Homo Religiosus: um conceito adequado ou indemonstrável? A propósito de seu uso na História das Religiões

RLA06 0427 Karen
Karen Armstrong, historiadora britânica e pesquisa de História das Religiões. Para ela, as religiões são sempre criações culturais, históricas, o antropomorfismo constitui a base de qualquer religião e os deuses refletem as aspirações e ambições dos seres humanos em determinada época e lugar

Um estudioso de história das religiões deverá se deparar com um termo no mínimo curioso: homo religiosus. Esse termo tem sido frequentemente usado como parte de um discurso para tentar demonstrar que o homem é, por natureza, religioso. Em minhas participações em congressos acadêmicos sobre religiosidades tenho percebido que muitas pessoas estão fazendo “ciências da religião” não apenas para estudar sistemas de crenças e práticas, mas também com o objetivo explícito de defender convicções religiosas, atitude que oblitera qualquer iniciativa científica. Não quero evidentemente contrapor a ciência e a religião no sentido de preconizar a objetividade da primeira em detrimento da segunda, mas sabemos que a produção acadêmica, o discurso acadêmico preza por uma atitude de certo distanciamento do objeto, a fim de que se evite atitudes apologéticas ou, de outro lado, preconceituosas. 

Diversos autores tem conceituado a religião a partir de diferentes enfoques: para Jean Delumeau, o re-ligare, expressão latina da qual deriva a nossa palavra religião, é um referência ao religar do homem com seus mortos, atitude externalizada pela realização de ritos fúnebres, de enterros que, historicamente, constitui o embrião da atitude religiosa. Para Marilena Chauí o conceito remete a um vínculo entre o mundo profano e o sagrado, “isto é, a natureza (água, fogo, ar, animais, plantas, astros, pedras, metais, terra, humanos) e as divindades que habitam a natureza ou um lugar separado da natureza”. Trata-se, nesse caso, de um meio para se compreender os fenômenos naturais, atribuir-lhes um significado e tentar controlá-los, daí a importância da magia como uma das primeiras formas de manifestação religiosa. Isso porque o sagrado e o profano passaram a constituir, segundo o historiador romeno Mircea Eliade “duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo de sua história”.

O mesmo Eliade, no parágrafo seguinte ao da citação acima, enfatiza que não se propõe a escrever unicamente da perspectiva da ciência histórica e afirma que o homem das sociedades tradicionais é um homo religiosus “mas seu comportamento enquadra-se no comportamento geral do homem”. Eliade ainda enfatiza como esse sentimento define o homem religioso:

Essa necessidade religiosa exprime uma inextinguível sede ontológica. O homem religioso é sedento do ser.  O terror diante do “Caos” que envolve seu mundo habitado corresponde ao seu terror diante do nada. O espaço desconhecido que se estende para além do seu “mundo”, espaço não-cosmizado porque não consagrado, simples extensão amorfa onde nenhuma orientatio foi ainda projetada e, portanto, nenhuma estrutura se esclareceu ainda – este espaço profano representa para o homem religioso o não-ser absoluto. Se, por desventura, o homem se perde no interior dele, sente-se esvaziado de sua substância “ôntica”, como se se dissolvesse no Caos, e acaba por extinguir-se. (p.60)

Nessa citação vemos como o espaço sagrado é o imperativo da vivência social do homem religioso, que não concebe sua existência para além de suas fronteiras, isso porque para ele o supranatural é o que confere valor ao Mundo e desvela seu caráter sagrado, ou ainda: “Não se deve esquecer que, para o homem religioso, a sacralidade é uma manifestação completa do Ser”. (p. 116).

Ora, se as atitudes do homem religioso se enquadram no comportamento geral humano, não seria a religião uma criação cultural? Esse é um questionamento que vem de Lévy-Brhul e apresenta uma diferença substancial ao raciocínio de Eliade: “o sagrado representa uma realidade autônoma, independente de toda intervenção humana, ou deve ser entendido como um produto historicamente determinado?” Em outros termos: o homo religiosus receberia essa denominação não por ser inerentemente voltado para o sagrado, mas porque o sagrado está enraizado em sua cultura, na percepção de mundo de seu grupo social e, por isso, em seu comportamento. O pensamento histórico-religioso laico segue majoritariamente essa segunda opção.

Na visão pagã, por exemplo, o homem partilhava a natureza divina porque fora criado a partir da substância de um deus e, por esse motivo, a divindade não diferia em essência da humanidade, como pontua a historiadora britânica Karen Armstrong:  “Portanto, não havia necessidade de uma revelação especial dos deuses, ou que baixasse do alto à terra uma lei divina. Os deuses e seres humanos partilhavam da mesma situação, sendo a única diferença que os deuses eram mais poderosos e imortais”.

A autora acima citada também usa na mesma obra o termo homo religiosus, mas não no sentido de querer que a religião seja inerente ao homem, e que o homem, enquanto ser racional, só o é porque é religioso como querem alguns teólogos. Ao problematizar essa questão, Armstrong segue um caminho teórico diferente de Eliade. Assim, por exemplo, ao historicizar as visões religiosas de místicos judeus, cristãos e muçulmanos, ela pontua que elas não são um fim em si, mas são condicionadas pela tradição religiosa a que o místico está vinculado. “Um visionário judeu [Paulo, o apóstolo] terá visões dos sete céus porque sua imaginação está abastecida desses símbolos particulares. Os budistas veem várias imagens de Buda e bodhisattvas; os cristãos visualizam a Virgem Maria”. Isso acontece porque em cada cultura a religião é vivenciada por meio de símbolos; o símbolo pode ser definido como “um objeto ou ideia que podemos perceber com nossos sentidos ou captar com nossa mente, mas no qual vemos outra coisa que não ele mesmo”. Nesse caso o que dá vida ao símbolo religioso é a imaginação, e toda doutrina religiosa, toda concepção de divindade vem à existência pela imaginação humana; e ela não está presente apenas na religião, mas na ciência ou em qualquer atividade que o ser humano esteja envolvido, e mais uma vez vou reportar-me a Armstrong:

Hoje, muita gente no Ocidente ficaria consternada se um grande teólogo sugerisse que Deus era, em algum sentido profundo, um produto da imaginação. Contudo, devia ser óbvio que a imaginação é a principal faculdade religiosa. Foi definida por Jean-Paul Sarte como a capacidade de pensar o que não existe. Os seres humanos são os únicos animais que têm capacidade de visualisar uma coisa que não está presente ou não existe, mas é apenas possível. A imaginação tem assim sido causa de nossas grandes realizações na ciência e na tecnologia, e também na arte e na religião. A ideia de Deus, como quer que se a defina, é talvez o exemplo básico de uma realidade ausente que, apesar de seus problemas inerentes, continua a inspirar homens e mulheres há milhares de anos. A única maneira de podermos conceber Deus, que permanece imperceptível aos sentidos e à prova lógica, é por meio de símbolos, cuja interpretação é a função principal da mente imaginativa.

Na verdade, o homem é como uma máquina de criar deuses, e se tomarmos isso como verdadeiro, Deus e a religião são criações culturais, são invenções humanas que objetivam responder às suas necessidades, a seus questionamentos; por isso as religiões mudam, por isso as representações de Deus ou dos deuses mudam, porque são adaptadas ao momento histórico vivenciado por um determinado grupo. Armstrong enfatiza que, se as religiões não mudam, elas se tornam obsoletas e são substituídas por outras. Assim, por exemplo, o Jesus Cristo que católicos e protestantes adoram hoje não é o mesmo dos séculos iniciais do Cristianismo, como não é o mesmo do período da Reforma, porque, mesmo que continuem a utilizar textos sagrados que datam daquele contexto, esses textos são reinterpretados, reatualizados de acordo com as necessidades do grupo.

Depreende-se disso que o uso do termo homo religiosus para identificar o homem como um ser essencialmente religioso, cuja racionalidade aponta naturalmente para uma transcendência não subsiste a um exame histórico, mesmo que admitamos, como Durkheim, que a religião originou os primeiros sistemas de representação do mundo; na verdade, alguns teólogos o têm utilizado para inculcar o princípio da existência de Deus, que já estaria “embutido” na mente humana. Uma crítica categórica a essa perspectiva foi tecida pelo historiador brasileiro Ciro Flamarion Cardoso:

Uma definição como esta, ao atribuir a religião ao ‘ser humano’ como tal, sem restrições – isto é, a todos os seres humanos -, parte do homo religiosus, ou seja, da hipótese (indemonstrável) de que os seres humanos sejam religiosos em sua totalidade ou por sua própria natureza; e a formulação da definição parece dar por assentado que ‘uma dimensão diferente da temporal e material seja algo incontrovertivelmente existente, o que está longe de ser uma verdade consensual, aceita por qualquer pessoa. Em suma, trata-se de uma definição que só seria aceitável no contexto de um discurso em si religioso – da Teologia, portanto.

Por outro lado, o uso desse termo também está relacionado a definições muito genéricas da religião e à tentativa de buscar essências supostamente comuns a todos os fenômenos religiosos. A religião é um fenômeno multifacetado, de diferentes dimensões; daí o fato de suas manifestações serem estudadas a partir de diferentes prismas, como a Psicologia, a História, a Sociologia, a Filosofia, a Literatura, etc. Acontece que, no caso do Brasil, cursos de Ciências da Religião (que tentam abarcar todas essas áreas do conhecimento, mas não apenas nesses cursos) nem sempre fornecem referenciais metodológicos adequados para se refletir aspectos do fenômeno religioso e os resultados são muitos trabalhos de baixo nível, que se aproximam mais da Teologia ou de ensaios religiosos do que das ciências acima citadas.

Para Dominique Julia, o fato de tentarmos explicar a religião a partir de critérios científicos já implica que ela deixou de fundamentar nossa sociedade a passou a ser tratada como um produto cultural que não possui mais privilégios de verdade com relação aos outros produtos, e o que torna essa abordagem possível é a separação entre a história religiosa e uma “história que não pensa mais em si mesma de uma maneira religiosa”. Ele também enfatiza que as convicções religiosas não podem influir sobre a operação científica do trabalho do historiador: “elas influem na escolha do objeto e no objetivo final do estudo. Esse enquadramento ‘apologético’ do trabalho histórico provoca distorções que repercutem sobre a própria investigação histórica”, por isso ele não deve utilizar critérios teológicos para explicar crenças populares a fim de se evitar com que enunciados doutrinários tomem o lugar da pesquisa historiográfica.

Portanto, voltando ao caso das universidades brasileiras, talvez o ponto central da questão não esteja no uso inadequado do termo homo religiosos, mas na iniciativa de alguns clérigos, ou docentes vinculados a determinada confissão, de empurrar a religião para dentro das academias e transformar crenças religiosas em pressupostos científicos. O resultado se traduz abordagens artificiais, reprodutoras e pouco inovadoras, que comprometem a qualidade de alguns cursos e a qualidade da própria produção de saber.

 Referências

ARMSTRONG, Karen. Uma História de Deus: quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

CARDOSO, Ciro Flamarion. História das Religiões. In: ______. Um Historiador Fala de Teoria e Metodologia: ensaios. São Paulo: EDUSC, 2005.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2005.

DELUMEAU, Jean. De Religiões e de Homens. São Paulo: Loyola, 2000.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

MASSENZIO, Marcello. História das Religiões na Cultura Moderna. São Paulo: Hedra, 2005.

JULIA, Dominique. A Religião: História religiosa. In: LE GOFF, Jacques; NORRA, Pierre (orgs.) História: Novas Abordagens. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1976.

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3 thoughts on “Homo Religiosus: um conceito adequado ou indemonstrável? A propósito de seu uso na História das Religiões

  1. matheus oliva da costa 30/01/2017 / 23:43

    Boa reflexão.
    Por que “Ciências da Religião” está entre aspas, diferente do termo historia das religiões que está escrito sem destaque? Poderia explicar a diferença entre um e outro?

    • Bertone Sousa 31/01/2017 / 0:24

      Matheus, é que não existe um campo específico de ciências da religião. O que é chamado assim é uma junção de estudos e pesquisas de diferentes áreas, como história das religiões, sociologia da religião, filosofia da religião e teologia.

  2. Elton 05/03/2017 / 12:04

    “Contudo, devia ser óbvio que a imaginação é a principal faculdade religiosa. Foi definida por Jean-Paul Sarte como a capacidade de pensar o que não existe. Os seres humanos são os únicos animais que têm capacidade de visualisar uma coisa que não está presente ou não existe, mas é apenas possível.”

    Esse trecho é muito estranho. Primeiro, Sartre diz que a imaginação é a capacidade de pensar o que NÃO existe. Afinal, quem diz que não existe? Ele mesmo? Então Sartre é o Senhor. E ainda, se não existe, tal pensamento só poderia ser uma demência. Logo, todo religioso é otário por definição.
    Pra ele não incorrer nessa soberba de “ele” determinar o que existe ou não existe, ele deveria ter dito que a imaginação é a capacidade de pensar o que antes nunca pareceu existir. Daí ele estaria dando o devido limite da percepção humana das coisas, pois o que não parece existir não necessariamente não existe.
    E segundo, no que você diz: “visualizar uma coisa que não está presente ou não existe, mas é apenas possível”. Se não existe, então não é possível. Mas se é possível, então não se pode dizer categoricamente que não existe.
    Por fim, corrija se eu estiver errado, mas o texto em várias ocasiões parece sugerir que o fato de Deus ser um produto da imaginação humana seria uma prova de que Deus não existe. É isso mesmo?

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