Olavo de Carvalho e a pieguice intelectual brasileira

astrologo-olavoResposta ao vídeo True Outspeak de Fevereiro de 2012. 

Olavo de Carvalho vem exercendo uma influência crescente nos últimos anos pela divulgação que tem feito de suas ideias na internet.  Olavo é hoje o principal representante da extrema direita no Brasil e há décadas vem condenando tudo o que entende como esquerdismo com abordagens tacanhas e reducionistas. Ele se considera filósofo, é doutor em nada, se considera melhor e superior a todos os professores de Filosofia no Brasil e frequentemente destila sua verborragia iracunda contra Marilena Chauí, Paulo Ghiraldelli, Emir Sader, Leandro Konder e outros intelectuais de esquerda por quem nutre profundo ódio. Também se considera o maior representante da alta cultura no Brasil, num inequívoco gesto de loucura megalomaníaca, além de ainda ser bajulador de ditadores de direita, incluindo o fascista espanhol Francisco Franco, a quem considera de “conduta exemplar”.

Olavo é fundador e proprietário do site Mídia sem Máscara, que reúne vários colunistas de extrema direita que escrevem com o único propósito de denunciar o esquerdismo e o que acham ser planos da esquerda para a tomada do poder mundial. A partir de teorias conspiratórias de dirigentes mundiais que ele toma por esquerdistas, escreve e pronuncia discursos e mais discursos para demonstrar que os movimentos sociais de nossa época são apenas peças de um quebra-cabeça que tem como estrutura a montagem de uma ditadura mundial anti-cristã. Isso porque uma característica de Olavo é um forte fanatismo religioso, além de ser defensor intransigente do alinhamento entre religião e política, como aconteceu durante a ditadura de Franco na Espanha.

Olavo pensa o mundo apenas a partir da dicotomia esquerda e direita, sendo que a segunda está sempre certa e a primeira sempre errada. Ele reproduz os jargões da Guerra Fria de que o comunismo é o mal, é anticristão e agora revelou sua face abortista, gayzista e outros “istas” que ele não tem o menor receio de incluir no pacote. Enaltece o golpe de 64 como o movimento que impediu o Brasil de se tornar comunista e lamenta o fato de os militares não terem erradicado completamente a esquerda do país.

Acompanhei durante algum tempo as postagens do Mídia sem Máscara e seu programa semanal True Outspeak.  Rapidamente se pode perceber o quanto seu pensamento está entravado em querer provar a ferro fogo que o outro lado está sempre errado; ao mesmo tempo em que critica as posturas totalitárias dos grupos e partidos de esquerda, ele age de forma inversamente proporcional e não tolera nem suporta nada que possa chamar sua atenção.  Olavo nutre profundo desprezo por Lula, Dilma e pela sociedade brasileira. Não consegue falar de outra coisa que não sejam teorias de conspiração e suas “análises” sociais ficam engessadas em todo esse extremismo ideológico. Como pretenso filósofo e jornalista, o homem é um embusteiro.

No início do ano de 2012, enviei-lhe uma carta levantando alguns questionamentos sobre suas posturas, principalmente por ele se colocar na condição de “filósofo”, ao que ele respondeu da forma que lhe é característica: com xingamentos, desqualificação intelectual do interlocutor (todos os que não concordam com ele são adjetivados de analfabetos, burros, vigaristas, vagabundos e por aí vai). O que ele pensa é: se os esquerdistas não dialogam, não relativizam suas ideias, os conservadores também não devem fazê-lo. Com isso ele se embrenha no mais completo dogmatismo e se fecha a qualquer possibilidade de diálogo com a alteridade. Diálogo que não poderia mesmo ser possível para quem considera os militantes de esquerda como terroristas e inerentemente stalinistas.

Quando levantei a questão da concentração de renda no capitalismo ele teve o cinismo de afirmar que não há concentração de renda no capitalismo. Quando Olavo chama seus interlocutores de vigaristas ele parece estar lhes atribuindo sua própria característica. Não sou anticapitalista nem anticomunista, nem militante esquerdista como ele erroneamente me rotulou. Mas não preciso me apegar a um pensamento ranheta e unilateral e avaliar o mundo como um pedante que pensa ter todas as respostas para tudo. Além de tudo, Olavo mistura religião e política e reafirma velhos dogmas da Escolástica. Não é à toa que não existem textos científicos no Mídia sem Máscara, apenas palpites de conservadores iracundos.  

Curioso também é o perfil dos admiradores de Olavo que postam comentários a seus vídeos no Youtube ou a seus textos na internet: não passam de bajuladores e são tão dogmáticos quanto ele – afinal se não fossem não poderiam suportar suas preleções. Algumas dessas pessoas são seus alunos em um Seminário de Filosofia que ele ministra. Pude ver algumas dessas aulas no Youtube, que não passam doutrinações conservadoras. Olavo de Carvalho representa o que há de mais mesquinho no pensamento político brasileiro, representa uma extrema direita derrotada e ressentida.

Embora se considere um grande intelectual, sua principal obra, “O Imbecil Coletivo”, é apenas a manifestação em dois volumes desse ressentimento; coisa de palpiteiro, como ele mesmo gosta de se dirigir a seus adversários. Olavo não pode ser levado a sério; se postas em prática, suas ideias conduziriam à ascensão de um irracionalismo que poderia nos levar a uma verdadeira “Idade das Trevas”. Felizmente seus seguidores são tão confusos quanto sua mente dogmática – são a expressão maior da pieguice intelectual brasileira.

A pedido de alguns leitores decidi comentar o vídeo-resposta de Olavo ponto por ponto. O motivo de eu não tê-lo feito antes se deveu ao fato de o vídeo ser muito mais um ataque pessoal do que uma argumentação propriamente dita. Uma chuva de insultos (e isso Olavo conhece muito bem), uma forma de intimidação para dar a impressão de estar “humilhando” seus opositores. Para minha surpresa, muitos de seus admiradores vieram aqui repetir as ofensas e deixar outras que não aprovei; gente da mais baixa estirpe, ignorá-las é o melhor a se fazer. Mas ao contrário de Olavo, não vou aqui usar esse expediente nem devolver os palavrões, por três motivos: primeiro, não é de meu feitio argumentar com base em ofensas pessoais; xingar é a coisa mais fácil e apenas pessoas medíocres fazem isso quando são questionadas ou contrariadas. Segundo, por respeito a meus leitores, que são pessoas inteligentes e não acessam este espaço para ler baixarias; por isso comentários ofensivos não são aprovados, pois não pretendo transformar esse espaço num palco de esculhambações. Terceiro, seus xingamentos não me ofendem, eu ficaria muito preocupado se fosse elogiado por ele, mas o fato de ele ter se ofendido tão facilmente com alguns questionamentos apenas mostra sua incapacidade de lidar com a diferença. Em várias partes do vídeo Olavo me chama de “moleque”. Eu poderia devolver todos os insultos, mas em nome de quê? Xingar alguém como Olavo é como agredir um bêbado; além do mais, respeito seu estado senil. Então comecemos. Sua fala será colocada em negrito e itálico, minhas respostas em fonte normal. Clique aqui para ver o vídeo completo de Olavo. As partes referentes ao meu e-mail serão colocadas entre aspas dentro de sua fala:

Essa semana recebemos aqui um e-mail de um professor de história da Universidade Federal do Tocantins, Bertone de Oliveira Sousa, que está reclamando sobre o conteúdo das minhas matérias. Diz ele aqui: “ao ler os textos e assistir aos vídeos de seu site, algumas questões me pareceram muito preocupantes. O site critica de forma unilateral tudo aquilo que compreende como esquerdismo, incluindo aborto eutanásia e homossexualismo”. Em primeiro lugar aqui, seu Bertone é o seguinte: você já escreveu para o vermelho.org para reclamar que eles criticam unilateralmente tudo o que compreendem como direitismo? Não. Então quer dizer que no Brasil já se tornou normal você ter milhares de sites de esquerda que criticam a direita e você tem um de direita que critica a esquerda aí é muito preocupante, o homem está muito preocupado.

Como falei acima, acompanhei durante um bom tempo os programas de rádio de Olavo e as postagens de seu site. E a razão de eu ter enviado este e-mail foi porque tentei acreditar em sua honestidade como pretenso jornalista. E num ponto ele tem razão: não enviei algo semelhante ao vermelho.org por um motivo simples: não leio o vermelho.org. Não acompanho esses sites que fazem jornalismo militante por considerar que esse tipo de polarização já perdeu o sentido. Além disso, a distinção entre direita e esquerda se tornou muito volátil nas últimas décadas para que uma ou outra sejam criticadas a partir de classificações estanques. Mas não quer dizer que sejam sempre iguais, há diferenças e já escrevi sobre isso aqui no blog.

Não sou simpático à esquerda do tipo PSTU da mesma forma como não sou simpático à direita que denega tudo o que não seja conservador, como é o caso do senhor Olavo de Carvalho e seguidores. Mas isso não significa neutralidade. Já escrevi aqui no blog que pessoalmente sou mais simpático à esquerda, por ser mais crítica e autocrítica,  prezar mais pela inclusão social, ter posicionamentos mais decisivos contra a desigualdade, o racismo, a má distribuição de renda. Mas não sou militante nem me prendo a abordagens redutivas apenas para não criticar uma visão de mundo. Isso não quer dizer que a esquerda esteja sempre certa; também não deixo de criticar suas pretensões ditatoriais, quando se manifestam, nem mesquinharias dos que apenas almejam poder e privilégios e essas atitudes não são apanágio da esquerda ou da direita. Reconhecer isso é não ser maniqueísta, não ser limítrofe.

“No que diz respeito a Olavo de Carvalho, é estarrecedor vê-lo defender alguém como o pastor Silas Malafaia”. Eu quero dizer o seguinte: o pastor Silas Malafaia só pode ser atacado, não pode ser defendido? Isso quer dizer que a imprensa inteira tem que ser unânime, descer o cacete unanimemente no sujeito e ninguém pode dizer uma palavrinha a favor dele, mesmo em casos onde ele esteja manifestamente correto como nesta acusação espúria e boboca, aliás, que um promotor fez a ele de que ao dizer que a Igreja Católica tinha que cair de pau naqueles que fazem chacota do Cristianismo, o promotor entendeu que cair de pau significa agredir fisicamente, quer dizer,  fazendo de conta que não entende. Quer dizer, eu não posso defender o Silas Malafaia nem neste ponto? Isso não quer dizer que o Silas Malafaia esteja certo em tudo, que não mereça ser criticado sob certos aspectos, mas toda pessoa que pode ser criticada publicamente também tem que poder ser defendida, ou você não sabe disso? Parece que ele se escandaliza de que não haja uma unanimidade total e ainda reclama de que nós falamos mal unilateralmente. Quer dizer que falar mal unilateralmente do pastor Silas Malafaia tá certo. Ora, pensa um pouco, rapaz, volta pra escola, vai aprender.

Eu não disse que o pastor tem que ser criticado unilateralmente. Inclusive, desenvolvo pesquisas sobre o protestantismo e reconheço que há preconceitos da sociedade com relação aos evangélicos, por uma série de razões: o protestantismo chegou ao Brasil tardiamente, teve dificuldades de inserir-se na cultura católico-brasileira, seu ascetismo sempre foi visto com desconfiança pelo conjunto da sociedade e, desde o final da década de 1980, a crescente inserção dos pentecostais na mídia e na política partidária tem acarretado animosidades entre eles e outros grupos. Mas, se há preconceito com relação aos evangélicos ou a determinados segmentos evangélicos, esse preconceito também é uma via de mão dupla, já que os protestantes também denegam determinadas práticas e comportamentos e pretendem universalizar seus valores.

A minha crítica deveu-se ao fato de Olavo, que afirma ser filósofo, fazer uma defesa ingênua do pastor. Por defesa ingênua me refiro à sua falta de acuidade em analisar o conjunto da situação. O fato a que ele se refere é o seguinte: na parada LGBT de 2011, manifestantes usaram imagens de santos católicos com lemas como “Nem santo te protege, use camisinha”, “amai-vos uns aos outros”. Posteriormente, a Igreja Católica, na pessoa do bispo Dom Odilo Scherer, se manifestou criticando o desrespeito dos manifestantes para com seus símbolos. Depois, Malafaia, em seu programa de televisão, criticou a Igreja Católica por não ter se manifestado (sendo que já havia) e questionou em tom iracundo o porquê a Igreja não descia o porrete nesses caras. Um promotor então tomou a iniciativa de processar o pastor porque suas palavras poderiam ser interpretadas de forma literal por algumas pessoas e desencadear atos de violência contra homossexuais. Ora, em diferentes ocasiões, evangélicos já cometeram agressões físicas contra manifestantes de outras religiões, por exemplo, especialmente afro-brasileiras. A forma como o pastor Malafaia fez seu discurso poderia também gerar atos de intolerância.

E por que o pastor entrou num assunto que dizia respeito à Igreja Católica? Todos conhecem os embates entre Malafaia e o movimento homossexual e isso tem lhe rendido nos últimos tempos ampla visibilidade midiática. Analisei esse assunto no texto “O que quer Silas Malafaia?”. Como disse, não estava afirmando que o pastor não pode ser defendido, apenas estava questionando o fato de Olavo deixar de analisar um conjunto de situações e interesses (e é claro que a militância LGBT também tem os seus, mas esse não era o caso da questão, o caso eram os interesses específicos do pastor). Não me escandalizei com a falta de “unanimidade total da imprensa” – e aqui ele me atribui palavras que eu não disse – mas com sua ingenuidade intelectual. Mas Olavo é um teórico da conspiração, fanático religioso e radicalmente contrário a movimentos sociais que reivindicam direitos a minorias (o leitor pode ver mais sobre isso no artigo “A importância das políticas de ação afirmativa”, neste blog, Tema “Política”), por isso não é de estranhar que ele se recuse a avaliar essas questões por outros ângulos. E aí ele começa a usar sua arma principal: a calúnia, a ofensa pessoal. Mandar voltar pra escola, estudar, ou seja, coisas medíocres vindas de alguém medíocre.

Depois, ele continua citando meu e-mail para comentá-lo:

“Daí ele diz isso: “…ou, pior ainda, em afirmar em um de seus artigos a idoneidade de Francisco Franco”. Eu digo: olha meu filho, vá estudar. Você estude a vida pessoal dos famosos ditadores de direita, como Franciso Franco, Pinochet ou nosso Castelo Branco, Médici, dá uma olhada na conduta pessoal deles e depois compara com a conduta pessoal desses que você adora, que você é um puxa-saco de Fidel Castro, de Mao Tsé-Tung, vai ver. Mao Tsé-Tung era um estuprador, estuprador de meninos e meninas, Stálin a mesma coisa e aqueles que não aceitavam ir pra cama com Mao Tsé-Tung morriam. Dá uma olhada na conduta pessoal e vê. Eu não sou nenhum puxa-saco de Franciso Franco, mas olha, desse ponto de vista, pelo menos, o ponto de vista da moralidade pessoal, não há comparação possível. Agora, Francisco Franco não pode ser defendido nem nos pontos onde ele é obviamente melhor que os outros. Tem que ser a crítica unilateral, ou seja, a unilateralidade da esquerda deve predominar e não pode ser contestada nem num pequeno site da internet, é isso que você pensa seu Bertone. Quer dizer, é isso que você transmite aos seus alunos? Quer dizer que a idoneidade, a honestidade coincide com a unilateralidade da esquerda, que não pode ser contestada, não pode ser desafiada jamais. Quer dizer, é esta a história que você ensina pra ele rapaz, desgraçado?

A pior coisa que existe é fazer pré-julgamento das pessoas e espalhar inverdades sobre elas. Olavo é declaradamente direitista e na sua ambição de provar que sua visão está sempre correta ele não tem escrúpulos em fraudar a história. O que foi a Guerra Civil Espanhola e quem ajudou os nacionalistas de Franco a chegarem ao poder? Os mesmo Hitler e Mussolini que Olavo diz que eram de esquerda, comunistas. Se eles eram comunistas, como puderam ter apoiado os nacionalistas contra os comunistas? A república espanhola foi proclamada em 1931 com o fim da monarquia. O governo republicano era liderado por socialistas e buscou introduzir reformas como a redução do latifúndio e a laicização do país. No entanto, o novo governo enfrentou fortes adversidades provenientes de greves trabalhistas e tentativa de golpe militar. Franco, que havia servido no Marrocos, aglutinou em torno de si o apoio de monarquistas, da Igreja, dos latifundiários e de um partido fascista conhecido como Falange. Depois de uma violenta guerra civil ele conseguiu chegar ao poder em 1939, apoiado pela Alemanha nazista e a Itália fascista. Seu governo foi marcado por forte repressão à oposição de esquerda, prisões, torturas e mortes.

A falácia da equiparação entre fascismo e comunismo é uma das principais teses defendidas por essa gente e também já escrevi sobre o assunto em outros artigos aqui no blog. Quer dizer que não importa as milhares de pessoas que Franco mandou torturar e fuzilar, se ele não “comia criancinhas”, então possuía uma conduta exemplar? Esse vídeo que já possui mais de um ano apenas serviu pra me provar que Olavo é uma fraude intelectual. Ele se coloca como liberal e conservador, o que é uma grande mentira. Conservador, sim, ele é, mas não liberal. Olavo de Carvalho é fascista e sua defesa de um ditador como Franco é uma prova contundente disso. Ademais, este senhor está sempre se colocando a favor de golpes militares e ditaduras de direita e só um tonto não perceberia o quanto há de fascista em seus discursos. Olavo não defende Estado mínimo nem liberalismo nenhum. Ele não defende abertamente o nazismo porque sabe que isso lhe traria uma série de complicações, mas em essência seu pensamento é totalitário, antidemocrático e antiliberal. É avesso ao diálogo e suas leituras filosóficas são todas redutivas. Mais adiante o leitor verá que ele vai elogiar Médici, Castelo Branco, Pinochet; são estes, como Franco, os modelos de governantes que o inspiram. Não é à toa que seus seguidores são todos entusiastas de ditadores de direita e já os vi inclusive defender Mussolini e seu regime. Eles negam que são fascistas apenas para enganar pessoas sugestionáveis.

Mas ele não defende esses facínoras apenas porque acha que eles eram bonzinhos em casa, mas porque não eram comunistas. Quer dizer que matar e torturar no comunismo é desumano, mas num governo não comunista não é? E esse sujeito ainda não quer ser chamado de fascista? E quem está falando em Stálin ou Mao Tsé-Tung? Ou melhor, quem está defendendo esses ditadores? Aqui o devaneio do pesudo-filósofo se coloca à frente de sua argumentação para desqualificar o outro como apoiador de genocidas. Quanta coisa rude e desnecessária foi dita neste vídeo! Olavo só pode defender ditadores de direita se fizer seus ouvintes acreditarem que o outro é defensor de ditadores de esquerda, então ele esquece a história, se apega a pontos isolados da vida desses chefes de Estado e parte novamente pra difamação. A mesma tática em todos os argumentos, algo cansativo e deplorável. Quanto a meus alunos, Olavo, eles são instruídos pra não se tornarem intolerantes como você, mas também não se tornarão devotos de Stálin nem de Mao Tsé-Tung porque não sou limítrofe a ponto de omitir os crimes que esses regimes também cometeram. Ademais, é de conhecimento geral que quem xinga num debate perde a razão. Seria preciso dizer mais alguma coisa?

Daí disse ele: “Ora, isso é deixa”… ele escreve errado pra caramba, é um analfabeto, “isso é deixa de levar em consideração a memória traumática que a sociedade espanhola guarda da ditadura franquista, chegando a manifestar seu protesto contra uma das instituições que mais a apoiou, a Igreja Católica, quando da última visita do papa àquele país”. Sociedade espanhola? A sociedade espanhola ainda é maciçamente católica e quem protestou foi lá meia dúzia de organizações de esquerda, ou você não é capaz de comparar, ou você acha que qualquer gritaria de esquerda representa a sociedade espanhola? Pois vocês esquerdistas são especialistas nisso, em usurpar a voz dos outros, você organiza lá cinco ONG’s pagas com o dinheiro do George Soros, faz um barulho e diz: isto é a sociedade civil. Vocês fazem isso o tempo todo.

Esse texto foi um e-mail que escrevi de forma rápida. E num e-mail às vezes você não tem o cuidado de fazer uma revisão gráfica como se estivesse escrevendo um artigo, então no verbo “deixar” terminei esquecendo o “r”. E um e-mail curto demanda uma resposta também pela mesma via, isto é, outro e-mail. Dedicar um programa de rádio de uma hora pra esculhambar alguém por causa de um breve e-mail é uma resposta desproporcional e desnecessária. Foi um erro por digitação rápida, não um erro de grafia por desconhecimento da norma da língua. Mas pra ele tudo é motivo pra se fazer tempestade num copo d’água. E aqui mais uma vez ele inverte as coisas: embora cerca de 75% da população espanhola se declare católica, o percentual de praticantes é muito inferior a isso. E mais de 20% da população não possui nenhuma religião. A sociedade espanhola segue a tendência de crescente secularização e indiferença religiosa que ocorre no restante da Europa. E ninguém está usurpando a voz dos outros. A memória traumática é uma característica de sociedades que viveram longos períodos sob regimes repressivos e a ditadura franquista era oficialmente católica, por isso há uma ojeriza de setores da sociedade em relação à Igreja.

Mas Olavo não entende a discussão sobre memória porque ele não lê Paul Ricouer, ele não lê essa discussão teórica. E é claro que foram movimentos de esquerda que organizaram o protesto; além de a Espanha ter sido um dos países mais afetados pela recessão econômica e possuir uma das mais altas taxas de desemprego na Europa, a visita do ex-papa Bento XVI, com todas as regalias e privilégios merecia, sim, ser alvo de denúncias e protestos. A visita custou quase cinco milhões de euros aos contribuintes, além dos custos com segurança e emergência médica. (Fonte: Dn Globo) Segundo o Portal Terra, os custos totais do evento eram de cerca de 100 milhões de euros e tudo custeado com verba pública. Isso ele jamais iria falar, claro, seu conservadorismo católico ranheta e sua obsessão antissecularista não poderiam permitir. E não foi por meia dúzia de pessoas. Havia cerca de 120 padres naquele protesto em 2011, além de 2.500 manifestantes. Os padres que aderiram à manifestação não estavam protestando contra o papa, mas contra os gastos e o desperdício de dinheiro público. Em um país com uma das taxas mais altas de desemprego na Europa, qualquer pessoa de bom senso saberia que isso é um desperdício gratuito. E pensar que Olavo diz ser “jornalista”. Ninguém precisa deixar de ser católico para criticar essas circunstâncias, mas Olavo não está nem um pouco preocupado com essas questões, ele não faz jornalismo, apenas propaganda ideológica e por isso omite qualquer coisa que possa arranhar a imagem da Igreja ou da direita, não importa onde e nem os fatos e se limita a espalhar desinformações maquiada de jornalismo.

“Como historiador”, você não é historiador coisíssima nenhuma, você é um professor de história. Você não escreveu nenhuma obra historiográfica que mereça atenção, você é incapaz de escrever a história de um time de futebol. “Como historiador, não posso de notar outras absurdidades históricas como na afirmação de Olavo de Carvalho de que houve mais distribuição de renda na ditadura militar brasileira do que em anos recentes”. Você estudou as estatísticas da época de hoje? Não, não estudou. Então o que o sujeito faz é o seguinte, é a típica de esquerdista. Quando ele vê uma coisa que o desagrada, ele expressa a sua perplexidade, o seu escândalo, o seu espanto. E ele fica tão espantado que ele não precisa argumentar contra o outro, é assim. Você expressa o seu espanto de maneira a dar a impressão de que o que você está falando é tão óbvio que não pode ser discutido, porque se começar a discutir você vai se dar muito mal. Então você chega e diz ah, é muito preocupante, eu estou aqui chocado. Ora, você tá é fazendo teatro. Você não é capaz de discutir comigo mas nem cinco minutos, rapaz. Como historiador, você não é historiador merda nenhuma, porra.

Essa parte é absolutamente risível. Se eu discordo dele não sou historiador, mas se estivesse concordando eu seria? Pra começar, o que define um historiador é, além da formação na área, a realização e publicação de pesquisas. Por enquanto, tenho um livro publicado sobre a trajetória da Assembleia de Deus e vários artigos científicos em revistas indexadas pela CAPES, como resultado de minhas pesquisas de mestrado e doutorado. Um dos objetivos dos cursos de pós-graduação stricto sensu é qualificar os discentes para a realização de pesquisas e as revistas especializadas existem para a divulgação desses trabalhos em forma de artigos científicos, por isso possuem corpo editorial e normas de publicação. Desde que iniciei o mestrado, em 2008, tenho buscado me inserir com êxito no debate acerca do protestantismo no Brasil, uma discussão que ainda é recente em nossa historiografia. Mas Olavo não deve saber nada disso porque ele não é formado em nada, nunca publicou artigo em revista nenhuma e seus livros não são referência pra nada que se queira produzir com algum rigor científico.

Olavo estudou filosofia sozinho apenas pra fazer fofocas e polêmicas rasteiras. Como também não se formou em nada, não está nem aí pra questões teórico-metodológicas, apenas para suas obsessões conspiratórias e anti-comunistas. Veja o leitor também que ele me dirige perguntas e ele mesmo as responde por mim. Deve estar tentando fazer uso de suas habilidades astrológicas, mas nem pra isso elas lhe servem. Meu e-mail não tinha a pretensão de levantar um debate, mas alguns questionamentos a ele. Sobre o fato de o Brasil ter crescido mais em anos recentes do que durante a ditadura militar, isso está muito bem documentado e quem for buscar essas informações históricas irá encontrar. Já escrevi sobre isso aqui no blog no artigo “A Confusão mental dos seguidores de Olavo de Carvalho”.

Além das taxas elevadas de inflação e desemprego, o regime militar deixou uma dívida externa de US$ 90 bilhões, um valor 3.400% mais elevado do que era em meados dos anos cinquenta. O PIB cresceu mas a distribuição de renda minguou em escala proporcional, havendo forte desvalorização do salário mínimo. Por isso a década de 80 foi chamada de “década perdida”. Esse foi o legado que o regime militar deixou, além de não ter realizado nenhuma reforma agrária e ter sucateado a educação pública. Mas a partir de 1994, o país começou a recuperar-se. FHC conteve a inflação, no entanto os programas sociais de seu governo foram de baixo alcance e não faziam jus ao nome de seu partido; por isso o governo Lula ampliou os programas sociais de concessão de bolsas, uma forma de transferência direta de renda. Isso aqueceu o mercado, elevou o padrão aquisitivo de milhões de pessoas, o país não se atolou na crise e possibilitou que esse amplo contingente saísse de fato da miséria. É claro que o país não virou um paraíso e ainda há muitos problemas estruturais; mas do ponto de vista da inclusão social e da distribuição de renda, isso de fato foi ampliado no governo Lula.

Também temos visto uma redução drástica do trabalho escravo que ainda teima em existir no Brasil e uma fiscalização maior de órgãos governamentais para inibir essas ações. As pessoas que criticam programas sociais como o Bolsa Família sequer sabem do que estão falando e reproduzem o senso comum de que os beneficiados não querem trabalhar ou de que o o programa é uma esmola do governo para garantir votos. Esses programas são uma forma de complementação de renda e de empurrar as pessoas para a atividade econômica; é graças a eles que o Brasil tem dado certo, que os empregos formais e as pequenas empresas têm aumentado, alavancando a economia e o poder aquisitivo de muita gente. Além disso, direitos trabalhistas também têm se estendido a amplas parcelas da população que antes não os possuíam. Com a consciência de seus direitos, os trabalhadores se munem de mecanismos para evitar abusos por parte dos empregadores e para planejar sua vida. A direita brasileira é tão estúpida que sequer sabe criticar alguma coisa e mira justamente o que está dando certo e o que o país mais necessita, que são os programas sociais. E que fatos Olavo apresenta pra afirmar o contrário? Nenhum, nada. Apenas bravatas de alguém que não suporta que a esquerda tenha chegado ao poder democraticamente e se mantenha nele democraticamente promovendo inclusão social. Apenas acusações infundadas. Não era eu que estava fazendo teatro, era ele.

O Brasil que Olavo quer é o Brasil da ditadura, dos arrochos salariais, do analfabetismo, da vigilância e controle das universidades e onde pobres e negros não têm acesso a elas, o Brasil das torturas, onde não existem direitos humanos e trabalhistas nem programas sociais, o Brasil sem reforma agrária, dos latifúndios improdutivos, onde o pobre e o camponês são massacrados mas o governo se vangloria de ter impedido o comunismo. É isso o que este senhor fascistoide quer e lamenta que tenha terminado. Felizmente este câncer mora há muitos anos fora do país, assim como outro chamado Diogo Mainardi e outros que são farinha do mesmo saco. E que morram lá mesmo.

Olha aqui eu não sou historiador profissional, mas eu pelo menos participei da equipe de uma obra monumental sobre o exército na história do Brasil em três volumes, publicada pela biblioteca do exército. Então eu tenho alguma obra historiográfica da qual, como diria o Lula, eu possa me gambar, e você? Você escreveu a história de uma escola de samba, rapaz?

Acredito que ele deva ter visto meu currículo Lattes, porque não me apresentei como professor de uma universidade no e-mail. Então ele viu que tenho livro e artigos publicados, mas ele diz isso pra fazer gracinha, fazer teatrinho. Procuro fazer o melhor nas pesquisas que desenvolvo, por isso sei de meu potencial e da qualidade dos trabalhos que produzo e nesse aspecto tenho muita tranquilidade. O que este senhor entende de operação historiográfica eu não sei, mas não deve ser lá grande coisa, já que nem em Filosofia ele escreve algo que seja razoável.

Sua pretensa obra filosófica é pífia. A única coisa que se aproxima de uma discussão acadêmica é a “História Essencial da Filosofia” em 32 fascículos. São livretos contendo entre 40 e 50 páginas e vendidos na Livraria Cultura pelo preço de R$ 77,00 cada um. O preço é extorsivo e a obra não vale isso. A maior parte dos filósofos sequer é apresentada de forma a dar uma visão minimamente abrangente de seu pensamento. Em alguns fascículos a maior parte do texto é composto de respostas a perguntas de seus alunos do Seminário de Filosofia, muitas das quais fogem completamente ao foco do pensador em questão, se limitando a meras divagações sem aprofundamento. No site da Editora, a É Realizações, a coleção completa é vendida ao preço exorbitante de R$ 2.464,00. Seria um grande desperdício de dinheiro pra quem quer se iniciar na história da Filosofia. Com esse dinheiro, o leitor poderia comprar muitas obras de fôlego disponíveis em língua portuguesa, de autores brasileiros e estrangeiros como Sofia Vanni Rovighi, Jean Pierre-Vernant, a clássica obra da “História da Filosofia Ocidental” em quatro volumes de Bertrand Russel (hoje disponível apenas em sebos virtuais), a recente “Introdução à História da Filosofia” de Marilena Chauí, que além de uma abordagem aprofundada, contém várias indicações de leituras adicionais ou os doze volumes de História da Filosofia de Nicola Abbagnano, e ainda sobraria dinheiro suficiente para o leitor comprar várias obras clássicas de filósofos de todas as épocas, indispensáveis para sua formação intelectual.

Então aqui: “…ainda silenciar sobre a participação da sociedade no governo Goulart”. Participação da sociedade no governo Goulart? Eu sei é que a sociedade brasileira, esta sim, em peso, saiu às ruas na maior manifestação pública que já houve, pra pedir a derrubada do governo Goulart e apoiar o golpe militar. Isso aconteceu, ou você não sabe, você não é capaz sequer de consultar a mídia da época, rapaz. E se você pegar a manifestação como as Diretas Já, foi fichinha perto do que aconteceu na época. Vai estudar um pouco, rapaz.

Mandar o outro “estudar”, “voltar pra escola” é a típica atitude de pseudo-intelectuais arrogantes que tentam impor sua versão monolítica dos fatos. O período da história brasileira compreendido entre 1946 e 1964 foi bastante conturbado do ponto de vista político e social. Quando Jânio Quadros renunciou à presidência, em 1961, as Forças Armadas já se articulavam para tentar impedir a posse de Goulart. O fato de ele estar viajando para a China na ocasião foi razão suficiente para que os setores conservadores o considerassem uma ameaça comunista. O golpe militar só não aconteceu três anos antes, em 1961, por causa da reação dos setores populares e reformistas, além de alguns militares contrários ao golpe e da ação de movimentos operários e sociais. Mesmo assim, Goulart teve de aceder à institucionalização do parlamentarismo que durou até o início de 1963.

No poder, Goulart lançou um conjunto de propostas conhecido como Reformas de Base, que compreendia os setores agrário, urbano, educacional, fiscal e administrativo. Nenhuma dessas reformas tinha a ver com socialismo, mas, ao contrário, objetivavam desenvolver o capitalismo brasileiro. Todos os países ricos e industrializados que chegaram a esse patamar tiveram de fazer reformas nesses setores para proporcionar o crescimento econômico. No caso do Brasil, uma reforma agrária jamais havia sido feita que atendesse a ampla demanda nacional. Nossa formação histórica baseada na monocultura, no latifúndio e na escravidão que durou três séculos ainda reverberava na zona rural, até porque a industrialização brasileira durante a República não representou uma mudança substancial nessas relações, mas a acomodação da elite latifundiária à nova conjuntura.

Um dos principais pontos da proposta de reforma agrária do governo era o Estatuto da Terra que pretendia estender os benefícios da CLT  ao trabalhador rural. Além disso, previa-se a criação de uma superintendência com status de ministério estatal para planejar e executar as medidas da tal reforma. Paralelamente, as Ligas Camponesas se organizavam para fazer frente às ações dos proprietários de terras, buscando assistência jurídica, financeira e econômica dos seus filiados. No Nordeste, as Ligas chegaram a contar com cerca de 50 mil associados. A grilagem e a contratação de pistoleiros por fazendeiros para assassinar camponeses era uma constante de tensões em várias regiões do país, especialmente o Nordeste. Além do movimento sindical e dos partidos de esquerda que buscaram ampliar a mobilização popular em favor das Reformas de Base, também surgiu em 1962 a Ação Popular (AP), no interior da Igreja Católica e inspirada no humanismo cristão. Por isso, a organização e crescimento das Ligas Camponesas terminaram desencadeando diversas manifestações conservadoras no país ligadas à Sociedade Rural Brasileira, a Federação das Indústrias de São Paulo, associações comerciais e OAB que se opunham à reforma agrária e buscavam aglutinar as classes médias contra as ações do governo.

Em 13 de março de 64, Goulart realizou um comício para cerca de 200 mil pessoas que se mobilizaram para apoiá-lo e alguns para pedir o fim da política conciliatória. Portanto, houve mobilização social dos dois lados, tanto dos nacionalistas e da esquerda, como dos ruralistas e industriais que encontraram nas classes médias importantes forças de atuação a favor das articulações golpistas. Reduzir a participação social apenas a estes últimos é mutilar a história e recortar os embates sociais que se travaram no período. Veja o leitor que ele não se alonga nos assuntos porque não teria argumentos para defender suas posições reducionistas. Ele não toca na questão da concentração fundiária, da importância das reformas para o capitalismo brasileiro nem vai para uma discussão histórica séria ficando apenas na superficialidade de suas opiniões.

“Em temas recentes os colunistas…” Ah, ele quer falar nas propostas de reforma educacional que foram podadas pelo golpe. Reforma educacional? Olha, eu conheço, por exemplo, a história da Universidade de Brasília, e se não fosse depois o professor Azevedo entrar pra botar ordem na putaria que os caras tinham arrumado, essa universidade nem existiria mais. “Os colunistas parecem ignorar completamente os efeitos da crise econômica nos países ricos, como o aumento do desemprego”. Como, nós falamos disso o tempo todo? E a crise econômica foi causada por gente como você, foi causada por esse pessoal que sobe no governo e quer legislar e controlar tudo e criaram leis que forçavam os bancos a emprestar dinheiro a quem não podia pagar. E fizeram isto porque isto foi um plano esquerdista concebido já na década de 1950, com a ideia que se você forçasse a previdência social e os bancos a conceder mais direitos do que estavam concedendo na época, haveria a destruição, quer dizer, a previdência social iria ruir, os bancos iam ruir e criar uma crise econômica. Essa crise foi inteirinha montada por gente de esquerda. Você nunca ouviu falar de estratégia Cloward-Piven, você não sabe nada a respeito, moleque…

Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira eram dois intelectuais de visão democrática que ajudaram a erguer a UnB. O que ele falou sobre a Universidade de Brasília é estupidamente risível. Isso é o melhor que ele tem a dizer? Ele chama de putaria um ambiente acadêmico de discussão democrática dos problemas nacionais. Em cada “argumento”, o pseudo-filósofo demonstra ser tão pulha que chega a se tornar ridículo. Sobre a questão das causas da crise econômica: o grande problema de pessoas narcisistas como o senhor Olavo é pensar que somente eles sabem de tudo e têm as informações. Em matéria de teoria da conspiração ele se tornou um especialista, tão “especialista” que ficou paranoico e falando tal quantidade de asneiras que foi expulso até mesmo de jornais de direita. E mesmo neste ponto ele está errado. A estratégia Cloward-Piven a que ele se refere foi um plano político elaborado na década de 60 por dois sociólogos americanos (o plano leva seus nomes) que, resumidamente, defendiam uma sobrecarga do sistema previdenciário para forçar uma crise de grandes proporções, conduzindo à implementação de políticas de combate à pobreza por meio da criação, por parte do governo federal, de uma renda para ajudar aos pobres.

Mas não foi bem isso que provocou a crise. E para que eu não seja chamado de “unilateral”, vou remeter o leitor para um site de direita com um texto de um historiador de economia dos Estados Unidos, Gary North, que, mesmo sendo conservador, não é teórico da conspiração (clique aqui para acessar o texto). Logo no início ele diz:

Para o conspiracionista conservador, mudanças sociais devem ser explicadas como sendo o resultado de uma conspiração.  Em seu mundo, um pequeno grupo de poderosos globais — sempre chamados de “eles” — controlam tudo.  “Eles” dão as ordens.  “Eles” decidem tudo que deve ser feito.  Mudanças sociais sempre vêm de cima.  “Eles” são oniscientes. 

O conservador adepto de teorias da conspiração compartilha com o socialista e com o comunista uma enorme confiança no poder do intelecto em dirigir as relações da sociedade.  Eles atribuem a um comitê planejador central a capacidade de prever o futuro quase que perfeitamente, de estruturar as instituições sociais de modo a alterar esse futuro em benefício próprio, e de implementar seus planos de maneira absurdamente eficaz, sendo capazes de sobrepujar o interesse próprio de bilhões de agentes econômicos.

Eles acreditam em Deus.  Esse Deus é a conspiração.

A partir de então North argumenta como o sistema financeiro está organizado de modo a sofrer crises financeiras periódicas e que isso não tem relação com um projeto dos globalistas (que muito menos são esquerdistas, como diz Olavo) mas ao próprio mecanismo de funcionamento da economia com seus Bancos Centrais. É uma interpretação plausível, embora não seja a única. A formação de ciclos de acumulação seguidos por crises é um apanágio da economia capitalista não apenas no século 20, mas ao longo de sua trajetória. Não sou leitor de Ludwig von Mises, mas vale indicar ao leitor do blog o livro “O Longo Século XX” de Ghiovanni Arrighi, um trabalho de fôlego sobre o assunto, uma discussão histórica sobre os ciclos de acumulação de capital, tendo como plano de fundo teórico o conceito de Longa Duração de Braudel e a ênfase nas disputas territoriais como forma de mostrar o caráter limitado da expansão do capitalismo até o presente contexto. Como falei em outra postagem, o dogmatismo de Olavo e sua obsessão de querer denunciar tudo como uma super conspiração mundial da esquerda são motivos pelos quais ele não consegue superar suas próprias limitações reducionistas nem consegue ser respeitado academicamente.

“O site silencia grosseiramente sobre os problemas da concentração de renda no capitalismo”. Concentração de renda no capitalismo? Faz favor, porra. Concentração de renda, isto é na União Soviética, isto é na China. Na China tem até hoje, quer dizer, porque o Partido Comunista concentra a renda na sua mão. Quer dizer, concentração de renda supõe que você tenha uma autoridade que controle a economia e daí só quem tem acesso ao governo são os amiguinhos do governo é que se beneficiam disso e isso é exatamente o que você esquerdistas fazem. Você pega o anuário da Hriday Foundation, que é o índice de liberdade econômica no mundo e você veja, compare lá os números. São números oficiais da ONU e de outras instituições que mostram que onde tem melhor distribuição de renda é nos países capitalistas, não nos socialistas. Aliás, nos socialistas não têm distribuição de renda nenhuma, tem é trabalho escravo, ou você não sabe disso? Agora ele fala isso como se fosse uma coisa que não precisa ser discutida, não precisa ser provada. É autoprobante.

Se alguém quer ser conservador, não precisa abandonar esta condição para admitir que há concentração de renda no capitalismo. O conceito que ele expôs é de concentração de poder, implicando também a esfera econômica, mas concentração de renda não se restringe a isso. Concentração de renda implica um processo pelo qual o lucro proveniente da acumulação de capital e/ou de outros rendimentos confluam para um grupo, que pode ser uma família, uma casta, uma ou mais empresas, um grupo de empresários, banqueiros ou industriais, um segmento localizado numa região específica, dependendo do contexto da abordagem que se queira fazer. De forma deliberada, ele associou concentração de renda apenas a concentração de poder de forma a passar a imagem ilusória de que apenas em sociedades de forte centralização política, como as nações comunistas, pode haver desigualdade de renda. Depois as pessoas não querem acreditar quando digo que Olavo é desonesto intelectualmente. Como domina bem a dialética erística, ele se utiliza de artifícios retóricos para dar a impressão de que está correto, mas partindo de conceitos equivocados ou redutivos. Como seus admiradores são intelectualmente fracos, ficam deslumbrados com isso.

Veja o leitor que nem toquei no assunto da União Soviética e da China e ele leva pra esse lado. O homem está tão absorto em uma retórica belicista que não consegue dialogar fora dessa polaridade. Vou pegar como exemplo inicial o texto do próprio Gary North que indiquei acima. Ele mesmo mostra, a partir de uma discussão de Pareto no fim do texto, que a riqueza é centralizada mesmo quando há distribuição e isso é uma lógica que perpassa tanto o capitalismo quanto o socialismo. O leitor que estudar o nascimento da modernidade durante o processo de transição do feudalismo para o capitalismo e também o período posterior à primeira e segunda Revolução Industrial poderá ter maior clareza das raízes desse processo de concentração de renda, com cercamentos, desapropriações, êxodo rural e as precárias condições de trabalho nas primeiras fábricas. Em O Capital, Marx problematizou isso discutindo como a falência das manufaturas e dos pequenos produtores, além da desapropriação dos camponeses, gerou um exército industrial de reserva no alvorecer do capitalismo cuja utilidade era manter os salários baixos ao mesmo tempo em que praticamente toda a família trabalhava para incrementar a produção. A inexistência de leis trabalhistas no contexto favorecia os abusos e castigos físicos de patrões contra empregados. O movimento operário surgiu em decorrência disso.

No século 20, os países desenvolvidos, especialmente no pós-Segunda Guerra, tiveram de repensar o que fazer com os pobres, foi aí que nasceu o Estado de Bem-estar social, uma alternativa que se interpunha entre o extremo da revolução socialista e o depauperamento engendrado pela não intervenção do Estado. Os países capitalistas do chamado Primeiro Mundo passaram a distribuir renda de forma mais equitativa depois que repensaram o papel do Estado. Movimentos trabalhistas e intelectuais marxistas não ortodoxos como Edward Bernstein foram importantes nesse processo, como também foram importantes os acontecimentos posteriores à crise econômica de 1929 com a ascensão dos totalitarismos e subsequentes ameaças às liberdades democráticas.

Num contexto de globalização como o nosso, em que coexistem sociedades pós-industriais e sociedades que ainda vivem da caça e da pesca e levando em conta as desigualdades entre as nações no tocante a formações históricas, descolonizações, guerras civis ou com estrangeiros e corrupção endêmica em determinadas sociedades, a concentração de renda se torna um fator gritantemente elevado como mostra esta reportagem. Agora como resolver ou atenuar esses agravantes ainda é uma incógnita já que o socialismo se mostrou uma alternativa desumana e inviável e a elevação do padrão de consumo global tem de ser pensada a partir de políticas de sustentabilidade. Alguns advogam a criação de uma moeda e de um parlamento mundiais como forma de resolver os conflitos e as crises, mas se isso resolveria o problema da miséria e da pobreza extremas ainda é uma questão que permanece em aberto.

E já que ele falou na ONU, vamos aos dados. A Universidade Federal de Campina Grande divulgou um estudo realizado por um órgão das Nações Unidas (clique aqui para acessar) que mostra que mais da metade da renda mundial está concentrada nas mãos de apenas dois por cento da população. Um trecho de estudo diz o seguinte: “Quase 90% da riqueza do mundo está sob o controle de moradores da América do Norte, Europa e dos países de renda elevada na região Ásia-Pacífico, como o Japão e a Austrália”. Além disso, uma parcela significativa da população mundial não possui rede de esgotos, água encanada, condições minimamente razoáveis de moradia entre outras coisas. Em sua fala o que ele fez foi desviar o foco do assunto pra voltar a falar de União Soviética e socialismo. É claro que houve muita concentração de renda também no Estado Soviético e todos os outros estados socialistas. Porque nesses países, ao invés de haver redistribuição de riquezas, o que houve foi apropriação delas pelo Estado, ao invés de socialização, estatização. E, de fato, o poder absoluto concentrado nas mãos do estado gerou uma espécie de servidão coletiva contemporânea, na medida em que a propriedade individual, a criatividade e o empreendedorismo foram vetados à sociedade, gerando conformismo e baixa produção de bens de consumo, o que a longo prazo causou a desestruturação daquele modelo de planejamento.

Mas esse não era o foco do que eu afirmava. O comunismo morreu e juntamente com ele o modelo centralista e totalitário que representava. O homem é monomaníaco, repete a mesma coisa dezenas de vezes e ainda pretende com isso ser chamado de intelectual. E quem foi que disse que alguma coisa não precisa ser provada? Aí estão os dados, há estudos da própria ONU sobre isso. No livro “A Corrida para o Século XXI” (Editora Companhia das Letras, 2001), o historiador Nicolau Sevcenko cita dados do Relatório de Desenvolvimento Humano da ONU de 2000, que mostra a disparidade entre países ricos e pobres. No texto, ele está elencando os aspectos negativos da globalização como a ampliação do tráfico de drogas, o aumento da criminalidade, mortalidade infantil e instabilidade financeira. Em países mais pobres como o Brasil, a adoção de políticas neoliberais na última década do século passado acarretou o agravamento desses problemas. Baseado no relatório da ONU, Sevcenko faz o seguinte comentário:

“Entre 1990 e 1998 a renda per capita caiu nos cinquenta países mais pobres e aumentou nos 28 mais ricos. Cerca de 1,2 bilhão de pessoas, o que equivale a um quinto da população mundial, vivem em nível de miséria absoluta. Cerca de duzentas crianças morrem por hora nos países do Terceiro Mundo, em consequência de desnutrição e de doenças banais, para as quais a cura seria simples, desde que houvesse recursos de atendimento” (página 43). O fato de Olavo recusar-se a admitir isso como uma criança mimada deveria ser suficiente para que qualquer seguidor dele que tivesse vergonha na cara jogasse seus livros no lixo e o denunciasse como uma fraude.

Não sou anticapitalista nem adoto uma visão de mundo maniqueísta com relação a qualquer assunto, isso é uma questão de informação. Mas ninguém precisa ser anticapitalista pra informar essas coisas. Até a Revista Veja, ícone do jornalismo direitista no Brasil, já veiculou uma matéria sobre isso. E pra constatar isso ninguém precisa ser stalinista ou comunista. Para ele, bilionários, empresários, governos, todos são comunistas a urdir uma conspiração mundial contra as liberdades individuais e o cristianismo. Não sei como este senhor ainda não tomou veneno de rato achando ser ele próprio um agente da tal conspiração. Em toda a sua fala ele me atribuiu coisas que não disse para cantar de galo e passar a ideia de que estava abafando. É uma postura tão infantil, tão mesquinha, ainda mais por parte de um senhor com mais de sessenta anos que chega a dar vergonha alheia. Se essa forma de debate desonesta e insultuosa é o que agrada a ele, isso já evidencia o caráter deformado e neurótico desse homem.

“Também é curioso que os artigos sobre a América Latina têm como preocupação central fazer apologia das ditaduras militares que grassaram no continente, minimizando o impacto sobre suas vítimas quando comparadas ao stalinismo ou ao maoismo.” Como minimizar? O impacto foi menor, foi incomparavelmente menor. Você não vai poder comparar um Pinochet e muito menos os nossos ditadores militares ao Fidel Castro ou a qualquer ditador de esquerda no mundo. Não é que nós estamos minimizando, nós estamos dando os números que estão registrado historicamente, ou você não sabe? Você vai querer comparar as três mil vítimas do Chile, do governo Pinochet no Chile, com setenta milhões da União Soviética, com setenta milhões da China? Você vai querer comparar, sou eu que estou minimizando? Quer dizer que eu que estou fazendo o número três mil ser menos que setenta milhões, ou você não aprendeu aritmética?

Minimizar aqui não foi colocado no sentido de comparação aritmética, mas no sentido de que os colunistas do site silenciam sobre os abusos cometidos nas ditaduras militares latino-americanas, enfocando apenas o que aconteceu em outros regimes. É fato que o comunismo foi a maior tragédia humanitária do século 20 em termos de vítimas humanas, como o provam as mortandades da Revolução Cultural, do Grande Salto à Frente, do Holodomor e do Camboja. Mas isso não significa que tenhamos que celebrar ditaduras militares apenas porque não eram comunistas. A revolta expressa nos artigos dos colunistas do MSM e de outros sites de direita com a Comissão da Verdade, por exemplo, evidencia que o que está em jogo não é apenas a crítica do comunismo enquanto regime totalitário, mas também a não aceitação de que um governo de esquerda democraticamente eleito possa instituir legalmente uma comissão para investigar os homicídios e torturas cometidos por militares durante o período em que estiveram no poder. E aí eles fazem uma inversão da situação alegando que guerrilheiros assaltaram bancos e fizeram outras coisas, como aquele argumento de que não foi o cachorro que mordeu o homem, mas o contrário. Na cabeça limítrofe dessas pessoas, as vítimas são os algozes e os algozes são os mocinhos.

Quanto às sociedades que vivenciaram totalitarismos de esquerda, que criem suas comissões da verdade, investiguem seu passado recente, encontrem, julguem e punam os responsáveis pelas mortes de milhares de pessoas. Não temos o poder de fazer isso por eles, mas podemos julgar aqueles responsáveis pela morte de outros milhares de pessoas em nosso território. Se, durante a Guerra Fria, diversos segmentos da esquerda foram omissos com relação a abusos cometidos em regimes comunistas, hoje, alguns segmentos da direita conseguem ser ainda piores e perder a razão no debate por não entenderem que a conjuntura mudou e que se eles podem criticar Lula, Dilma e outros agentes é porque vivemos em uma democracia, a mesma democracia que os militares derrubaram e que esses conservadores apoiaram. Agora choram como viúvas de um regime autoritário porque se recusam a ser vistos de outra forma que não a de heróis.

O fato de regimes comunistas terem vitimado milhões de pessoas algures é motivo suficiente para silenciarmos com relação aos abusos cometidos pelas ditaduras militares em nosso continente? É motivo para considerarmos essas milhares de vítimas insignificantes apenas porque alguém acha que se os militares não tomassem o poder os comunistas o fariam? E aqui entra a mesma questão com relação a Franco: matar e torturar num regime de esquerda não pode mas num de direita pode? A tortura e a morte perpetradas por regimes autoritários não são abusos de direitos humanos independente de qual bandeira ou ideologia eles estejam atuando? Que tipo de liberal é esse que denuncia abusos em ditaduras de esquerda mas silencia com relação aos abusos em ditaduras de direita? Tire o leitor suas próprias conclusões.

 “Em um de seus programas Olavo fala de abordagem ideológica, que ele define como abordar um assunto defendendo apenas o lado que interessa à pessoa, chamando a atenção para os problemas advindos desse tipo de abordagem, ao que eu pergunto: essa crítica não deveria ser aplicada ao próprio site e seus cronistas pela forma como as matérias são selecionadas e redigidas?” Olha aqui, primeiro o site foi feito para compensar a hegemonia esquerdista. Então nós não temos que dar aos esquerdistas no nosso pequeno site a chance que eles não nos dão na Folha de São Paulo, no Estadão, no Globo e em parte alguma. Então que nós estamos tentando é criar, vamos dizer, pelo efeito de contraste, um pouco, um mínimo, mínimo, mínimo de equilíbrio nessa discussão. Então, se todos os sites repartissem o seu espaço, dando espaço para todas as vozes, para todas as modalidades de pensamento ideológico então, sim, nós faríamos o mesmo, mas não tem sentido. Se o nosso site é feito justamente para formar um contraste e criar o mínimo de equilíbrio indispensável, o mínimo de confrontação indispensável, então é claro que a sua crítica não é procedente. Ademais, você está confundindo duas coisas: o pensamento ideológico não se define por defender um lado, todo mundo defende um lado, não é este o problema. O problema da abordagem ideológica é que ela proíbe, ela veta a possibilidade de você levantar outras perspectivas, não necessariamente perspectivas que se opõem a ela politicamente. Porque o simples fato de você equacionar uma situação, tem aqui uma direita, tem aqui uma esquerda, tem que ter os dois lados. Isso aí cientificamente é bobagem. Quer dizer, a confrontação de ideologias opostas não tem nada a ver com a confrontação de várias hipóteses científicas, ou você confunde as duas coisas? Você está confundindo a simples honestidade num debate político, que é dar voz, direito de voz a todas as facções, com a confrontação científica de hipóteses, que é do que eu estava falando.

Ideologia é um termo que pode ser definido de diferentes maneiras. Minha pergunta foi pertinente porque algumas semanas antes desse programa ele tinha definido abordagem ideológica como um tipo de abordagem unilateral. Foi então que, acreditando que ainda restava alguma honestidade intelectual em Olavo, resolvi escrever a tal carta finalizando com esse questionamento. A resposta à minha pergunta seria um contundente sim. O que é publicado no site é apenas o que se restringe à visão conservadora de seus autores, ou seja, para eles, admitir que há concentração de renda no capitalismo, que é importante julgar os crimes cometidos pelos militares quando estiveram no poder, entre outras coisas, seria fazer uma concessão aos não conservadores. Então, baseados no que acham, de que os não conservadores apenas escrevem o que lhes interessa, eles resolveram também adotar a mesma postura, mesmo que para isso tenham que jogar a história no lixo e tergiversar em torno de um único tema: tudo é uma conspiração comunista mundial. E chamar a Folha de São Paulo, o Estadão e O Globo de jornais esquerdistas é de matar.

Se ele quer formar um contraste, tudo bem, vivemos numa democracia com plena liberdade de expressão e o próprio fato de eles poderem negar isso já é uma prova de que há. Mas ao invés de criar um equilíbrio, eles estão polarizando o debate e só um tonto não percebe isso. Não existe diálogo quando se polariza o debate, o que existe é isso aí que ele fez: mesmo quando alguém tenta dialogar, a outra parte está tão embebida de extremismos, que imediatamente parte para a agressividade, calúnias e insultos. Sobre a questão de a confrontação de ideologias não ter relação com a confrontação de hipóteses científicas estou de acordo. Não existem textos de teor científico no MSM, apenas de militância ideológica. Em relação à ciência, o que fazem é uma negação pueril e infundada da ciência moderna, haja vista que misturam esse tema com religião. Mas o que se pode esperar de alguém que nunca passou pela universidade e não tem a menor preocupação com metodologia? Se ele afirma que outros espaços na mídia não lhe dão a oportunidade de se pronunciar, está mentindo. Olavo já foi colunista de outros jornais como O Globo mas perdeu esses espaços. Até hoje ele demonstra ter um profundo ressentimento por isso e, como defesa, chama esses periódicos de “esquerdistas”. Hoje Olavo vive isolado nos Estados Unidos, de onde ministra seu reles Seminário de Filosofia e escreve textos narcisistas e conspiracionistas para o Diário do Comércio e o MSM.

Aí estão os fatos e suas repercussões. O que torna fácil refutar as afirmações de Olavo é sua desonestidade intelectual. Apesar de ele querer cantar de galo na internet como um grande intelectual, na prática é um grande impostor, não por ser de direita, mas por ser desonesto mesmo, por repassar informações deliberadamente falsas da história e somente pessoas muito incautas podem dar crédito ao que ele diz. Não me alonguei mais para não tornar a leitura enfadonha e também porque ele não apresentou argumentos consistentes que tornasse necessária uma argumentação mais expressiva. Quando faltam argumentos e educação sobram grosserias e é basicamente isso que contém o vídeo. Além disso, qualquer um que tenha uma leitura razoavelmente embasada em história perceberá a desonestidade em seus discursos e textos, a tendência monomaníaca e o extremismo ideológico. Os que são inteligentes, que sabem que essa divisão direita/esquerda é uma retórica vazia de Guerra Fria, que essas tendências não são estanques e não veem essa divisão de forma maniqueísta, perceberão ainda o anacronismo de sua retórica bem como de todos os colunistas do Mídia sem Máscara e de outros sites de extrema direita.

Ademais, Olavo representa uma direita estúpida, intolerante, totalitária, saudosista  da ditadura e de regimes fascistas, laudatória da Idade Média, de tudo o que é anticientífico e de teocracias cristãs. É um sujeito que foi expulso de todos os espaços e vive no isolamento e na internet fazendo de tudo pra chamar a atenção, criando polêmicas e distribuindo ofensas gratuitas. Seus seguidores são, em sua quase totalidade, brucutus apedeutas que seguem à risca o mesmo estilo fanfarrão de seu mestre. Olavo aprendeu uma frase que usa para referir-se a seus interlocutores mas transformou-a em sua própria filosofia de vida: “acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é”. Quando chama seus adversários de vigaristas, repetidores de chavões, totalitários, todas as calúnias que faz aos adversários podem ser encontradas em sua própria personalidade, em sua própria retórica. Numa era da informação como a nossa, espalhar inverdades e desinformação é uma maneira eficaz de causar confusão mental em pessoas intelectualmente fracas e isso ele faz com muita destreza.

Não compreendo porque algumas pessoas têm medo de debater com Olavo, ou talvez elas apenas adotem a correta postura de ignorá-lo. Ele não tem muitos argumentos e rapidamente parte pra isso que o leitor viu: intimidações e calúnias. Chama as pessoas do que elas não são apenas para pretender ter alguma razão no “debate”. Em termos de análise social, fora de alguns elementos de teoria de conspiração, facilmente identificáveis e refutáveis, ele não possui muita profundidade e com algum aperto logo se exacerba. Ele é muito fraco em história e só argumenta no sentido de tentar desviar o foco do assunto para fazer ataques pessoais. Seu narcisismo chega a ser risível e vergonhoso por acreditar que os outros não estudaram nem sabem de nada, somente ele. Quem ler os textos de Olavo no Diário do Comércio não verá análises sérias da conjuntura política ou econômica atual, mas auto-bajulações, como alguém que está continuamente querendo afirmar-se e buscando um reconhecimento forçado e tentando desacreditar a todos os intelectuais de seu país. Chega a ser uma atitude desesperada por parte dele. Confesso que senti dó quando o ouvi dizer que não sou historiador porque ele estava com raiva do que escrevi. Irritar-se tão facilmente é uma demonstração inequívoca de fraqueza. E argumentar com base em insultos é uma postura de pessoas medíocres e desequilibradas. Como alguém pode ser tão tacanho e pueril a ponto de apelar para tanta baixaria? E seus seguidores seguem a mesma tendência.

Tenho recebido diversos comentários de olavetes enfurecidos com minhas postagens. É notória a incapacidade dessas pessoas de argumentar, vindo apenas vomitar insultos e não sendo nem mesmo possível publicar seus comentários. Fico imaginando que o “grande” legado de Olavo Carvalho, assim como de outros jornalistas de extrema direita como Reinaldo de Azevedo será uma turba de ignorantes insensatos. Embora essas pessoas façam muito barulho na internet são inexpressivos politicamente e as eleições provam isso. Qualquer pessoa que não seja limítrofe perceberá que este senhor é um embuste e me admira que muitos o sigam cegamente sem fazer nenhuma análise crítica do que ele diz. Me admirava, aliás, porque depois que passei a receber seus comentários só pude constatar o quanto são mentecaptos. É a condição lamentável daqueles que não estão interessados em conhecimento e buscam mais a imagem de um líder para fazer militância extremista e receber doutrinação ideológica.

Leia também neste blog:

Olavo de Carvalho: um filósofo para racistas e idiotas

O leitor pode conferir outros textos sobre Olavo no Tema que leva seu nome no menu lateral do blog.

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117 comentários sobre “Olavo de Carvalho e a pieguice intelectual brasileira

  1. roberto 31/01/2016 / 20:29

    Desculpe. Não possuo um estudo filosófico profundo destas coisas. Mas eu pergunto aos senhores: A educação não esta mesmo sucateada, fraca e com todo estabelecimento de ensino querendo que a pessoa seja doutorada em Marx, Gramsci, etc. Por que se vê tantos comunistas até como avaliadores de passistas na tv? E até programa como Rota do Sol, mostrando uma cidadezinha do litoral de São Paulo, tem que mostrar durante a apresentação da matéria um foco especial de alguém com um boné com insignias do PT? Não entendo, mas é fácil notar.
    Os senhores que entendem, o que é Foro de São Paulo? Por que a América latina teria que se tornar uma China ou uma Coréia do Norte? Pouco entendo do palavreado do Olavo que diz “que Deus tem um forte preconceito contra quem não é católico” Por que ele disse isso?
    Já lí livros esotéricos como os de P.D. Ouspensky e de Jidu krishnamurti e gostei. Será que vou para o inferno, excomungado pelo enviado de Deus, Olavo?
    Desculpe. O que esse “movimento sem terra ou sem teto” faz pelo brasileiro? Eu não tinha casa. Fiz uma com bastante luta num terreno da prefeitura. Consegui a documentação.Vendi e financiei outra num bairro melhor. Uma luta de anos. Onde tem movimento de esquerda dando melhores condições para a população pobre? Trabalho desde pré adolescente. Sabia muito bem que estava trabalhando. Porque tem tanta gente dizendo que menor não sabe o que faz e com leis brandas empurram tantos para a criminalidade?Sou hétero, mas tenho respeito pelos homossexuais. Os movimentos LGBT, ajuda eles em que? E se hétero não pode sair se exacerbando pela rua, porque vários agentes de opinião julgam que homossexual podem? Não estariam mesmo querendo abalar os alicerces da sociedade? E estes carros com alto-falantes gritando palavrões e incitando o crime? Não é crime? Porque eu teria que nas próximas eleições votar na esquerda? No PSDB que fez o que fez com a segurança pública e São Paulo? Ou no PT, que fez o que fez com Brasil?
    Estou com 52 anos e entrei agora a faculdade de Filosofia. A vida toda foi correndo para manter a família e alimentar este sistema que nem sei mais como definir.
    Ha… sim, só mais uma questão. Sou negro, mas nem quiz saber como funciona isso de cota.
    Tenho uma filha que acabou de entrar na UFRJ,que também nem gosta de ouvir falar disso. Por que um cidadão tem que ter um direito especial sobre outro por conta da posição política, ou opção sexual ou cor da pele? Será que não existe mesmo uma estratégia para tentar nos manipular e por um contra o outro?
    Quero dizer que quando digo que só sei que nada sei, não estou querendo dar uma de Sócrates, a questão é que estou confuso mesmo. Estou enviando estas perguntas para este site
    (Bertone de Oliveira) Vou copiar, colar e mandar para o Sr Olavo, porque (Podem me chamar de burro), mas não achei nenhum dos dois burros não. Obrigado e desculpem o meu jeito.

    • Bertone de Oliveira Sousa 31/01/2016 / 22:59

      Roberto, o que acontece com você é uma incompreensão de muitos aspectos da cultura e do mundo contemporâneo. Infelizmente, essa incompreensão leva muitos a se encaixarem em posições extremistas que pouco ou nada explicam, como a que o Olavo representa, algo que procurei deixar bem claro neste texto e espero sinceramente que essa não termine sendo sua escolha. Aqui no blog já tem vários textos que contemplam a maior parte de seus questionamentos, inclusive sobre cotas, sobre a esquerda e a direita no Brasil, sobre o comunismo (que não existe mais como movimento político), entre outros. Você pode explorar esses textos nos temas do menu do blog.

      • Gustavo 09/11/2016 / 11:31

        Infelizmente, ocorre no Brasil um “efeito pêndulo”, onde vamos de um pensamento dito como de “centro-esquerda ou esquerda mais racional” (que de centro, esquerda ou racional não tem nada – Vide o crescimento dos escândalos de corrupção, o aumento e notoriedade de movimentos de extrema esquerda e a bipolarização da política e do livre-pensamento em escolas e universidades), para uma “direita liberal conservadora” que, em um exercício de simples imaginação, já sabemos que de liberal não terá nada, tão pouco de direita – Pois a história mostra que o foco conservador e de extrema direita no Brasil é Estadista e centralizador.
        Ou seja, estamos alternando entre extremos a muito tempo. Alternamos entre um regime colonial para um regime monarca, de um regime monarca para um regime presidencialista, de um regime presidencialista para um regime ditatorial (pasmem! Getúlio Vargas é aplaudido tanto pela extrema esquerda, quanto pela extrema direita! Ridículo!), de volta a um regime presidencial, depois para outro regime ditatorial (agora com as forças militares) e assim em diante.
        Acredito nas ideias liberais, acredito fortemente no trabalho e na mínima intervenção Estatal. Penso que o Estado deve cuidar de educação, saúde / saneamento básico e segurança pública.
        O Estado não deve cuidar de quem está na diretoria da Petrobrás “que fura poços de petróleo”.
        O Estado não deve estar em empresas Estatais (veja, aqui eu faço um contraponto: Sou a favor da privatização mas acredito também que o funcionalismo público não é culpado por si só de todos os problemas das empresas Estatais – Penso que poderíamos tirar o governo destas empresas, deixa-las com seus funcionários públicos e com os seus direitos adquiridos e entregamos essas empresas a uma administração privada que responderia diretamente a estes funcionário! Quem melhor para administrar uma empresa pública do que os funcionários públicos concursados? Vocês acham que o funcionário público da Petrobrás gosta de ver corrupção da Diretoria que foi posta pelo Executivo e pelo Legislativo do Estado?), dizendo que será o gerente daquele funcionário público de carreira (que normalmente é um aspone, amigo de político ou pessoa de conduta duvidosa em período noturno).
        O Estado não deve “Estatizar” os direitos autorais músicas (como foi feito recentemente com o ECAD).
        Veja, não sou a favor de um Trump, que claramente tem políticas xenófilas, preconceituosas e extremistas. Esse cara, com certeza esta voltado para o “extremo” que eu justamente estou criticando.
        Mas percebo que no Brasil existe uma elite que domina o status quo, não deseja que o mesmo se modifique e usufrui de uma belíssima tropa de idiotas e imbecis funcionais que atual gritando, badernando, quebrando e impedindo a dialética, a oratória, o pluralismo de ideias e apreciação do debate aberto.
        E essa elite dominadora não são empresários (pelo menos em sua maioria).
        São os políticos! E toda a sua máquina Estatal.
        Salvo exceções a regra, empresário no Brasil é um herói! Lembre-se que uma das definições de herói é que são aqueles que fazem o que tem que fazer e suportam as consequências pelos seus atos.
        Quanto ao ponto da Educação no Brasil, peguem a melhor Universidade de país (USP) e comparem com a pior Universidade da Alemanha, USA, Canadá, Suécia, Espanha, Nova Zelândia, Coreia do Sul, de Portugal, do Chile…
        Estamos muito mal!
        Pensem um pouco:
        – Quem era a Coreia do Sul a 30 anos atrás?
        – O que foi feito neste país para se tornar o que ele é hoje?
        – O que você tem que foi desenvolvido lá? Celular? Carro? TV?
        – Você sabia que a quantidade de livrarias no Brasil inteiro é menor que a quantidade de livrarias existentes na cidade de Buenos Aires?
        A única coisa que pode salvar este país é Educação.
        Um professor primário na década de 40, ganhava a mesma coisa que um juiz de direito.
        Por favor, recado aos “coxinhas” ou “petralhas” queriam me esculhambar…
        Estou totalmente aberto a troca de ideias e ao debate aberto.
        Ofensas serão solenemente ignoradas.

  2. Satangoss Espacial 04/08/2016 / 14:03

    A última deste pastor de idiotas foi chamar o filósofo, jornalista, advogado e palestrante Clóvis de Barros Filho de “pedófilo”. Olavo deveria estar preso a esta altura.

  3. marcela 06/11/2016 / 13:16

    Inacreditável o video resposta ao email do Bertone. Escrevi um comentário lá e posso me preparar para ser xingada… deixa rolar! Parabéns pela coragem de questionar esse idiota que é o Olavo de Carvalho!

  4. Vinicius Macia 11/11/2016 / 21:05

    Impressionante como pessoas da estirpe de Olavo de Carvalho substituem argumentos por xingamentos sem nenhuma preocupação.
    “Como historiador, você não é historiador merda nenhuma, porra.”
    “Faz favor, porra. Concentração de renda, isto é na União Soviética, isto é na China”

    Podemos perceber que “porra” deveria ter sido substituido por um argumento comprobatório, um porquê, um argumento que valide as afirmações. Como não há argumentos, há ofensas.

  5. Jorge Novaes 06/05/2017 / 12:47

    Não existe direita, nem esquerda, nem centro, pois no final das contas o interesse pessoal grita mais alto. Vocês perdem tempo com a mesquinhez de rotular pensamentos abstratos, todavia, são incapazes de criar um modelo próprio de pensamento que deságue em algo de importante para a criação de conhecimento novo. É impossível alcançar o máximo, Brasil: o mundo inteiro está naquela estrada ali a frente, precisamos construir algo que nos faça alcançar não o mundo pronto e acabado, mas o mundo que seja adequado a nossa história.

  6. Eudes 09/05/2017 / 19:50

    Nunca vou entender como alguém perde tempo com esse velho. Pra mim ele não tem nada de senil, é muito são e esperto: lucra com a ignorância política e os preconceitos do brasileiro médio, principalmente os de baixa auto estima que precisam de uma doutrina e um mestre pra se sentirem relevantes no mundo.
    Olavo é um gênio, enche os bolsos graças aos trouxas dos seus seguidores fiéis.

  7. RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 09/05/2017 / 20:29

    Olá, prof. Bertone. Meu nome é Ronaldo, tenho 29 anos e sou de Sorocaba. Adorei seu texto! Nunca pensei que alguém fosse enfrentar este cidadão publicamente com veemência deste jeito! A propósito: na minha opinião tem se levantado no Brasil alguém tão perigoso e falacioso como Olavo: Marco Antônio Villa! O que você pensa a respeito?

    • Bertone Sousa 09/05/2017 / 22:46

      Olá Ronaldo, obrigado. De fato, o Villa tem sido uma das vozes com mais audiência hoje e com o agravante de ter uma boa formação acadêmica. Mas ele não é propriamente um ideólogo, como Olavo, nem um teórico da conspiração. Ele fala muito mais por impulso, raiva ideológica e ganhou popularidade porque a esquerda, especialmente o PT, perdeu credibilidade.

  8. Alan Costa 07/07/2017 / 18:58

    Fugindo completamente do assunto do texto, inclusive um texto muito bom, é a terceira vez que o leio. Enfim, já que você citou o Edward Bernstein, o que você pensa do Karl Kautsky? (agradeço se puder responder quando arranjar tempo).

    • Bertone Sousa 07/07/2017 / 20:23

      Alan, penso que a maior de importância de Kautsky, como Bernstein, foi ter traduzido o marxismo para um novo contexto, foi ter pensado na junção dos ideais de justiça social do marxismo com os ideais da democracia, e com isso abrir para as esquerdas uma alternativa ao socialismo revolucionário.

      • RONALDO DA SILVA THOME JUNIOR 07/07/2017 / 22:10

        Não conhecia esse pensador. Bom, é bacana conhecer autores sérios.
        Bertone, aproveitando, gostaria de citar alguns livros que comprei. A maioria é de filosofia básica, como o “Filosofia Prática”, da Márcia Tiburi, ” A Arte de Questionar”, do A. C. Grayling, “Filósofo em 5 Minutos” do Gerald Benedict e “Introdução ao Pensamento Filosófico”, do Karl Jaspers.
        Você conhece algum destes livros? Qual sua opinião sobre eles?

        Desde já muito obrigado!

      • Bertone Sousa 07/07/2017 / 23:04

        Desses eu só conheço o do Jaspers, Ronaldo, uma leitura muito proveitosa que fiz ainda no início da graduação. Como manual introdutório, eu recomendaria também “Apresentação da Filosofia”, de Comte-Sponville.

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