblicas. Mas de qualquer forma o meu ponto, é que uma interpretação imparcial da bíblia senão impossível, beira a algo próximo.

    • Bertone Sousa 08/04/2013 / 16:31

      Rodrigo,

      Suas questões estão desfocadas porque cometem um erro histórico chamado anacronismo. Também não há leitura imparcial da Bíblia ou de qualquer outro livro. Vejo que nosso debate anterior sobre religião e moralidade não te acrescentou nada. Mas como eu disse, sem leituras não é possível avançar no assunto e fica-se andando em círculos. É a segunda vez que você levanta o assunto e não há base teórica que sustente isso. Leva-se anos pra compreender essas questões e sair do senso comum.

    • Virgínia Celeste 08/04/2013 / 16:51

      Eu sou ateia.

      Nossa moralidade é sim, advinda do cristianismo, você está certíssimo… e também está certo de que não há leitura imparcial da Bíblia ou de texto qualquer…

      O ponto que eu quis demonstrar e que talvez não tenha ficado claro é: se não tínhamos o conceito de mulher, gay, Estado, escravo, liberdade, dentre tantos outros, não podemos taxar, a meu ver, a Bíblia PER SI como machista ou homofóbica ou qualquer outra coisa… Esses signos tinham outros significados culturais… Se a Bíblia em alguns trechos afirma que um homem não pode se deitar com outro tem muito mais a ver com a noção de propriedade do que de “pecado”, não concorda?

      Esses preconceitos estão na LEITURA de algumas pessoas que não acompanharam ideologicamente essas mudanças significativas (no sentido de mudança de SIGNOS), as quais você mesmo cita e nisso, vejo, que concordamos. A concepção de Deus, de mulher, de homem, enfim, mudou… e alguns seguem lendo, contestado e pregando a Bíblia essa percepção de mudança.

      Querer que eu seja inferior a meu marido, como uma senhora venho pregar dia desses, é machismo. Mas à época que em foi escrita a Bíblia o era? posso estar enganada, mas creio que não.

      • Bertone Sousa 08/04/2013 / 17:18

        Virgínia,

        lendo seu comentário lembrei de uma leitura que fiz há alguns anos, “Deus: uma biografia” de Jack Miles. Não sei se você conhece, é uma análise do Antigo Testamento em que o autor analisa Deus como personagem literário, mostrando os desenvolvimentos de sua personalidade nas diferentes narrativas que compõem o A.T.

      • strodrigo 09/04/2013 / 10:09

        Bertone,
        Sinceramente não vejo anacronismo, primeiro por que não estou escrevendo nenhum artigo em história ou desenvolvendo um trabalho acadêmico, segundo porque não fiz nenhum juízo de valor, em relação a moralidade da bíblia usando qualquer parâmetro. Também não vejo o sentido em “invocar” bases teóricas, se isso é apenas um debate informal pela internet. É a minha opinião, e acho que em nenhum momento tentei fazer parecer que era algo além disso, Como indivíduos críticos e pensantes, acho perfeitamente possível construirmos um diálogo apenas “trocando” opiniões, respeitando sempre a posição do outro.

        Virgínia,
        No primeiro ponto, eu discordo, do implicação última do termo “advinda do cristianismo”, pois o que tentei argumentar é que nossa moralidade é ocidental/européia ,herança de uma sociedade que sofreu (e ainda sofre) fortes influências do cristianismo, o que é um pouco diferente. Penso que é diferente pois assumir que a moralidade é ” advinda do cristianismo”, é equivalente a dizer que ela foi formulada e concebida pelas doutrinas da religião, enquanto penso que a moralidade é uma construção quase “orgânica” concebida pelo grupo. Talvez eu deveria ter desenvolvido melhor o exemplo da sociedade japonesa ! A sociedade japonesa apesar de ter sido fortemente influenciada pelo xintoísmo e budismo ( ambas, religiões que não tem nenhuma instrução clara quanto a posição da mulher na sociedade) ainda sim, a mulher foi imposta a uma posição de total subordinação até muito pouco tempo.

        Concordo sim, que não faz sentido em falar em racismo e machismo quando a mulher e os gentios escravizados eram genuinamente encarados como propriedade em períodos bíblicos,eles eram literalmente entendidos como “menos gente”. Porém não podemos ser cínicos em relação a realidade. Nem mesmo o mais cuidadoso dos teólogos cristãos exitaria em dizer que a bíblia é e sempre será a melhor fonte de consulta em questões de moralidade. E embora nos campos acadêmicos, as interpretações e discursos usem artifícios filosóficos sofisticados, na prática e no dia o dia das congregações, o discurso é bem mais próximo do discurso praticado pelo Feliciano. E eu posso afirmar isso com toda a segurança, por que vivi quase 17 anos frequentando igrejas evangélicas e foi me aprofundando na leitura da bíblia que me afastei da fé.

        Bertone sempre traz de volta a discussão para Weber, e suas concepções da religião, para defender a ideia de que a religião não pode ser “arrancada” das pessoas. Eu não poderia concordar mais ! Até por que as experiências, a sensações de comunhão e orientação fornecidas pelas religiões, não estão presentes em outras instituições de massa e essas experiências são demandas da fragilidade humana.

        Porém, o obscurantismo, o anacronismo e a má fé que tomaram conta e fazem parte de muitas religiões, devem sim (pelo menos na minha opinião), serem incessantemente confrontados pela opinião pública e combatidos através da difusão de informação, pois elas são fruto da falta de acesso a educação e não da fé.

      • Bertone Sousa 09/04/2013 / 18:38

        Rodrigo, em muitos casos uma opinião não deixa de estar errada por ser opinião, e esse é o seu caso. Nos comentários do artigo “Por que não é possível acabar com a religião?” demonstrei o erro dessa argumentação e o Weber foi um dos autores que indiquei também porque ele trabalha com religiões comparadas e inclusive desmente isso que você falou sobre o Japão e o Xintoísmo. Não se trata de fazer “desenvolvimento acadêmico”, mas se eu ver colocações históricas erradas aqui, é lógico que vou apontar os equívocos, até porque isso também faz parte do debate. Eu quis dizer que isso que você falou não tem base histórica. Seria interessante que você pelo menos buscasse aquelas leituras que indiquei pra tentar articular um ponto de discussão fora do senso comum que você desenvolveu com base em interpretações equivocadas de outras leituras (como o artigo daquele link que você enviou também nos comentários daquela postagem).

        Anacronismo é emitir juízos de valor com relação a sociedades e eventos do passado tomando por base conceitos e visões de mundo de outra época. Conceitos como homossexualismo, homofobia, misoginia não se aplicam à Antiguidade. A Bíblia passou por diferentes leituras ao longo do tempo e isso não é diferente em nossa época. Ali há um conjunto de escritos literários que refletem a visão de mundo de uma sociedade em diferentes fases de sua história e só se pode compreendê-los adequadamente analisando as motivações dos indivíduos que escreveram esses livros e a consciência epocal de sua cultura nessas fases. Que a moralidade ocidental está fundamentada na cosmovisão judaico-cristã é ponto indiscutível na historiografia. Mas muita gente que se declara ateia na internet não compreende essas coisas e fala bobagens a granel por aí. É lógico que é importante construir um diálogo trocando opiniões e não creio estar sendo desrespeitoso se argumento no sentido de demonstrar o equívoco de determinados argumentos.

        Sobre seu penúltimo parágrafo, você não vai “arrancar” a religião das pessoas sem provocar genocídios e a história recente (repito, está te faltando leitura histórica) está cheia de exemplos disso. Concordo que o esclarecimento é importante, mas a militância antirreligiosa muitas vezes não é a melhor alternativa pra isso, porque tende a ignorar e desdenhar contribuições importantes que as religiões deram e dão enquanto sistemas culturais. Esse tipo de militância está fora de moda.

  9. Leonardo Carvalho 08/04/2013 / 14:04

    A minha intenção ao citar os trechos bíblicos era para mostrar que a mesma foi usada no passado para legitimar a perseguição religiosa, o machismo, a escravidão, etc…

    Jonatan, está correto. Se formos nos basear na bíblia para criar a imagem de Deus, sim. Ele é machista, preconceituoso, injusto, contraditório e burro. Por isso citei os trechos, para mostrar como a bíblia é um livro que não possui sentido algum pois contradiz a si mesma. Se engana quem pensa que a bíblia é a palavra de Deus. Ela nasceu de uma reunião que julgou quais textos e quais partes destes textos iriam compô-la. Sem contar as inúmeras traduções que fizeram-na perder o sentido original (por exemplo, a interpretação equivocada do trecho bíblico que diz que Sodoma e Gomorra foi destruída por sua população ser marjoritariamente homossexual ou promíscua, segundo pesquisadores europeus a cidade foi “destruída por Deus” pois seus moradores não eram hospitaleiros o que ia contra uma regra essencial do código moral da época).

    Virgínia Celeste, creio que não entendeste o meu propósito. Quando cito passagens bíblicas como argumento para defender o meu ponto de vista (de que a homofobia, assim como a escravidão ou o machismo foram apoiados com base nos textos ditos “sagrados”) é para mostrar que posso usar o mesmo livro utilizado por estes pastores fundamentalistas e contrários à evolução direitos humanos, tão nonsense este livro é.

    Citar trechos bíblicos para me posicionar contrariamente a eles é mais que uma diversão. Não preciso nem me dar ao trabalho em criar um argumento em bases racionais. rs

    Resumindo: quando uso a bíblia para atacar o argumento de pastores homofóbicos, racistas, machistas etc é para mostrar que esta é tão irracional e absurda que não deve jamais ser usada para justificar qualquer tipo de ação social.

    Na vida privada, você pode usá-la para o que quiser. Mas no âmbito públicos isto seria no mínimo de um autoritarismo fascista.

    Para terminar um trecho de Karl Marx:

    ” A religião é o ópio do povo”.

    • Virgínia Celeste 08/04/2013 / 17:18

      Leonardo,

      Jonatan fez uma pergunta sobre o seu texto “No texto do Leonardo então devo interpretar que Deus é homofóbico e machista ?” e eu tentei responder sob meu ponto de vista.

      Meu qi 130 e minhas leituras de Marx desde os 13 anos, crescendo em meio a debates políticos de esquerda nos anos 80 na minha casa,filha de sindicalista dos anos 60, me fazem sim compreender você perfeitamente… tudo que você explicitou aí foi o que eu entendi.

      Mas não concordo.

      Concordo e muito com sua luta, que é a minha também: esclarecer pessoas e tentar que elas vejam o que existe por trás dos textos: a ideologia! (olha que coisa: sou professora de análise do discurso, curioso, não?). Tentar mostrar que pessoas como os felicianos da vida (ou melhor, quem está por trás dele… para mim, ele é só um ignorante-testa-de-ferro) usam a fé ingenua e/ou ignorante dos demais para manter status de poder… acho que nisso concordamos não?

      O que discordo é o método. Não gosto de usar as armas do opressor. Se o opressor ERRA ao ler sem contexto, por que iria eu errar também? O Deus pregado por Feliciano é machista? é. O Deus que algumas freiras pregam nas campanhas “pelo direito de decidir” é feminista? é. E aí, como fica?

      O que desfaz as contradições é, justamente, a contextualização história, ideológica, cultural etc etc etc.

      Se temos que lutar por um estado laico (eu preferiria um estado ateu, mas o estado não é meu, né?) temos, na minha concepção, demonstrar que a FÉ não pode reger LEIS, porque estamos num ponto em que boa parte da população entende que a heterogeneidade de pensamentos e comportamentos deve se respeitada e assegurada pelo Estado.

      mas questionar a lógica da fé dos outros? colocar explicação científica na Bíblia? não sei se vai levar a algum lugar não. Se levasse, o Século XIX já teria resolvido alguns problemas.

      • Leonardo Carvalho 08/04/2013 / 18:08

        Virgínia, mas é justamente esse ‘um dos’ objetivos deste método: escancarar o erro de se ler a bíblia fora de contexto.

        Veja bem sobre quais assuntos os trechos citados abordam: escravidão, direito da mulher, direito do homem à vida, dentre outros. Todos estes assuntos já estão superados, e todos concordam, por exemplo, que poder comprar escravos e escravizar um ser humano é algo inaceitável; que apedrejar uma mulher caso esta não se case virgem seria cometer um crime brutal.

        Logo, verão que também estão cometendo o erro de ler a bíblia fora de contexto quando, por exemplo, se posicionam ferozmente contra as demandas de setores marginalizados pela legislação como o são os homossexuais. Portanto não cometi “o mesmo erro do opressor”.

        Talvez eu não tenha deixado claro essa minha crítica, mas foi apenas uma de várias que deixei de maneira implícita.

  10. Bertone Sousa 08/04/2013 / 17:11

    Oi Virginia,

    concordo com você sobre a questão da leitura descontextualizada da Bíblia que esses movimentos fazem. A questão da desinteligência dos líderes é preocupante. É verdade que o silêncio não é uma boa alternativa, mas os erros dos opositores estão produzindo o efeito contrário do que pretendiam e suas relapsias elevando o pastor como um líder religioso que talvez ele nunca tenha sonhado se tornar. Diante disso, seria importante que eles repensassem suas estratégias e até mesmo suas pretensões.

  11. Virgínia Celeste 08/04/2013 / 17:22

    Sim, por isso gostei do seu texto, é uma crítica super construtiva a esses movimentos.

  12. Bruno Ribeirk 08/04/2013 / 19:49

    Peraí, Bertone. No final do texto você disse que a ESQUERDA deve se focar num projeto de país? Como assim? Nem esquerda nem direita devem dominar um país. Ambos os lados devem ser favorecidos em uma política.

    • Bertone Sousa 08/04/2013 / 20:02

      Bruno, dominar pode ter vários sentidos e numa democracia está relacionado a manter-se no poder usando os meios legais que ela oferece. Não é excluir ou banir o outro lado, mas apresentar um modelo de governo mais eficaz. Nesse sentido a esquerda está no poder há tanto tempo porque teve um projeto mais eficiente (embora longe do ideal) do que a direita. A esquerda focou seu projeto em manter a estabilidade da economia frente à crise internacional, gerar empregos e promover inclusão social. Nesses aspectos teve êxito; se perder o foco, perde o apoio dos eleitores.

      • Bruno Ribeirk 08/04/2013 / 20:13

        Principalmente porque a esquerda esqueceu as retóricas mercadológica e focou no domínio da cultura. A direita não consegue se organizar politicamente. Eu acho que sempre deve haver alternâncias no poder, se não acaba virando quase ditadura. Peguemos o exemplo da Suécia. O Partido Social Democrata está lá há tanto tempo que não houve novos estímulos, e o país decai como nunca antes do ponto de vista econômico.

      • Bertone Sousa 08/04/2013 / 20:21

        Bruno, que “retórica mercadológica”? A esquerda não suprimiu o mercado nem a concorrência, nem promoveu estatizações forçadas. A alternância de poder realmente é importante, mas a direita há mais de dez anos não apresenta um projeto de governo convincente, por isso vem sendo sucessivamente derrotada. Essa coisa de ditadura não se aplica ao Brasil, muito menos à Suécia. Por que o partido social democrata ficou tanto tempo no poder num país democrático? A Suécia passa por um desgaste econômico porque a Europa como um todo sofre com a crise que não iniciou lá. Se não fosse a social democracia, o nível da qualidade de vida estaria muito inferior nesses países.

  13. Bruno Ribeirk 08/04/2013 / 20:43

    Sugiro a leitura de três artigos: “Hayek e Keynes sobre o socialismo, os graves erros de Keynes e o problema das universidades”, “Fatos vs mitos sobre o sistema de saúde sueco: o direito de esperar” e “Quatro imagens mentais para esquecer a teoria de Keynes”

    • Bertone Sousa 09/04/2013 / 0:24

      Bruno, vejo que você não entendeu meu comentário, que não foi sobre Keynes e Hayek. Mas sugiro que leia o próprio Keynes e tente compreender a importância de seu pensamento para o contexto em que foi produzido. Além disso, também sugiro os artigos: “O declínio do Welfare State e a emergência do Estado prisional”, “Welfare State e desenvolvimento” e “A Social democracia tem futuro?”.

      • Bruno Ribeirk 09/04/2013 / 19:02

        Não entendi, Bertone. O site que eu linkei é libertário não apenas na economia, mas também na sociedade, sendo a favor da legalização do aborto, das drogas e do casamento homoafetivo. Por favor, não nos confunda com a direita conservadora.

      • Bertone Sousa 09/04/2013 / 19:10

        Bruno, essa defesa intransigente de algumas pessoas pela não intervenção do Estado não me cheira bem, até porque o liberalismo não suprime o Estado, apenas o torna omisso para questões sociais que não poderão se ajustar apenas com a garantia da livre concorrência e da “mão invisível”. Reconheço que o keynesianismo tem suas lacunas, nenhum modelo econômico é completo mas foi graças a ele que os Estados Unidos se recuperaram mais rapidamente da crise. Provavelmente, se tivesse dado tempo de os países europeus terem feito o mesmo, o fascismo talvez não tivesse ganho toda a projeção que ganhou.

  14. Jonatan 09/04/2013 / 19:08

    Ao questionar o Leonardo em seu texto cutuquei um formigueiro! Mas intenção era essa, causar reflexão.
    Não concordo com o leitor Leonardo em sua militância ateísta, esperava de um ateu mais neutralidade, combater a religião torna o ateísmo igual a religião, um culto (já comentei isso em outra coluna do professor Bertone). Os demais leitores argumentaram utilizando-se de outros meios menos incisivos.

    ” Jonatan, está correto. Se formos nos basear na bíblia para criar a imagem de Deus, sim. Ele é machista, preconceituoso, injusto, contraditório e burro.” Nunca afirmei isso, apenas questionei, neste Blog não circulam apenas ateus, isto foi ofensivo.

    • Bertone Sousa 09/04/2013 / 19:22

      Jonatan,

      a resposta do Leonardo foi mesmo grosseira; não respondi porque a Virgínia já o fez muito bem. Esse tipo de postura é o que eu chamo de “infância de ateísmo”: aquela fase em que as pessoas querem falar a todo tempo que são ateias e ofendem a religião dos outros. Para alguns é uma fase que passa, mas pra outros dura a vida inteira. Há uma galera jovem na internet que acha o máximo agir assim. Não deixo fazerem isso aqui; o dele ficou por não ter ofendido diretamente a quem questionou, mas no próximo vou advertir.

  15. Leonardo Carvalho 09/04/2013 / 23:00

    A discussão neste espaço não é sobre minha vida pessoal. Não sou ateu. Também não me considero cristão. Mas para esclarecer: tenhu a minha própria visão de Deus e de sua relação com o mundo.

    Por exemplo, na minha opinião a maior mensagem que Jesus Cristo deixou para a humanidade é: tenha amor ao próximo e seja politizado, pois esta é a melhor maneira de vc ajudar o próximo. É só lembrarmos a passagem em que Jesus Cristo entra num templo lotado de negociantes e faz um grande protesto contrario a estes chegando inclusive a atentar contra o patrimônio privado de alguns destes que estavam presentes. Cristo sempre causou grande desconforto nos políticos por apresentar uma visão liberal, progressista e igualitária.

    O que sou contra é a religião e a manipulação por ela empregada. Desde sempre ela foi usada politicamente para preservar o status quo e para perseguir setores da sociedade que não compartilhavam de seus mesmos ideais, interpretando a bíblia a seu modo e negando o caráter temporal da mesma. O trecho que supostamente “condena” a homossexualidade faz parte de um Código de Leis de origem judaica que incita inclusive o apedrejamento de mulheres que não se casam virgem, entre outros absurdos.
    Hoje em dia a religião é usada para fins puramente capitalistas, com os grandes templos funcionando segundo uma lógica mercadológica.

    Não acredito que eu tenha sido grosseiro. Não ofendi ninguém em meus comentários. E minha intenção não era essa, pois acredito que todas as opiniões têm de ser respeitadas. É essa a visão que tenho sobre o assunto, e da maioria das pessoas que possuem uma visão crítica do mundo. Não posso me permitir se preocupar em não parecer grosseiro ao tentar expor minhas idéias porque acredito que isso leva à mediocridade. Não sou um homem cordial.

    E não acho honesto postar um comentário falando que tal usuário fez um comentário grosseiro sem ao menos tentar defender uma posição contrária ao comentário utilizando argumentos consistentes.

    Debate é para isso: provocar….como alguns mesmos disseram aí em cima

    • Bertone Sousa 10/04/2013 / 0:51

      Leonardo,

      opiniões são bem-vindas desde que não sejam ofensivas. Dizer que o Deus do Antigo Testamento é “burro” é ofensivo, e eu diria até que é desnecessário. Você pode fazer críticas à forma como a concepção de Deus foi tecida no A.T sem necessariamente usar termos ofensivos. Se você não se considera um homem cordial é importante que aprenda a ser para debater neste espaço. Provocações não precisam incluir ofensivas a objetos de fé das pessoas. É importante saber divergir sem insultar. Você pode também não ser grosseiro sem ser medíocre. Não falo isso como “lição de moral” mas apenas pra tentar te mostrar que tentamos construir esse espaço de discussão com base no respeito à diferença. Você iniciou elogiando o blog pela lucidez e espero que possa nos ajudar a manter isso.

  16. Plábio Desidério 10/04/2013 / 11:09

    Olá Bertone, estou de volta. Então pertinente debate. A preocupação com o deputado Marcos Feliciano é necessário, mas acredito que está superestimada. Eu mesmo admito que exagerei no “compartilhamento” de repulsas à ele nas mídias sociais. Defendo que ela não é o mais indicado para ocupar um cargo de relevância, principalmente quando debates sobre o direitos das minorias estão na agenda política e da sociedade civil. Entretanto estamos de certa forma fornecendo munição ao adversário. Como a mídia é a nova Àgora, quando mais exposto mais ele se capitaliza em seguidores e acumula capital político para futuras candidaturas. Eu vejo mais “perigoso” é a proposta do deputado João Campos, pois não só fere o Estado Laico, como abre pressupostos perigosos para o futuro. O “sonho” real da direita cristã, nesse caso essa bancada evangélica e de seus seguidores é assumir o controle do público para atingir seus interesses. O receio é que a reitoria de uma universidade possa ser ocupada apenas por um cristão, isto é, a religião passa a ser “o caminho” para o serviço público. Isso é extremamente perigoso…

    • Bertone Sousa 11/04/2013 / 11:12

      E aí Plábio, bem-vindo de volta. Então, concordo com você que estão dando pouca ênfase ao projeto de João Campos, que representa um problema maior do que o Feliciano. Agora o PSC cogita lançar também candidato próprio à presidência. Até aí tudo bem, mas se o foco ficar apenas na discussão religiosa como em 2010 significa que realmente entramos num caminho perigoso. O debate sobre as minorias é importante, mas o que percebo é que a agressividade de uma parte da militância homossexual vai terminar sendo prejudicial tanto a eles quanto ao restante da sociedade. De certa forma, o PT também tem uma responsabilidade por essa situação, não é à toa que o governo não se manifesta. Foi um conjunto de decisões erradas que podem acarretar consequências indesejadas. E a questão da mídia que você tocou também é interessante.

  17. Jonatan 10/04/2013 / 19:34

    Leonardo,

    Respeito o seu ponto de vista acerca das religiões, eu mesmo já citei neste Blog sobre a religião estar corrompida. O que imagino é que você se deixou levar pelo debate acalorado.

    Bertone,

    Grato pela moderação. Esta coluna está sensacional!

  18. Leonardo Carvalho 11/04/2013 / 15:30

    Bertone, o livro que você citou “Deus: uma biografia” de Jack Miles parece ser muito interessante. Pretendo lê-lo brevemente. Acho muito legal e importante você dar sugestões literárias pois elas nos enriquecem bastante e deixam o blog ainda mais completo.

    E Jonatan, quando o assunto é este é muito dificil eu ser menos incisivo. Convivo com pessoas que sofrem por serem homossexuais justamente por causa dos efeitos dos discursos propalados à um grande números de pessoas por parte de alguns religiosos fundamentalistas. Todos sabemos como este tipo de discurso fundamentalista foi, e continua sendo, nocivo aos direitos humanos e à sociedade. E os danos psicológicos causados a uma minoria que ainda não possui todos os direitos garantidos por lei, seja pelo preconceito, por palavras de cunho homofóbico, seja pela rejeição de membros da família que por vezes frequentam estas igrejas, é muito grande.

  19. falazeus@yahoo.com.br 31/05/2013 / 17:42

    Bertone,

    Só gostaria de fazer algumas considerações:

    1- “A bancada evangélica no Congresso não está preocupada com minorias, tampouco com desemprego, saúde ou qualquer outra temática social. Sua razão de existir é por interesses corporativistas das igrejas.”

    Eu acho que em razão destes interesses materiais, corporativistas e políticos imediatos, é que a bancada pode voltar-se para questões das minorias e outras temáticas sociais. No caso da temática homossexual eu diria que é uma vocação política dela colocar-se como antagonista, tanto por causa do simbolismo do combate ao pecado que tal envolvimento pode oferecer no seu meio, com os dividendos eleitorais que já aguardamos, quanto pela possibilidade de liderar, como me parece o caso do Malafaia, um grupo com peso eleitoral que não pode ser desprezado: os evangélicos. Um grupo variado, desunido, por vezes antagônicos por questões teológicas, mas que agora vão fazer coro com seu megapastor contra o inimigo comum: os Gaysistas, colocando suas diferenças de lado.

    É o que eu vejo nos sites e blogs evangélicos, até o ReV, um blog ateu, mas conservador, já mostrou apoio ao Malafa e por ai vai. Na minha opinião eles escolheram o inimigo correto, afinal, O Inimigo é espiritual e abstrato, os evangélicos precisam então dar-lhes uma face humana e quem melhor para simbolizar Satanás que um Gay/Lesbica, estas figuras abomináveis e não protegidas por nenhum lei específica, como a 7716/89, cujo objeto é a discriminação por cor e religião. Melhor enfrentar os gays, com aplausos de amplos setores sociais, do que os membros das religiões afro-brasileiras que poderiam facilmente processá-los se eles saíssem demais da linha.

    Além disto, o combate a qualquer direito civil dos homossexuais tem uma outra conotação no imaginário deles, a de evitar a Ira de Deus, o seu julgamento sobre as nações desobedientes a suas Leis e mandamentos. O casamento gay fere ainda mais os pudores dos evangélicos pelo fato também de muitos verem isso como indícios da Ira futura. O Estado reconhecer estas uniões teria por consequencia terríveis punições divinas a toda a Nação, assim como teria ocorrido com Israel.

    Por outro lado, quanto mais miserável for a existência deles, mas suscetíveis a conversão, afinal estes crentes não acreditam que as violências e dificuldades dos gays é culpa da discriminação social, mas dos próprios gays e sua recusa em aceitar a salvação. Confesso que esta segunda posição é expressada por uma minoria, mas pergunto-me quantos não guardam esta convicção em segredo, na medida em que 90% deles acham que foi uma escolha o cara ser gay… Certa vez eu perguntei num forum evangélico, quando eu escolhi ter ereção e poluções noturnas pensando em mulheres e se os crentes eram tão especiais que a natureza havia perguntado a eles o que queriam ser, nunca responderam…

    Acredito que somente pensando neste imaginário evangélicos é que faz sentido a bancada evangélica ter se unido para vetar, há dois anos atrás, um projeto de lei que estendia direitos previdenciários ao parceiros homoafetivos, quando da morte de um deles. Apesar deles pregarem um discurso de Amor e que só odeiam o pecado, o fato é que eles precisam por força de suas crenças se opor a qualquer reconhecimento do Estado as uniões de homossexuais ou qualquer demonstração da existência jurídica do homossexualismo. Certo diácono de uma Igreja Anglicana foi enfático: numa nação cristã eles não deveriam sequer existir.

    • Bertone Sousa 31/05/2013 / 19:35

      Seu comentário é pertinente e realmente há todo um conjunto de fatores que devem ser levados em conta na questão. Já publiquei outras coisas sobre o assunto aqui, como o texto “O que quer Silas Malafaia?”. Em geral os grupos evangélicos tendem a seguir suas lideranças e verem esses assuntos de forma um tanto redutiva, sempre a partir da dicotomia bem x mal. A questão não é que eles estejam errados em verem desssa forma, já que isso faz parte de sua cosmovisão, mas no campo político isso fragiliza o debate e cria essas polaridades, esses antagonismos. No outro post que você comentou, não sei se você viu, mas o Plábio colocou um link de um texto interessante da Magali Cunha, uma estudiosa do protestantismo no Brasil, em que ela analisa de forma mais aprofundada alguns desses elementos que você colocou. O texto é esse:

      http://www.meusanexos.net/p/colaboradores-do-blog-magali-cunha.html

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