Encruzilhadas do protestantismo brasileiro

igreja evangélicaAlguns teólogos protestantes como Silas Malafaia costumam afirmar que as nações mais poderosas do mundo e com mais qualidade de vida são as que aderiram aos ideais da Reforma. Eles acreditam que um Brasil de maioria protestante pode passar pelo mesmo processo. A primeira afirmação pode ser uma alusão desfocada à tese de Weber sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. A segunda é uma confiança equivocada e pretendo aqui demonstrar o porquê.

Os estudiosos do protestantismo brasileiro dividem sua inserção em nossas terras em algumas fases: durante a Colônia, especialmente com franceses huguenotes, mas que não criou raízes. No século XIX o protestantismo de imigração, que se estabelece no país graças aos Tratados de Comércio e Navegação assinados entre Portugal Inglaterra, que garantiam liberdade de culto a colonos ingleses. Posteriormente também vieram luteranos alemães e outros grupos. Mas esses colonos não estavam interessados (e nem podiam) disseminar sua fé. Suas cultos eram celebrados em sua língua materna e o advento do Império com a instauração do regime do Padroado impedia o proselitismo.

Houve ainda um protestantismo de exílio, com a vinda de norte-americanos que fugiam da Guerra de Secessão. Eram principalmente metodistas, presbiterianos e batistas. A vinda desses migrantes impulsionou o que se chama de “protestantismo de conversão”. O caráter denominacionalista e missionário do protestantismo americano influiu decisivamente na formação das religiões reformadas em nossas terras. Criaram-se escolas, instituições de caridade. Em geral esses migrantes seguiam a trilha do café e sua expansão para o interior do país esbarrava em uma série de dificuldades: a precariedade dos transportes, as distâncias, sua origem alóctone, o analfabetismo da população e o fato de o catolicismo ser religião oficial do Império.

Mesmo após a proclamação da República, levou mais de meio século para o protestantismo começar a ganhar projeção no Brasil. E esse incremento foi capitaneado pelas igrejas pentecostais. É preciso compreender que os protestantes sempre foram vistos com desconfiança pela população; o isolamento de algumas comunidades, a frugalidade e o ascetismo de seus hábitos reforçava a rejeição, a incompreensão e as adjetivações pejorativas.

Somente na segunda metade do século a situação começou a mudar, especialmente com o surgimento das igrejas neopentecostais no final dos anos 70 e sua inserção cada vez crescente nos meios de comunicação. Mas se o protestantismo brasileiro, por um lado, manteve forte dependência teológica de suas matrizes, por outro lado, também aculturou-se. E essa aculturação o fez diferenciar-se bastante do desenvolvimento do protestantismo na Europa e Estados Unidos. Nesse último país, por exemplo, universidades como Harvard e Princeton começaram como instituições religiosas, seminários, assim como outras de grande projeção. Nos Estados Unidos, organizações religiosas fundam e mantém grandes hospitais e instituições de caridade.

O protestantismo norte-americano assumiu duas feições ao longo de sua trajetória a partir do século XVIII: uma foi o deísmo dos pais fundadores da América, de Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, George Washington, fortemente influenciado pelos ideais do Iluminismo e pelo racionalismo científico. Outro, de proporções muito maiores e mais duradouras, foi o evangelicalismo, que surgiu como um movimento de oposição ao deísmo e como retomada dos princípios do pietismo: uma religiosidade pautada na autoridade da Bíblia, no compromisso com a religião e na expressão de emoções. Foram os protestantes devotados a essa concepção que provocaram o Segundo Grande Despertar nas três primeiras décadas do século XIX. É um tipo de religiosidade essencialmente anti-intelectualista e de traços fortemente populistas. Essa religiosidade também teve forte influência sobre o surgimento do pentecostalismo e na sua expansão para o Brasil.

Na Inglaterra, a Royal Society, uma das mais destacadas organizações científicas da modernidade nasceu no interior do protestantismo. No século XVIII, Voltaire elogiava o ambiente de liberdade de expressão vigente nas ilhas britânicas. No Brasil, por outro lado, o protestantismo jamais criou instituições similares. A Assembleia de Deus, há décadas a maior igreja evangélica do país, não possui uma universidade que faça jus a seu tamanho. Existem, é claro, as exceções: as universidades presbiterianas, metodistas e as escolas batistas e adventistas. Mas as igrejas pentecostais se concentraram apenas na criação de grandes impérios religiosos e, em muitos casos, no cultivo da ignorância e de atitudes obscurantistas. Os pentecostais brasileiros pretenderam copiar o modelo de igreja eletrônica dos Estados Unidos e de inserção de seus quadros na política. O resultado foi que a prática do fisiologismo se tornou comum após a redemocratização. A bancada evangélica é tão corrupta quanto outras, além de ter como uma das principais razões de sua existência a negociação de meios de comunicação.

Durante o Estado Novo, a Assembleia de Deus apoiava a ditadura de Vargas e adotou posição semelhante quanto à ditadura iniciada em 64. Outras denominações também a seguiram nesse posicionamento. A presbiteriana, por exemplo, silenciou vários líderes que adotavam uma visão progressista ou mais à esquerda e outras igrejas, como a Congregação Cristã e Deus é Amor, devido à sua pretensa neutralidade, se tornaram legitimadoras do status quo e socialmente inoperantes.

São posturas bem diferentes da que o protestantismo adotou alhures. Na Inglaterra, como bem demonstrou Christopher Hill, os puritanos tiveram participação decisiva na instauração de um regime constitucional no século XVII. Mesmo que Cromwell tenha instituído um regime com feições autoritárias num primeiro momento, a Revolução Gloriosa de 1689 culminou com a vitória da democracia e do parlamento. Nos Estados Unidos, o denominacionalismo que mencionei atrás já era por si mesmo uma organização democrática, uma forma de evitar que um grupo impusesse aos outros suas doutrinas. Esse modo de pensar a religião influenciou na hora de definir a separação entre religião e Estado, algo em que a República norte-americana foi pioneira, tendo se tornada um paradigma de liberdade de culto e expressão no mundo contemporâneo e ainda serviu de modelo para a obra magistral de Alexis de Tocqueville.

Mesmo o evangelicalismo que mencionei atrás possuía um forte viés desenvolvimentista. Como acreditavam na possibilidade de apressar a vinda do Reino de Deus, muitos evangélicos norte-americanos do século XIX condenavam a escravidão, a pobreza e defendiam a emancipação das mulheres. Também eram reformadores sociais, defendiam melhoras no sistema de saúde pública, nos transportes e no aprimoramento urbano, tecnológico e moral de sua sociedade. Os protestantes norte-americanos não gostavam dos resultados antirreligiosos da Revolução Francesa e usaram a religião para defender e promover as mudanças sociais que almejavam.

Já no Brasil, o protestantismo não criou esse viés desenvolvimentista e muito menos se destacou pela defesa de princípios democráticos. Sua preocupação sempre foi majoritariamente com seus interesses internos e não com o fortalecimento das instituições republicanas. Hoje, quando eles já alcançam cerca de 25% da população, essa expressividade numérica não é percebida em termos de ação social. O crescimento do protestantismo não tem contribuído substancialmente para a redução da criminalidade, como alardeiam alguns de seus líderes. Também não possui projetos eficazes de combate à pobreza e ao analfabetismo, se limitando mais a ações assistencialistas de baixo alcance e efêmeras. O aspecto positivo da inserção do protestantismo na política foi o afastamento do catolicismo dessa área. Mas, por outro lado, o combate à corrupção passa longe das posturas dos parlamentares protestantes. Seus interesses corporativistas estão acima dos interesses da sociedade brasileira, além de confundirem legislação com a defesa intransigente de princípios religiosos, alguns dos quais até inconstitucionais, como iniciativas que buscam tornar o ensino religioso obrigatório nas escolas.

Em geral, os protestantes brasileiros não cultivam a ciência, a cultura erudita, as artes. E em se tratando de instituições (neo)pentecostais predomina a intolerância, prática de estelionato e o estilo populista de líderes como Edir Macedo, Valdemiro Santiago, Silas Malafaia, R. R. Soares, Renê Terra Nova, entre outros. Obsedados por seu crescimento meteórico nas últimas décadas, os (neo)pentecostais brasileiros se tornam facilmente massa de manobra. As igrejas se tornam ambientes de projeção de seus problemas sociais. Os protestantes brasileiros não veem a pobreza e a miséria como problemas históricos, mas como males de origem sobrenatural. E isso facilita a emergência de líderes carismáticos que apresentam receitas mágicas e fáceis de serem assimiladas por milhões de pessoas que buscam ascensão social, alívio de crises pessoais ou, simplesmente, significados para suas vidas. Também facilita o uso dessas igrejas por políticos inescrupulosos, que concedem favores a seus líderes em troca de apoio durante as campanhas eleitorais. A ausência de consciência do que seja exercício de cidadania entre os protestantes brasileiros os tornam engessados em uma visão mágica do mundo, acrítica e conformista.

Ao adotar teologias de origem norte-americana, os líderes dessas religiões esquecem a especificidade de nossa formação social, rejeitam o diálogo com outros credos e legitimam a lógica do Destino Manifesto: os ricos são ricos porque Deus lhes concedeu esse dom e os pobres são pobres porque não têm Deus. Dessa forma, o protestantismo (neo)pentecostal brasileiro se torna uma religião legitimadora do subdesenvolvimentismo, incapaz de promover ou reivindicar mudanças sociais de grande abrangência e focada apenas em um modelo de culto extático, histérico, do espetáculo, da prosperidade fácil, alcançada mediante barganha com uma divindade, a sujeição ao discurso do pastor/bispo/apóstolo, a repetição de chavões e fórmulas e da busca desbragada por sucesso. É o cultivo da ignorância e da subserviência como virtudes. É um protestantismo marcado pela polaridade de mania de grandeza e perseguição, porém coronelista, verticalista, corporativista e inexpressivo em termos de melhorias sociais e projetos políticos relevantes.

Anúncios

24 comentários sobre “Encruzilhadas do protestantismo brasileiro

  1. Plábio Desidério 25/12/2012 / 21:12

    Caro Bertone, texto muito bom. Acrescentaria – sem ser materialista – a influência decisiva do modelo neoliberal que atingiu o neo-pentecostalismo, potencializando da teologia da prosperidade. Influenciando também a Renovação Carismática Católica. Apropriando-se das características liberais, como o individualismo, uma pseudo-meritocracia, o discurso religioso cristão que se tornou hegemônico “prega” uma despolitização social e uma desmobilização e aproxima-se de elementos fascistas. Alguns padres ligados a teologia da libertação já advertiam na década de 80 com essa guinada à direita e utilizaram a expressão: volta à grande disciplina, que se iniciou na Igreja Católico com o pontificado de João Paulo II e agora continua com Bento XVI. No pentecostalismo e principalmente, no neo-pentecostalismo a grande disciplina, casou com o neoliberalismo e a teologia da prosperidade. Sera´que pode ser um ovo da serpente???

    • Bertone Sousa 26/12/2012 / 1:13

      Plábio,

      seja bem-vindo, é um prazer tê-lo como leitor aqui. De fato, a teologia da prosperidade, até pelo contexto em que surgiu serviu muito a esses interesses políticos e econômicos do final dos anos 70 e início dos 80. Gerou despolitização por um lado e por outro engajamento da bancada evangélica em prol da defesa de interesses corporativistas. E também tem o movimento da Maioria Moral de Pat Robertson e Jerry Falwell que foi iniciado pra fazer frente ao secularismo e ao feminismo, reativando uma onda de conservadorismo nos Estados Unidos que depois também teve suas repercussões por aqui.
      Agora a questão da RCC realmente é interessante pelo uso político desse movimento contra a teologia da libertação. Juntando a isso a crise do marxismo e a perda de referenciais das esquerdas e dos movimentos sociais, esses segmentos religiosos se viram vitoriosos no processo e hoje constituem verdadeiros impérios; um exemplo claro foi a inauguração do maior templo católico no Brasil esse ano pelo padre Marcelo Rossi. Valeu pela contribuição, realmente são questões importantes de serem colocadas.

      • Nilson de simas 26/12/2012 / 3:37

        Por enquanto nada disto é preocupante, dada a indiscutível baixa qualidade intelectual de seus seguidores. Entre em quaisquer igrejas e procure pós graduados, mestres, doutores e terás uma grande decepção. Não estou aqui a afirmar que não seja possível, contudo, afirmo com convicção, serem um universo praticamente nulo. A doutrinação é a mãe e o pai de todas as ignorâncias e os inteligentes não se sujeitam a isto.

        O ateu sempre é mais intelectual, não por uma questão de superioridade de seu QI, simplesmente porque o ceticismo caminha com a pesquisa, com o questionamento, com as dúvidas e se dá muito bem, eu diria que até invoca as contestações para poder se firmar com uma verdade discutida, debatida democraticamente, algo muito contrário das religiões que impõem suas pseudo verdades com a intimidação e ameaça do fogo do inferno.

        Imagine um paleontólogo e ou geólogo dentro de uma igreja e o pregador alardear que a terra foi feita 6000 anos atrás com o clicar de uma varinha mágica, teriam dores estomacais de tanto rir.

        São seitas populistas, de massas que exploram os cérebros desinformados, invocando as suas fraquezas com o aguçamento da prosperidade em Cristo, em poderem ter tudo aquilo que o vizinho tem e ele não. Diante desta injustiça de desigualdade, entra o salvador para restabelecer a ordem das coisas e passada a faze da isca e o anzol vem a fisgada do peixe e o regozijo da bonança.

        Em nada me incomodo com a crença alheia, contudo, quando se arvoram na pretensão arrogante, petulante e atrevida de postularem o absolutismo do pensamento, há um preço a ser pago, o preço de ter que lidar com o avesso, o preço do cérebro acostumado a ouvir que só existe a e b, saber que existem pessoas com a certeza do c.

        “Quando te tiveres emancipado dos Deuses do Céu e da Terra, quando te tiveres desembaraçado dos chefes de cima e dos chefes debaixo, quando tiveres levado à pratica este duplo gesto de libertação, então, mas então somente, ó meu irmão, sairás do Inferno em que te encontras para entrar no Céu que tu realizarás! Deixarás as trevas da tua ignorância, para abraçar as puras claridades da tua inteligência, desperta, já, das influências letárgicas das religiões!”
        Sebastien Faure

  2. Cafajestes Sedentários 26/12/2012 / 12:32

    Cara,com todo o respeito (inclusive peço desculpas se ofender alguém) mas estes ”protestantes” não passam de farsantes escrotos querendo enganar pessoas fragilizadas.Tenho verdadeira aversão por esses fanáticos que mancham o nome de Deus.

    • Nilson de Simas 29/12/2012 / 11:01

      Acho que emitir opinião, não requer pedido de desculpas muito menos representa desrespeito. As pessoas costumam escrever “com todo o respeito” antes de iniciar opinião que diverge. Não aplico este critério porque considero que a ninguém cabe o direito de não se sentir ofendido com o pensamento alheio.
      E tens razão em relação à chatice de alguns evangélicos, que são bem piores que os drogados, aos drogados basta alguns trocados para se livrar deles, já o evangélicos com a dita sabedoria superior do espírito santo……………………………..????????????????

  3. Marília 26/12/2012 / 13:25

    Cada um segue a religião que quer, mas só não vê quem é cego, que essas instituições cada vez crescem mais e com o dinheiro do povo que está fragilizado e assim as sustenta.
    Esse Silas Malafaia é um hipócrita idiota.

  4. Claudio Jorge Chamun (@cchamun) 26/12/2012 / 23:31

    Está ai um assunto que eu não domino e não me intrometo, mas é impossível fechar os olhos. A origem do protestantismo, vem do Martin Lutero que protestou contra a igreja católica que há séculos quer mandar no mundo. Até ai não tenho nada contra. Só que as derivações realizadas por oportunistas que exploram a fé do povo é que denigre qualquer segmento religioso.

    http://www.cchamun.blogspot.com.br
    Histórias, estórias e outras polêmicas

    • Nilson de Simas 28/12/2012 / 11:29

      PLÁBIO!

      Penso, que com o advento da internet e com a absurda facilidade de compartilhamento de informações e pluralidade de expressão do pensamento, a religiosidade se encaminha para um inexorável processo de desaparecimento.

      Veja, que nossos universitários, quando não irreligiosos, se sentem envergonhados e constrangidos em declararem suas crenças e religiões, com medo de se passarem por néscios. Já não existe mais àquele orgulho de se bater no peito e se declarar católico apostólico romano ou quaisquer outras.

      Os mais serelepes, alegam ser a fé, uma palavra inventada para que não chamemos de loucas, as pessoas que falam sozinhas e acreditam em coisas sem provas.

      Arrisco a afirmar que em 300 anos o processo se completará, no momento, para o não observador é difícil quantificar e traçar uma tendência, no entanto, pra os que se predispõem ao contexto, tudo é muito perceptível.

      Por fim, julgo ser o secularismo, um caminho de ida sem volta. Acho

      Forte abraço

      • Plábio Desidério 29/12/2012 / 8:06

        NILSON.

        Observo que depende da situação, ou mesmo o período histórico para os indivíduos se expressarem como religiosos. Aqui em Araguaína, mais precisamente na UFT percebo que muitos alunos se expressam constantemente como pessoas ligadas em alguma Igreja.

        O processo de secularização não é contínuo e sim descontínuo (no sentido foucaultiano mesmo). Se no século XIX e XX vemos um avanço da secularização motivada pelo iluminismo, pelo racionalismo (ciência), vemos também, principalmente no final do século XX e atualmente um recrudescimento do fundamentalismo em muitas religiões. Mas, não significa que o secularismo tenha diminuído, apenas o processo é de descontinuidade.

        O meu receio é um possível aumento do fundamentalismo, como qualquer outro mesmo entre os iluministas, provoque consequências nefastas.

        Abçs

  5. Bertone Sousa 28/12/2012 / 17:43

    Plábio,

    ainda não vi o video todo porque minha internet 3G em Imperatriz é super lenta. Mas até onde vi é muito interessante e me lembrou um livro que li há alguns anos, não sei se conheces, “Uma Nação com Alma de Igreja”, organizado por uns professores e pós-graduandos da UNESP, que fala sobre a histórica relação entre religião e políticas públicas nos Estados Unidos.

    O livro foi lançado pouco depois da primeira eleição do Obama e há alguns capítulos sobre ele, elogiando esse perfil que ele tem mais secularista em comparação com os antecessores. O fato é que apesar das muitas semelhanças, o Partido Democrata é mais progressista do que o Republicano. Até porque os protestantes mais alinhados à visão fundamentalista votam em peso em candidatos republicanos, já que seus programas políticos comumente envolvem a interferência de princípios religiosos na política estatal. Isso aconteceu muito no governo Bush, que inclusive o video menciona.

    • Plábio Desidério 29/12/2012 / 8:17

      Bertone,

      Uma questão interessante no programa, foi a abordagem da religião na relação entre o público e o privado na Inglaterra e o no Brasil. Realizando uma comparação, a partir dessa abordagem, percebe-se que na Inglaterra a religião é oficial (chefiada pela rainha), mas não interfere no cotidiano das pessoas, pois as mesmas preferem se ausentar de debates. O parlamento inglês procura tornar-se um espaço secular e isso se estende à sociedade inglesa.

      No Brasil a religião é separada do estado, mas a sociedade é ainda muito religiosa. E as pessoas (digo políticos também) querem levar os “princípios” religiosos para o espaço público, estatal. Os políticos que não são ligados à “bancadas” evangélicas ou católicas, também tem que fazer concessões para não agredir à sociedade. Isso me faz lembrar a distinção entre o Brasil real e legal, apontado por Machado de Assis e desdobrado por Roberto DaMatta.

      Somos um Estado laico, mas uma sociedade religiosa e que como tudo no Brasil se confunde, ocorrendo promiscuidade e conflitos movido como sempre por interesses privados.

      Abraços

      • Bertone Sousa 29/12/2012 / 11:07

        Plábio,

        agora minha conexão me permitiu ver todo o vídeo. Uma questão interessante colocada é a evocação do conceito spinosano teológico-político, que parece explicar o que colocaste sobre a religião no espaço público; uma tradição que existe tanto na Europa quanto aqui, o fato de o secularismo não afastar completamente a religião do estatal, mas até certo ponto negociar com ela, como fez o Lula em 2008 com o papa ao instituir o ensino religioso facultativo na escola pública. Gosto como o Canclini trabalha essa questão na América Latina a partir do conceito de hibridismo. A não homogeneidade do secularismo é bem trabalhada no documentário.

        Agora no Brasil a Igreja demorou a aceitar a separação do Estado e até hoje ela tenta intervir. O crescimento de outros credo inibiu mais essa postura, mas por outro lado os pentecostais são um tanto agressivos na forma como pretendem legitimar seus interesses. Em Araguaína o Mané Mudança tentou se reeleger a vereador com a única bandeira de ter sido o autor do projeto de lei que tornava a leitura da Bíblia obrigatória nas escolas municipais diariamente antes das aulas. O projeto é inconstitucional e foi aprovado e são atitudes como essa que não podem acontecer, porque eles confundem o fato de a sociedade ser religiosa com a crença de que o Estado e o espaço público também devem ser e isso é um problema enorme. Felizmente ele não foi reeleito mas a lei está em vigor.

  6. Nilson de Simas 29/12/2012 / 11:06

    PLÁBIO – Considero que sua análise não tenha sido feita à luz do advento da internet, que leva com muita facilidade o pluralismo de interpretações e socialização da maravilha chamada ciência. De todo modo, para mim é muito importante interagir e sentir como os outros pensam. Sou de Joinville-Santa-Catarina – NDSIMAS@YAHOO.COM.BR
    Boas festas e fique em paz.

  7. Ricardo Toledano 07/01/2014 / 22:41

    Bertone quanto a isso acho que você entendeu bem a situação mas faltou ver as separações e as origens dos movimentos fora do Brasil e como eles interagiram com esses aqui dentro.

    As igrejas “mais evangelicais” nos EUA agem de forma semelhante aos protestantes brasileiros não pentecostais, vivem da ideia de avançar uma guerra cultural, são politicamente ativas e não produzem socialmente o que as agora esvaziadas denominações “mainline” produziram (tais como as grandes universidades da costa leste), não a toa a grande inspiração dos evangélicos brasileiros é Billy Graham, que sabe-se inicialmente foi bem ambivalente ao movimento de direitos civis nos EUA, um comportamento bem semelhante ao apresentado pelas denominações brasileiras no que diz respeito a questões sociais.

    O grande crescimento no Brasil, mesmo em denominações históricas veio com os “neo-evangelicalistas” dos quais Graham foi uma das figuras principais, esse movimento nasceu do movimento “fundamentalista” (que é de onde esse nome veio ao se referir a religião), basicamente é um “fundamentalismo light”, diferente desse encarava o mundo e o chamava a conversão, o enfoque em conversão vem de antes disso, nasceu nos grandes avivamentos, mas foi aí ele tomou a forma que é usada no Brasil, usando as mídias modernas para isso e sempre tendo a ideia de que conversão é um momento.

    Em si esse movimento, como seu movimento pai o “fundamentalismo” é extremamente anti-intelectual, fato que mereceu um livro do autor, protestante e evangélico, Mark Noll, “The Scandal of the Evangelical Mind” que recentemente completa 20 anos.

    O que Noll escreve é exatamente o que acontece no protestantismo brasileiro, digo isso como alguém que presenciou isso ao crescer no meio, com pais em denominações diferentes.

    • Bertone Sousa 08/01/2014 / 8:55

      Ricardo, você está confundindo um pouco as coisas. Billy Graham não tem relação com o movimento fundamentalista, que é anterior a ele. Mas há um diálogo entre esses segmentos, principalmente pela importância que ele teve como conselheiro da Casa Branca e como evangelista mundial, ainda mais nos tempos de guerra ideológica da Guerra Fria. Não gosto do termo “fundamentalismo light”; é importante usar os conceitos corretamente ou se faz uma salada de coisas sem se explicar nada. Em meu texto, distingui dois tipos de protestantismo nos Estados Unidos e não quis enfocar o tema da conversão nos grandes avivamentos como precursora do fundamentalismo. Sobre esse último, falei um pouco mais em outros textos. O texto teria perdido o foco e ficado muito longo seu eu tivesse historicizado essas origens e sua repercussão aqui no Brasil.

      • Ricardo Toledano 08/01/2014 / 15:44

        Acho que posso ter confundido as coisas de fato, lembro de ter lido que Billy Graham dialogou com Bob Jones e chegou inclusive a entrar na universidade que esse abrira mas acabou se desentendendo com ele, vou dar uma olhada nos livros que tenho sobre isso pra ter uma visão melhor.

      • Bertone Sousa 08/01/2014 / 18:13

        Billy Graham está mais ligado à difusão dos cultos itinerantes, ou em tendas, como também foi o caso de Aimee Semple Macpherson, fundadora da Quadrangular. Você deverá encontrar alguma referência a isso em seus livros.

  8. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 21/08/2015 / 22:18

    Professor Bertone Sousa,qual a sua opinião sobre Caio Fábio?Eu sou ateu,fui criado em uma família católica,e apesar de possuir uma tia protestante,jamais frequentei uma igreja dessa denominação,mas a algum tempo tive curiosidade de acompanhar esse pastor,desde que vi uma entrevista deste no programa do Danilo Gentilli no Sbt https://www.youtube.com/watch?v=1ROa3zpShS8 Ele disse ter sido pastor presbiteriano por muitos anos,no entanto nesses últimos anos,ele se tornou independente,e separa claramente de Jesus da religião,ele diz que Jesus é uma coisa,e o cristianismo inventado pelo imperador romano Constantino é outra,eu nunca tinha visto alguém pensar dessa forma,eu pergunto é possível ser cristão,sem ser religioso?Separar Jesus do cristianismo?

  9. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 21/08/2015 / 22:19

    Porque Caio Fábio se identifica apenas como seguidor de Jesus,diz não ser cristão protestante,nem de nenhuma denominação,tanto que realiza reuniões em sua casa,de modo independente,diz não ser de nenhuma igreja,diz que os próprios fiéis que são a igreja,a igreja não é nenhum prédio ou instituição na opinião dele.Isso é possível?

  10. Gabriel Ramos Tavares de Pinho 21/08/2015 / 22:24

    E o senhor acredita se pastores dessa linha,ganharam espaço na mídia,pastores que não se definem como religiosos,nem pregam uma ideologia religiosa,com placa de igreja,e várias doutrinas,se diminuiria o fundamentalismo?Porque vejo o Caio Fábio como um contraponto ao fundamentalismo!

  11. Gilvan Monteiro da Rocha 26/05/2016 / 23:44

    Hoje, na chamada “marcha pra Jesus”, um líder afirmou que Deus vai curar o Brasil da corrupção. Esse discurso tem muito a ver com a ideia de um pais que prospera, simplesmente por ser protestante. Ou seja, não precisamos marchar contra a corrupção, não precisamos protestar, não precisamos confrontar os corruptos, basta crer e tudo vai acontecer de forma milagrosa. Entretanto, não podemos deixar de pensar no fato de que além de se tratar de contextos diferentes, as riquezas acumuladas pela Europa protestante não seria possível sem o processo de dominação a que foram submetidos parte significante da Ásia e África e, no caso dos Estados Unidos, a América Latina, principalmente. Não se pode falar em riqueza na Europa e Estados unidos, sem falar em escravidão, dominação, imperialismo. Penso que um dos maiores perigos desse discurso protestante no Brasil, é seu poder infantilizador e fomentador da ignorância em favor da defesa dos interesses dos que o proferem. Lideres falam, os crentes acreditam, e todos ficam aguardando um milagre que nunca vai chegar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s