Existem evidências históricas para a ressurreição de Jesus?

O Cristianismo possui como fundamento principal a crença na ressurreição de Jesus, considerada um evento histórico inquestionável porque foi testemunhado pelos apóstolos e narrado por eles. Seu túmulo é lugar de peregrinação de milhões de cristãos no mundo inteiro. No entanto, quando saímos do campo da teologia e da fé religiosa para o da discussão histórica propriamente dita, há diversas questões que precisam ser levadas em consideração. Muitos historiadores, por serem cristãos, se recusam a ir a fundo nessas questões, seja por medo de terem sua fé abalada, seja por falta de interesse em questionar a doutrina oficial de sua igreja ou porque confiam piamente na autoridade das pessoas de quem receberam e recebem a interpretação da Bíblia.

Outros, porém, dedicam décadas de estudo e pesquisa, analisam fontes e buscam outras interpretações possíveis desse passado. É disso, aliás, que se alimenta a pesquisa histórica. Não há perspectiva definitiva de um evento passado. As mesmas fontes podem receber diferentes enfoques, que podem levar a diferentes conclusões, ou novas fontes podem trazer informações antes desconhecidas que atualizam o que se pensava saber acerca de um determinado evento.

Entre os pesquisadores que trabalham com Cristianismo primitivo e lançam um olhar sobre a narrativa da ressurreição a partir de uma perspectiva não teológica está Bart D. Ehrman. Ele já foi apresentado aqui na postagem “Jesus existiu?”, uma resenha que traduzi de seu recente livro homônimo em que ele defende a existência histórica de Jesus Cristo, mostrando a insustentabilidade dos argumentos daqueles que acreditam que ele foi apenas um mito, uma invenção dos autores do Novo Testamento.

Ehrman tem se destacado por mostrar que a Bíblia não é um livro coerente como nos ensinaram na igreja. Ao contrário, ela está eivada de erros de tradução, de contradições entre as narrativas, algumas apenas copiadas e alteradas de outras e seus livros e cartas apenas expressam a visão de mundo de seus autores, seus temores, desejos e seus preconceitos. Vista por este ângulo, a Bíblia se apresenta como um livro muito mais humano do que podemos imaginar. A escolha de seu cânone foi meticulosamente pensada para consolidar a hegemonia de um grupo, os portadores da ortodoxia (cujo sentido literal é “ensino verdadeiro”) e excluir os demais, adjetivados de hereges (“heresia” tem o sentido de “escolha”, aqueles que escolheram o caminho, o “ensinamento errado”). No caso do Novo Testamento, os textos originais sequer chegaram até nós, os mais antigos que existem datam do século IV, sendo cópias de várias outras cópias e a maior parte desses livros não foram escritos pelos autores a quem são atribuídos.

Sobre o tema desta postagem, Bart Ehrman travou um debate com um dos mais destacados defensores da fé cristã: William Lane Craig. Craig é um protestante fundamentalista que acredita na literalidade das narrativas do Gênesis, dos milagres e da ressurreição de Cristo. No debate que tiveram, Bart Ehrman fala com bastante lucidez e propriedade acerca do significado da “ressurreição” para a historiografia. Ele parte de uma problematização do que pode ser considerado um evento histórico e fala sobre as contradições e alterações feitas nos textos do Novo Testamento que descrevem a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Ele esclarece que os evangelhos foram escritos décadas após os eventos que narram e isso torna sua confiabilidade duvidosa, porque foram escritos a partir de relatos orais que estavam em circulação há muitos anos.

Ele inicia argumentando que os historiadores trabalham com probabilidades acerca do aconteceu no passado, quando as fontes não são suficientemente claras. E eventos como milagres ou a “ressurreição” não são prováveis de acontecer porque representam uma violação da forma de ação da natureza. E ele diz: “Ninguém neste planeta pode andar sobre as águas. Quais são as chances de um de nós conseguir fazer isso? […] Por definição, a ressurreição provavelmente não aconteceu. E a história pode estabelecer apenas o que provavelmente ocorreu. […] A ressurreição deve ser considerada pela fé, não com base em provas”.

A seguir ele fala sobre algumas possibilidades para o desaparecimento do corpo de Jesus, como roubo pelos parentes, que posteriormente o teriam enterrado em local desconhecido. Embora as fontes silenciem sobre isso, seria uma explicação mais provável do que a ressurreição, porque um milagre, esclarece Ehrman, não é uma explicação histórica. Craig tenta provar a ressurreição usando uma fórmula matemática, ao que Ehrman responde que sua hipótese não é histórica, é teológica, pois requer uma crença pessoal em Deus.

Em outro momento ele expõe um argumento que remete ao princípio do agnosticismo metodológico, usado por historiadores que lidam com temas religiosos: “[…] historiadores não podem presumir crença ou descrença em Deus. Discussões sobre o que Deus fez são naturalmente teológicas, elas não são históricas. Historiadores, sinto dizer, não têm acesso a Deus. Os cânones da pesquisa histórica são restritos apenas ao que acontece aqui neste plano terreno. Eles não podem nem pressupõem nenhum tipo de crença sobre o mundo sobrenatural. Eu não estou dizendo que isso é bom ou mau. Simplesmente é a maneira pela qual a pesquisa histórica trabalha”. Depois ele afirma: “Mesmo que nós queiramos acreditar na ressurreição de Jesus, esta crença seria uma crença teológica. Você não pode provar a ressurreição. Este evento não é suscetível à evidência histórica; é fé. Os crentes acreditam na ressurreição e o fazem pela fé; a história não pode prová-la”.

A exposição que fiz foi um breve resumo do debate. A seguir o leitor pode baixar o texto em PDF do debate, cuja tradução foi feita por Eliel Vieira. Para acessar o texto, o leitor deve clicar no link abaixo. A tradução contém erros de grafia mas não comprometem a compreensão. Embora seja longo, é uma leitura interessante, especialmente pela clareza como Bart Ehrman expõe seus argumentos como um historiador e especialista no tema. Ao final, os debatedores respondem algumas perguntas da plateia. O debate também pode ser assistido pelo Youtube em inglês; há também uma versão legendada no Vimeo.

Debate Bart Ehrman e William Craig

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30 comentários sobre “Existem evidências históricas para a ressurreição de Jesus?

  1. Zetrusk 10/11/2012 / 22:45

    Se não houver questionamentos, nunca haverá respostas.

    • Carlos Alexandre 18/02/2015 / 12:06

      Existe entre Deus e Jesus uma semelhança muito singular. Deus é invisível nesse mundo e ve-Lô é uma das bem-aventuranças prometidas por Jesus aos puros de coração. Em relação a Jesus há uma discussão sobre as provas históricas da sua existência. Mesmo sobre sua aparência física nada se sabe, existindo apenas uma profusão de imagens que podem não ser algo sequer aproximado do que ele realmente é em aparência física. Sendo impossível aos defensores de ambas posições dar uma prova cabal, uma vez que provas históricas são apenas indícios, ser cristão ou ateu é o que determina em quais provas e argumentos se acredita. Creio ser exatamente essa a vontade de Deus desde o princípio, uma vez que é primeiramente pela fé no Seu evangelho que Ele quer ser conhecido. Para o cristão a sua experiência com Deus precisa ser sua prova cabal, ou ele deve começar a pensar que há algo de errado com sua crença.

  2. mr long 11/11/2012 / 7:58

    é apenas um folclore, é mais facil existir ET que a maioria das coisas da biblia.

  3. Micael 11/11/2012 / 16:24

    Na verdade não foi ressurreição, foi reencarnação, pois ele voltou com outra aparência! Ressurreição a pessoa morre e o mesmo corpo volta! No relato diz que Ele não foi reconhecido quando avistado, então o rosto era outro! Reencarnação!

    • Bertone de Oliveira Sousa 11/11/2012 / 17:10

      “Reencarnação” ou “ressurreição” são objeto de fé pessoal e não eventos passíveis de investigação histórica.

  4. Fábio Flora 11/11/2012 / 21:56

    O que existe é a fé de bilhões. Não é pouco. Mas também não é suficiente. Abraços e sucesso com o blog!

  5. Cafajeste Sedentario 12/11/2012 / 0:29

    Realmente,tem que questionar.Embora tenha coisas que nunca saberemos a resposta exata e veridica.

  6. jacbagis 02/12/2012 / 12:29

    O que posso comentar? Nada mudará aquilo que já creio.

    • Bertone Sousa 02/12/2012 / 14:49

      Não é fácil romper os variados catecismos religiosos que nos são inculcados desde a primeira infância, pelo menos no sentido de questionar e buscar outras respostas. Requer esforço e muita determinação.

  7. leandro 07/06/2013 / 10:19

    O mais incrível de muitas pessoas que dizem que creem na bíblia e pronto, é que a maioria dos crentes negam as vidências a respeito de fósseis que comprovam que animais pré históricos existiram de milhões de anos atrás existiram/negam as evidências sobre a idade da terra, negam a evolução das espécies, preferindo acreditar nos mitos da bíblia. Outro dia meu pai me deu uma bíblia de presente, eu isso absolutamente inútil, mas respeitei pelo fato dele ter comprado o livro com boas intenções, porém, ele perdeu tempo acreditando que ainda poderá me converter.

    • Bertone Sousa 07/06/2013 / 11:41

      Leandro,

      a maioria nega até porque nunca estudou nada sobre o assunto. Quase todos os religiosos que criticam Darwin, por exemplo, nunca leram A Origem das Espécies. Nesses casos não há mesmo possibilidade de diálogo.

  8. Claudio Manoel Ferreira Leite 10/09/2013 / 21:00

    Caro professor fontes que afirmam coisas desse tipo são confiáveis?
    “porque um milagre, esclarece Ehrman, não é uma explicação histórica.”
    “Craig tenta provar a ressurreição usando uma fórmula matemática”
    Se o milagre não é uma explicação histórica, ele deve ser descartado? De duas uma, ou você confere à história a autoridade que não aceita dar a Deus, ou você ainda não entendeu que as ciências se destinam a explicar fenômenos físicos, palpáveis, e os milagres ela realmente não conseguirá abordar, pois são metafísicos. Ou a confusão que faz está nas duas coisas?
    Craig erra no mesmo ponto que Ehrman. Ele quer usar uma criatura (matemática) da criatura (homem), para explicar uma violação do Criador às leis físicas.
    Isso pode ser levado à sério?

    • Bertone Sousa 10/09/2013 / 21:56

      Claudio,

      as respostas a essas questões já estão na transcrição traduzida do próprio debate.

  9. Wagner Menke 13/08/2014 / 11:07

    Oi Bertone, primeiramene parabéns pelo blog.

    Acabei de adicioná-lo ao meu feed de notícias. Me identifico bastante com as ideias aqui apresentadas.

    Tô chegando nesse post completamente atrasado, mas acho que posso acrescentar algo. Também sou um inveterado leitor de Ehrman, e fiz um vídeo com base nas ideias dele e de outros autores sobre a divinização de Jesus.

    Espero que goste!

    Abs

    • Bertone de Oliveira Sousa 13/08/2014 / 14:37

      Caro Wagner,

      seu vídeo ficou muito bom e bastante didático, mencionando fontes bíblicas e extra-bíblicas que confirmam a existência histórica de Jesus. Seu vídeo é uma ótima explicação daquela frase do Ehrman quando ele diz que os judeus inventaram que Jesus é o Messias, mas não inventaram a existência dele.

      Parabéns, seja bem-vindo ao blog e obrigado pela contribuição.

      • Wagner Menke 13/08/2014 / 14:56

        Muito obrigado mesmo camarada! Se tiver interesse, se inscreva no canal. O próximo vídeo, sobre as fraudes e falsificações do NT está em edição e ficou bem bacana. Acho que você vai gostar.

        Grande abraço!

      • Bertone de Oliveira Sousa 13/08/2014 / 15:13

        Como nunca fiz uma conta no google, vou adicionar aos favoritos e acompanhar. Só uma curiosidade: como surgiu o interesse para estudar o Jesus histórico?

        Abraço.

      • Wagner Menke 13/08/2014 / 15:22

        Na verdade meu interesse surgiu em estudar o judaísmo e o cristianismo como um todo. Sempre quis saber como surgiu a crença e como ela influenciou e influencia a sociedade.

        Minha proposta é fazer vídeos que vão explorar esse aspecto desde o Mundo Antigo até a modernidade.

        A finalidade última é mostrar que a Bíblia ou os dogmas religiosos não devem jamais se misturar com a política, dado que a crença é pessoal e intransferível e a política é pública. E pra isso acho que seja útil desmistificar a crença.

      • Bertone de Oliveira Sousa 13/08/2014 / 15:29

        Essa que é uma das mais importantes heranças que recebemos do Iluminismo. Legal essa iniciativa. O interessante de estudar religião é que o tema atravessa todos os campos do conhecimento na área de humanas, o que possibilita uma visão abrangente da história.

    • Acacio Alves P. Junior 23/09/2014 / 10:33

      Olá, infelizmente não consegui assistir ao vídeo. Pois aparece como vídeo privado, como acho sua página no youtube para adicionar.

      • Bertone de Oliveira Sousa 23/09/2014 / 13:48

        Acacio, se você está falando do link ao final do texto, não é um vídeo, mas um arquivo em pdf.

  10. Rodrigo Ferraz 02/10/2014 / 1:12

    Boa noite. Fui criado dentro da Igreja Católica e não tinha um conceito claro sobre o cristianismo. Na adolescência deixei de acreditar em Deus com base nos estudos, pesquisas, ciência e por aí vai… mas você bem diz que acreditar na ressurreição de Jesus é uma questão de fé. Assim, a ciência tenta encerrar a questão em vão, é totalmente impossível, como você bem diz, porém, o contrário também é impossível. Torço do fundo do meu coração para que você precise da fé em Jesus Cristo um dia, assim como eu precisei e verá claramente a confirmação de sua existência até os dias atuais e para sempre. Fato é que após a minha verdadeira conversão, pude enxergar como as pessoas que não acreditam em Deus, como eu mesmo no passado, tentam provar sua inexistência. A melhor forma de encarar a ciência é pela ótica divina. Ciência e religião são complementares.

    • Bertone de Oliveira Sousa 02/10/2014 / 13:35

      Rodrigo, na verdade você nunca deixou de ser um crente, apenas passou um tempo com algumas dúvidas. Mas a religião tem variados mecanismos de violência simbólica para que, através do medo e da dissuasão, os indivíduos não a abandonem. Já tem dez anos que estudo essas questões e por isso entendo um pouquinho de como funciona. No meu caso, minhas abordagens priorizam o viés histórico e não têm a ver com a fé, caso você leia o debate cujo link está ao final do texto entenderá o porquê. E ciência e religião não são complementares. A ciência é explicativa e a religião é normativa, são coisas distintas, por isso também não são excludentes. Mas como frequentemente a religião pretende ter o monopólio da verdade e da explicação do mundo, os conflitos com a ciência se tornam inevitáveis à medida que a ciência desconstrói as pretensões de verdade empírica de seus dogmas. Estude mais, caso seu medo de perder a fé assim permita.

  11. pedro ferrez 26/12/2014 / 16:21

    Jesus desmaiou na cruz. Os romanos pensaram que já estava morto, e não quebraram as suas pernas ( então jesus morreria asfixiado).. Ele foi levado ainda com vida da cruz Se recuperou e mais tarde apareceu para a sua mãe e apóstolos.

  12. gilvanderson moura 26/02/2015 / 14:04

    Parabéns pelas argumentações extremamente lucidas…

  13. Marcos 11/06/2015 / 21:02

    Não foi um debate onde apenas Bart Ehrman falou com “bastante lucidez e clareza”. O Dr. William Lane Craig, pesquisador e professor de Filosofia no Talbot School of Theology em La Mirada, Califórnia, também fez colocações lucidas e com clareza ímpar. Mas é aquela coisa, ada um pincela o que lhe convém, como um verdadeiro self service da filosofia/história.

    Lembro-me de um documentário dos diretores James Cameron e um outro israelense (me fugiu o nome). Eram baseados em fatos, mas não exatamente dentro de um contexto. O documentário falava de ossadas achadas em 80 que seria de Jesus, de Madalena, colocada por muitos como mulher de Jesus e do filho de Jesus.

    Mas esqueceram de avisar aos diretores que que os nomes inscritos nas tumbas eram comuns na era do Segundo Templo. Inclusive a inscrição “Jesus filho de José” foi encontrada em muitas outras tumbas em Jerusalém.

    Enfim… segue o enterro!

    • Bertone de Oliveira Sousa 11/06/2015 / 21:55

      Marcos, sei reconhecer a credibilidade de um teólogo quando ele fala com lucidez, mas esse não é o caso dos fundamentalistas como Craig. O debate era sobre evidências históricas e Craig já começou tropeçando nos fatos tentando “provar” a ressurreição com uma fórmula matemática, um argumento que Bart Ehrman, muito mais preparado tanto em teologia quanto em história, facilmente dissolveu. Não se trata de pincelar o que convém, a História, como outras áreas do conhecimento, parte do ateísmo metodológico em suas investigações. Os argumentos de Craig só podem ser úteis para quem tem fé, não para os que querem considerar a pesquisa histórica.

  14. Marcus Canesqui 28/11/2015 / 1:31

    Olá professor.

    Diante dos documentos hhistóricos existentes sobre Jesus, eu pergunto: Alguém já pois a prova a saúde mental de Jesus? Isso é uma coisa que me incomoda muito. Será que Jesus era uma pessoa muito inteligente mas também teria algum distúrbio mental? Pois segundo os relatos ele mesmo se proclamou o messias. Se fosse hoje em dia, lhe seria recomendado uma avaliação psiquiátrica, não concorda? Ou isso foi uma desculpa para ñ teabalhar como carpinteiro ou sei lá… isso pode ser plausível, o q acha?

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