(Des)caminhos do pontificado de Bento XVI

Bento16O pontificado de Bento XVI foi polêmico do início ao fim: o ex-presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (nome atual do antigo Tribunal do Santo Ofício, ou da Inquisição), conhecido por julgar e expulsar da Igreja o teólogo da libertação Leonardo Boff e por ter sido conselheiro e braço direito de João Paulo II, Joseph Ratzinger ascendeu ao cargo máximo da Igreja com o estigma de ter participado da juventude hitlerista durante aqueles tenebrosos anos da Segunda Guerra Mundial.

Sua liderança foi marcada pela profusão de denúncias de casos de pedofilia praticados por padres em todo o mundo, diante dos quais ele apenas tergiversou e nenhuma atitude efetiva tomou para coibir essas ações dentro de sua igreja. Por outro lado, Bento XVI teve momentos de tensão com o Judaísmo e o Islamismo, ao contrário do que disse um professor da PUC-SP no Jornal Hoje nesta segunda-feira, de que ele praticou o princípio do Concílio Vaticano II do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. Tal diálogo aconteceu, mas após a pressão de muçulmanos fundamentalistas que exigiram dele um pedido de desculpas após uma crítica sobre o uso da violência como instrumento de conversão ao Islã. Com relação aos judeus, tentou contornar suas hesitações ante a temática do antissemitismo isentando-os da culpa pela morte de Jesus.

A estrutura de poder da Igreja Católica é análoga a de uma monarquia absoluta e não por acaso: a Igreja assimilou todo o simbolismo hierárquico do Império Romano. Embora a tradição alegue que o papa é sucessor de Pedro, a instituição do papado tem origem muito depois, no século III. Antes disso as igrejas eram dirigidas por líderes conhecidos como bispos e presbíteros; aos poucos essa estrutura foi sendo centralizada quando um único bispo passou a representar o poder em cada diocese. A partir de meados do século II, o bispo de Roma passou a reivindicar preeminência sobre os demais, exigindo reconhecimento como supremo governante da Igreja. O primeiro a fazer isso foi Estevão I, que exerceu o poder sobre as comunidades cristãs de 254-257. Mas foi somente após a conversão do imperador Constantino e a legalização do Cristianismo feita por ele em 313 que a instituição do papado veio a se consolidar. Nesse sentido, o Concílio de Niceia, realizado no século IV ratificou o crescente poder do grupo de Roma que pretendia unificar a Igreja em torno de um credo, retirando a legitimidade dos demais grupos, como arianos e gnósticos.

Foi nesse espírito que o papa Dâmaso I, na segunda metade do século IV, contratou assassinos para matar seus oponentes. A partir de então os papas passaram a governar por decretos não passíveis de discussão. Foi assim, por exemplo, que o cânone do Novo Testamento foi escolhido, no final daquele mesmo século. O Cristianismo tornou-se religião oficial não apenas por decreto, mas por imposição, no ano 392. Foi no reinado de Teodósio, que o trabalho iniciado por Constantino foi completado: as demais religiões do império passaram a ser proibidas, seja em público, seja em particular. Seus templos foram fechados e demolidos e seus rendimentos confiscados. Com o fim do Império Romano do Ocidente, no século V, o papa incorporou o título de Pontifex Maximus, antes utilizado pelos imperadores; com isso, ele passava a encarnar o poder civil, além do religioso. O resto da história é conhecido: o que a Igreja não pôde subjugar pela cooptação e pelo ouro, subjugou pela execução de seus opositores. Da aliança com o imperador romano ao Tratado de Latrão assinado com Mussolini em 1929 e o apoio a Alemanha nazista, a história do papado está marcada pela corrupção e acúmulo de riquezas, graças aos quais ela construiu um poderoso império cujos tentáculos se estendem por virtualmente todo o mundo. Hoje, a Igreja já não derrama sangue, pelo menos não publicamente, como fazia outrora, mas continua a costurar acordos políticos que a beneficiam.

Um exemplo recente foi a concordata assinada com o governo brasileiro em 2008. Sendo o Brasil um dos maiores redutos do catolicismo no mundo e com sua hegemonia ameaçada pelo crescimento das igrejas pentecostais, em uma visita em 2008, Bento XVI assinou, junto à presidência, uma concordata que incluiu entre suas cláusulas a garantia governamental da permanência do ensino religioso confessional nas escolas públicas, embora de caráter facultativo, garantia da validade do casamento religioso e reconhecimento das instituições administradas pela Igreja. Na prática, o texto implicava uma forte intervenção da igreja na laicidade do Estado.

Mas o pontificado de Joseph Ratzinger trouxe sobre si o peso do tempo: tanto de seu tempo de vida, como um dos papas mais velhos da história, como também de um século. A Igreja adentrou o século XXI vitoriosa sobre o comunismo, mas tendo de lidar com a crescente tensão política e religiosa criada pelo Ocidente em suas desastrosas ações militares no Oriente Médio.  Como intelectual conservador, ele deu um direcionamento diferente ao de João Paulo II. Ao invés de optar pelo viés da conciliação, como fizera seu antecessor, tratou de expandir a influência da Igreja Católica, ameaçada em alguns lugares pelo crescimento do Islamismo e das igrejas protestantes, optando por uma gestão centralizadora, fechada ao social e ao diálogo.

As declarações polêmicas do papa contra outras religiões, seu conservadorismo incisivo contra o uso de preservativos e o homossexualismo nos leva a questionar: qual o papel da Igreja Católica em um Ocidente cada vez mais heterogêneo, secular, multicultural? A Igreja continuará sendo reticente com relação aos crimes cometidos por seus sacerdotes e a questões tão importantes como o uso de células tronco para tratamento de diversas doenças? Mesmo que ela se limite a defender a ética contra o relativismo moral, a desmoralização do clero com os escândalos de pedofilia e de corrupção tendem a tornar ineficazes suas iniciativas para isso. Apontar para uma modernização da Igreja, o que quer que isso signifique, poderia não ser uma solução viável para ela, haja vista que teria de abrir mão de alguns dogmas, pondo assim em xeque a própria autoridade do papado e sua pretensão de infalibilidade.  Assinalar para o fim do celibato também seria muito problemático, pois abriria pretexto para uma intensa discussão histórica acerca das causas de sua instituição, por exemplo, uma das razões para a proibição do casamento dos padres na Idade Média era para que eles não deixassem herdeiros e as terras ficassem como propriedade exclusiva da Igreja.

Mas o futuro da Igreja não é tão incerto quanto parece. Além de instituição religiosa, ela se constitui em um Estado, e por isso tem um forte poder de barganha com outros estados. O controle dos poderes temporal e espiritual nunca deixou de ser uma pretensão do papado, pois faz parte de sua formação histórica e não será abandonado. A modernidade representou mais três séculos de luta contra essa unidade. A Revolução Francesa foi o ponto culminante dessa tensão: ela foi não apenas uma revolução contra a monarquia e os privilégios da nobreza, mas também contra a Igreja. Apesar de tudo, a Igreja acumulou poder e influência suficientes para resistir às intempéries que a história veio a colocar em seu caminho. Papas não são escolhidos ao acaso nem por indicação do Espírito Santo. Contudo, é provável que a ala conservadora da Igreja eleja um sucessor que mantenha a mesma linha de Ratzinger. Durante seu pontificado a igreja esteve mais preocupada com concordatas e com a ampliação de sua influência do que com o diálogo e o reconhecimento de seus erros. Resta-nos ver até quando a cúpula do Vaticano manterá essa postura.

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12 thoughts on “(Des)caminhos do pontificado de Bento XVI

  1. Luciane Vasconcellos Neglia 12/02/2013 / 19:29

    Papas não são escolhidos ao acaso nem por indicação do Espírito Santo. Contudo, é provável que a ala conservadora da Igreja eleja um sucessor que mantenha a mesma linha de Ratzinger. Durante seu pontificado a igreja esteve mais preocupada com concordatas e com a ampliação de sua influência do que com o diálogo e o reconhecimento de seus erros. Resta-nos ver até quando a cúpula do Vaticano manterá essa postura.

    PARABÉNS….ADOREI SEU TEXTO, MUITO INSTRUTIVO E ESCLARECEDOR….
    ABRAÇOS.

    • Bertone Sousa 12/02/2013 / 19:32

      Oi Luciane, obrigado. Estava sentindo sua falta por aqui. Abraço.

  2. Lorena Asevedo 12/02/2013 / 23:53

    De um lado Silas Malafaia e cia e de outro o catolicismo querendo voltar no tempo e ter o mesmo domínio que teve no passado. Cada dia que passa temo mais o futuro. Excelente texto, Bertoni!

    • Bertone Sousa 13/02/2013 / 0:06

      Pois é, Lorena, o desejo de poder é algo que parece nunca ter fim em alguns líderes religiosos. Com o crescimento desses extremismos, realmente o futuro não é promissor. Obrigado por ler comentar.

  3. Jonatan 13/02/2013 / 4:50

    Algo que me chamou a atenção foi o comentário do porta voz do Vaticano sobre o informe da decisão do Papa: “Esta notícia pegou a maioria de surpresa”. Então devo imaginar que uma “minoria” sabia, o Papa tem muitos concelheiros, é política interna, seus possíveis sucessores já estão se articulando…
    Parabéns pelo texto! Sabia pouca coisa pré-Constantino, me agrada um Blog que aborda religião sem ser religioso, é mais imparcial.

    • Bertone Sousa 13/02/2013 / 11:05

      Jonatan,

      há até rumores na mídia de que ele já teria comunicado a intenção de renunciar há um ano. Certamente ele não teria tomado essa decisão sem antes ter comunicado os mais próximos. Ainda pretendo escrever mais sobre a história da igreja. Acho importante trazer essas informações.

  4. Ruben Nicolau Luft 13/02/2013 / 16:50

    Bertone, pelo equilíbrio que tens, gosto dos teus textos. Apenas uma observação: quando te referes à concordata assinada com o governo brasileiro, por Bento XVI, falas da garantia governamental do ensino religioso confessional nas escolas públicas. Não é o que diz nossa LDB – “O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. Portanto, nossa LDB (art 33) é explícita no tocante ao respeito à diversidade cultural e religiosa. Em apreço à verdade, julgo importante fazer esta observação. Interessante ainda atentar para o parágrafo 2º do mesmo artigo: “Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição do ensino religioso”. De minha parte, pelo viés progressista, arejado, plural e respeitoso, não tenho nenhuma restrição, no que tange ao embasamento legal, para a condução da questão religiosa nas nossas escolas públicas. No mais, abordaste com procedência, na minha opinião, a questão da instituição papal na Igreja Católica, e a figura histórica de Bento VI.

    • Bertone Sousa 13/02/2013 / 17:15

      Ruben,

      muito importante essa questão que levantaste. Realmente nossa LDB regula essa questão, o que nem sempre é respeitado pelas secretarias de educação de alguns estados e prefeituras, o que já levantou vários debates no país sobre como realizar esse ensino. Sobre a concordata, vou deixar aqui o link porque quero discutir o artigo 11, parágrafo 1°:

      http://res-publica.com.ar/public/Concordata%20Brasil%20Vaticano%202008%20pt.pdf

      Lá diz assim: “O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação”.

      Há uma sutileza nessa parte. O papa não viria pessoalmente assinar uma concordata se fosse para apenas ratificar uma lei da LDB. Esse artigo privilegia claramente o ensino religioso confessional nas escolas públicas. Como a LDB não define se o tal ensino religioso deverá ser de história das religiões ou não, ficou um texto vago dando vazão a abusos na sua aplicação, já que os professores irão ensinar religião a partir de sua própria filiação a uma delas, o que por si só já não garante o “respeito à diversidade cultural religiosa”. O que a concordata faz é prever um tratamento diferenciado, pois coloca um modelo dividido entre o católico “e de outras confissões religiosas”. Essa loteação prevê que o ensino seja confessional (católico ou outro) e não interconfessional como está na LDB, o que poderá provocar disputas por hegemonia em algumas redes de ensino. Já vimos isso acontecer no Rio de Janeiro e pode acontecer em outros lugares. Ora, a laicidade do Estado implica sua não interferência na escolha dos indivíduos no tocante à questão religiosa e o modelo confessional previsto pela concordata burla isso.

      • Ruben Nicolau Luft 13/02/2013 / 18:24

        Sou diretor de escola estadual e, na questão do Ensino Religioso, em nenhum momento tem havido qualquer pressão de qualquer lado,.Na Coordenadoria de Educação a qual pertence minha escola nunca ouvi a palavra concordata Pelo contrário, há encontros periódicos inter-religiosos, plurais, abertos para professores interessados em trabalhar a disciplina. Penso que o que importa é o que está expresso na nossa Carta e na Lei que rege a educação nacional. O resto são suposições que não encontram guarida na realidade, ao menos na vivida por mim. Como gestor público devo observância aos preceitos de ordem legal e não a concordatas. Será que sou herege?

      • Bertone Sousa 13/02/2013 / 18:43

        Ruben,

        acredito que o bom senso é o melhor caminho nesse caso. Assim como há professores que fazem proselitismo religioso nas aulas de religiões, também há aqueles que tentam transmitir uma visão mais pluralista. Há também o fato de muitos professores de religiões não terem preparo para transmitir a visão de mundo de outras religiões e terminam fazendo basicamente catecismo mesmo, com leitura da Bíblia, orações, o que numa escola pública é algo que deixa muito a desejar. Aqui em Araguaína, por exemplo, o Mané Mudança (vereador) criou um projeto de lei que foi aprovado na Câmara que determina que os professores (todos) devem fazer oração e leitura da Bíblia antes das aulas. Isso é inconstitucional. E o que aconteceria com professores não cristãos ou não religiosos que simplesmente decidissem não cumprir a tal lei? Esse tipo de coisa é problemático e deve ser evitado. Ano passado em São Paulo uma professora evangélica de história causou celeuma por ter sido pivô da estigmatização de um aluno candomblecista que se recusava a fazer orações em suas aulas. O caso foi parar na justiça. Discordo de você em um ponto, na realidade há muitos casos do tipo. Felizmente você vive uma situação diferente em sua escola. Creio que o diálogo entre os gestores e os professores é o melhor caminho pra se trabalhar essas questões e pensar em como discutir isso em sala de aula.

  5. ítalo richard 13/02/2013 / 19:06

    Muito bom o texto! Essa renúncia me pareceu uma artimanha do Vaticano, visto a pouca influência que esse Papa exerce até mesmo entre os fiéis católicos. Mas, enfim…religião é algo sempre muito polêmico.

    Abraço,
    http://www.todososouvidos.blogspot.com

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