Por que não é possível acabar com a religião?

meca1Se a religião for tirada das pessoas, outra coisa deverá ser posta em seu lugar. Comte propôs a ciência, comunistas e nazistas transformaram seus regimes políticos em religiões de Estado, ao mesmo tempo em que baniram as outras.

O filme O Livro de Eli (2010), estrelado por Denzel Washington, retrata um mundo pós-apocalíptico devastado por uma grande guerra que dizimou a maior parte da humanidade e onde as piores observações de Hobbes sobre a ausência do Estado se tornam realidade. No Filme, Denzel Washington interpreta Eli, um homem errante que, apesar de sempre andar armado, busca viver em paz. Sua tranquilidade, no entanto, dura apenas até encontrar um vilarejo controlado por um chefe de bandidos, Carnegie, interpretado por Gary Oldman e cuja filha, Solara (Mila Kunis) se apaixona por Eli.

Apesar de déspota, Carnegie adora ler e costuma recompensar aqueles que lhe trazem livros. Mas há um livro em especial que ninguém mais consegue encontrar e que ele desejar obter a todo custo. Hospedado no vilarejo de Carnegie, Eli é o único homem que possui o livro e o carrega secretamente consigo em uma mochila. Durante a trama descobrimos que se trata da Bíblia. Quando descobre que Eli a possui, Carnegie tenta convencê-lo a fazer uma troca; ao perceber que seus esforços são inúteis, passa a persegui-lo para tomar o livro e a filha que foge com ele.

Perguntado sobre o porquê de fazer tanta questão por este livro a ponto de perseguir um homem até a morte, Carnegie responde que com este livro é possível dominar as pessoas, torná-las mais dóceis, obedientes, governá-las com mais facilidade. Curioso é que em uma cena anterior, entre os livros de Carnegie, constava uma biografia do ditador fascista italiano Benito Mussolini que, através de um acordo com a Igreja Católica, criou o Estado do Vaticano em 1929 em troca de apoio político.

Quando, porém, consegue tomar o livro de Eli, descobre que está grafado em braile, linguagem que desconhece. Pede então que sua esposa, que vive praticamente cativa em seu casarão, o leia em voz alta, o que ela recusa. Posteriormente Eli consegue retomar o livro e o leva para o que considera ser um lugar seguro, uma espécie de comunidade cristã, onde o doa, possibilitando um longo trabalho de tradução do braile e a reimpressão de milhares de exemplares.

O Filme pode suscitar uma série de reflexões sobre o papel político das religiões e dos livros sagrados em determinados contextos. Desde as teocracias do Oriente Próximo, até alguns dos regimes mais sanguinários da era contemporânea, a religião exerceu papel determinante na legitimidade de regimes políticos despóticos. Entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, diversos intelectuais tentaram antecipar o fim das religiões anunciando o advento de uma era de felicidade e autorrealização humana por meio da ciência e da produção material.

Comte chamava este período de estado positivo e conclamou até mesmo a criação de uma religião da humanidade pautada no ideário científico. Para Marx, o advento do comunismo retiraria a humanidade da pré-história, tornando desnecessárias organizações que outrora justificavam ideologicamente a divisão da sociedade em classes, como o Estado, o aparelho jurídico e a religião. No século XX, o comunismo foi sem dúvida a mais ousada tentativa de banimento da religião. Durante sete décadas, o Estado Soviético fez uma forte propaganda antirreligiosa, derrubou templos, fechou outros para colocar departamentos de Estado em seu lugar, destruiu símbolos religiosos, enviou sacerdotes para campos de trabalho forçado, transformou o ateísmo em ideologia de Estado e proibiu cultos e distribuição de livros sagrados.

Mas mesmo toda a pertinácia dos comunistas não foi suficiente para suprimir o sentimento religioso. Tão logo o regime colapsou, a igreja ortodoxa reabilitou-se e hoje é uma das instituições mais fortes e influentes da Rússia, sendo inclusive apoiada e apoiando o regime de Vladimir Putin. É emblemático o caso das garotas do grupo punk Pussy Riot, condenadas por críticas que fizeram a Putin e acusadas de prática de vandalismo contra símbolos religiosos.

Freud, embora não partilhasse do mesmo otimismo em relação ao futuro de Comte e Marx, considerava a religião uma espécie de neurose universal, uma ilusão infantil. Mas por que, mesmo com todo o avanço da ciência moderna, os grandes sistemas religiosos não perderam seu vigor e se expandem por todos os continentes do globo? Diversas respostas podem ser dadas a essas questões, entre elas a de que os benefícios da ciência e da modernidade não chegaram da mesma forma a todos os países, tendo, ao contrário, sido usados como elementos de dominação e espoliação dos mais fortes sobre os mais fracos. Qualquer que seja a resposta, não é possível explicar um fenômeno tão complexo e abrangente de forma simples.

Muitas coisas dependem do contexto vivenciado por cada sociedade, de sua formação histórica, das diferenças entre os diversos sistemas religiosos. As religiões não apenas se mantêm fortes, como também se hibridizaram, algumas assumiram posturas mais agressivas, outras se dissolveram ou se dispersaram. Pelo menos do ponto de vista das ciências sociais, hoje não faz mais sentido qualificar as religiões de irracionais e ilusórias. A Antropologia nos ensinou muito sobre isso.

Um fato, porém, é que as religiões podem exercer papéis muito diferentes. No Ocidente, a Igreja Católica criou escolas, universidades, orfanatos, hospitais e até hoje dirige e apoia diversas instituições desse tipo. Mas também perseguiu e executou milhares de pessoas inocentes através dos tribunais da inquisição, em alguns casos amparou o extermínio de nações inteiras de indígenas nas Américas e converteu outros à força, apoiou o nazismo e o fascismo e silenciou em relação ao Holocausto.

O Islamismo preservou muitos livros preciosos de filósofos gregos e desenvolveu, durante a Idade Média cristã, conhecimentos na área de geometria, medicina e navegação. Hoje, porém, se caracteriza pela violência com que trata seus próprios povos, apedrejamentos por adultério, execuções por blasfêmia, mutilação e outros tipo de violência contra mulheres e, em muitos lugares, a negação de seus direitos. Além disso, o Alcorão incentiva a guerra e a agressão física contra mulheres. Apesar de ser uma das mais poderosas forças culturais da humanidade, as religiões podem se voltar contra seus próprios seguidores ou contra outros grupos de forma devastadora, como narra James A. Haught no livro Perseguições Religiosas.

Guerras, despotismos, genocídios, proibições, vigilância, controle, julgamentos, execuções, torturas físicas e psicológicas e humilhações públicas. São fatos que marcaram e ainda marcam a trajetória de muitas religiões e seitas em todo o mundo. Não faltaram tentativas de acabar com tudo isso. O comunismo, como afirmado acima, foi a principal delas. Alegando ter como missão histórica libertar o homem da dominação religiosa, o comunismo terminou por promover ainda mais escravizações e extermínios.

Mas por que então muitas pessoas decidem por conta própria obedecer, sujeitar-se, mesmo em detrimento de suas opiniões e de seus projetos? Diversas pesquisas no campo da neurologia e neuropsiquiatria mostram o quanto as crenças religiosas podem ser benéficas a seus adeptos. Um desses estudos é o do geneticista norte-americano Dean Hamer, que no livro O Gene de Deus mostra que a propensão à fé religiosa pode ser genética em muitos casos. Outros estudos mostram o quanto a fé pode fazer bem a muitas pessoas, trazendo motivação, alívio emocional e em muitos casos até prevenindo doenças. Essa, sem dúvida, é outra importante resposta para a pergunta que intitula essa postagem.

Se a religião for tirada das pessoas, outra coisa deverá ser posta em seu lugar. Comte propôs a ciência, comunistas e nazistas transformaram seus regimes políticos em religiões de Estado, ao mesmo tempo em que baniram as outras. Mas nem a ciência nem as doutrinas políticas podem oferecer algo que é apanágio das religiões: consolo para o sofrimento e privações e perspectiva de vida após a morte. O Budismo e outros credos orientais oferecem a primeira mas não a segunda. As religiões de salvação e o Hinduísmo oferecem ambas.

Diante disso, não parece ser possível que as religiões um dia deixem de existir, mas seria bastante salutar que elas não perseguissem e não matassem em nome de uma verdade revelada, imposta como absoluta. Mas o caminho para chegar a isso, sem a necessidade da força inibidora do Estado, ainda parece ser longo, se é que é mesmo possível. A história nos mostra o quanto os sistemas religiosos são avessos a conviver com a diferença, com a alteridade. Mesmo que isso tenha ocorrido em diversos momentos, como na Península Ibérica sob a dominação islâmica, historicamente esses momentos constituem exceção e não a regra. E a intolerância pesa muito mais na balança quando falamos de religiões monoteístas.

Quanto ao ateísmo e agnosticismo, são posturas essencialmente aristocráticas, como dizia Robespierre. Voltaire pensava de forma semelhante. Essas posturas quase sempre são intelectuais e seu crescimento depende muito do nível intelectual de uma população e de sua qualidade de vida, embora não apenas destas, como já comentei em outra postagem sobre a relação entre Q.I. alto e descrença religiosa. Mesmo a Europa sendo o continente com as mais altas taxas de desfiliação religiosa, as missas papais aos domingos costumam lotar a praça de São Pedro.

O ser humano é um ser simbólico, que constrói valores e crenças para nortear sua ação. Para a maior parte das pessoas é impensável viver sem a crença em um ser que julgam superior, que lhes vigia as ações e as recompensará e para elas é impensável também viver suas crenças fora de uma coletividade, isto é, em uma comunidade que lhe diga exatamente o que fazer. A fragilidade humana como doenças, infortúnios e morte impõem a tentativa de transcender a materialidade do mundo e buscar uma dimensão espiritual que possa dar sentido à existência. Se quisermos chamar isso de ilusão, então a religião não é menos ilusória do que nossas ideologias políticas que, em última instância, imaginam a construção de um mundo ideal.

Não importa para muitas pessoas que a história das religiões às quais estão filiadas está marcada pelas tragédias que elencamos acima. A religião é uma importante fonte de sentidos, e é isso que buscam. O problema é quando não conseguem perceber as ações daqueles que, atrás das produções de sentidos, almejam poder e, em alguns casos, poder absoluto. Mussolini certa vez disse aos italianos: “não pensem, deixem que eu penso por vocês”. É disso que trata o filme o Livro de Eli e é uma questão importante sobre a qual não podemos deixar de refletir.

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20 comentários sobre “Por que não é possível acabar com a religião?

  1. Bruno Webert 26/11/2012 / 22:41

    Religião é sempre algo complicado o mundo sem religião em minha opinião seria muito bom, mas isso é impossivel e temos que conviver com os conflitos santos e os ladrões pastores missionarios

  2. Tati 27/11/2012 / 1:42

    ötima perspectiva sobre o papel da religião na sociedade!

  3. marília 27/11/2012 / 9:39

    Assisti o livro de Eli, e realmente muito bom. A religião é uma tábua de salvação, sem ela nos tornaríamos menos cegos, mas não dá pra imaginar o mundo sem ela. cada uma tem a sua história, mesmo que a maioria delas seja marcada pela violência, não me encaixo em nenhuma, mas respeito as pessoas que fazem parte delas.

  4. Mira Santini 13/02/2013 / 21:59

    Muito bom o seu artigo. Eu me lembro quando houve o colapso dos governos socialistas do leste europeu e alguns militantes do PCB, PC do B simplesmente pareciam sem norte, de forma que teve gente que virou hare krisna, outra cristã pentecostal e assim por diante. Só a título de provocação: se a crença possui um componente genético, haveria gente com fé ainda que o grau de instrução fosse elevado?

    • Bertone Sousa 13/02/2013 / 22:26

      Oi Mira, obrigado. Pois é, pra alguns militantes marxistas, o sentimento e dedicação ao partido e à ideologia eram tão parecidos com uma devoção religiosa, que muitos terminaram mesmo se convertendo a alguma. Sobre sua pergunta, existem muitos exemplos de pessoas com alto grau de instrução e até de produção científica que têm bastante fé religiosa. Segundo alguns estudos, pessoas com alto grau de instrução tendem a se afastar mais da religião. É uma tendência, mas não uma regra e varia de acordo com o lugar, a cultura. Não sei se você viu, mas escrevi sobre isso no texto “Pesquisa relaciona descrença religiosa a Q.I. alto”.

  5. strodrigo 25/03/2013 / 17:01

    Primeiro ponto que gostaria de comentar : Se comunismo e nazismo transformaram seus regimes políticos em religiões de Estado, não seria mais apropriado dizer que estes foram tentativas de substituir as religião e não de bani-las ?

    Segundo ponto : Acho que existe um problema semântico na maneira como está se discutindo a palavra religião. A ciência tem investigado a natureza da religiosidade humana em termos do cérebro e tem alcançado avanços fantásticos. A nossa tendência a antropomorfizar e identificar intenções em fenômenos naturais e no desconhecido é fruto do nosso cérebro que evoluiu para operar num mundo perigoso e cheio de desafios como as mudanças climáticas, animais selvagens e catástrofes naturais. Outro fator que contribui para o nosso impulso natural em direção da religiosidade é o fato de que a posição de ignorância é extremamente desconfortável, e uma vez que temos explicações práticas para qualquer questão, podemos seguir em frente e continuar cuidando dos aspectos mais triviais da existência como comida, abrigo, etc. Podemos ver ao longo da história que deus é a explicação humana final para o que não entendemos. Hoje é a origem da vida e do universo, mas no passado já foi o Sol, os eclipses, os terremotos e por ai vai. Como sempre haverá algo novo a se explorar e novas respostas a se procurar é de se esperar que haverão novos conceitos de Deus para habitar os novos desconhecidos. Outro ponto a se consider é que a maioria das verdades científicas conhecidas são altamente contra-intuitivas, como por exemplo o fato de que é a terra que se move ao redor do sol e não o contrário. A maioria das pessoas simplesmente não consegue conceber um universo fora do paradigma causa-efeito não por serem menos inteligentes, mas por que a própria ciência não era capaz de conceber tal coisa antes da mecânica quântica, um campo da ciência onde é possível se registrar e experimentar fenômenos sem causa e de natureza absolutamente aleatória. Se for verdade que o nosso cérebro nunca evoluirá para um ponto onde fenômenos do universo atômico sejam altamente intuitivos até mesmo para uma criança, então é bem provável que a grande maioria continuará analisando todas as questões em termos de causa e efeito, levando inevitavelmente a uma noção religiosa de criador/deus. Talvez o acesso universal as informações que a ciência já é capaz de fornecer diminuam e muito o número de indivíduos usando conceitos intuitivos (fruto das limitações do nosso cérebro) para avaliar o mundo a sua volta. Porém essa noção por si só (de que não é possível haver chuva sem um deus ou não pode haver origem sem um criador) é irrelevante no contexto em que realmente estamos discutindo religião, pois não há nenhuma conexão direta entre “deve haver um criador” e “aborto é sempre imoral”

    A religião que muitos (e eu sou um deles) vêem como prejudicial, é a religião como sistema de crenças (ou dogmas), ou seja um conjunto de valores morais que não podem/devem ser questionados, onde todo questionamento deve ser encarado como uma agressão e seu questionador um inimigo. As religiões por si só, não produzem valores morais. Valores morais são produzidos dentro de um contexto cultural onde a religião é influenciadora mas não a produtora. Vamos analisar o exemplo da Bíblia : Na bíblia não há nenhum comentário negativo acerca da escravidão, tudo que é condenado na bíblia era moralmente condenável naquele contexto cultural. Tudo o que as religiões (em quanto sistemas de crença) fazem é cristalizar esses valores, os protegendo a todo custo, mesmo quando no contexto atual esses valores não fazem mais sentido e em alguns casos são muito prejudiciais. Como exemplo mais extremo, podemos apontar o hábito de não comer carne suína. Comer carne suína é imoral e condenável num contexto onde a criação de porcos é precária e o seu consumo pode resultar em doenças que podem vir a extinguir uma população inteira, porém no contexto atual ver o consumo de carne de porco como imoral não faz sentido, porém o judaísmo prestou esse favor de carregar e proteger esse valor moral.

    Todos as religiões que funcionam como sistemas de crença (salvo raras exceções). dialogam com o totalitarismo. É claro que como nossos julgamentos morais mais essenciais usam critérios pessoais e não religiosos ( o que também já foi demonstrado pela neurociência), nos locais onde a religião não tem grande influência nas decisões políticas ela parece uma atividade inofensiva. Porém basta que essa influência aumente para começarmos a observar seus efeitos perniciosos, como por exemplo negar o direito civil a homossexuais, usando como critério valores morais absolutos.

    Quando vemos o postulado de que algumas pessoas precisam (e com frequência vejo uma enorme ênfase no “precisam”) de religião para serem morais, alguns de nós encaram isso como uma demonstração de que a religião (como sistema de crenças) é boa mas tem alguns efeitos colaterais ruins. Eu penso que qualquer ser humano que precise de religião para ser moral, encontra-se num estado de fragilidade e opressão social, e tudo o que a religião está fazendo é mascarar a opressão, atrasando os conflitos que libertariam essas pessoas e trariam transformações sociais. Talvez, sem o papel desempenhado pela Igreja Católica o sistema feudal não tivesse durado tanto tempo !

    Citando Albert Einstein :
    “Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível”

    Não considero uma utopia pensar num mudo sem esses sistemas de crença, porém acredito que o melhor caminho para alcança-lo seja a evolução social e não o combate as crenças pessoais de ninguém.

    • Bertone Sousa 26/03/2013 / 2:19

      Rodrigo,

      Dizer que religiões não produzem valores morais e que pessoas que precisam da religião para ética estão em fragilidade e opressão não tem fundamento histórico. Essa é uma leitura reducionista. Mesmo que as religiões estejam vinculadas a determinadas formas de poder ou legitimam ideologias de opressão social, elas não se reduzem a isso. O caso da Igreja Católica é um exemplo: a Igreja do sistema feudal foi a mesma que criou escolas, universidades, orfanatos, deu forma e estrutura ao isolamento dos reinos que ocuparam o império romano e preservou a cultura clássica. Não existe “evolução social” no sentido de abolição da religião. Vincular evolução social ao desaparecimento da religião também é fora de tempo. E religião não é fruto de ignorância, seja ela institucionalizada ou não. Esse discurso tá superado há cem anos. As religiões trabalham com produção de sentidos e compensadores e a incompreensão de como isso se opera na mentalidade coletiva gera interpretações redutivas do fenômeno. Creio que essas questões estão bem colocadas no texto. Cuidado com essa mistura de neurociência com história; são áreas muito distintas e uma não explica a outra. Religiões são sistemas culturais e como tais são produtoras de valores morais. Toda a moralidade ocidental, inclusive a laica, está assentada nos valores judaico-cristãos. Mesmo a ciência moderna apenas foi possível porque a Igreja Católica criou as condições para isso na própria Idade Média, principalmente a partir da posição dos nominalistas acerca dos universais. Nossos ideais de democracia e liberdade individual tem bases religiosas. Ao longo da história a religião foi importante fator de luta pela liberdade e transformação social. Os pais fundadores dos Estados Unidos eram deístas, assim como os iluministas que inspiraram a Revolução Francesa, e Locke, que teorizou as bases do Estado constitucional. E tudo isso remonta aos ingredientes da Reforma e do Humanismo renascentista, dois movimentos que, apesar das diferenças e divergências, eram profundamente religiosos. O cristianismo lançou as bases de todos os elementos da modernidade.

      O totalitarismo é um fenômeno recente e não foram todas, nem a maioria das religiões que dialogaram com ele.Não são apenas as religiões que trabalham com absolutos e se hoje nós podemos problematizar essas questões é por uma particularidade muito recente na história ocidental. Sobre a questão da escravidão, é fato que a Bíblia muitas vezes foi usada para legitimá-la, já que o judaísmo antigo não a considerava ilegal. Mas o cristianismo passou a ter uma relação diferenciada com isso, tendo exercido papel importante na extinção da escravidão na Antiguidade Tardia. A racionalização do mundo e a secularização não eliminam a religião, mas produzem novas. Esses sistemas de crenças não desaparecerão, a menos que os seres humanos se tornem imortais e iguais aos deuses nos quais acreditam e não necessitem mais dos compensadores da religião.

  6. strodrigo 27/03/2013 / 11:43

    Bertone, você não considera o mapa, que é parte de um censo de 2006 desenvolvido pelo grupo Gallup Poll, em que mostra o nível de influência da religião sobre o estado por região ( http://en.wikipedia.org/wiki/File:Religion_in_the_world.PNG) , como um fundamento para associar nível de religiosidade e desenvolvimento social ?

    Como eu disse, eu tentei dividir a religião em duas perspectivas, a religiosidade individual e a religião como sistema de crença. Na primeira eu tentei deixar bem claro que até a ciência, já entende a religiosidade como “natural”, como consequência de impulsos biológicos. Existem vários mecanismos operando em nossa mente e a lógica é apenas uma delas.

    Repetindo o que eu disse, como sempre haverá “o desconhecido” sempre haverá uma postura religiosa do homem diante desse desconhecido aparentemente inexplicável pela lógica. Nesse sentido eu concordo com você. Sempre haverá religiosos e de maneira alguma, há demérito intelectual em pessoas religiosas.

    Agora quanto as religiões organizadas como sistemas de crenças, eu tenho minhas dúvidas. O mapa já foi mais escuro e está “clareando” a cada dia. Quando falei de religião como instrumento de cristalização de valores negativos e legitimação de opressão, eu não a reduzi a isso. É óbvio que é possível encontrar pontos positivos numa organização religiosa e boas ações realizadas por seus membros devido a sua crença, e também acredito que sem a igreja católica teríamos perdido muita informação preciosa acerca do período clássico e que foi a igreja que “financiou” o nascimento da ciência (no caso da civilização ocidental). Não estava tentando reduzir os sistemas de crenças a algo unicamente negativo, apenas defendendo que esse aspecto negativo que apontei, é grave o suficiente para que estas serem vistas como desnecessárias ( note que é diferente de classifica-las como absolutamente desnecessárias ). Veja como analogia o Nazismo. O Nazismo trouxe alguns pontos positivos, principalmente na Alemanha, que saiu da péssima situação em que se encontrava depois da I Grande Guerra. O regime conseguiu reduzir drasticamente as taxas de inflação que eram assombrosas, fortaleceu a indústria civil e bélica …resumindo, reconstruiu a Alemanha, tornando-a uma potência econômica e militar da época. Deve-se lembrar também dos avanços das novas tecnologias, na medicina, na indústria automobilística, a popularização do automóvel , etc. Mas quando se fala de Nacional-Socialismo na Alemanha, as palavras mais usadas são eugenia, antissemitismo e totalitarismo, não porque Nazismo se reduz a isso, mas por que esses são aspectos ruins o suficiente para que o Nazismo não mereça apologia.

    Gosto do termo “moralidade judaico-cristã”, por que ela mostra a raiz do que quero atacar aqui. Os avanços da neurologia e biologia estão demonstrando que não existe moralidade “judaico-cristã” ou “hindu” ou qualquer outra (http://www.ufcg.edu.br/prt_ufcg/assessoria_imprensa/mostra_noticia.php?codigo=4845).
    A moralidade é um processo neurológico fruto da combinação entre consciência e convivência social. Há, é claro, vários fatores que moldam as nuances da moral e ética de um grupo, e a religião é uma delas, mas nunca é a fonte. Acredito que não seja o seu caso, mas as pessoas em geral absorvem a mensagem de maneira muito ruim. Acreditar que a religião é a fonte da moralidade humana é hoje apontada como principal motivo do preconceito contra o ateísmo, as pessoas inferem que pessoas sem religião tendem a ser menos éticas e usam Stalin como exemplo. Por isso deixar isso claro é muito importante. Não precisamos encarar valores morais como revelações divinas para aprender que matar, roubar,estuprar e enganar, são em geral, péssimas atitudes. Não é a toa que existem atitudes que são condenáveis em qualquer forma de civilização, independente de sua religião. Porém, como aprendemos a enxergar a religião como fonte de moralidade, ainda damos ouvidos a pastores e padres acerca das pesquisas com células tronco, mesmo que não haja nenhum comentário na bíblia sobre tal assunto. A moralidade não nasce na religião. embora seja extremamente influenciada por ela, e logo logo “moral e ética” deixarão de ser campos que competem apenas a filosofia.

    Quero terminar deixando claro a separação que faço entre religiosidade como aspecto pessoal e os sistemas de crença que florescem nessa religiosidade. Que não há de se negar o papel que os sistemas de crenças ocuparam e ocupam ( com todos os seus aspectos positivos e negativos), mas influenciando e não sendo a fonte de moralidade e por último que esses sistemas de crença perdem representatividade em ambientes menos carentes, e as últimas pesquisas evidenciam isso.

    Um abraço

    • Bertone Sousa 27/03/2013 / 20:04

      Rodrigo,

      na verdade esse mapa não tem relação com o que eu quis dizer. Eu falei que as democracias no ocidente nasceram fundamentadas em princípios religiosos. Mas o processo de desencantamento do mundo e de racionalização da vida econômica e social levou a perda crescente do poder da religião nessas mesmas sociedades. Paulatinamente, a ciência afastou Deus da explicação da natureza e o sistema capitalista, que inicialmente se ancorou na doutrina calvinista para se expandir, já não precisa mais do apoio de nenhuma religião. Como eu falei, se não fossem os ideais de individualismo e liberdade de interpretação oriundos de dois movimentos religiosos da modernidade como o Renascimento e a Reforma, esse processo de desencantamento provavelmente não teria sido desencadeado. Creio que está te faltando leitura história, antropológica e sociológica. Essa diferença que você quer estabelecer entre “religiosidade individual” e “sistema de crenças” não existe na vida social. Toda religiosidade individual está ligada a um sistema de crenças, mesmo quando essa religiosidade é desviante e sectária ou se manifesta apenas como crença no sobrenatural sem filiação institucional. Em todos os casos, há vinculação a um sistema de crenças no qual os indivíduos foram socializados e receberam seus referenciais. É isso, em parte, que significa dizer que as religiões são sistemas culturais. Por não serem blocos monolíticos elas se diversificam, o que varia dependendo do contexto e do grau de liberdade que os indivíduos possuem.

      Tua analogia da religião com o nazismo não é feliz. Se você pegar até mesmo uma página obscura da história cristã, que é a inquisição, não tem correlação com o que os regimes totalitários fizeram no século 20. A inquisição não pregava extermínios ou genocídios de qualquer tipo. Mesmo as guerras de religião dos séculos 16 e 17 devem ser compreendidas dentro da mentalidade que sustentava o imaginário coletivo na época. O antissemitismo se tornou política de estado com base em princípios científicos do final do século 19 e início do 20, e não por causa da religião. O nacionalismo é uma ideologia secular e ganhou projeção graças ao afastamento da religião da vida pública. Mesmo que se diga que as religiões ao longo da história impediam a liberdade e outras coisas, isso é anacronismo. Não se estuda nem compreende história dessa forma.

      Sobre a questão da moralidade, você continua usando a biologia e a neurociência para afirmar o que está fora do campo delas. Esse texto mesmo refuta o que você quis dizer. A pesquisa não é conclusiva e quem a realizou reconhece que a moralidade nos humanos é densamente mais complexa e variada do que a dos chimpanzés. Mas essa semelhança não deveria nos surpreender, devido ao parentesco evolutivo que temos com eles, o que é provado até pela semelhança de DNA. Já se aventou que o homem de neandertal pode ter desenvolvido uma forma de consciência religiosa pela possibilidade de ter realizado ritos fúnebres. É claro que a religião institucionalizada tem alguns milênios, mas o sentimento religioso e as práticas associadas ao animismo e à magia são quase tão antigas quanto os próprios seres humanos. O surgimento dos sistemas de crença e instituições religiosas coincidem com a sedentarização do homem e a subsequente criação das primeiras cidades. É quando os agrupamentos humanos deixam de preocupar-se quase exclusivamente com a sobrevivência e passam a ter tempo para abstrair e criar sistemas simbólicos.

      Agora, historicamente, a religião foi a base e a fonte do código moral e ético de absolutamente toda as sociedades que já existiram. Em sociedades com forte estratificação social, como o Egito e a Mesopotâmia, isso foi possível pela formação de uma casta de sacerdotes e escribas que elaboravam os preceitos religiosos. Mas em outras, como as estudadas por Durkheim, Mauss, Lévi-Strauss e Malinowski, com estratificação social mais baixa, essa relação do sagrado com códigos morais e vida social possuía diferenças. A neurologia pode explicar, por exemplo, como a oração faz o cérebro produzir enzimas que causam sensação de alívio e bem-estar, o que explica o que os religiosos chamam de “cura” de determinados males, ou pode nos ajudar a compreender a relação entre conduta individual e crenças religiosas, mas ela não pode explicar como surgiu e evoluiu os sistemas de crenças religiosas porque isso está fora de seu campo de estudos. A história e o comportamento humanos são muito variados e complexos pra serem explicados com base em pesquisas de apenas uma área de estudos. Hoje não vemos a proibição de matar ou roubar como intervenções divinas porque vivemos em Estados modernos secularizados. Mas na Antiguidade, e posteriormente, não havia separação entre religião, moral, ética, vida privada, poder, educação, porque todas as esferas da vida social eram coordenadas pelo elemento religioso. Era por meio da religião que os homens explicavam o mundo e organizavam as relações sociais. Mesmo em nossa época você pode encontrar comunidades indígenas no Norte e Centro-Oeste que ainda se regem dessa forma. Até em sociedades secularizadas, a vida civil está permeada de simbolismos religiosos. Weber mostrou como o padrão de moralidade do protestantismo através do conceito de vocação foi fundamental ao avanço do capitalismo e de uma ética de entesouramento, acumulação e livre-empresa.

      Devido à influência do cristianismo, os dez mandamentos se tornaram a base da moralidade ocidental e dos códigos jurídicos das sociedades modernas. A ideia de pensar moralidade sem religião é recentíssima, mas em qualquer época a moralidade está vinculada a crenças religiosas. E não apenas a moralidade, mas a criação de cidades, bem como a organização de seu espaço, a agricultura e todas as outras formas de conhecimento estavam vinculadas à religião. As regras de matrimônio, de retribuição (como a instituição do Potlatch estudada pelo Marcel Mauss ou Kula por Malinowski), de padrões comportamentais não existem sem os sistemas de crenças aos quais estão vinculadas. Os códigos jurídicos também eram elaborados a partir da religião. Enfim, se você tiver tempo e motivação, leia “No Princípio eram os deuses” de Jean Bottero, ” A Cidade Antiga” de Fustel de Coulanges, “Uma teoria da religião” de Rodney Stark e toda a sociologia da religião de Max Weber. Há muita coisa aí que vai ajudar a compreender melhor o assunto.

  7. Mateus Roger 09/05/2016 / 13:57

    Professor, a ideia de que o nazismo tentou banir as outras religiões é absurda, o nazismo nem de longe era anticristão, aqui vão algumas citações de Hitler:
    “My feelings as a Christian points me to my Lord and Savior as a fighter. It points me to the man who once in loneliness, surrounded by a few followers, recognized these Jews for what they were and summoned men to fight against them and who, God’s truth! was greatest not as a sufferer but as a fighter. In boundless love as a Christian and as a man I read through the passage which tells us how the Lord at last rose in His might and seized the scourge to drive out of the Temple the brood of vipers and adders. How terrific was His fight for the world against the Jewish poison. To-day, after two thousand years, with deepest emotion I recognize more profoundly than ever before the fact that it was for this that He had to shed His blood upon the Cross. As a Christian I have no duty to allow myself to be cheated, but I have the duty to be a fighter for truth and justice… And if there is anything which could demonstrate that we are acting rightly it is the distress that daily grows. For as a Christian I have also a duty to my own people.

    -Adolf Hitler, in a speech on 12 April 1922 (Norman H. Baynes, ed. The Speeches of Adolf Hitler, April 1922-August 1939, Vol. 1 of 2, pp. 19-20, Oxford University Press, 1942)

    “I am now as before a Catholic and will always remain so”

    [Adolph Hitler, to Gen. Gerhard Engel, 1941]

    O nazismo inclusive teve o apoio da igreja por ser anti-iluminista, e foi fortemente aceito entre os luteranos (o próprio anti-semitismo alemão teve raízes na reforma protestante).

    Você mesmo reconhece que o nazismo era conservador, então me parece estranho que você tenha escrito essa informação sobre o nazismo.

    • Bertone Sousa 09/05/2016 / 14:39

      As religiões que não se renderam ao culto ao Estado foram perseguidas. O nazismo era anticristão em essência, mas isso não era exposto publicamente porque Hitler considerava que a religião teria um papel importante no combate ao ateísmo bolchevista. Além disso, Hitler sabia que sua doutrina se chocava frontalmente com os valores do cristianismo. Ele decidiu tolerar o cristianismo por algum tempo, mas pretendia confrontá-lo se vencesse a guerra. O nazismo tinha bases conservadoras mas não era um movimento cristão.

      • Mateus Roger 09/05/2016 / 18:08

        Não disse que o nazismo era cristão, apenas que ele não era contra o cristianismo.

        E ele afirmou ser católico em 1941, não muito antes de sua morte. Além disso, o cristianismo tem milhares de vertentes que apresentam contradições entre si, não seria mais prudente dizer que ele era contra a maneira como a maioria da população via o cristianismo, mas que ele queria impor a vertente do cristianismo que ele criou e que é explicada neste documentário (vertente na qual acreditava-se que Jesus era ariano e judeus eram filhos do diabo)?

      • Bertone Sousa 09/05/2016 / 18:35

        Não, você tá errado, precisa estudar mais.

      • Mateus Roger 25/10/2016 / 21:23

        De fato me equivoquei, então peço sugestões de livros sobre a religião na Alemanha nazista, sei que Kershaw afirma em seu livro “Hitler” que ele era anticristão, Richard Overy diz que ele não era praticante do cristianismo, mas gostaria de um livro que detalhasse aquilo em que Hitler e os Nazistas acreditavam no que diz respeito a religião.

      • Bertone Sousa 04/11/2016 / 2:35

        Material histórico sobre isso é raro, Mateus, se existir. Como a doutrina do nazismo é sintetizada no livro de Hitler, Minha Luta, eles não tinham um pensamento estruturado sobre questões religiosas. Como era Hitler quem pensava o movimento, sua preocupação estava voltada quase exclusivamente para a guerra.

  8. Marcus Canesqui 21/12/2016 / 15:01

    Imaginem a cena: Um grupo de pessoas com o perfil intelectual médio do brasileiro. Do outro lado estão Einstein, Darwin e Malafaia. Os três tentam, cada tenta convencer as pessoas em relação a criação do universo e o surgimento do homem a seu modo. Quem irá atrair mais pessoas? É bem mais fácil ensinar á uma massa ignorante que um deus criou tudo, do que usar a ciência para o fazer. Acreditem, eu trabalho em escola pública e sei bem como funcionam as coisas neste sentido.

  9. Alan 22/02/2017 / 15:09

    Sou ateu. A religião, na minha opinião, é uma construtora de conflitos, e no passado além de construir os conflitos ela participava.

    Eu acho que não tem como não existir religião, mas que essas religiões de hoje vão cair no esquecimento como as gregas, por exemplo, eu tenho quase certeza. Porque religião é complexidade, quando surgiu o Islamismo as religiões gregas pareciam “fáceis”, não existia complexidade alguma na comparação entre gregas e a islamica, o Islã tinha escrituras, relatos entre outras coisas que fazia um Poseidon virar um cara lerdo brincando de fazer ondas só isso. Tá entendo? A complexidade é a chave para derrubar ou criar uma nova religião. Essas religiões como cristianismo, islamismo, judaismo, vão ficar fracas, carentes de complexidade com forme a ciência evolui, e daqui a 1.000 anos ou menos, essas religiões ficaram só para historiadores religiosos estudarem, estarão esquecidas e outras, OBVIAMENTE, estarão surgindo para suprir questões não respondidas na época, e serem complexas o suficiente para ganharem simpatizantes. Li em algum lugar que coisas complexas tendem a fazer as pessoas se convencerem de sua veracidade, Olavo sabe usar isso.

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