As razões do Iluminismo

Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812 Fonte: História Viva
Filósofos Iluministas reunidos no salão de madame Geoffrin. Óleo sobre tela de Anicet-Charles Lemonnier, 1812
Fonte: História Viva

O Iluminismo é um dos capítulos mais importantes na história do pensamento ocidental. Dele recebemos as noções de democracia, direitos civis e humanos, liberdade individual, governo constitucional, separação de religião e política. O Iluminismo também foi responsável pela substituição das escatologias pelas filosofias da história, ou seja, teorias sociais baseadas na noção de progresso e em estudos acerca do sentido e do futuro da história humana. As filosofias da história alcançaram seu ponto culminante no século 19 com o hegelianismo, o marxismo e o positivismo. Essas filosofias tinham em comum o otimismo com relação ao avanço da ciência e à possibilidade de a humanidade construir um futuro livre dos condicionamentos políticos e ideológicos.

Contudo, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a emergência de uma corrente de pensamento conhecida como “pós-modernismo” colocou em descrédito as filosofias da história a partir da constatação das monstruosidades produzidas pelo avanço tecnológico e pelos regimes totalitários que se colocavam como a vanguarda de um projeto revolucionário e de construção de um futuro de liberdade, seja pela abolição do Estado e das classes ou pela extinção de outras raças tidas como “inferiores” e a instauração de um regime milenar marcado pelo triunfo da pureza racial e da força. O pessimismo e a desconfiança com relação a teorias do progresso que postulam um futuro de felicidade e harmonia para a humanidade se instalaram e deram lugar a teorias de desconstrução e a críticas ao projeto iluminista de confiança na razão e na emancipação.

“As razões do Iluminismo” é um livro publicado pelo cientista político e ex-diplomata brasileiro Sérgio Paulo Rouanet em 1987. Apesar de quase três décadas terem passado, a abordagem continua atual. Retomando as ideias de pensadores clássicos da era contemporânea, o autor identifica a emergência de um novo irracionalismo e propõe, como resposta, não o abandono da razão iluminista como defendia  o pós-modernismo, mas a sua refundação. O livro é composto de vários ensaios que têm como plano de fundo o questionamento das tendências irracionalistas do mundo contemporâneo.

Para isso, ele distingue o Iluminismo da Ilustração, retomando uma abordagem que remonta a Adorno e Horkheimer. A Ilustração se situa cronologicamente no século 18, ao passo que o Iluminismo seria uma tendência trans-epocal, que perpassa toda a história, atingindo seu ponto de maturação na Ilustração, mas não cessando nela. Dessa forma, ele propõe que autores como Erasmo, Marx, Freud e Adorno são todos iluministas, tendo em comum a crítica aos valores transcendentes ancorada na razão, que eles identificam não como uma força cega, mas como instrumento de contestação e emancipação.

Rouanet retoma o princípio de que somente a razão é crítica e que pensadores como Marx e Freud nos mostraram que ela não é soberana, mas está sujeita a condicionamentos históricos, materiais e psíquicos. Mas apenas a razão pode fazer a crítica de si mesma, pois, caso contrário, será reduzida ao que ele chama de “populismo cultural”, isto é, a difusão de uma tendência de desvalorização da alta cultura e do conformismo. Isso também se manifesta no anti-intelectualismo de algumas vertentes cognitivas que, criando uma dicotomia entre cultura popular e alta cultura, terminam sutilmente naturalizando a desigualdade e perpetuando a condição de subalternidade dos oprimidos. Entre essas tendências, ele critica a teoria dos códigos linguísticos de Basil Bernstein, segundo a qual as classes sociais produzem linguagens diferenciadas, sendo que as mais altas dominam os códigos mais complexos e elaborados da linguagem. Para ele, essa forma de perceber as diferenças entre as classes termina criando um fosso entre elas, já que as crianças mais pobres são privadas do desenvolvimento de sua capacidade cognitiva e seu pensamento crítico.

Para ele, a contestação da razão iluminista pelo pós-modernismo é injustificável, pois todos os elementos do pós-moderno já estavam presentes na modernidade. O autor evoca um “novo iluminismo”, consciente das limitações da Ilustração, dos condicionamentos da razão, dos automatismos subjacentes à modernização econômica e que avalia sua própria história em retrospecto. Retomando a máxima kantiana do ousar servir-se do próprio conhecimento, o autor tece críticas às tendências que conduzem à “infantilização humana”, demonstrando que o processo de secularização iniciado pela Ilustração encontra-se incompleto e que os fanatismos subjacentes às “religiões profanas”, como o nacionalismo e racialismo continuam em voga .

Depois, pela discussão de Habermas, Foucault e Weber ele analisa os processos de comunicação, condicionamentos e emancipação enfocando a condição do sujeito na modernidade, como forma de evidenciar  a relação entre a produção de saber e os mecanismos de vigilância e controle que atravessam tanto a vida cotidiana como as dimensões macroscópicas da dominação. Seu objetivo é entender como o Iluminismo, que prenunciava a emancipação e a universalização dos direitos, criou mecanismos de controle e vigilância globais. De todo modo, ele enfatiza que a luta por autonomia é inerentemente iluminista e não pode ser dissociada de seu programa. A fuga desse projeto engendra o irracionalismo, que é reacionário. Os problemas e entraves à liberdade criados pela razão somente podem ser denunciados e demolidos com as armas da própria razão. Não podemos deixar, por exemplo, que o horror do Holocausto e dos gulags nos conduza a uma regressão anti-iluminista. Se, por um lado, os conteúdos e o projeto da Ilustração estão esgotados, por outro, algo importante que ficou dela foi a capacidade de interrogação do presente.

Por fim, ele propõe que o cultivo das humanidades é um fator essencial para mantermos a democracia e problematizarmos as tendências tecnocráticas de nosso tempo, voltadas para formação profissionalizante como a mais eficaz forma de adequação ao mercado. Para ele, a formação humanística tanto não é avessa ao mercado, como também pode preparar de forma mais eficiente para ele. Ele denuncia que o regime militar aliou populismo e tecnocracia provocando marginalização cultural das classes mais baixas e supressão de sua consciência crítica. Contra a ascensão da onda neo-conservadora, o autor comenta acerca da importância da transgressão, dos ideais de equilíbrio e liberdade que as humanidades podem trazer e que a democracia, frágil porém valiosa, é o único modelo de sociedade que pode acomodá-los.

O livro de Rouanet é abrangente em seus diálogos e contém reflexões importantes para nosso tempo. Podemos perceber que atualmente o irracionalismo que grassa em nossa sociedade se manifesta pela substituição das filosofias da história pelas teorias conspiratórias, pela ascensão de propostas conservadoras tacanhas e denuncistas, que escondem pretensões totalitárias sob a máscara do “direito natural” e da tradição. Por outro lado, merece reflexão as reificações que ainda nos são impostas pela indústria cultural, a ideologia neoliberal e os populismos. A reafirmação da razão como único meio viável de crítica continua necessária à defesa da democracia e das liberdades individuais.

A modernidade foi um período de séculos de luta contra os condicionamentos do Estado absolutista e da religião cristã. As revoluções que derrubaram esses regimes e o avanço extraordinário das ciências nos últimos séculos abriram um leque de possibilidades à humanidade. Mas todas essas conquistas e o niilismo[1] resultante delas criaram vácuos de sentidos em amplos contingentes de pessoas que não foram assistidas ou alcançadas por elas. Esses grupos criaram focos de resistência e proteção nem sempre pacificadoras, como os nacionalismos populistas e as teocracias. O irracionalismo se nutre da ignorância, mas também pode se proliferar em sociedades cultas, através de uma crise, fomentando o racismo, a xenofobia, o culto a um líder. Os regimes totalitários de direita, como o nazismo e o fascismo, eram anti-iluministas em sua essência e aproveitaram o profundo mal-estar social resultante da crise de 1929 para pôr em marcha seu projeto de demolição da razão, da democracia e das liberdades individuais. A atual crise econômica tem recriado, em alguns lugares, as condições para isso. Políticas econômicas de austeridade, redução de direitos trabalhistas e postos de trabalho e do papel do Estado no tocante a políticas sociais são os ingredientes usados atualmente pela extrema direita para voltar ao poder na Europa. E o que acontece na Europa e América do Norte reverbera pelo mundo. Contra esses projetos, a razão e os ideais de um iluminismo trans-epocal de liberdade, humanização, direitos civis e trabalhistas e emancipação ainda são ideais pelos quais podemos esperar que a história não se repita.


[1] Grosso modo, o niilismo é uma teoria que reduz tudo a nada. O sentido etimológico da palavra vem do latim nihil, “nada”. Foi com Nietzsche que o niilismo ganhou uma reflexão filosófica mais aprofundada, especialmente no livro “Vontade de Potência”. Segundo Nicola Abbagnano em seu “Dicionário de Filosofia”, em Nietzsche, o niilismo está relacionado à demolição de valores absolutos, como Deus, verdade e bem. Durante o século XX diversos autores se debruçaram sobre o tema, que se tornou um dos conceitos-chave do pós-modernismo por indicar um profundo mal-estar na cultura contemporânea pela difusão do relativismo e do ceticismo com relação a filosofias da história, valores absolutos e visões de mundo totalizantes.

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22 comentários sobre “As razões do Iluminismo

  1. Pedro Almeida 29/03/2013 / 13:52

    Primeiro ponto: em matéria de conhecimento e cultura, o iluminismo não conseguiu superar a Idade Média. Segundo ponto: foi por causa do iluminismo que tivemos milhões de cadáveres formados na Revolução Francesa, na Guerra Cristeira do México, Nos países secularistas do séc xix e xx e na teoria do darwinismo social. Em suma, o iluminismo trouxe coisas boas, mas gerou centenas de milhões, se não bilhões, de mortos.

    • Bertone Sousa 29/03/2013 / 14:23

      Pedro, comparar o Iluminismo com Idade Média no sentido de fazer juízo de valor acerca de superioridade é coisa de ignorantes. Vejo que ou você não leu o texto ou não entendeu. Antes do Iluminismo a inquisição e as guerras de religião derramaram muito sangue na Europa por séculos. E também não foram milhões de pessoas que morreram na Revolução Francesa. É esse pensamento anti-iluminista que está multiplicando fascistóides como você por aí.

  2. Pedro Almeida 29/03/2013 / 14:45

    MMe rotular de fascitóide? Vamos parar com esses argumentos ad nauseam? Primeiro ponto: a inquisição não matou tudo que o iluminismo matou. Segundo ponto: as cruzadas foram uma resposta aos islamicos.

    • Bertone Sousa 29/03/2013 / 17:39

      Pedro,

      esse é o tipo de postura que alimenta a extrema direita. E o Iluminismo não matou nem fomentou a morte de ninguém. O Iluminismo foi um movimento intelectual de defesa das liberdades civis e da tolerância religiosa. E eu não me referi apenas às cruzadas como guerras de religião. E dizer que foi apenas “uma resposta” é omitir as motivações que levaram a cristandade europeia à guerra. Graças ao Iluminismo e à secularização não somos mais vigiados pela inquisição nem estamos em situação análoga a vários países muçulmanos. Esse, aliás, nem sequer é o foco do texto.

  3. Pedro Almeida 29/03/2013 / 17:49

    Eu poderia muito bem usar o argumento ad nauseam e te rotular de esquerdóide. Mas prezo pelo respeito. Então quer dizer que a direita é sempre a errada e a esquerda é sempre a certinha? E só pra frisar: o fascismo tinha apoio popular, já paises esquerdistas como China e URSS eram ditaduras de uma oligarquia politica que oprimia a tudo e a todos. Nao estou querendo justificar o fascismo, mas se analisarmos o contexto da epoca, ajudou no combate ao comunismo.

    • Bertone Sousa 29/03/2013 / 17:55

      Pedro, agora você demonstra com todas as letras que é um fascista; e nem é desrespeito, é o que você é mesmo. São pessoas como você que provocaram o Holocausto, alegando salvar a nação do comunismo. Vá embora, não perco mais tempo com sujeitos como você.

  4. Mira Santini 31/03/2013 / 17:25

    Professor Bertone, gostaria que você me esclarecesse, a partir do conceito de “modernidade” que o senhor propõe no bojo de seu texto, como os seus princípios foram incorporados na cultura asiática, onde vive a maior parte da população mundial, pois na minha condição de simples observadora, noto que a cultura asiática ainda destaca o papel masculino cabendo a mulher, o papel de subserviência, em suma, qual foi o impacto do iluminismo nas sociedades asiáticas? Também, como e por que os regimes totalitários de esquerda rompem com os postulados do iluminismo. Muito grata pelo esclarecimento

    • Bertone Sousa 31/03/2013 / 20:30

      Oi Mira,

      uma resposta adequada à sua pergunta daria um texto de pelo menos dez a vinte páginas, mas vou tentar ser sucinto. Primeiro, o fato de a maior parte da humanidade estar no Oriente não é um elemento relevante nesse caso. Como a modernidade é um fenômeno ocidental e europeu, os países asiáticos foram integrados a ela na condição periférica de colônias europeias. Nesse processo, houve diferenças. Por exemplo: no caso do Japão, a modernização aconteceu de dentro pra fora pela revolução Meiji; no caso da Austrália e Nova Zelândia, um processo mais voltado para o povoamento. Na Índia, a existência de uma sociedade de castas que de imediato se mostrou refratária aos princípios da modernidade em alguns momentos foi um empecilho até à dominação inglesa. Hegel falava da história universal como uma marcha do espírito em direção à liberdade. A abordagem dele mostrava como, a partir da lógica do Iluminismo, os europeus passaram a encarar a história. Quando ele falou de China e Índia disse que eram duas nações que careciam totalmente da consciência do conceito de liberdade e que suas tradições religiosas constituíam uma autêntica aniquilação física e espiritual dos indivíduos. Para ele, a civilização cristã europeia teria sido a única a desenvolver esse conceito, o que punha em evidência seu adiantamento moral e tecnológico frente às demais.

      Claro que Hegel via as coisas como um europeu do século 19 engajado nos ideais da Ilustração. Mas no século XX Weber falava que, embora a China, por exemplo, tivesse desenvolvido vários elementos para desencadear o capitalismo muito antes da Europa, faltava a ela uma mentalidade, uma ética, uma visão de mundo que pudesse efetivamente colocá-la na vanguarda desses acontecimentos e que a civilização europeia conseguiu desenvolver através dos ideais da Reforma calvinista, que primeiro descentralizou a religião pelos princípios de liberdade e individualismo, depois a desencantou. Como a Ásia entrou na modernidade com pelo menos 300 anos de atraso em relação à Europa e sendo conquistada militarmente, não teve tempo de incorporar esses elementos sem traumas sociais. Na Índia o sistema de castas foi abolido oficialmente em 1948, mas não se retira uma tradição milenar da mentalidade coletiva da noite pro dia. E aí entra a questão do papel da mulher que você falou. A Índia ainda não foi capaz de reverter a visão depreciativa que a sociedade tem da mulher. A questão do estupro que a imprensa tem falado muito ultimamente é só um elemento, como na África do Sul, onde a prática também é comum.

      No Ocidente, a emancipação da mulher não foi algo sobre o que o Iluminismo tenha tocado de imediato, ela ocorreu em decorrência da luta de minorias por direitos civis a partir da segunda metade do século passado. No Brasil, embora as mulheres tenham ganho direito de voto na Era Vargas, foi só na ditadura militar que o divórcio foi legalizado, por exemplo. Mas, de um ponto de vista sociológico, a valorização do papel da mulher e a garantia de seus direitos não passa apenas pela modernização econômica, mas do que Weber chamava mesmo de desencantamento do mundo. Isso porque a tradição patriarcal está fortemente enraizada nos grandes sistemas religiosos, se tornando práticas culturais de longa duração. Por esse motivo são mudanças que levam tempo para serem incorporadas pelo imaginário social, no sentido de assimilação e aceitação. Vários países da Ásia como a Índia e nações de maioria muçulmana conseguiram se modernizar economicamente, mas não a suas instituições: não conseguiram romper barreiras culturais no sentido de garantir direitos civis a amplas parcelas da população. Nesse sentido o que incorporaram foi a industrialização, mas não o Iluminismo.

      Sobre o comunismo enquanto regime totalitário de esquerda: a ideologia marxista, posteriormente marxismo-leninismo incorporou do Iluminismo a noção de progresso e secularização, mas não a de liberdade individual. Como ideologia totalista que era o comunismo rompeu com o liberalismo por considerá-lo uma doutrina legitimadora dos privilégios da burguesia. Em Locke e em toda a tradição liberal o conceito de liberdade está vinculado ao direito de propriedade. Esses direitos seriam garantidos por instituições que regulariam o poder de intervenção do Estado na vida social e econômica e pela existência de um direito civil por meio do qual os indivíduos poderiam recorrer contra arbitrariedades de terceiros. E como o marxismo rejeitava a propriedade privada como a causa maior da opressão do proletariado, colocava o estado ditatorial socialista como o árbitro por meio do qual ocorreria a coletivização da propriedade como requisito para a erradicação desses males. Mas é importante que se diga que o Iluminismo não era monolítico e também criou condições para a emergência do totalitarismo. Por exemplo: embora Rousseau seja conhecido como um dos grandes precursores das modernas democracias, o conceito de “vontade geral” que ele define no Contrato Social é tão ambíguo que só poderia ser plenamente desenvolvido num regime totalitário. Pol Pot, ditador comunista do Camboja se inspirou muito em Rousseau. Posteriormente, o culto ao Estado, especialmente na filosofia alemã do século 19, com Hegel, Fichte e outros será o piso doutrinário sobre o qual se desenvolverá depois o totalitarismo. O Iluminismo projetou a figura do intelectual como aquele portador da “Razão”, o que saberia como alcançar a vida justa e perfeita, e o período pós-iluminista se encheu de intelectuais que apontaram várias vias pelas quais isso seria feito: o Estado, o partido, a ciência, a classe revolucionária. Daí as filosofias totalistas que anulam o individual.

      Em relação ao socialismo, em todos os lugares em que foi imposto, quem tomou o poder não foram os trabalhadores, nem as terras foram coletivizadas, mas estatizadas. E no Estado socialista inexistem direito civil e instituições regulatórias, dando vazão para que a casta dirigente acumulasse cada vez mais poder e se arrogasse o direito de eliminar fisicamente aqueles suspeitos de se oporem à marcha para o comunismo, a sociedade sem classes, acusados de reacionários e “inimigos do povo”. Como eu já falei aqui em outro lugar, Lênin tinha um profundo desprezo pela democracia e pela noção de liberdade individual, dois princípios iluministas que o marxismo rejeitou desde o princípio. Nos regimes socialistas, “democracia”, seria a vontade do povo encarnada no Estado, mas que não passava de mera retórica ideológica. Era uma concepção de democracia massificadora, que submerge o indivíduo no coletivo. Na prática, o indivíduo e suas opiniões não tinham importância; o que importava era seu engajamento na construção da “nova sociedade”, cujas doutrinas eram repassadas pelos órgãos oficiais do governo. Isso porque os comunistas acreditavam que sua ideologia produziria um “novo homem”, não alienado, que não exploraria outros nem viveria pelos seus interesses em detrimento da comunidade ou de outros indivíduos. Por isso o socialismo não se inibiu em dizimar milhões de pessoas. A quantidade de vítimas não era importante para esses governos desde que a marcha para o comunismo fosse mantida. Durante seu governo (de Lênin), a repressão à revolta dos marinheiros de Kronstadt já mostrava claramente os rumos que o regime estava tomando. Daí, a deportação, fuzilamentos e construção de campos de concentração foi só uma questão de tempo. Tem um documentário no Youtube muito interessante sobre isso, em três partes, que esclarece muita coisa nesse sentido; se chama “Comunismo história de uma ilusão”. Bom, espero que tenha ajudado. Abraços.

  5. Mira Santini 02/04/2013 / 15:35

    Muito obrigada pelos esclarecimentos, ajudou bastante pois sua reposta foi didática até para quem não é da área.

  6. karla 02/07/2014 / 10:50

    minha duvida é: afinal os filósofos do iluminismo defendiam a razão ou as paixão como ponto importante no sentido de liberdades?

    • gilberto souza 19/08/2014 / 0:14

      cognitivista XVII a IX( jusnaturalismo; empirista; própria razão = Kant) ;; …………………………………………………………………………………………………………………………Individualismo ( homem como atomo = eudemonismo, o direito a felicidade e auto realização e o descentramento, o direto a critica, o direito de assumir uma posição de exterioridade com relação ás normas sociais …………………………………………………………… …………………………………….. Universalismo ( natureza humana Universal; e universalismo subjetivo) uma resposta positivista a diferença entre natureza & costume

  7. Marcelo Pires Natorp 17/01/2017 / 11:13

    Caro professor: minha filha, Marina, de 19 anos, acaba de fazer o vestibular da Fuvest, agora, no início de janeiro, para o curso de Medicina, na USP. Ela me disse que foi mal na Redação, na prova da 2a fase, cujo tema foi exatamente esse: “O Iluminismo e a filosofia de Immanuel Kant”. Ela leu o seu texto sobre o Iluninismo e chegou à conclusão de que se tivesse lido-o há mais tempo, teria tirado a nota máxima, isto é, 50 pontos. O resultado será no dia 2 de fevereiro.

    • Bertone Sousa 17/01/2017 / 22:30

      Olá Marcelo, creio que se ela levantasse essa discussão na redação dela poderia mesmo alcançar uma pontuação maior. Torço para que sua filha seja aprovada.

  8. Marcelo Pires Natorp 18/01/2017 / 8:56

    Obrigado, professor. Pelos cálculos dela, parece que vai dar, sim, para ela ser aprovada, pois foi muito bem nas demais disciplinas. Ou, na pior das hipóteses, se não for aprovada, o será por uma pequena margem de pontos. Vamos torcer. Agora serei um frequentador assíduo do seu blog, que é muito bom. Gosto bastante de História.

  9. Márcio 20/02/2017 / 9:02

    Caro Bertone, Uma dúvida: a respeito dos países de maioria islâmica, historicamente, não passaram pela experiência iluminista, como fizeram os países da Europa Ocidental, notadamente os principais, Reino Unido, França, Alemanha e IItália? E o caso do nosso Brasil varonil?

    • Bertone Sousa 20/02/2017 / 9:26

      Márcio, correto. No Brasil o Iluminismo não produziu mudanças significativas devido à permanência da estrutura social escravocrata após a independência, à falta de universidades no país e ao analfabetismo da maior parte da população.

  10. Márcio 20/02/2017 / 13:49

    Isso explica, de alguma forma, o nosso atraso cultural e científico-tecnológico, se compararmos-nos com aqueles países centrais da Europa? E o caso dos EUA e da América Espanhola?

    • Bertone Sousa 20/02/2017 / 21:20

      Márcio, a meu ver explica em parte sim. Nosso pensamento social não foi além do nível de desenvolvimento da sociedade e se manteve retrógrado.

  11. Márcio 20/02/2017 / 21:55

    Tudo isso, professor, a despeito da profunda influência de uma doutrina que, embora se apresentasse como visão positiva ou científica da realidade e filha do Iluminismo francês, o positivismo de Augusto Comte, cuja vigência se deu entre a segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas do XX, quando entrou em declínio entre nós? Ou, se tratando de positivismo, podemos falar de uma grande ilusão, no que diz respeito à chamada “modernização conservadora”, um imenso engodo histórico? Sim, digo isso porque li a obra “História do Positivismo no Brasil, de Ivan Monteiro de Barros Lins, Companhia Editora Nacional, 1967, nas suas mais de 700 páginas, onde ele demonstra o quanto foi longe o positivismo nas terras tupiniquins, nas mais diversas áreas da atividade humana: da Medicina à Literatura, da Engenharia à Política, do Direito à Matemática,passando ainda pela Sociologia e Antropologia. E sem falar do lema em nossa Bandeira Nacional, Ordem e Progresso! A influência de Comte na Educação brasileira também foi profunda. Dizem que até o Espiritismo de Allan Kardec recebeu, no Brasil, influência de Comte, com sua “moral do altruísmo”(palavra criada pelo filósofo francês). O positivismo tinha todo esse discurso modernizante, mas afinal, o que restou dele, hoje, em pleno século XXI? Ou ele está mais para uma certa “pós-modernidade” do que para a modernidade propriamente dita?

    • Bertone Sousa 20/02/2017 / 23:10

      Márcio, o positivismo entrou em declínio na Europa ainda no início do século passado. Sim, o positivismo influiu até o Espiritismo, que ainda mantém sua verve cientificista. Não restou praticamente nada dele porque sua crença cega na ciência como ideal maior da humanidade também ficou desacreditada no pós-Segunda Guerra. O positivismo é moderno. A pós-modernidade é a contestação dos discursos totalizante das ideologias do século 19, entre elas o positivismo.

  12. Márcio 21/02/2017 / 7:23

    Obrigado, professor. Continuarei a frequentar o seu blog e com muito gosto. Acho seus textos muito instigantes e esclarecedores. Uma sugestão de leitura: “O que é positivismo”, de João Ribeiro Júnior, Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense.

  13. Márcio 03/03/2017 / 6:42

    Professor Bertone, em um artigo crítico, publicado na Folha de São Paulo em 1995, a socióloga marxista Lelita Benoit ataca o positivismo pós-moderno de Michel Maffesolli, intitulado “O positivista pós-moderno”, afirmando que há grandes semelhanças entre o pensamento positivista de Comte e a pós-modernidade. Vale a pena ler. Está disponível no portal da Folha no UOL.

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