A importância das políticas de ação afirmativa

poder-da-escritaA incompreensão do que sejam as políticas de ação afirmativa leva as pessoas a fazer afirmações inadequadas acerca de sua aplicação. Desde as cotas para negros e índios nas universidades e leis de proteção às mulheres, idosos, entre outros grupos, essas políticas têm como alvo grupos sociais específicos vítimas  de discriminação, violência, exclusão e têm como objetivo corrigir e atenuar a desigualdade e promover mais equalização social.

Em geral, os conservadores são contra. Mas eles erram quando colocam o conceito de direito natural acima dos direitos sociais e quando desprezam os desníveis e desigualdades existentes para reafirmar dogmas políticos legitimadores dessa ordem e que servem apenas como catalisadores de atitudes preconceituosas.  As políticas afirmativas são um importante instrumento para corrigirmos problemas sociais de longa duração e é importante um engajamento social para a superação do preconceito contra determinados grupos. Por isso, nesse texto pretendo discutir o que são e para que servem as políticas afirmativas enfocando as cotas raciais.

Para os conservadores, o governo brasileiro está privilegiando grupos quando cria cotas raciais. O que é então e qual o objetivo dessas políticas? O filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. fala com muita propriedade que as cotas para negros e índios nas universidades faz parte de políticas afirmativas para minorias. Nesse caso, estamos falando de minoria sociológica, não numérica. Ou seja, negros não são minoria numérica, mas são sociológica, isto é, eles são maioria na sociedade mas são minoria em termos de inserção em espaços historicamente ocupados por brancos como, por exemplo, as universidades. E o objetivo das políticas afirmativas é garantir direitos a grupos sociais que não possuem hegemonia cultural e que por isso sofrem exclusão, preconceitos e estigmatização.

Que os negros sofrem exclusão social no Brasil é inegável. Eles estão nas favelas, presídios, periferias das grandes cidades, subempregos, trabalhos informais, mas não estão nas universidades. Nelas, eles sofrem preconceito porque a elite branca que ocupa esse espaço não está acostumada a conviver com eles nas instituições de ensino superior. E os negros estão nas favelas porque após a abolição da escravatura não foram tomadas medidas efetivas para sua inclusão social, escolarização, aquisição de condições de vida e trabalho dignas. Antes, foram abandonados à própria sorte e relegados ao desprezo do restante da sociedade. Então o objetivo das cotas é aumentar a quantidade de negros nas universidades e com isso diminuir o preconceito com a presença deles nesses espaços. As cotas não têm o objetivo de quitar dívidas históricas ou compensar a escravidão do passado, pois nesse caso seriam ineficientes. Mas como política afirmativa pra diminuir o preconceito podem, sim, ser eficazes. As cotas não tomam o negro por inferior, ou menos inteligente. Ao contrário, ela é uma política de inclusão para proporcionar a convivência racial entre brancos e negros e, com isso, reduzir o preconceito.

Quando reclamam do fato de os negros terem de concorrer com os brancos em condições de igualdade, as pessoas estão reproduzindo uma visão elitista espúria ou de senso comum, pois o negro não concorre em condições de igualdade com o branco da classe média, que estudou em instituições privadas de melhor qualidade e possui capital social, cultural e econômico que o negro não tem. Por outro lado, o argumento de que é preciso melhorar a educação pública para que todos, inclusive os negros, possam ter acesso à universidade, não é válido. A escola pública no Brasil já teve índices de qualidade superiores aos de hoje, nas décadas de 1950 e 1960, mas o negro não foi beneficiado por ela. Em parte, isso se deveu à reforma educacional de Gustavo Capanema, durante a era Vargas, que deixou o ensino para acesso à universidade para as classes médias e instituiu o ensino técnico para os pobres.

As cotas não têm o objetivo de ser eternas, assim como aconteceu com as cotas para mulheres nos partidos políticos. Elas tinham o mesmo objetivo: diminuir o preconceito com a participação das mulheres nesses espaços e incentivar sua inserção ali; hoje as cotas para mulheres nos partidos já não são mais necessárias porque o problema foi praticamente resolvido. Aqueles que são contra cotas para negros em geral são racistas ou estão reproduzindo, sem o saber, uma visão de mundo racista que pretende manter esse segmento afastado das instituições de ensino superior. Em 2001, um estudo realizado por Ricardo Henriques para o IPEA constatou que apenas 2% dos estudantes universitários brasileiros eram negros e que dos mais de 20 milhões de pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza, 70% eram negros.

Nesse sentido, a política afirmativa é uma forma de tratar de forma desigual os desiguais, ou seja, é uma medida reparatória de redução da exclusão e da desigualdade que, de outra forma, não poderia ser solucionada. Por outro lado, dizer que a cota é uma discriminação contra o branco ou contra o próprio negro ou que o negro se sentiria inferiorizado por entrar na universidade por cota é apenas uma forma de desviar a atenção para o problema histórico da discriminação e pressionar a sociedade, inclusive os negros, a se colocarem contra as cotas. O uso frequente desses argumentos é apenas um indicativo de que ainda temos um longo caminho até a superação do preconceito em diversos meios sociais, mas sem dúvida, as cotas já se constituem em um passo importante para isso.

Essa ação afirmativa de inclusão dos negros nas universidades não é uma invenção brasileira, pois foi adotada no sistema educacional norte-americano na década de 1960, tendo como uma de suas metas justamente a correção do desnível social e o combate à hostilidade e o preconceito institucional contra eles. Nos Estados Unidos, além das universidades, empresas, meios de comunicação e órgãos publicitários também foram obrigados por lei a reservarem vagas para contratação de afro-descendentes. Isso proporcionou a ascensão dos negros à classe média, com sua inserção em profissões e instituições de ensino que antes eram representadas praticamente apenas por brancos. Além dos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia também adotaram a medida.

Onde está o erro de raciocínio dos direitistas que são contra cotas? No fato de acreditarem que a constituição já protege a todos. A questão é que por sofrer estigma social alguns grupos não são devidamente assistidos pela lei, por isso é preciso criar outra lei não para privilegiá-los, mas para equipará-los aos outros grupos sociais. Foi o que aconteceu com a criação da lei Maria da Penha: foi uma lei criada para combater a violência contra mulheres, já que a constituição federal, por si só, é insuficiente para isso. É por isso que as políticas afirmativas atuam no sentido de proteger minorias sociais contra variados tipos de violência que sofrem no cotidiano. Outros exemplos são o estatuto do idoso e o estatuto da criança e do adolescente.

Então alguém poderia argumentar: por que não se criam leis para proteger japoneses, iltalianos, seus descendentes, etc.? Porque não existem ações sociais contra esses grupos no sentido de excluí-los, estigmatizá-los, discriminá-los. As políticas afirmativas não visam criar leis para beneficiar indiscriminadamente qualquer grupo. Elas visam promover inclusão e/ou proteção a segmentos que sofrem variadas formas de exclusão e/ou violência: negros, índios, mulheres, homossexuais, crianças, idosos, deficientes físicos, etc.

A direita que prega a lei natural não quer as políticas afirmativas por não querer ingerência do Estado na vida social, mas na questão do aborto, por exemplo, eles defendem que o Estado intervenha diretamente para coibir essa prática, ou quando pedem intervenção militar ou que a legalização da pena de morte e a posse de armas. Além disso, defendem redução da menoridade penal e uma atuação punitiva mais abrangente do Estado. O Estado mínimo que a direita defende é aquele que não faz política social e não toca na questão da desigualdade, que na visão de alguns de seus representantes, deve ser superada por mérito, não por políticas sociais. A direita e as elites não têm problema com o preconceito e a exclusão contra variados grupos porque eles não sofrem diretamente com isso. Ao contrário, eles escrevem telenovelas colocando o negro quase sempre como empregado doméstico, naturalizando uma visão do negro como serviçal e perpetuando o preconceito.

Como assinalei anteriormente, a miopia social e interpretações equivocadas de alguns grupos e indivíduos que se colocam como conservadores só tende a ser prejudicial para promovermos políticas sociais e educacionais inclusivas. Em alguns casos, apela-se a teorias de conspiração espúrias, retirando o foco da análise dos problemas sociais propriamente ditos. Os conservadores são contra políticas afirmativas, como são contra movimentos sociais, reforma agrária, esquerda, isto é, são contra tudo o que questione e pretenda criar mecanismos políticos de superação dos desníveis sociais extremos em nossa sociedade e, agindo assim, se colocam contra a própria sociedade e a favor de interesses corporativistas e do silenciamento das minorias sociais. Se pretendemos reduzir os abismos sociais, estender a ação da lei para grupos que não são devidamente assistidos por ela e promover inclusão, as políticas afirmativas são o melhor caminho para isso.

Anúncios

21 comentários sobre “A importância das políticas de ação afirmativa

  1. Virgínia Celeste 01/04/2013 / 13:07

    Bem, estou aos poucos lendo seus textos e… que texto feliz! Vou, inclusive, repassar para meus alunos. Estávamos dia desses discutindo sobre o assunto do preconceito racial e fiquei mal ao notar o nível de ignorância (no sentindo de falta de conhecimento) que eles tinham. “Se negros são biologicamente iguais, a cota que é racista”, afirmavam. Tentei mostrar a eles que a biologia nada tinha a ver com isso… não somos socialmente iguais, ora! questionei quantos professores existiam na faculdade e quantos eram negros? questionei se na região há negros… e por que eles não estavam na sala de aula? questionei até a minha lista de amigos do facebook “por que a maioria são pessoas brancas? professora Virgínia é racista?”. Não, não sou, mas infelizmente poucos negros frequentam os lugares que eu frequento (universidade, eventos gamers. boates não frequento mais, então não sei como está).

    Também me deparei com muitas pessoas que questionavam sobre a Lei Maria da Penha. E eram pessoas “entendidas”, “estudadas”. Sempre faço analogia com filmes Western: roubar cavalo tem uma pena mais dura que matar alguém. Nossa sociedade mudou? não, pelo menos não na voz dos conservadores… já ouviu algum reclamando sobre delegacias especializadas em roubo de carro? agora, para reclamar da delegacia da mulher… ah, amontoam-se!

    • Bertone Sousa 01/04/2013 / 15:39

      Oi virgínia,

      Veja como o preconceito é uma coisa difícil de se quebrar. Mas têm até intelectuais, como o Demétrio Magnoli, que repassam uma visão depreciativa das cotas. Mas a maioria das pessoas não refletem muito ou nada sobre isso. Por isso que também considero importante trabalhar em sala de aula o conceito de minoria pra que as pessoas entendam o sentido das políticas voltadas para esses grupos. Há muita desinformação sobre isso. Vejo o mesmo com relação à lei Maria da Penha. Se não se trabalhar desde o fundamental a questão da violência contra a mulher (e muitos alunos infelizmente vivenciam ao vivo em suas casas), quando adultos vão tratar mulheres como objetos.

      Fico feliz que esteja gostando dos textos. Abraços.

  2. Felipe Oliveira 12/06/2013 / 17:54

    parabéns Professor pelos seus textos, comecei a lê-los a pouco tempo, porém já é minha ocupação durante minhas tardes. procuro sempre aprender um pouco mais com você, principalmente sobre a questão política, que por conhece-lo sei de sua posição e admiro-a. abraços

  3. Edson 26/09/2013 / 16:43

    Professor Bertone, mais uma vez, parabéns pelo belo texto!
    Tenho a intenção de saber qual é a sua visão com relação às cotas raciais no serviço público?
    Eu, particularmente, não entendo que sejam necessárias embora sou totalmente a favor delas para ingresso nas universidades. Acredito que, caso sejam concedidas cotas para pessoas que não estejam tecnicamente preparadas para exercer um determinado serviço, a eficiência do mesmo pode cair muito. E, nesse sentido, acredito que as cotas para ingresso nas universidades desenvolveriam habilidades para aqueles que normalmente sofrem com isso, nesse caso, os negros.

    • Bertone Sousa 26/09/2013 / 23:11

      Edson, no caso das cotas para deficientes físicos, são necessárias mesmo no serviço público. As demais, têm que ter o mesmo caráter das cotas para universidades: não ser uma medida eterna, mas para inclusão de alguns agentes em determinados espaços. O objetivo é o mesmo, reduzir o preconceito com o negro, por exemplo, em determinados postos de trabalho; com esse objetivo, elas também são justificáveis.

      • professor 28/07/2015 / 15:39

        Professor Bertone,
        sou um defensor da política de cotas, porém, como docente noto que em diversas instituições está em franco crescimento a discriminação racial, onde é enorme o ódio flulndo por entre as pessoas classificadas como “brancas” das pessoas chamadas “de cor”. Infelizmente, o que me emerge é uma sociedade despreparada para tal política, fato decorrente ainda do tempo da escravidão, onde os brancos em sua maioria tinham ódio dos morenos, mulatos e negros. Já se passaram mais de 120 anos, mas a mentalidade de grande parte dos brasileiros ainda não e alterou da época da escravidão, cultivando seu ódio por estas pessoas.

      • Daniel 27/01/2016 / 22:37

        Professor, por que razão as pessoas têm tanta resistência com a aceitação das cotas e dão de ombros para a criação do Estado de Israel (do qual sou a favor assim como do Estado Palestino também)?

        Outro dia discuti com um colega o qual me disse que os Judeus foram perseguidos durante séculos e não tinham para onde ir, já os negros tinham a África. Ele diz também que só não foram contemplados antes porque não existia um órgão como a ONU e que a intenção dos Alemães era exterminá-los.Já no caso dos negros era pura exploração mas a intenção de matá-los e ponto final. Refuta a ideia de ser vítima e que se sente melhor sabendo que os negros foram co-autores da prática escravocrata.

        O senhor concorda com a tese na qual os israelenses só ganharam um Estado porque não tinham para onde voltar?

      • Bertone de Oliveira Sousa 28/01/2016 / 12:06

        Daniel falei sobre Israel no primeiro texto notas avulsas. E também nos comentários. Confira lá.

  4. Leandro 21/02/2014 / 22:47

    Professor Bertone parabéns, gosto muito de ler os seus textos quando posso.
    Só para afirmar o que você disse no texto. Aqui onde estou morando atualmente, esta tendo um projeto social, chamado musica nas escolas, onde minha esposa esta dando aulas de canto coral para crianças, para constar de baixa renda (excluídas socialmente), até então introduzindo a classe menos favorecida, a ter conhecimento em musica erudita. Enfim, aqui o prefeito é do PT, e fiquei sabendo que eles estão promovendo um investimento não só na musica, mas em vários outras vertentes da educação, e com certeza isso esta dando certo, inclusive a faculdade daqui também esta com esse projeto em outras áreas, mas em parceria com a prefeitura da cidade, por mais que as pessoas reclamem que o PT é isso, ou aquilo, eles estão fazendo algo para melhorar, pelo menos é o que estou vendo aqui.

  5. Gustavo Coelho 09/04/2014 / 23:58

    Se todo preto lé-se malcolm x isso mudaria, mas o pior de tudo é que nenhum site de livraria vende o livro do malcolm x isso é um absurdo em um pais onde a maioria é negra, eu mesmo li o livro fazendo download do livro na comunidade do malcolm x no facebook e não achei em nenhuma livraria da minha cidade!

  6. Vinícius Martin 12/06/2014 / 0:02

    Fui dar uma pesquisada sobre as cotas na internet, e vi que o sistema é mais amplo, em que contempla não somente a cota racial, como também a cota para alunos de escola pública. Aliás, a primeira está inserida na última.
    http://portal.mec.gov.br/cotas/sobre-sistema.html
    Tem uma página também que esclarece os mitos, ou melhor dizendo, das pérolas que a gente ouve por aí. Fica uma sugestão aí, para vc escrever um texto discorrendo sobre esses mitos, já que está havendo maior celeuma sobre a cota para negros no serviço público. É um momento oportuno discutir sobre essas questões.
    https://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=53

  7. Fábio 16/10/2014 / 19:44

    Eu me interesso pelo tema e gostaria de referências a respeito nos Canadá, Australia entre outros.

  8. Laércio Esô 28/10/2014 / 20:43

    Boa noite, Professor Bertone

    Lendo seu texto, fiquei curioso a respeito do que poderias pensar da opinião do biólogo Pirulla, que diz que Ações Afirmativas tem seu valor sim, mas que, se realmente pretendem acabar com o racismo (não excluindo aqui os demais propósitos delas, mas apenas destacando esse como o que, creio eu, ser o principal), as cotas deveriam estar nas escolas primárias e nos ensinos médios, não nas universidades. Basicamente ele afirma (pelo que entendi – posso estar errado!) que fazer cotas apenas em universidades e não em demais instituições de ensino, além de ser algo incoerente na luta contra o racismo (pois é na infância e na juventude que estamos mais propensos a ser educados a respeitar as diferenças), acaba por reforçar o tal do “culto ao canudo”, ou seja, da noção errônea de que um ensino superior um pré-requisito necessário pra um auto-sustento razoável, e além de outros atrasos aos avanços intelectuais na academia, tais como a exigência por quantidade invés de qualidade nos trabalhos dos graduados e pós-graduados, razão pela qual, na Academia, como rara exceção, a meritocracia deveria ser mantida. (Sem falar da impressão causada de que cotas apenas em universidades e não em instituições de ensino médio, fundamental e primário é porque “criança e adolescente não votam”, como uma vez criticou uma pessoa que conheci…)

    Abaixo o segundo vídeo dele a respeito do tema. O primeiro está linkado no mesmo:

    Abraços,
    Esô

    • Bertone de Oliveira Sousa 28/10/2014 / 21:01

      Laércio, a noção de que o curso superior é necessário para ampliação da renda e o acesso a determinados postos de trabalho não é errônea, mas uma questão de nossa sociedade do conhecimento pós-industrial. Não faz sentido colocar cotas no ensino básico porque a educação pública e gratuita é por lei direito de toda a população e propedêutica ao ensino superior. O negro está na escola básica, mas por falta de capital social e econômico não está no ensino superior com a mesma representatividade. As cotas não são para os negros mas para os brancos, para que estes se acostumem ao convívio com o negro em cursos e instituições onde o negro historicamente não esteve. Sua função não é “facilitar” a entrada dos negros, mas instituir condições de convivência sem a segregação que historicamente as caracteriza, por isso são afirmativas. Meritocracia é um conceito de conotações variadas dependendo do contexto e não se aplica aqui. Discutir meritocracia e políticas afirmativas não é para o bico de biólogos.

      • Laércio Esô 28/10/2014 / 23:36

        Sobre a questão do negro já faz parte da escola básica, discordo em parte. Existem diversos locais aonde ver um negro numa sala de aula de jardim de infância ou num ensino primário é algo bem raro, como cidades de colonos (falo isso baseado no que ouvi de quem vem dessas cidades, e no comportamento preconceituoso de vários outros desses lugares). Não possuo no momento as fontes sobre o que falarei agora, mas já li a respeito de que, por causa da idade, é muito mais complicado, (e por vezes quase impossível em alguns casos), querer “forçar” um sujeito que a vida toda foi acostumado a ver loirinho do olho azul nas salas de aula ao convívio repentino não só com negros, mas com gays, indígenas, e etc. e não querer que ele manifeste algum tipo de estranhamento ou comportamento hostil, consciente ou não. Força, como muitos sabem, não chega aos pés de uma educação e uma habituação de desde a infância. Habituação, por exemplo, gera bem menos chance de uma pessoa querer deixar uma banana na mesa de um negro só de “zuera”, como aconteceu tantas vezes na minha universidade. A dificuldade de eliminar preconceitos quanto maior for a idade já foi ilustrado inclusive em contos infantis antigos, e é por isso que creio que uma facilitação e foco maior deveria estar primeiro nas escolas básicas destes lugares mais dominados por maiorias, para no futuro existirem bem menos gente mal-acostumada às diferenças. Não adianta querer que só haja um sujeito ou dois de uma minoria numa sala de quarenta branquelos ou outra maioria numa escolinha: nessa situação, eles continuam aparecendo, queira ou não, como exceções, não como uma futura regra.

        Enfim, não vejo evidências (se puderes me mostrar, agradeço) seja na psicologia, na história ou pessoalmente que forçar marmanjões/onas já com preconceitos cristalizados é algo que vale a pena gastar esperança pra que o racismo deles suma ou diminua. A hora que começarem a ser punidos ou presos, só vão ficar com mais ódio e mais sede de se vingar depois que saírem.

        PS: Não tô desconsiderando as AA nas universidades. Perguntei se o foco não deveria ser em instituições menores, já que o objetivo principal é erradicar o preconceito nas maiorias.

  9. Esther Sampaio 30/11/2016 / 11:43

    Amei o texto e compartilhei no meu facebook, pena que essas pessoas que falam demais e erroneamente, ainda têm preguiça de ler isso.

  10. W. Williams 11/06/2017 / 18:50

    As expressões ‘ação afirmativa’, ‘representação paritária’, ‘tratamento preferencial’ e ‘cotas raciais’ não possuem grande apelo entre a população. Sabendo disso, a elite intelectual, a mídia, o governo e todos os demais entusiastas criaram o termo ‘diversidade’, uma palavra aparentemente benigna que funciona muito bem para encobrir políticas racialmente discriminatórias. Via de regra, tais políticas exigem que as universidades, as empresas privadas e as burocracias do governo formem seus quadros de acordo com a proporção de cores e etnias existentes no país.

    Por exemplo, se os negros formam 20% da população, então eles devem formar 20% dos estudantes universitários, 20% dos professores, 20% dos gerentes de empresas e 20% dos funcionários públicos. Por trás dessa visão de justiça está a ignara noção de que, não fosse a discriminação, todas as cores e etnias estariam igualmente distribuídas em termos de renda, educação, ocupação e outros critérios.

    Não há absolutamente nenhuma evidência, em nenhum lugar do mundo, de que a proporcionalidade estatística seja a norma. Ainda assim, grande parte de nossas leis, de nossas políticas públicas e do nosso modo de pensar partem do princípio de que a proporcionalidade é a norma. Vejamos agora algumas diferenças raciais e vamos pensar sobre suas causas e possíveis curas.

    Nos EUA, ao passo que 13% da população é formada por negros, estes representam 80% dos jogadores profissionais de basquete e 65% dos jogadores profissionais de futebol americano, sendo que, em ambos os esportes, os negros são os jogadores mais bem pagos. Em contraste, os negros representam apenas 2% dos jogadores profissionais da liga americana de hóquei sobre o gelo. Logo, não há diversidade racial no basquete, no futebol americano e nem no hóquei. Tais esportes em momento algum atendem aos critérios de ‘igualdade racial’.

    Mesmo no que diz respeito a conquistas esportivas, a diversidade racial está ausente. No baseball, quatro dos cinco recordistas de home-runs são negros. Desde que os negros entraram nas principais ligas de baseball, das 8 vezes em que houve mais de 100 bases roubadas em uma temporada, todas foram feitas por negros. Por outro lado, o Departamento de Justiça americano recentemente ordenou que o departamento de polícia de cidade de Dayton, no estado de Ohio, diminuísse a nota mínima de aprovação nas provas escritas para que assim mais negros pudessem entrar na força policial.

    O que o Procurador Geral da Justiça dos EUA, senhor Eric Holder, deveria fazer a respeito da falta de diversidade racial nos esportes? Por que as elites intelectuais não protestam? Será que é porque os proprietários desses multibilionários times profissionais de basquete, futebol e baseball são pró-negros ao passo que os proprietários dos times da liga de hóquei e os donos das grandes empresas são racistas relutantes em colocar negros em altas posições e com altos salários?

    Dentre as questões de diversidade étnica, há uma que foi completamente varrida para debaixo do tapete: os judeus americanos representam menos de 3% da população do país e somente 0,2% da população mundial. Todavia, entre 1901 e 2010, esses judeus ganharam 35% de todos os prêmios Nobel que foram concedidos a americanos, o que significa que eles ganharam 22% do todos os prêmios Nobel já distribuídos.

    Se, para a turma que advoga a diversidade, a sub-representação é uma “prova” de que há discriminação racial, o que eles sugerem fazer para os casos de sobre-representação? Afinal, se uma raça está sobre-representada, então isso pode significar que um grupo de pessoas está se apossando daquilo que, “por direito”, pertence a outra raça.

    Há outras questões de representação para as quais talvez seja necessário alguém começar a dar mais atenção, para poder criar políticas públicas corretivas. Por exemplo, os asiáticos repetidamente obtêm as maiores pontuações na seção de matemática do SAT, ao passo que os negros obtêm as menores. Os homens são 50% da população, assim como as mulheres; entretanto, os homens são atingidos por raios em uma frequência seis vezes maior do que as mulheres. As estatísticas populacionais para os estados americanos de Dakota do Sul, Iowa, Maine, Montana e Vermont mostram que a população negra desses estados não chega nem a 1%. Por outro lado, em estados como Geórgia, Alabama e Mississippi, os negros estão sobre-representados em relação à sua porcentagem na população geral dos EUA.

    Há outros exemplos globais de desproporcionalidade. Por exemplo, durante a década de 1960, a minoria chinesa da Malásia recebeu mais diplomas universitários do que a maioria malaia. Somente na engenharia, foram 400 diplomas para chineses e apenas quatro para malaios, não obstante o fato de que os malaios dominavam o país politicamente. No Brasil, no estado de São Paulo, mais de dois terços das batatas e 90% dos tomates produzidos foram cultivados por pessoas de ascendência japonesa.

    O moral da história é que não há, em nenhum lugar do mundo, evidências de que, não fosse a discriminação, as pessoas estariam divididas ao longo de todas as atividades produtoras de acordo com suas porcentagens na população. Diversidade é um termo elitista utilizado para dar respeitabilidade a atos e políticas que, em outros contextos, seriam consideradas racistas.

  11. Debora 17/09/2017 / 20:47

    Boa noite,
    Parabéns pelo texto. Só fiquei em dúvida na parte que você fala que as as cotas para mulheres nos partidos não são mais necessárias?
    Porque a Lei 12.034/2009 prevê que deve ser preenchido no mínimo 30% e no máximo 70% para candidatura de cada sexo.
    Seu raciocínio se daria por não conter mais a palavra mulheres como era a leis interior?
    Também discordo que isso é um fato resolvido, é só olhar a composição de nossas Câmaras e Congresso.
    “As cotas não têm o objetivo de ser eternas, assim como aconteceu com as cotas para mulheres nos partidos políticos. Elas tinham o mesmo objetivo: diminuir o preconceito com a participação das mulheres nesses espaços e incentivar sua inserção ali; hoje as cotas para mulheres nos partidos já não são mais necessárias”
    Abraço e parabéns 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s