Para quem é a história?

historia-livrosNossa época vivencia um crescente interesse por temas históricos, desde guerras e histórias regionais até biografias. Se você for a uma banca de revistas, verá vários periódicos especializados em temas históricos, como a Aventuras na História, História Viva, Revista de História da Biblioteca Nacional e por aí vai. O mercado editorial tem aproveitado bem essa demanda por história com publicações voltadas para o público não especializado, ou seja, para as pessoas que não cursam ou não são formadas em história. Nesse passo, é importante questionar o que tem gerado tanto interesse por história e a quem essa procura beneficia? 

Quem inicia um curso de história em qualquer faculdade geralmente tem contato com a obra Apologia da História ou o Ofício do Historiador, de Marc Bloch, um historiador franco-judeu morto pela Gestapo durante a Segunda Guerra Mundial. O livro é um manual propedêutico da área: o autor discute o que é história, o que são fontes históricas, o que faz um historiador, o que é o método histórico. Nele, Bloch diz logo no início que, se a história não servisse para nada, serviria pelo menos como entretenimento.

É basicamente isso o que fazem as publicações para o público não especializado: são literaturas de entretenimento. É claro que seu objetivo também é despertar interesse pela área, informar, levar conhecimento, mas elas o fazem numa linguagem que entretém. Não estou aqui me opondo a esse tipo de literatura histórica, pelo contrário, considero bastante positiva a iniciativa de historiadores profissionais ou diletantes de levar esse conhecimento ao grande público.

Nessa postagem, há duas questões que pretendo levantar: a primeira é pra que serve, então, a história, e o que tem causado esse interesse crescente por ela. Vivemos numa sociedade em que as informações são produzidas em ritmo extraordinariamente rápido, ao mesmo tempo em que estão disponíveis a um público cada vez mais amplo através da internet. A facilidade de acesso a informações nos caracteriza como uma sociedade de leitores, juntamente com a expansão da alfabetização.

Com tanta informação disponível é natural que muitas pessoas e grupos se sintam desnorteados e queiram dar sentido a suas vidas a fim de entenderem seu lugar na sociedade. E dessa forma elas se tornam consumidoras e às vezes até criadoras de histórias. E seus questionamentos as conduzem inevitavelmente ao passado.

Mas o interesse pela história, especialmente por biografias, também pode ter origem num sentimento narcisista: queremos nos identificar nela, criar um ideal de grandeza. Escrever e consumir autobiografias se tornou uma prática comum em nossa época. Quem tem acompanhado os telejornais da Record ultimamente tem visto o anúncio dos recordes de venda da autobiografia de Edir Macedo, Nada a Perder; são dezenas de milhares de pessoas formando filas quilométricas à espera das livrarias abrirem para comprarem seus exemplares.

Pessoas que talvez não tenham lido outros livros nos últimos anos ou nunca tenham ido a uma livraria concedem entrevistas bastante entusiasmadas contando como estão ansiosas para adquirir o livro. No subtítulo, Macedo fala de convicção, um elemento indubitavelmente importante para atrair público numa era de incertezas como a nossa; (auto)biografias como esta podem transmitir a ilusão de grandeza, linearidade, propósitos preestabelecidos, metas bem definidas e jamais perdidas de vista. Aí está um exemplo de consumo narcisista de literatura biográfica: os leitores querem ratificar aquilo que já pensam de seu líder, querem se identificar com ele, vê-lo como espelho.

O consumo de literatura histórica também pode estar ligado a um desejo de fuga do presente. Pessoas refugiam-se no passado para buscar aquele mundo que julgam que era mais simples, organizado, a visão idealizada do passado. Na modernidade (séculos XV a XVIII), o interesse pela história estava relacionado à ascensão do Estado-nação: as primeiras narrativas eram crônicas redigidas por escribas que buscavam conservar as memórias de reis e generais. Havia também as famílias que preservavam suas genealogias como um passado particular para transmitirem às gerações seguintes. É a consciência do tempo presente que define como deve ser lido o passado.

Através da história, pessoas, grupos e nações dão sentido ao mundo, modelam valores. Governos a utilizam para criar sentimentos de unidade nacional. Em cada época, a preservação do passado sempre foi monopólio de uma pequena camada de pessoas letradas. E aqui entro na segunda questão que quero levantar. O senso comum vê a história como o conhecimento do passado. Marc Bloch a definia como “ciência dos homens no tempo”. Para além das definições abrangentes, é importante que se saiba que a história é sempre um lugar de disputa. Qualquer conhecimento que tenhamos do passado é uma invenção. Invenção não no sentido de ser mentiroso, mas no sentido de que é sempre um recorte feito por alguém, é sempre uma montagem. Isso porque a história é um discurso a respeito do mundo, um discurso que não cria o mundo, mas dá a ele um conjunto de significados, apropriando-se dele. Atribuir significados ao mundo: é isso, em última instância, o que os grupos disputam entre si, a hegemonia e o poder de disseminar os significados que dão ao mundo.

Todas as pessoas que estudam história sabem que não há conhecimento histórico desinteressado, objetivo, isento de intercalações. O conhecimento do passado serve para justificar qualquer coisa que se queira no presente. É isso o que torna a história um campo permanente de disputas: há grupos em pugna para universalizar seu entendimento do passado. Nas escolas muitos gestores têm medo do que os professores de história podem ensinar. Em geral escolas privadas estão ligadas a determinados grupos e interesses políticos locais conservadores, e professores de humanas que não estão alinhados a essa visão de mundo podem colocar seus patrões em maus lençóis. Mesmo que não o façam, patrões temem funcionários que pensam de maneira diferente e eles sabem que professores de história têm a tendência a não concordar facilmente com as coisas, por isso em geral preferem escolher aqueles que estão mais dispostos a aquiescer do que a discordar.

O historiador britânico Keith Jenkins, autor do livro A História Repensada, diz que antes de qualquer coisa, o que deve ser perguntado é: para quem é a história? Uma narrativa histórica pode ser conservadora, progressista, pode enfocar movimentos sociais positivando-os ou depreciá-los, pode ser laica, teológica, dependendo de quem a escreve e para quem a escreve. Pode evocar uma era de ouro perdida como fizeram os nazistas, culpando e pregando o extermínio de outros povos por um período de decadência que vivenciam. Ou ainda conclamar para uma ação revolucionária, a partir da qual as individualidades devem ser sacrificadas em nome de um suposto bem coletivo, como fizeram os comunistas.

Documentos históricos podem ser destruídos para que determinadas informações não cheguem às próximas gerações. Assim fizeram as igrejas cristãs dos primeiros séculos, queimando e enterrando inúmeros documentos preciosos, tanto de filósofos quanto de outras correntes teológicas das quais discordavam. Assim também fazem os regimes militares e totalitários. Tudo o que temos do passado são apenas pequenos fragmentos que nos chegaram dele e com os quais os historiadores se debatem para construir suas narrativas.

Não conhecemos o passado apenas pelo passado; nós o lemos como um texto que carrega as marcas das ferramentas analíticas e metodológicas de seus escultores (os historiadores). Isso significa que o que sabemos sobre o passado é apenas o que os historiadores dizem acerca dele, do recorte e dos arremedos que fazem. Por isso o passado tem sentidos diferentes para grupos diferentes, pois cada grupo lhe atribui um sentido de acordo com suas necessidades e com os critérios que julga serem mais relevantes. Não há consenso sobre o passado porque as interpretações que dele fazemos são elaboradas para agradarem a nós mesmos. O consenso somente pode ser obtido pelo silenciamento de outras vozes por um poder dominante.

A sociedade está eivada de interpretações dissonantes do passado, campos de força que tentam atrair você para sua área de influência; cada um deles disputando sua simpatia, sua adesão, seu corpo, sua mente. Dizer que a história é um discurso significa dizer que está sempre a serviço de alguém, que cada interpretação do passado inclui e exclui visões de mundo segundo categorias que agradam a alguém e que nenhuma narrativa é inocente ou desinteressada. Por isso é importante discutir o que as pessoas absorvem quando consomem tanta literatura histórica, quem ou o quê está tentando arregimentá-las e a quem interessa toda essa literatura que é produzida. Claro que há diversos sujeitos envolvidos no processo, autores, editores, livrarias, segmentos sociais e nem todos eles com os mesmos propósitos. Mas nas entrelinhas de todo o processo estão discursos meticulosamente elaborados para serem consumidos pela sociedade e que podem produzir impactos sociais e políticos significativos.

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7 comentários sobre “Para quem é a história?

  1. jacbagis 02/12/2012 / 0:34

    tudo o que é referente à História me chama muito a atenção… quem sabe, um dia, eu não me torno uma historiadora?

  2. Munhoz 06/12/2012 / 1:06

    Parabéns pelo blog, Bertone. Gostei desse post. Conseguiu fazer uma introdução a História acadêmica com uma linguagem bastante acessível. Seu blog está famoso graças a um vídeo em que o “professor” Olavo de Carvalho te critica. Quem dera ele fizesse o mesmo com o meu. Ia ser uma baita audiência positiva, do meu ponto de vista, rsrs. Vou até divulgar seu site lá no “Tempos Safados”.

    Abraços!

  3. Marília 29/12/2012 / 13:09

    Legal, amo História e sempre tô estudando um pouco, apesar de não me enveredar por esse caminho profissionalmente. Bjos e boa passagem de ano.

  4. Daniel 31/10/2014 / 21:32

    Professor, gostaria de saber o que o senhor e a academia pensam acerca dos livros da série História politicamente incorreta do brasil de Leandro Narloch. Há alguma veracidade histórica nessas obras?

  5. Bertone de Oliveira Sousa 31/10/2014 / 22:11

    Daniel, ninguém comenta esse livro na academia. Primeiro porque o autor não é historiador profissional, é jornalista; segundo, porque a série é escrita a partir de um viés ideológico de direita, sob o rótulo de desconstrução de uma história “esquerdista” que nem existe mais no Brasil; terceiro, as abordagens são rasas e as informações não são novas. Os livros são dirigidos a um público leigo, de direita. O que eu tenho é o da história do mundo, e vi interpretações duvidosas, como sobre a Revolução Industrial, Hitler, isso só numa folheada rápida e pouca problematização histórica. É basicamente uma obra de militância. Não admira que o autor tenha sido colunista da Veja.

  6. Márcio 21/02/2017 / 15:38

    Bertone, conheço um caso interessante para lhe contar. Trata-se de uma vizinha minha, já falecida, aqui no meu condomínio, no apartamento 887, ao lado do meu. Era a dona Matilde, uma simpática velhinha de cabelos branquinhos como algodão, já nos seus 80 anos. Pois bem, essa senhorinha era fanática por livros de História. Em seu apartamento, de quatro quartos e duas amplas salas era abarrotado de livros, em altas estantes de metal, até o teto, apinhadas de livros, revistas e recortes de jornais. Era impressionante a inteligência e a cultura da idosa, que sabia falar oito línguas, entre elas, o alemão e o esperanto. Acho que ela dispunha de mais de 20 mil livros em sua biblioteca, que se esparramava pelos corredores, área de serviço e até nos três banheiros do imóvel de 300 metros quadrados. Ninguêm no prédio saía para fazer pesquisas escolares em outras bibliotecas públicas da cidade: todo mundo ia diretamente bater à porta da dona Matilde quando precisava fazer alguma pesquisa escolar ou uma consulta para sua defesa de tese na faculdade. Tudo issso, antes do advento da Internet. Mas, o que me chamava a atenção era o seu imenso acervo acerca da Monarquia e sua vasta história, desde a Antiguidade até o século XX, em todos os países que a adotaram. Ela conhecia todas as Casas Reais, seus membros, seus herdeiros atuais, suas respectivas datas de nascimento e morte, tudo, com uma riqueza de detalhes impressionante. Seu xodó, porém, era as monarquias européias, pelas quais ela nutria um carinho, uma devoção quase religiosa. Dizia-se uma anti-republicana convicta! Ela pertenceu à TFP, em São Paulo.

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