Estudo relaciona descrença religiosa a Q.I. alto

religiaoFaz um tempo que tenho o hábito de guardar notícias que considero interessantes em meu e-mail caso possa precisar para alguma pesquisa ou texto. Hoje, passando por essa pasta vi uma notícia bem polêmica sobre uma pesquisa que relaciona níveis mais altos de QI à descrença religiosa, e resolvi postá-la para fazer alguns comentários a respeito. O estudo foi publicado em 2008 e a matéria é da BBC Brasil. É pertinente levantar essa discussão num momento tão delicado em que atitudes religiosas obscurantistas ganham cada vez mais espaço no Brasil. Reproduzo a seguir a matéria e depois retorno para comentar.

O texto é assinado por Richard Lynn, professor de psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte, em parceria com Helmuth Nyborg, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e John Harvey, sem afiliação universitária.

Lynn é autor de outras pesquisas polêmicas, entre elas uma sugerindo que os homens são mais inteligentes do que as mulheres.

A conclusão é baseada na compilação de pesquisas anteriores que mostram uma relação entre QIs altos e baixa religiosidade e em dois estudos originais.

Em um desses estudos, os autores compararam a média de QI com religiosidade entre países.

No outro estudo, eles cruzaram os resultados de jovens americanos em um teste alternativo de habilidade intelectual (fator g) com o grau de religiosidade deles.

Na pesquisa entre países, os pesquisadores analisaram média de QI com o de religiosidade em 137 países. Os dados foram coletados em levantamentos anteriores.

Os autores concluíram que em apenas 23 dos 137 países a porcentagem da população que não acredita em Deus passa dos 20% e que esses países são, na maioria, os que apresentam índices de QI altos.

Exceções

Os pesquisadores dividiram os países em dois grupos.

No primeiro grupo, foram colocados os países cujas médias de QI são mais baixos, variando de 64 a 86 pontos. Nesse grupo, uma média de apenas 1,95% da população não acredita em Deus.

No segundo grupo, onde a média de QI era de 87 a 108, uma média de 16,99% da população não acredita em Deus.

Os autores argumentam que há algumas exceções para a conclusão de que QI alto equivale a altas taxas de ateísmo.

Eles citam, por exemplo, os casos de Cuba (QI de 85 e cerca de 40% de descrentes) e Vietnã (QI de 94 e taxa de ateísmo de 81%), onde há uma porcentagem de pessoas que não acreditam em Deus maior do que a de países com QI médio semelhante.

Uma possível explicação estaria, segundo os autores, no fato de que “esses países são comunistas nos quais houve uma forte propaganda ateísta contra a crença religiosa”.

Outra exceção seriam os Estados Unidos, onde a média de QI é considerada alta (98), mas apenas 10,5% dizem não acreditar em Deus, uma taxa bem mais baixa do que a registrada no noroeste e na região central da Europa – onde há altos índices médios de QI e de ateísmo.

Lynn diz que uma explicação para o quadro verificado nos Estados Unidos pode estar no fato de que “há um grande influxo de imigrantes de países católicos, como México, o que ajuda a manter índices altos de religiosidade”.

Mas ele reconhece que mesmo grupos que emigraram para os Estados Unidos há muito tempo tendem a ter crenças religiosas fortes e diz que, simplesmente, não consegue explicar a realidade americana.

Generalização

Os autores argumentam que essa relação entre QI e descrença religiosa vem sendo demonstrada em várias pesquisas na Europa e nos Estados Unidos desde a primeira metade do século passado.

Eles citam, também, uma pesquisa de 1998 que mostrou que apenas 7% dos integrantes da Academia Nacional Americana de Ciências acreditavam em Deus, comparados com 90% da população em geral.

Lynn admitiu à BBC Brasil que os resultados apontam para uma “generalização” e que há pessoas com QI alto que têm crenças religiosas fortes.

Segundo ele, há vários fatores, como influência familiar ou pressão social, que influenciam a religiosidade das pessoas.

“Nós temos que diferenciar a situação hoje com outros períodos da história. As pessoas tendem a adotar uma atitude de acordo com a sociedade em que vivem. Hoje em dia, na Grã-Bretanha e em outros países europeus, não há tanta pressão da sociedade para que você acredite em Deus”, afirma.

Uma das hipóteses que o estudo levanta para tentar explicar a correlação entre QI e religiosidade é a teoria de que pessoas mais inteligentes são mais propensas a questionar dogmas religiosos “irracionais”.

Dúvidas

O professor de psicologia da London School of Economics, Andy Wells, porém, levanta questões sobre a tese.

“A conclusão do professor Lynn é de que um QI alto leva à falta de religiosidade, mas eu acredito que é muito difícil ter certeza disso”, afirma.

De acordo com Wells, vários estudos já demonstraram que pessoas com níveis de QI altos tendem a ter níveis de educação mais altos.

“E quanto mais educação as pessoas têm, é mais provável que elas tenham acesso a teorias alternativas de criação do mundo, por exemplo”, afirma Wells.

O jornal de psicologia Intelligence, publicado na Grã-Bretanha, traz pesquisas originais, estudos teóricos e críticas de estudos que “contribuam para o entendimento da inteligência”. Acadêmicos de universidades de vários países fazem parte da diretoria editorial. 

*  *  *

Bem, as objeções mais evidentes a se fazer seriam: nem todas as pessoas inteligentes são descrentes e nem todas as pessoas religiosas são desprovidas de inteligência e o texto enfatiza que isso é verdade. E há exceções notáveis que devem mencionadas: Descartes, Pascal, Newton, Einstein e vários outros renomados cientistas criam em Deus. Pode-se fazer uma lista enorme com seus nomes mas isso não vem ao caso. Mas notem que cada um tinha uma concepção diferente de Deus, o Deus de Newton era racional, e ele próprio repudiava manifestações de êxtases religiosos na Inglaterra de sua época. Uma carta recentemente posta em leilão revelou que Einstein desprezava a Bíblia e a crença em Deus, e em seu livro “Como Vejo o Mundo” ele se mostra avesso à concepção dominante de divindade existente em nossa civlização.

Outra exceção é o fato de que países com alto grau de religiosidade, como Estados Unidos e Israel, possuem níveis altos de pesquisa e produção científica. Mas é importante lembrar que esses Estados são seculares (embora em Israel, o caráter laico do Estado possuaalgumas peculiaridades, como, por exemplo, não há casamento civil, apenas religioso; as escolas públicas possuem aulas obrigatórias de religião e há uma forte predominância do rabinato nessas instituições. Mas isso também pode ser visto mais como uma forma de salvaguardar a identidade cultural do povo judeu do que como uma forma de coibir atitudes diferentes, note-se ainda que Israel é a única democracia do Oriente Médio), e que isso dá às instituições laicas uma forte autonomia sobre as instituições religiosas.

E por falar em autonomia da ciência, isso não foi algo muito popular no governo de George W. Bush, que proibiu as pesquisas com células tronco e propagou o ensino do criacionismo nas escolas sob  o eufemismo de “Design Inteligente”, além de estar fortemente vinculado à direita cristã e governar com base numa visão maniqueísta de mundo (como quando chamou Iraque, Irã e Coreia do Norte de “eixo do mal”). Nesse sentido Barack Obama foi sensivelmente diferente. De formação agnóstica, ele possui uma visão de mundo não alinhada ao fundamentalismo (ver a esse respeito o livro “O Deus de Barack Obama” de Stephen Mansfield e Nathalia Molina).

No entanto, a formação histórica dos Estados Unidos, sobretudo após a independência, favoreceu a instalação de um ambiente propício à divulgação científica, já que no século XVIII o puritanismo via nas ciências naturais uma forma de conhecer os mistérios da criação divina . A fundação de universidades esteve inicialmente relacionada à fundação de seminários teológicos, como foi o caso de Harvard e Princeton. Por isso essa imbricação de ensino e religião esteve no cerne das polêmicas sobre o ensino de evolução nas escolas norte-americanas.

Devemos notar também que o texto não relaciona QI alto a necessariamente ateísmo, mas a uma postura de desfiliação religiosa, de desprendimento de dogmas religiosos. E esse foi o caso dos pais fundadores dos Estados Unidos, deístas (não confundir com teístas), iluministas e de formação humanista.

No Brasil a história foi diferente. Foi um dos últimos países da América Latina a fundar universidades e a educação não foi uma preocupação nem da empresa colonizadora nem do Estado Republicano. Em “Os donos do Poder”, por exemplo, Raymundo Faoro enfatiza que, no fim da República Velha, mais de 70% da população brasileira era analfabeta. Essa situação permaneceu praticamente inalterada até a década de 1940. Políticas de criação de instituições de ensino superior só se tornaram constantes com a ditadura militar, mesmo assim o caráter autoritário do regime, a forma tecnocrática e arcaica como eram conduzidas as políticas educacionais e o exílio de muitos intelectuais para o exterior repercutiram negativamente nesse campo. Mesmo hoje o Brasil contribui apenas com cerca de dois  por cento para a produção científica mundial e, mesmo recentemente tendo superado a Rússia nessa área, ainda é pouco.

Outra questão é que o crescimento de algumas religiões como as pentecostais não reflete em produção sistemática de conhecimento, se limitando essas instituições mais à fundação de seminários, em sua maioria de baixa qualidade. Há sociedades em que a religião influencia o desabrochar de determinadas áreas, mas é reticente em relação a outros. A Índia, por exemplo, se destaca no campo das ciências naturais, mas possui pouca expressão em humanidades. A  Europa, é claro, é um caso à parte; no continente mais secularizado do mundo a produção científica se tornou crescente à medida que esse processo foi se consolidando e com a massificação do ensino.

A história mostra que o predomínio da religião tende a obliterar iniciativas que busquem explicar o mundo de forma independente dela, muito embora a ciência tenha surgido da metafísica e da religião. É certo que muitas das grandes contribuições dadas ao mundo vieram de buscas religiosas, no Egito, na Mesopotâmia e na civilização árabe islâmica. A peculiaridade do Ocidente foi o fato de a religião hegemônica ter sido refratária ao livre pensar de tal forma que ambos se tornaram antagônicos. A solução foi separá-las em definitivo criando Estados constitucionais.

Uma pesquisa mostrou que o Brasil é um dos países mais religiosos do mundo, ficando em terceiro lugar , atrás apenas de Nigéria e Guatemala, e mostrou que entre os jovens há uma forte tendência a seguir preceitos religiosos, sendo que 65% dos jovens por aqui são considerados profundamente religiosos, como no gráfico a seguir:

 

Essa pesquisa corrobora algo que problematizei em um artigo sobre secularização (disponível no menu “publicações”), de que não teve os mesmos efeitos e resultados em todos os lugares por onde chegou, mas misturou-se com elementos das culturas locais desses países e coexiste com fortes tendências tradicionais em diversos lugares dentro de um mesmo país, além do fato de as crenças religiosas terem se mesclado muito, produzindo uma vasta pluralidade de crenças, nem todas dogmáticas, heterogêneas, que atendem aos interesses dos mais variados grupos ou faixas etárias.

O gráfico a seguir mostra a porcentagem de jovens religiosos no mundo. O levantamento foi realizado em  21 países pelo instituto alemão Bertelsmann Stiftung:

 

Portanto, conforme o texto reproduzido acima, a relação entre não religiosidade e desempenho intelectual não é uma regra mas uma tendência, haja vista que pessoas não comprometidas com uma visão religiosa dogmática  tendem a ser mais ousadas tanto em termos de imaginação como em termos de metas de pesquisas, tendem a pensar mais facilmente em novos horizontes e a serem mais estimuladas a propor novas abordagens para interpretação de fenômenos naturais ou sociais.

Hoje, na maioria dos países do Ocidente, há um forte clima de liberdade de pensamento e opinião. Uma conquista cara da modernidade, rara, e por isso, muito preciosa. O mesmo não se pode dizer das sociedades de maioria islâmica, algumas delas outrora pujantes em liberdade de pensamento e hoje entrincheiradas no cipoal da intolerância e do fundamentalismo religioso. Se antes o comunismo internacional capitaneado pela União Soviética era a grande ameaça às liberdades propagandeadas pelo Ocidente, hoje os fundamentalismos religiosos assumem essa posição com tonalidades mais agressivas e expansionistas. Historicamente, a relação das religiões com o conhecimento, ou com determinados tipos de conhecimento, sempre foi marcada por tensões. Concluo com uma citação de Carl Sagan, extraída do livro póstumo “Variedades da Experiência Científica: uma visão pessoal da busca por Deus”:

“Temos os Dez Mandamentos no Ocidente. Por que não há nenhum mandamento nos incitando a aprender? ‘Compreendereis o mundo. Desvendai as coisas’. Não há nada parecido com isso. E são poucas as religiões que nos incentivam a ampliar nossa compreensão do mundo natural. Acho incrível como as religiões, a grande maioria, adaptaram-se mal às verdades impressionantes que se revelaram nos últimos séculos”.

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2 comentários sobre “Estudo relaciona descrença religiosa a Q.I. alto

  1. strodrigo 25/03/2013 / 11:15

    Acho que p “problema” tanto nessa pesquisa quanto na pesquisa que “indica” que homens são mais inteligentes que as mulheres em média é que a medida de inteligência utilizada é o QI, que é criticada em muitos meios acadêmicos de psicologia e neurologia, principalmente após o trabalho de Howard Gardner.

    O QI evidência quase que predominantemente a inteligência lógico-matemática em detrimento de outras igualmente importantes como Intrapessoal, Interpessoal. Corporal, etc.

    Talvez uma análise mais relevante e que eu gostaria de ver mais trabalhos a respeito, é a relação entre religiosidade e carência social.

  2. Mateus Roger 02/06/2016 / 22:59

    Professor, com relação aos seus exemplos de cientistas famosos que acreditavam em algum tipo de divindade, devemos nos lembrar do fato de que na época não havia alternativa a explicação sobre a origem do universo, lembremos também que havia muito menos ateus naquela época do que há atualmente, em 1912, se não me engano, o número de cientistas que acreditavam em um deus era de 50%.

    E sobre o assunto levantado pelo comentarista acima, talvez aches essa matéria interessante:
    http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/oms-brasil-e-o-oitavo-pais-com-maior-taxa-de-suicidios-no-mundo-veja-ranking/?cHash=6feaec8709e0ee109a436c7197eaffb6

    Achei bastante curioso que nos países fortemente religiosos houve mais suicídios do que nos menos religiosos, sendo ateu, eu sou um dos que pensavam que um crente era feliz com maior facilidade.

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