Criação e Evolução: notas sobre um debate sem fim

charles_darwin_jovemQuando Charles Darwin publicou A Origem das Espécies em 1859 muitos líderes religiosos se sentiram profundamente ofendidos. Esse sentimento, porém, não era algo novo. Ele já existia há cerca de três séculos quando Copérnico e Galileu demonstraram que a Terra não é o centro do universo. Tanto Copérnico quanto Darwin, em épocas diferentes, puseram no chão duas crenças fortemente arraigadas na cristandade ocidental: a de que nós ocupamos um lugar privilegiado no cosmo, com o Paraíso logo acima e o inferno abaixo e a de que somos seres especiais, feitos à imagem e semelhança de um criador caprichoso e onipotente.

Com o passar do tempo, para alguns era até aceitável que a Terra não fosse o centro do universo, mas admitir que o homem não fora criado e tem parentesco com os símios era simplesmente inaceitável. Afinal, isso significava aceitar que a Bíblia está errada e que não houve um projeto nem propósito divino na formação do homem. Embora ele não tenha falado sobre a evolução humana em A Origem das Espécies, abordou o assunto em outra obra, A Ancestralidade humana. Nesta, ele argumentava que o homem descendia, por uma longa linha de formas diversificadas, de répteis e previu que os mais antigos fósseis de predecessores humanos poderiam ser encontrados na África.

Os biógrafos de Darwin informam que ele hesitou por muitos anos antes de publicar sua pesquisa, mesmo estando convicto de sua veracidade. Eles também informam que outro pesquisador, Alfred Russel Wallace, chegou às mesmas conclusões de forma independente. Duzentos anos antes deles, no século XVII, um arcebispo chamado James Ussher havia calculado que a criação ocorrera por volta de 4004 a.C. no dia 23 de Outubro às 9 horas da manhã.

No século XVIII, mais pesquisas e debates puseram em xeque essa idade da Terra a partir do desenvolvimento da Geologia e da análise das rochas e de fósseis. Darwin teve contato com as obras desses pesquisadores, entre eles Lyell, cujo livro Princípios de Geologia foi de fundamental importância para o seu sucesso como pesquisador e naturalista. Darwin não foi o primeiro a propor a tese do evolucionismo, mas foi o primeiro a fazê-lo a partir de evidências coletadas durante o longo tempo em que esteve a bordo do H.M.S. Beagle. Ele observou que o princípio de que as espécies foram criadas de forma independente e com as características que possuem hoje é errôneo. Ao concluir que as espécies não eram imutáveis, mas suscetíveis de transformação, seu desafio passou a ser explicar como isso ocorreu.

Quando uma descoberta científica se choca frontalmente com nossas crenças, nossa tendência é rejeitá-la aprioristicamente, ou seja, rejeitá-la antes de conhecê-la. Em relação à Evolução, muitos continuam a agir dessa forma. Essas pessoas querem que a ciência se adeque a seu senso comum, porque elas tomam seu senso comum como parâmetro para medir o mundo. Quando vejo a maioria das pessoas criticarem o evolucionismo sem ao menos saberem quais são seus fundamentos, sem terem lido a obra que deu origem a essa concepção ou ao menos uma biografia de seu autor, nesses casos prefiro emudecer. Às vezes o silêncio é a melhor resposta para a ignorância.

Durante todo o século XX, pesquisas em variados campos do conhecimento científico confirmaram a teoria de Darwin. Áreas do conhecimento se desenvolveram tendo por base o evolucionismo. Toda a ciência contemporânea está assentada sobre o evolucionismo. Diante disso, não deveria mais haver motivos para surpresas, estupefações, calúnias infundadas, refutações absurdas.

Mas é exatamente o que fizeram muitos criacionistas desde a publicação de A Origem das Espécies até hoje. São aquelas pessoas que se sentiram ofendidas pelo que Darwin disse. Então elas resolveram questionar a Evolução não com base em outras pesquisas científicas, mas com base em seus sentimentos e crenças pessoais. Foi em parte em reação a Darwin que se desenvolveu o fundamentalismo no protestantismo norte-americano entre o final do século XIX e o início do XX.  Essas pessoas contrapõem a obra de Darwin à narrativa do Gênesis e colocaram as duas concepções como “teorias” paralelas.

Mesmo tendo inventado terminologias mais sofisticadas como design inteligente, os criacionistas cometem um grande erro ao fazer essas comparações. Eis o motivo: a ciência é explicativa, ou seja, ela observa e descreve o funcionamento da natureza. É a partir das observações que teorias são propostas, testadas, confirmadas e expostas como teses. A narrativa do Gênesis não é explicativa, mas normativa. Isto é, ali não se pretende descrever o funcionamento da natureza, mas lançar as bases fundacionais da identidade de um povo (no caso, os hebreus).

É nisso que consiste o mito. O mito não é o tipo de narrativa que pretende contar história no sentido que nós compreendemos a palavra história hoje (como uma sucessão de eventos que se encadeiam numa relação de causa e efeito e pretendem ser mais ou menos fiéis aos eventos que narra). O mito é fictício, seu objetivo não é fornecer dados factuais, mas orientar o comportamento, sustentar um conjunto de ritos por meio dos quais um povo dá significado à sua existência e identidade coletiva. Por esse motivo as narrativas míticas são atemporais, ou seja, não há preocupação de precisar quando aconteceram. O mito é uma metáfora, uma linguagem simbólica por meio da qual um grupo organiza sua experiência. Através desse simbolismo pretende-se decifrar o incompreensível, o que é secreto, como a origem do mal, a ação e a vontade dos deuses.

Assim faziam, por exemplo, os hebreus com as narrativas de sua saída do Egito. O Êxodo, as pragas, a abertura do Mar Vermelho, o naufrágio do exército egípcio não são fatos históricos, mas são narrativas criadas para dar um sentido de unidade, de escolha, eleição. E eram lembradas quando aquela sociedade cultuava outras divindades, dispersando-se através da mistura e correndo o risco de perder a unidade.

O mito da criação procura desvendar o mistério do mundo, é uma atitude de deslumbramento ante o desconhecido e ao mesmo tempo de devoção. A ciência, por outro lado, compreende o mundo por meio do logos, isto é, o pensamento que deve corresponder aos fatos objetivos. Por isso a ciência mede, observa, questiona, explica. O mito não explica, ele busca a contemplação, a adoração, por isso só faz sentido enquanto os rituais aos quais está ligado são observados pelo grupo. Diante disso, não faz sentido contrapor a Evolução à Criação. Não são duas teorias. São narrativas completamente distintas, ligadas às características do contexto histórico em que foram produzidas.

Por isso todo o trabalho dos criacionistas de dar à criação o status de teoria científica é espúrio. Isso não quer dizer que a crença em Deus não possa existir no meio científico. Cientistas deístas como Francis Collins sabem diferenciar suas crenças pessoais dos projetos que desenvolvem. O mesmo não se pode dizer daqueles teólogos que denominam a si mesmos de “apologistas” e querem convencer a ferro e fogo da literalidade de narrativas cujos significados eles próprios ignoram. Como dizem David Eliot Broddy e Arnold R. Brody em As sete maiores descobertas científicas da história, “sempre que a evolução é contestada pelos criacionistas, a ‘controvérsia’ não tem dois lados com credibilidade mais ou menos equivalente”. Mesmo que os criacionistas às vezes tentem refutar a Evolução com argumentos supostamente científicos, o mesmo não pode ser feito com a Criação, pois os relatos da Criação não são nem podem ser pesquisas científicas. Ou seja, não há credibilidade científica no que os criacionistas defendem. O que eles polemizam, para citar novamente os autores acima, “não passa de um jogo de palavras simplista”.

Quando Nietzsche anunciou que “Deus está morto” ele sabia que não vemos mais o mundo pelo olhar do mito, porque seus rituais já perderam o sentido para nós. Vemos o mundo a partir de outras lentes; muitos ainda não se dão conta disso e vivem em verdadeira confusão mental. O fato de Deus estar morto não quer dizer que a religião tenha desaparecido, mas que os mitos foram esvaziados de significado e o fato de muitos tentarem transformá-lo em narrativa científica é uma prova disso.

Embora tenha julgado que foi mal compreendido, Darwin sabia que o criacionismo não pode ser expresso em linguagem científica, não pode ser verdadeiro do ponto de vista científico. Suas reflexões não se limitaram apenas ao campo da biologia, mas também se voltaram para a formação religiosa que adquiriu na infância. Leitor de Kant, Darwin considerava ser o supremo juiz de sua conduta e o ateísmo foi o resultado de seus estudos e reflexões. São dele as seguintes palavras:

A descrença foi se instalando em mim muito lentamente, mas acabou por ser total. O ritmo foi tão vagaroso que não senti angústia, e nunca depois duvidei nenhum segundo que a minha conclusão estava certa. De fato, dificilmente compreendo como possa alguém desejar que o cristianismo seja verdadeiro; porque sendo assim, a simples linguagem do texto parece mostrar que os não crentes, e isso incluiria meu pai, irmão e quase todos os meus melhores amigos, serão eternamente punidos. E isto é uma doutrina condenável.

Os criacionistas são os únicos que continuam a polemizar em torno da veracidade da Evolução e a rejeitá-la tacitamente. O problema é que toda a sua argumentação, no que pese suas tentativas de emoldurá-las cientificamente, não passa de verborragia teológica e pseudo-científica. Os criacionistas odeiam Darwin inutilmente, é um ódio que resulta de incompreensão ou de simples rejeição por questão de princípios religiosos. O darwinismo é uma concepção científica comprovada e consolidada. Eles precisam compreender que seu livro sagrado não é um manual de ciência e que não faz sentido incluir criacionismo nos currículos escolares de história e biologia ou tentar refutar o evolucionismo com base em argumentos ilegítimos apenas para dizer que alguém está ou estava errado.

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7 thoughts on “Criação e Evolução: notas sobre um debate sem fim

  1. Jacqueline 22/11/2012 / 8:07

    Muito interessante a postagem.Parabéns pelo blog!

  2. marília 22/11/2012 / 8:44

    Gosto muito do assunto, assisti não faz muito tempo o filme “A criação” que explica algumas teorias de Darwin. Muito bom!

  3. Marco 22/11/2012 / 11:57

    a ciência sempre têm razão nesse tipo de asssunto.

  4. Jonatan Freitas 02/01/2013 / 19:50

    A ciência não é absoluta, não se encontra uma resposta e ponto final, ela está sempre sendo refinada, é um evolução.

  5. strodrigo 05/04/2013 / 13:36

    Bertone, esse já foi o ponto central do primeiro dos debates que tivemos aqui.

    Compreensivelmente por sua formação em história você tende a “puxar a sardinha” para autores como o Weber ( o que aconteceu na ocasião) Por não dominar o assunto e querer entender o ponto de vista que você estava defendendo, selecionei dois trabalhos sobre o assunto :

    – Weber e as raízes proféticas do racionalismo ocidental (Renan Springer de Freitas)
    – A sociologia da religião de Max Weber interpretada por PierreBourdieu

    Não pretendo me estender nesse tema, nem tenho a pretensão de iniciar um debate teórico sobre Weber, com um professor de história. Porém ao qual não nos ocorreu no debate anterior, e que ficou desse vez claro ao ler os dois trabalhos. O objeto de estudo de Weber é a religião num sentido macro, como sistema cultural. Weber não se atenta ao indivíduo, talvez por que esse estudo não fosse de fato seu objetivo, ou talvez em parte por que os historiadores se ocupam de relatar e analisar os fatos históricos, e não especular o futuro.

    Ora não é o ateísmo um fenômeno do indivíduo ? Esse fenômeno sem dúvida nasce do conflito entre a razão(um valor central da ciência) e fé (um valor central da religião). Seja quais sejam os questionamentos ou conflitos que conduzam um indivíduo a essa “postura filosófica”, esse fenômeno se dá no indivíduo e não no coletivo.

    De certa forma o mesmo pode se dizer sobre a fé e a religiosidade (acho que foi esse o ponto final da discordância). É claro que as consequências da religiosidade humana podem ser observadas e analisadas de maneira macro. Porém os dogmas e valores de uma religião só se sustentam em quanto forem sustentadas no indivíduo.

    E é ai que mora a hostilidade contra a evolução e anteriormente a outras descobertas científicas. Por que muitas delas, mesmo que de maneira não intencional, agridem dogmas centrais das religiões.

    Encarar a evolução de frente leva inevitavelmente a um confronto com seu status quo mental.
    E se de alguma maneira a difusão de um fato ( por que a Evolução é um fato) vir a corroer as entranhas dos dogmas das religiões monoteístas, seria isso um bom motivo para não espalharmos essa descoberta, simplesmente por ela colocar as pessoas de fé cristã numa posição desconfortável ? Porque deveríamos respeitar essa posição confortável ?

    • Bertone Sousa 05/04/2013 / 18:03

      Rodrigo,

      é verdade, a área de formação pesa mais nesses momentos. Não conheço o trabalho do Renan Springer, mas do Bourdieu sim. No livro “As Etapas do Pensamento Sociológico” do Raymond Aron, tem um capítulo sobre o Weber que também é interessante. A questão não é nem tanto que Weber não dê atenção ao individual. Mas ele foi influenciado pela tradição do historicismo alemão que via a cultura, os valores como criações individuais e coletivas, mas a ênfase recai mesmo sobre o coletivo. Mas ele reconhecia que há uma desigualdade entre as pessoas do ponto de vista físico, intelectual e moral que influem no curso dos acontecimentos. Mas a ciência social trabalha com o coletivo porque como você colocou, trabalha com o macro. Por isso os conceitos são tipos ideais para se entender amplos contextos.

      Sobre essa questão de individual ou coletivo Weber falava que cada deve fazer sua escolha. Você está certo que o indivíduo é que sustenta as crenças religiosas, mas eles as sustentam porque são valores coletivos, por isso tendem a ficar com a religião mesmo quando ela está errada. No século de Galileu, por exemplo, a maioria das pessoas não sabiam ler e escrever e assim foi até o século 20. Os sistemas de ensino eram rudimentares, a ideia de universalização da escola pública só veio depois da Rev. Francesa, e ainda assim na maioria dos países isso demorou a alcançar a maioria. Nesse contexto todo as pessoas permaneciam à margem das descobertas científicas e nem tinham como romper com a religião.

      Mas tem trabalhos de história que pegam as concepções de um indivíduo e intercalam isso com a comparação com o conjunto de valores da época, como em “O queijo e os vermes”, em que um moleiro com toda naturalidade refutava a Bíblia, divergia da igreja e não abriu mão disso, mesmo tendo sido torturado e morto pela inquisição. Os livros da Laura de Melo e Souza também, sobre feitiçaria no Brasil colônia, transcreve relatos de pessoas que blasfemavam contra Deus, a igreja, os santos da igreja, invocavam o demônio mesmo professando o catolicismo (até porque era obrigatório). Acho que isso é importante pra gente perceber como a Igreja não controlava o pensamento de todos os indivíduos, mesmo com toda a violência que usava. Tem trabalhos sobre o Rabelais e a questão da descrença no século 16 a partir dos posicionamentos dele. A história não anula o indivíduo mas é mais cautelosa nas conclusões que faz e acho que isso é uma vantagem.

      Sobre a posição confortável da fé eu não diria não respeitar, mas discutir, porque o respeito não implica pusilanimidade, a meu ver está mais relacionado a uma postura de se evitar a intolerância, o debate gera esclarecimento e é isso que fortalece a ciência. Mesmo que as religiões tenham a tendência a serem impositivas, não podem se fechar completamente para o mundo e no debate elas se enfraquecem porque não sabem lidar com isso.

  6. Wesley Conde 29/01/2016 / 21:23

    Os Criacionistas não estão num embate hercúleo e quixotesco apenas com EVOLUÇÃO, mas também com uma gama considerável de experts e peritos do AT que tem um entendimento muito diferenciado e esclarecedor da forma como se deu a construção dos mitos religiosos e principalmente do livro religioso Gênesis.
    Para tanto recomendo o link que segue e trata da hipótese documental do Pentateuco:
    https://es.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3tesis_documentaria

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