A importância (e o perigo) das ciências sociais

Durante a ditadura militar, sob a gestão de Roberto Campos no ministério do Planejamento, as disciplinas de filosofia e sociologia foram banidas da educação básica, a pedagogia tecnicista tornou-se hegemônica graças aos acordos realizados entre o MEC e a USAID e houve desmobilização do magistério com o acesso ao ensino superior sendo barrado às camadas mais pobres.  Nesse período, disciplinas como história e geografia ganharam o malfadado epíteto de “matérias decorativas” e permaneceram com essa característica até meados dos anos 1990.

Em decorrência disso, hoje o Brasil possui um enorme déficit de formação humanística e uma forte depreciação das áreas de conhecimento ligadas às ciências sociais. Grande parte dos estudantes concluem esses cursos com um conhecimento fragmentado e muitas vezes macérrimo do processo histórico e das obras e pensadores que lançaram as bases da cultura e do pensamento ocidental. Quando chegamos à educação básica, hoje relegada ao papel de limbo do sistema educacional brasileiro, a situação existente é a da perpetuação do analfabetismo.

Em uma democracia liberal, ao contrário do que ocorre em regimes ditatoriais, as ciências humanas devem ser o apanágio da formação tanto para a cidadania quanto para o mercado. Você pode ouvir falar de bons engenheiros ou médicos em países como China, Cuba ou Irã. Mas não conhecerá bons historiadores, ou sociólogos, ou filósofos oriundos desses lugares. Porque essas áreas do conhecimento só podem se desenvolver em ambientes onde haja liberdade de expressão. Não existe Filosofia ou historiografia em regimes não democráticos; o que existe são cânones aprovados por seus governos e reproduzidos em instituições de ensino. Críticas e pesquisas que não se adequam aos interesses do Estado são proibidas e punidas com prisões, torturas, e, não raramente, com a morte. Na União Soviética, Kruschev determinou que os historiadores fossem vigiados. Na China, algumas críticas ao governo já foram permitidas, desde que se restrinjam às salas de aula das universidades. No Irã, os aiatolás não gostam dos currículos de humanidades, que ensinam muitas teorias ocidentais e podem levar as pessoas a questionarem o Islã. O controle da opinião e das informações é indispensável a qualquer regime autoritário, como bem demonstraram as distopias do século XX,  1984, Fahrenheit 451 e Admirável Mundo Novo. 

Na democracia, porém, esses campos não se constituem em ameaça ao sistema estabelecido, mas em áreas fecundas de reflexão, crítica e produção de saber. No entanto, no Brasil não é bem isso o que acontece. As ciências sociais e a Filosofia são campos tensos de disputa por diversos grupos, como empresários, partidos e grupos políticos, gestores de escolas e igrejas. Todas essas organizações pugnam entre si para definir limites e conteúdos curriculares. Não raramente, a atuação de um professor se traduz mais em doutrinação religiosa ou proselitismo político travestidos de “ensino da verdade” ou “reflexão crítica”, respectivamente, do que em um ensino que incentive o questionamento, apresente opções e convide o aluno a escolher entre elas.

Toda abordagem histórica e social é feita a partir de um enfoque teórico que privilegia alguns aspectos em detrimento de outros. O professor, por outro lado, entra na sala com todo um conjunto de valores, (pré)conceitos e visões de mundo que adquiriu com ou sem leituras, com ou sem formação superior, com ou sem qualificação. E isso intervirá diretamente na forma como ministra seus conteúdos.

O Brasil de hoje é um caleidoscópio de ideologias e grupos que, embora não atuem diretamente na educação, tentam dirigir a ação dos que lá atuam. A diversidade de opiniões, naturalmente, faz parte da democracia, mas em nosso caso, pode às vezes não ser nada saudável. E não é saudável porque o que está em disputa não é a melhoria da qualidade do que é ensinado, mas a imposição de determinadas visões de mundo e a aquisição de privilégios.

O resultado é visível: a incapacidade do brasileiro de mobilização política, a crítica sem reflexão teórica que descamba para esculhambação (a demonização de um partido, de um presidente, de um sistema econômico), a ignorância do processo histórico. Alguém já disse que um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la; mas não apenas isso, também está condenado a viver sem perspectiva de futuro, já que o conhecimento histórico amplia o campo de visão e o horizonte de expectativas dos indivíduos.

A ausência de formação humanística imbeciliza as pessoas, deixa-as aprisionadas no senso comum, no dogmatismo da opinião desconexa, no individualismo confundido com egocentrismo, na consciência facilmente sugestionável, na cidadania corrompida, venal. É o sujeito que não compreende um conceito, que não sabe abstrair, ele só consegue compreender a programação da TV aberta, porque seus apresentadores se comunicam com ele em linguagem infantil, a única que ele domina. É o sujeito que quer ascender socialmente e pra isso busca um diploma de Direito ou se candidata a um cargo político, os dois caminhos mais viáveis para o enriquecimento fácil, nem precisaram lhe ensinar. É o sujeito que espera a mudança a partir de cima, porque ele é o homem-massa, ele aprendeu a ser conduzido, a “deixar a vida levá-lo”, é a multidão acéfala que mata e morre pelos líderes que escolheu.

Não coloco aqui a formação humanística como panaceia para os problemas sociais, pois não podemos esquecer que foi em sociedades cultas e com ampla tradição literária e filosófica que os regimes totalitários proliferaram na primeira metade do século passado. Mas não podemos cultivar a ignorância como normal, sob o risco de nos tornarmos uma sociedade de tolos, incapaz de diferenciar o certo do errado, incapaz de definir cidadania, política, democracia, incapaz de frequentar a escola, de ler um livro até o fim.

Vivemos numa democracia em que ignorância é força e os gestores sabem usar isso a seu favor. Vivemos as consequências de décadas de depreciação da literatura, da filosofia e das ciências sociais. É sintomático que há décadas também o Brasil não tem um escritor que se destaque na literatura. Um país onde somente se lê Augusto Cury e exporta Paulo Coelho como “grande escritor” já condenou a si mesmo à proscrição da alta cultura e à completa letargia intelectual.

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8 thoughts on “A importância (e o perigo) das ciências sociais

  1. Megumi 13/11/2012 / 10:21

    Exclente texto informativo e explicativo.

  2. Raquel S. Ramos 14/11/2012 / 12:08

    Como estudante de história vejo em meu curso a grande dificuldade que há em juntar os pedaços de uma história que foi despedaçada e teve partes jogadas fora ao longo do tempo. Vejo ainda uma espada de dois gumes, de um lado os que realmente querem formar historiadores com conhecimento aprofundado e visão crítica aguçada, e do outro lado aqueles que se contentam com o superficial e se agrupam em movimentos políticos que se tornam mais importantes que qualquer conhecimento, ao ponto de ser alienadores.

    Gostei muito da sua crítica e concordo muito com você, o problema é a falta de pessoas formadas com esse ver crítico.

    • Bertone Sousa 14/11/2012 / 13:06

      Raquel,

      Essa questão de professores que confundem militância com formação intelectual é realmente um problema, porque muitos deles, além de serem dogmáticos, são doutrinadores. Confundir visão crítica com militância partidária ou em movimentos sociais é trágico. Durante a ditadura isso se justificava pela necessidade de engajamento contra o regime, mas não hoje. Nisso há uma confusão acerca do papel da universidade, que é de formar intelectuais e não arregimentar seguidores.

  3. jeniffer haddad 14/11/2012 / 14:12

    Concordo que aqui no Brasil realmente há um dficit nessas materias u.u

  4. Pergunte a uma Mulher 14/11/2012 / 14:47

    Acho que hoje em dia em quase todos os cursos, independente, nos formamos com um conhecimento meio fragmentado, temos que ir correndo atrás, acho que a faculdade só da uma base, outras melhores, outras piores, mas nunca o suficiente!

    • Bertone Sousa 14/11/2012 / 15:32

      É verdade, o problema é quando as pessoas não adquirem autonomia pra correr atrás e vão à faculdade apenas pelo diploma. O curso realmente dá a base e muitos ficam apenas nisso. No caso das licenciaturas, não se pode dizer que o mercado selecionará os melhores, porque os baixos salários da educação básica não atraem os melhores e isso resulta nos problemas que apontei.

  5. Fabio Alves 14/11/2012 / 17:23

    Qualquer matéria que ajude o estudante a desenvolver o pensamento crítico deve ser estimulada, mas, infelizmente, isso não é de interesse público.

  6. Ediléia 22/01/2017 / 14:55

    “É o sujeito que quer ascender socialmente e pra isso busca um diploma de Direito ou se candidata a um cargo político, os dois caminhos mais viáveis para o enriquecimento fácil, nem precisaram lhe ensinar. É o sujeito que espera a mudança a partir de cima, porque ele é o homem-massa, ele aprendeu a ser conduzido, a “deixar a vida levá-lo”, é a multidão acéfala que mata e morre pelos líderes que escolheu.”

    Esse trecho fez me lembrar o recente caso do ministro Teori Zavascki.

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